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Rocinha: um contexto de desenvolvimento

desigualdade interna de algumas cidades. Isto pode ser observado também em características da sua distribuição e organização do espaço urbano, com a proximidade de áreas ricas e pobres. Considerando o contexto urbano atual, mais especificamente o Rio de Janeiro, constata-se que a violência se faz presente em todos os municípios do Estado, tendo um destaque maior em determinadas áreas e nas favelas, que carecem principalmente de políticas públicas que viabilizem a infraestrutura necessária, direito de todo cidadão. No Brasil, em particular na cidade do Rio de Janeiro, os jovens da mesma cidade podem ter diferentes experiências e percepções sobre o lugar onde vivem por causa da expressiva desigualdade social existente. Isto é observado tanto em suas características sociodemográficas (IDH, renda, mortalidade e expectativa de vida) na sua distribuição e organização do espaço urbano, com a proximidade de áreas ricas e pobres, como as favelas cariocas. Vamos destacar um desses contextos, que será alvo desta tese.

visavam sua remoção. Após tentativas frustradas neste processo, no final da década de 1970, passam a vigorar algumas propostas de urbanização na favela.

A Rocinha, considerada como a maior favela da América Latina (Agência Brasil, 2009), cresceu em nove anos cerca de 80% e passou de 56 mil moradores em 2000 a 100.818 no ano de 2009. Localizada na zona sul do Rio, construída sobre uma encosta íngreme, possui uma das mais belas vistas dos bairros Gávea e São Conrado, que apresentam um dos mais altos impostos sobre propriedade no Rio de Janeiro.

A maioria das construções da Rocinha é de alvenaria e a favela tem prédios de quatro a cinco andares, duas escolas públicas, várias creches, unidades de saúde, supermercados, bancos, dentre outros, oferecendo uma grande variedade de serviços. Muitas Organizações Não Governamentais (ONGs) estão instaladas na comunidade e estas procuram oferecer uma grande variedade em assistência cultural e assistencial a população local.

Apesar dos diversos aspectos positivos encontrados nesta comunidade, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)não condiz com todos os benefícios que podemos encontrar neste espaço. O IDH por bairros ou grupo de bairros nos períodos de 1991 e 2000 indica que as comunidades estudadas se encontram em condições muito abaixo que outros bairros do Rio de Janeiro. Dentro destas características, a favela da Rocinha em 1991 ficou na posição 122 e no ano de 2000 na posição 120, na escala dos bairros que variava de 1 a 126, com um índice de 0,732, taxa essa vinculada aos altos índices de homicídio, tráfico de drogas e abandono escolar. Podemos perceber que dentro deste período houve uma pequena evolução dos índices, porém pouco expressiva.

Lisboa (2014), analisando o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), divulgado em 2013 para todos os municípiose, em 2014, para as Unidades de Desenvolvimento Humano, Regiões da Cidade e Regiões Metropolitanas do Brasil, observou que apesar das comunidades cariocas estarem localizadas na segunda região com maior índice de desenvolvimento, a zona sul carioca, a realidade dessas comunidades não condiz com a dos bairros de seu entorno. A Rocinha, por exemplo, está nos 20% menores IDHs do estado, que incluem os locais que ficaram abaixo de 0,666, segundo a analise.

Como uma comunidade que se alto sustenta, de grande potencial comercial e localizada em uma das regiões mais privilegiadas da cidade, a Rocinha torna-se ponto de referência tanto para os moradores que preferem morar mais perto do seu local de trabalho, como ambiente de especulação para outras atividades, estas ilícitas, por falta de um controle mais ostensivo do estado dentro da comunidade. Favela de grandes proporções geográficas e de topografia com características de difícil acesso ao seu interior tornou-se território de

grande disputa para atividades como o tráfico de drogas. Palco de grandes confrontos armados, a favela da Rocinha foi alvo de muitos conflitos entre facções criminosas (Extra, 2011).

