• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.2. Pessoas em Contextos e a Emergência do Sofrimento

5.2.1. Sala de Espera

Na UBS, procuro a enfermeira, na recepção me indicaram um corredor. No corredor encontro a sala, há cadeiras frente à porta e uma mesa no final do corredor. Estou na sala de espera. Sento na cadeira e aguardo. As pessoas me observam e logo me avisam:

M 01 - tá esperando a moça dessa mesa? Ela já foi embora. A moça da recepção não sabe nada... nois sabe mais que elas... tu vai mofa aí (risos).

Neste momento a porta abre e a enfermeira pede que eu aguarde. As pessoas retomam o assunto anterior a minha chegada. Enquanto aguardo, acompanho os diálogos:

M 02 - Eu perdi a consulta porque eles marcam e tem que ser naquele dia...

não sabe se a gente pode... só quero um remédio... a minha vizinha tinha uma irmã que tomou diazepan por cinco anos e morreu do coração. Dizem que o diazepan deixa o coração duro.

M 01 - Sim ele deixa rígido a musculatura do coração... mas é bom... porque é tomar e dormi na hora... tu não vê nada (risadas).

M 02 - É esse que eu quero... me faz dormir e não ver mais nada...

M 01 - mas tem esse que eu te falei.

M 02 - O Rivotril...?

M 01 - é...

M 02 - vou pedir pro médico me dar... eu preciso dormir para esquecer.

Em meio à conversa outras pessoas na sala de espera estão rindo. Olham para mim.

Querem contar o que aconteceu:

M 01 - Eu sei do que estão rindo! Teve uma moça aqui antes... coitada!

(todos repetem ‘coitada’)... que disse que queria um ginecologista para a moça do acolhimento porque estava com dor no braço...daí a gente disse

como assim? (risadas)... ginecologista não é para dor no braço...(risadas) então moça falou baixinho... é para a minha perseguida...(risadas).

O aviso da moradora 01 “tu vai mofar aí” e a afirmação da moradora 02 sobre as marcações de consulta - “eles marcam e tem que ser naquele dia” - denotam um sentimento de impotência. A impossibilidade de mudar o rumo da sua própria vida e de controlar os acontecimentos. O diálogo entre as moradoras 01 e 02 revela que o sucesso das ações é baseado nas experiências de outras pessoas. Ao confidenciar as histórias de suas vidas, surgem inúmeras ‘dicas’ de como proceder, inclusive na busca do atendimento médico mais rápido.

Nos recortes é possível verificar que as expressões “minha vizinha tinha uma irmã que tomava” ou “tem esse que te falei” remetem a um tipo de pragmatismo. O êxito das suas ações ou de outros, diminui o estado alerta e pode provocar o erro na escolha da possibilidade.

A elaboração do conhecimento com base na probabilidade vivida no dia a dia resulta no senso comum. Demonstrado na relação entre as ações na cotidianidade, a exemplo da confiança intuitiva em um médico ou nas superstições compartilhadas (MAFRA, 2010). As dicas sobre medicação, ou sobre o que devemos fazer, são comentários regulares na sala de espera.

A moradora 01 novamente se torna porta voz quando conta o ocorrido com a moça que buscava o atendimento com o ginecologista. Expondo o motivo da busca por atendimento, foi possível compreender os costumes e ainda a forma como foi construída a linguagem. As risadas demonstram um modo de vida tacitamente normatizado no cotidiano e expresso como condição de simplicidade de suas relações. Uma possível tentativa de adaptação que faz parte à exigência de uma vinculação com o grupo (MARTÍN-BARÓ, 2017).

O constrangimento faz parte do cotidiano das pessoas e evidencia este sistema normativo. Falar dos sentimentos tem importância por fazer parte da vida humana. Os comentários realizados na sala de espera pela moradora 01 sobre a busca de atendimento revelam a espontaneidade que correspondem às ações não planejadas, em momentos onde a vontade é satisfeita na hora (RUSCHEL, 2002; FARENZENA, 2002).

Na teoria Helleriana, vida cotidiana, o trabalho, o lazer, a atividade social e o descanso, fazem parte do dia a dia das pessoas em um território. Dentro da perspectiva das objetivações em si, os usos e costumes criam a identidade do território. Para isto, existe um sistema normativo, ainda que tácito, com regras que desempenham um papel importante na

sociabilidade. De fato, isso ocorreu, utilizando o comentário que a moça fez para justificar o atendimento com o ginecologista, em que foi possível uma interação.

No entanto, a necessidade de justificar a consulta e de fazer isso publicamente nos faz retomar as considerações que fazem parte das diretrizes da PNAB sobre o acolhimento, que não indicam profissional nem local para a sua realização, mas a escuta das queixas pressupõe uma conduta ética. Para isso, o fortalecimento de todas as ações, se dará através do gestor.

Nos processos e negociações feitas com a equipe para que ocorram mudanças reais nas práticas indicadas nas Políticas Públicas (BRASIL, 2012).

Contudo, sem a espontaneidade não seria possível satisfazer as suas necessidades, porque a vida cotidiana requer uma criatividade para solução de problemas. Além de espontaneamente, as pessoas agem também sobre as possibilidades. A probabilidade, na teoria do cotidiano, não é uma avaliação rigorosa e científica das consequências, isto seria inviável.

É uma ação baseada no sucesso de uma ação, que passa a ser repetido (MAFRA, 2010). A probabilidade está na afirmação “tem esse que te falei... (moradora 01)... o rivotril (moradora 02)”. O sucesso na utilização da medicação por outra pessoa indica a possibilidade da repetição da ação por outro.

