conteúdos dos componentes curriculares; b) Serragem de Madeira como Fonte de Renda ao passo que se promove Gestão Ambiental, no âmbito do Currículo do 3º Ano do Ensino Fundamental; c) A relação da Serragem de Madeira com a qualidade de águas superficiais, em Nova Colina; d) As Serrarias e a economia de Nova Colina.
De acordo com Conto et al. (1997, p. 171) e Garcia et al. (2017), a produção de serragem no processamento mecânico de madeira é considera- da como um fator de poluição ambiental quando descartada sem o devido tratamento ou quando queimada, causando danos ambientais que podem comprometer a qualidade das águas superficiais6 pela emissão de resíduos e gases poluentes tais como monóxido de carbono, metano, compostos or- gânicos voláteis, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e material parti- culado fino.
Entre as principais preocupações com a qualidade das águas de su- perfície estão:
Concentração de organismos, tais como vírus e bacté- rias patogênicos e redução dos níveis de oxigênio dis- solvido na água [...]; lançamento de efluentes contendo substâncias tóxicas que irão se bioconcentrar ao longo da cadeia alimentar. Frequentemente, o lançamento deste tipo de compostos se dá associado ao descarte de compostos orgânicos biodegradáveis consumidos como alimentos pelas espécies aquáticas, agravando o quadro de inserção de tóxicos na cadeia alimentar; eu- trofização, fenômeno causado por processos de erosão, arraste e decomposição de restos de material orgâni- co, que fazem aumentar a concentração de nutrientes como N-nitrogênio e P-fósforo no meio aquoso, provo- cando a proliferação de algas, o que torna a água turva, dificultando a fotossíntese e, consequentemente, redu- zindo a concentração de oxigênio dissolvido, aumen- tando a toxidez do meio e matando os organismos que nele vivem (COELHO et al., 2002, p. 52-53).
Geralmente, esses componentes químicos associados a patógenos, são precursores de doenças que afetam a saúde humana. A exemplo, as fuligens provenientes da serragem de madeira que, de acordo com a expo-
6 Segunda a Agencia Nacional de Água, são classificadas como águas superficiais as não penetram no solo, acumulam-se na superfície, escoam e dão origem a rios, riachos, lagoas e córregos. Por essa razão, elas são consideradas uma das principais fontes de abastecimento de água potável do planeta. Disponível em: http://www3.ana.gov.br/portal/ANA/panorama- das-aguas/quantidade-da-agua/agua-superficial.
sição humana, causam doenças do trato respiratórias (FEARNSIDE, 2002).
Problema comum, entre os moradores que residem nas proximidades das serrarias de Nova Colina.
Como medida de mitigação ou para minimizar os transtornos gerados pelo descarte inadequado da serragem de madeira, sobretudo os de cunho ambiental, a transformação por compostagem7 da serragem em composto orgânico8 utilizável na produção agrícola de hortaliças e cultivo de citros, pode se constituir em uma alternativa viável, uma vez que, o “composto pode ser utilizado para adubação de canteiros, covas e sulcos (3 a 6 litros por m2) e também como parte do substrato utilizado para produção de mu- das” (BORGES, 2018, p. 2).
Nesse contexto, a abordagem de temáticas dessa magnitude, na edu- cação básica pode ser o caminho para compreensão sistemática desse tipo de problemática de acordo com as prerrogativas da Gestão Ambiental e da Responsabilidade Socioambiental, sobretudo em escolas cuja comunidade convive com problemas graves de degradação ambiental, como Nova Colina.
Na educação básica, temáticas como a serragem de madeira como um problema ambiental, podem e devem ser abordadas por intermédio de prá- ticas pedagógicas interdisciplinares, de forma que o ensino dos conteúdos dos componentes, ocorra a partir da abordagem da temática em questão, a luz das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular-BNCC9, que estabe- lece como um dos principais pontos “para o desenvolvimento das apren- dizagens essenciais para o ensino de Ciências da Natureza, temas como sustentabilidade socioambiental, ambiente, saúde e tecnologia [...] ao longo de todo o Ensino Fundamental” e institui competências como:
7 Segundo Peixe e Hack (2014 apud KIEHL, 1985) - Composto Orgânico – constitui-se em material umidificado, com odor de terra, facilmente manuseado e estocado que contribui, significativamente, para a fertilidade e a estrutura do solo.
8 Para Farias (p. 5, 2012) Compostagem - é o processo controlado de decomposição microbiana, oxidação e oxigenação de uma massa heterogênea de matéria orgânica no estado sólido e úmido, passando pelas fases de fitotoxicidade (cru), semicura e cura, que, em suma, corresponde a reutilização de materiais orgânicos, (folhas, restos de comida, serragem, estercos etc.), para a produção de adubo orgânico.