Do ponto de vista urbano, como um problema social, esta situação reflete a desigualdade social existente não só nas regiões mais periféricas do estado do Rio de Janeiro, mas também de regiões mais abastadas, como, por exemplo, a Rocinha. Neste panorama, a segurança pública surge como o principal requisito à garantia de direitos e ao cumprimento de deveres. Sendo uma demanda social que necessita de estruturas estatais e demais organizações da sociedade para ser efetivada, tem se constituído como um eixo político e estratégico, em um conjunto de ações delineadas em planos e programas com o objetivo de garantir a segurança individual e coletiva. Como um instrumento de enfrentamento da criminalidade e da violência, essas estratégias só se tornam eficazes enquanto um instrumento que engloba a participação social. É a partir desta demanda que novas configurações no sistema se segurança pública surgem no âmbito nacional: a primeira iniciativa deu-se com o Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP) em 2000 e posteriormente o Plano Nacional de Segurança Publica com Cidadania (PRONASCI) em 2007, apresentando um olhar multidisciplinar em relação à questão da segurança pública. Um conjunto de medidas foi adotado na tentativa de uma diminuição imediata da violência e da criminalidade, por meio da implantação das Unidades de Policia Pacificadora (UPPs), mas incorporadas às políticas de segurança, a políticas sociais e ações comunitárias (Carvalho & Silva, 2011).

As Unidades de Polícia Pacificadora baseiam-se na estrutura normativa de alguns decretos de lei. Dentro destes são destacados o Decreto 42.727 de 30 de novembro de 2010, que dispõe sobre a Criação do Programa UPP Social e o Decreto 42.787 de 06 de janeiro de 2011, que dispõe sobre a Implantação, Estrutura, Atuação e Funcionamento das Unidades de Policia Pacificadora (UPP) no Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências.

Considerando o caráter social na ocupação das favelas pelo poder público a partir de medidas de segurança o Decreto 42.727 dispõe:

- o Programa das Unidades de Polícia Pacificadoras - UPP criado pelo Decreto nº 41.650 de 21 de janeiro de 2009; - o que consta do art. 1º do referido Decreto, acerca da pacificação e manutenção da ordem pública em comunidades populares; - que a manutenção das comunidades já pacificadas requer a presença do Estado não só executando ações de segurança pública, mas também executando políticas sociais; e - que a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos necessitará, também, de uma equipe especializada e tecnicamente adaptada para a execução de projetos e

programas concernentes à consolidação do controle territorial e da pacificação, à promoção da cidadania e do desenvolvimento social e à integração plena das comunidades pacificadas por Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) ao conjunto da cidade do Rio de Janeiro.

DECRETA:

Art. 1º - Fica criado, na estrutura da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, o Programa “UPP Social” para a execução de ações especiais de promoção do desenvolvimento social em áreas pacificadas por Unidades de Polícia Pacificadora - UPP.

Art. 2º - O Secretário de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos editará ato disciplinando e regulamentando a execução das ações especiais de que trata o art. 1º deste Decreto, inclusive no que tange à designação de pessoal.

Art.3º-Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Considerando a estrutura da UPP que viabiliza a retomada pelo Estado do controle do território antes ocupado por facções criminosas, favorecendo assim a integração desses espaços no corpo da cidade e incorporando as estruturas pertinentes a cidade o Decreto 42.787 dispõe principalmente:

Art. 1 º- As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), criadas para a execução de ações especiais concernentes à pacificação e à preservação da ordem pública, destinam-se a aplicar a filosofia de polícia de proximidade nas áreas designadas para sua atuação.

§ 1 º-São áreas potencialmente contempláveis por UPP, consoante critérios estabelecidos pela Secretaria de Estado de Segurança, aquelas compreendidas por comunidades pobres, com baixa institucionalidade e alto grau de informalidade, em que a instalação oportunista de grupos criminosos ostensivamente armados afronta o Estado Democrático de Direito.

§ 2 º - São objetivos das UPP: a .consolidar o controle estatal sobre comunidades sob forte influência da criminalidade ostensivamente armada; b. devolver à população local a paz e a tranqüilidade públicas necessárias ao exercício da cidadania plena que garanta o desenvolvimento tanto social quanto econômico.

Art . 2 º- O programa de pacificação, por meio da implantação de UPP, deverá ser realizado nessas comunidades em quatro etapas:

I - INTERVENÇÃO TÁTICA - Primeira etapa, em que são deflagradas ações táticas, preferencialmente pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), pelo Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e por efetivos deslocados dos CPA, com o objetivo de recuperarem o controle estatal sobre áreas ilegalmente subjugadas por grupos criminosos ostensivamente armados.

II - ESTABILIZAÇÃO - Momento em que são intercaladas ações de intervenção tática e ações de cerco da área delimitada, antecedendo o momento de implementação da futura UPP.

III - IMPLANTAÇÃO DA UPP - Ocorre quando policiais militares especialmente capacitados para o exercício da polícia de proximidade chegam definitivamente à comunidade contemplada pelo programa de pacificação, preparando-a para a chegada de outros serviços públicos e privados que possibilitem sua reintegração à sociedade democrática. Para tanto, a UPP contará com efetivo e condições de trabalho necessários ao adequado cumprimento de sua missão.

IV - AVALIAÇÃO E MONITORAMENTO - Nesse momento, tanto as ações de polícia pacificadora, quanto as de outros atores prestadores de serviços públicos e privados nas comunidades contempladas com UPP passam a ser avaliados sistematicamente com foco nos objetivos, sempre no intuito do aprimoramento do programa.

A proposta das Unidades de Policia Pacificadora é de uma polícia de proximidade com a comunidade e não apenas repressiva. Para além do controle e ocupação do território pela força policial, as UPPs trazem em seu projeto a facilitação de mecanismos sociais para o desenvolvimento das comunidades alvo do programa.

Entretanto apesar do avanço das políticas públicas de segurança dentro das comunidades, o medo, a violência e a sensação de insegurança ainda fazem parte do processo de pacificação. Segundo relatório “Os Donos do Morro: Uma análise exploratória do impacto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro, Sento-Sé e Cano (2012), revelaram que a presença dos traficantes de drogas coexiste com os policiais das UPPs, apesar de uma percepção geral do fim do domínio do narcotráfico. Com o objetivo de analisar o impacto das UPPs em algumas favelas priorizadas pelo estudo, os autores buscaram investigar, a partir de dados de documentos oficiais sobre as UPPs, sobre números da criminalidade oferecidos pela secretaria de segurança pública e de entrevistas realizadas com moradores e policiais das UPPs, algumas dimensões que consideravam importantes. Dentre elas: a criminalidade, dentro e ao redor das comunidades; a relação da polícia com a comunidade, considerando a proposta de uma nova configração de policiamento dentro das comunidades e a percepção dos moradores em relação a segurança, participação social, atividade econômica e integração com a cidade.

Os resultados encontrados no relatório (Sento-Sé & Cano, 2012) mostraram que o programa das UPPs obteve alguns avanços, principalmente nos índices de criminalidade dentro das comunidades que receberam o programa. Considerando as mortes violentas por homicídios dolosos e por intervenções policiais por comunidade houve uma queda de 75%.

Entretando outros crimes cresceram em seus índices como lesões dolosas, ameaças e crimes relativos a drogas e furtos aumentaram exponencialmente. Esses índices podem estar associados a uma nova relação que se estabeleceu com os policiais e a comunidade.

Delegacias de Polícia, incorporadas ao programa de UPP torrnaram-se outra referência na notificação de crimes por parte dos moradores. Quando se tem algum problema de ordem policial, os moradores são encaminhados pelos policiais das UPPs para realizarem uma ocorrência. Muitos moradores, conforme as entrevistas mostraram, demonstram resistência a essa modalidade de comunicação de crime por medo de confrontos com os traficantes que ainda residem nas comunidades. Ressalta-se que quando considerados os crimes como desaparecimento, esses também tiveram aumento significativo e isso é um dado preocupante por estarem sendo subestimados os homicídios por esta via.

Para a percepção dos moradores em relação às UPPs, a percepção positiva mais evidente para os moradores entrevistados foi o fim dos confrontos armados e as mortes em menor escala, uma maior liberdade de locomoção, inclusive quando considerado o trânsito de moradores entre comunidades, o que antes era evitado por moradores de comunidades em que eram regidas por facções criminosas de comandos rivais. Os moradores também

compreendem que as UPPs não têm a intenção de acabar com o trafíco nas comunidades, mas de coibir e inibir a sensação de insegurança e coersão desses criminosos sobre a comunidade.