9 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciaisque todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE).
Construir argumentos com base em dados, evidências e informações confiáveis e negociar e defender ideias e pontos de vista que respeitem e promovam a consciên- cia socioambiental e o respeito a si próprio e ao outro, acolhendo e valorizando a diversidade de indivíduos e grupos sociais, sem preconceitos de nenhuma natureza (BNCC, 2017, p. 11).
Durante anos, na educação básica, os conteúdos dos componentes curriculares foram ministrados de forma fragmentada e desconexa da rea- lidade social, de forma mecânica, gerando aprendizados sem atribuição de significados e sem relação com o conhecimento pré-existente dos estudan- tes (DAHRER, 2017, n.p.).
As mudanças sociais impulsionadas pelo advento da revolução tec- nológica globalizada, que se instalou na sociedade, a partir da década de 1990, impôs à escola o desafio de promover práticas pedagógicas que su- perasse esse esfacelamento e atribuísse aos conteúdos significados, forjados nas necessidades e realidades sociais do estudante, modificando por com- pleto, a forma de se pensar e de abordagem dos conteúdos na sala de aula (FREITAS, 2012, p. 409).
Em resposta a essa necessidade, verificada principalmente nos cam- pos das ciências humanas e da educação, surge a interdisciplinaridade cujo foco centra-se na possibilidade de superar a fragmentação e o caráter de especialização do conhecimento, causados por uma epistemologia de ten- dência positivista com raízes no empirismo, naturalismo e mecanicismo científico; possibilitando o aprofundamento da compreensão da relação en- tre teoria e prática, contribuindo para uma formação mais crítica, criativa e responsável (THIESEN, 2008, p. 551).
Na perspectiva de superação da fragmentação do currículo escolar, a interdisciplinaridade se apresentou como uma forma de combinação entre duas ou mais disciplinas com vistas a compreensão de um objeto a partir da confluência de pontos de vistas distintos, cujo objetivo final é a elaboração de uma síntese comum, construída a partir de um trabalho continuado de cooperação (POMBO et al., 1994, p. 13), sem invalidar a natureza específi- ca de cada forma de conhecimento de que derivam as disciplinas (BRASIL, 2006, p. 29).
Já no viés de atribuir significado aos conteúdos, a interdisciplinarida- de se configurou como prática pedagógica que permitiu trazer elementos do cotidiano, construir uma interdependência e uma inter-relação entre o que se aprende com o que se vive (SILVA; SANTANA, 2018).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (BRASIL, 1998, p.
106) dizem que
a interdisciplinaridade favorece a contextualização, re- curso importante para a aprendizagem significativa, pela associação que estabelece com aspectos da vida cotidia- na, escolar e do mundo do trabalho [...] a interdisciplina- ridade deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários.
Para Korte (2000, p. 30), agir interdisciplinarmente significa proces- sar o conhecimento mediante o aproveitamento dos resultados emergen- tes de diferentes disciplinas, em um esforço visando formar conjuntos de elementos cognitivos. Explorando as potencialidades de cada componente curricular de forma criativa. Favorecendo que os alunos aprimorem e de- senvolvam habilidades e competências, com a intenção de construir uma educação sólida em seu ambiente de aprendizado.
Abordagens interdisciplinares que tornam temáticas transversais, como a degradação da qualidade de águas superficiais por serragem de madeira, pontos de partida para o ensino dos componentes curriculares possibilitam o aprofundamento da compreensão da relação entre currículo e vivência social, criando um ambiente permeado de interações e interlo- cuções que favorece à formação de indivíduos reflexivos, críticos, curiosos, sensíveis às causas sociais, capazes de argumentar e tomar decisões em prol do bem-estar coletivo (VEIGAS, 2007).
Partindo do pressuposto de que as “crianças não são passivas; assimi- lam o conhecimento e o reelaboram viabilizando novas atitudes, gerando novos comportamentos, sucessivamente” (NEVES, 2006, p. 39), pode-se afirmar que é possível, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, adotar práticas interdisciplinares acentuadas em temas transversais da vivencia do aluno, em favor da aprendizagem dos conteúdos dos componentes curricu- lares. Toda via, as práticas interdisciplinares, realizadas no 3º ano do Ensino
Fundamental, da Escola Municipal Josefa da Silva Gomes, descritas neste artigo, dispuseram de contexto e conteúdos que permitiu a abordagem das disciplinas científicas, como Ciências, Língua Portuguesa e Matemática, de modo inter-relacionado (BRASIL, 1998, p. 61).