Esses aspectos trazem para os moradores uma sensação positiva em relação ao programa, entretanto ao mesmo tempo quando são analisados os agentes responsáveis pela manutenção da ordem local a percepção é paradoxal. Para alguns moradores entrevistados no relatório (Sento-Sé & Cano, 2012) existe um esforço dos policiais em se tornarem uma polícia de proximidade, envolvidos com as demandas da comunidade. Para outros entrevistados, o abuso de poder e a truculência policial ainda é um problema a ser enfrentado o que ainda gera muita tensão na relação polícia x morador.

O temor das UPPs, como uma continuação de um controle social autoritário e arbitrário, nada diferente do que os moradores já conheciam com o domínio dos traficantes de drogas, é algo presente. Este medo torna-se real e legítimo quando nas entrevistas realizadas com os policiais das UPPs, alguns demonstram certa nostalgia pelo antigo modelo de polícia de repressão e pronta para o confronto (Sento-Sé & Cano, 2012).

Avanços são significativos e diferentes, nas diversas comunidades abarcadas pelo projeto de UPP. O clima de segurança difere entre as sete comunidades estudadas (Sento-Sé

& Cano, 2012), sendo a tensão entre policiais e moradores intensa em algumas e em outras uma relação mais amistosa. Também variam muito os investimentos sociais e as oportunidades econômicas entre essas comunidades, em algumas as obras públicas, os projetos sociais e o crescimento de empregos cresceram significativamente, em outras a realidade não foi muito alterada com a chegada de uma UPP.

A favela da Rocinha, pacificada em novembro de 2011, recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora em junho de 2013. Transformações sociais já podem ser vistas na comunidade, entretanto a presença do tráfico de drogas e a violência que essa situação ainda gera na comunidade são um problema a ser enfrentado.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais com o objetivo de avaliar as UPPs em 20 favelas cariocas (Vilarouca & Ribeiro, 2016) entrevistou 100 pessoas por favela e buscou analisar três dimensões que consideraram relevantes, dentre elas: a ação policial e as formas de interação com as comunidades com UPP, percepções sociais sobre os impactos sociais das UPPs e a percepção sobre a presença do Estado nas comunidades.

Em relação à Rocinha, considerada uma favela com uma UPP recente os resultados encontrados mostram que para a avaliação dos serviços públicos tais como distribuição de energia e àgua, iluminaççao pública, educação pública, serviços de transporte, coleta de esgoto, pavimentação de ruas, saúde pública, programas cultutrais e espaços de lazer, dentro

da comunidade após a UPP, levando em consideração uma classificação entre 0 e 10 os entrevistados atribuiram uma nota média de 5,6.

Para a confiança ou desconfiança dos policiais da UPP, 51% dos moradores da Rocinha confiam nos policiais, 4% nem confiam, nem desconfiam e 37% desconfiam dos policiais. Considerando os membros da UPP tratarem os moradores com respeito, 59% dos entrevistados na Rocinha concordam que existe respeito, 27% discordam e 14% se mostraram neutros para esta questão. Em relação a percepção sobre a segurança e insegurança para os entrevistados na Rocinha 29% consideram mais seguro, 33% neutros, 28% inseguro e 10%

não sabem ou não responderam a essa questão.

Em relação à situação das comunidades e a percepção de melhora ou piora após a chegada da UPP, na Rocinha apenas 5% dos entrevistados disseram que melhorou muito, 37%

melhorou pouco e 31% consideraram que está igual. Apesar dessa percepção não muito positiva em relação ao programa das UPPs, perguntados sobre percepção de descontinuidade das UPPs, se elas devem acabar ou continuar após as Olimpíadas realizadas no Rio de Janeiro em 2016, para 64% dos entrevistados a UPP deve continuar, para 18% deve acabar e 18% não sabem ou não responderam.

Com essas informações, é possível hipotetizar diferenças ou não, entre a perspectiva de futuro, percepção do contexto e comportamentos e condutas dos jovens moradores da Rocinha, antes e depois do processo de pacificação e implantação de uma Unidade de Policia Pacificadora. É neste panorama que este estudo busca correlacionar um fator, pertinente nestes contextos, a violência, imposta por diversos fatores, como ela é percebida, os mediadores sociais e familiares e as expectativas de futuro que os moradores desta comunidade possuem, antes e depois do processo de pacificação.

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