Nos dias que seguiram à pesquisa, em muitas ocasiões acompanhamos as conversas na sala de espera, antes de uma visita programada ou a espera do início de um grupo. Em um momento desses uma moradora desabafa sobre seus problemas:

M 16 - ...Eu vim para Itajaí para tentar vida nova... e não mudou nada...

tenho problema de saúde... mas não posso ficar doente... se eu ficar quem vai sustentar a casa?

A moradora 16 revela uma situação que perceberíamos uma frequência durante a pesquisa. O fato de que muitos moradores afirmaram que a vinda para a cidade foi uma tentativa de uma vida melhor, de conseguir trabalho. O desemprego é fruto de um sistema socioeconômico que não possui capacidade de responder as necessidades da população, mesmo sendo uma maioria. Os efeitos da dominação de desocupado no cotidiano, impulsiona a busca por “bicos” para a sobrevivência e para migração.

Em outras conversas, a violência surge como tema. A inexistência de uma ocupação poderá ser trocada por outras soluções, como afirma Martín-Baró (2017) o oprimido, o alienado e socialmente negado, por sentirem-se na legalidade marginalizados e desamparados procuram na criminalidade as respostas.

Outros trechos de conversas na sala de espera apontam a violência, no entanto em nenhum momento questionamos sobre a violência, nossa conversa permeava sobre gostar de morar no bairro, e meio a esse assunto, a violência na forma da criminalidade, surge como assunto, observem:

M 26 - A violência aqui é como em qualquer lugar, quando era criança era pior, era uma terra sem lei e agora ainda podemos sair na rua.

M 27 - Eu moro aqui há 8 anos, vim com meu pai que procurava emprego e conheci meu marido aqui... gosto de morar aqui...

M 28 - Eu moro há dois meses aqui... primeiro veio a minha cunhada... já tem seis meses... e no fim do ano vem a minha sogra. A gente veio por causa do emprego... eu morava num lugar que era muito difícil o emprego. As pessoas acham aqui violento... mas onde eu morava era pior... a saúde então... era bem pior... aqui eu já consegui cadastrar meu bebê... e tô acompanhando com o Doutor. Aqui a vida é bem melhor...

As moradoras 26 e 28, entendem que a violência está diminuindo devido a percepção de outras vivências. Para Sawaia (2007) o medo da violência e o medo da impotência, contribuem para a formação de estruturas de dominação que são sustentadas por ódio, medo, esperança e superstição. Para a autora, o poder é a face econômica da desigualdade social, enfraquecendo a potência coletiva, que sentem a desigualdade de condições e a injustiça. As moradoras 16, 27 e 28, mostram as consequências da falta de emprego que prejudicam e afetam o psiquismo das pessoas. A procura por emprego ou a perda, modifica os papeis familiares, interfere na identidade no grupo. A crise econômica, influencia, nos sintomas depressivos e causa conflitos de valores nas pessoas. Ocasionando a aceitação de propostas antes vistas como imorais como uma possibilidade de sustento (MARTÍN-BARÓ, 2017).

As conversas denotam um sofrimento que permeia o sentimento de incapacidade, de falta de proteção, das condições mínimas de sobrevivência. Sentimentos esses constituintes do processo de adoecimento.

Algumas vezes as conversas surgem como apenas um bate-papo, em outras a partir de uma discussão. Em meio a um acolhimento na sala de espera, uma moradora chega nervosa e agitada. Não aguarda a sua vez, entra no corredor em tom alto comunicando sua necessidade:

M 25 - Eu quero trocar a requisição do exame para uma do SUS... porque vou conseguir desconto se for guia dos SUS... é guia particular porque tive que pagar a consulta se esperar... vou morrer e não vou consultar... NÃO QUERO SABER!! Quero agora... só vou sair quando conseguir!!! (Senta ao meu lado e começa a conversar enquanto espera). Olha tenho raiva quando o médico fala que devo fazer exercícios porque durante a vida toda fui de

bicicleta para o trabalho, não fumo e nem ‘bebo’ e assim mesmo tenho uma

válvula’ no coração.

Em nossa conversa mostrou a cicatriz no peito e em sua perna, como estava muito nervosa lhe trouxe um copo d´agua. Ao sair com o pedido de exame na mão pediu desculpa a todos e me agradeceu por ouvi-la.

Ao ouvir a moradora 25, recordo da afirmação do Valla (2001) “não engolir sapos, desabafar” ou “expulsar o veneno do corpo”. O quanto à conversa na sala de espera ou o desabafo na busca por atendimento pode ser considerado uma prática em saúde. Compreender as condições e experiências de vida, como também os movimentos políticos destas pessoas, é um caminho a ser percorrido pelos profissionais na busca do entendimento sobre o sofrimento. Ressaltar a importância da escuta, considerando uma estratégia, pode mudar o rumo nos serviços de saúde. Outra questão levantada no acolhimento da moradora 25 foi a sua referência aos serviços de saúde quando afirma “se esperar... vou morrer e não vou consultar”, essa frase demonstra como o SUS tem sido difundido, pelas pessoas e pela mídia. Isto revela o modelo de saúde instituído baseado no protocolo, e somado a isso a crítica da moradora 25 sobre as orientações dos profissionais em saúde sem compreender o seu dia a dia.

Situações como essa em que pessoas pagam por atendimento particular e a UBS passa a funcionar como local de troca de receitas, também esteve presente na entrevista com a moradora 02:

E 02 - Eu pago as consultas particular, porque faz dois anos que espero, tô na fila. Minha diabete vai lá em cima. Só que agora nem os remédios tô conseguindo na farmácia do SUS... não sei o que vou fazer... dai fico nervosa e sobe mais ainda.

O sofrimento da entrevistada nos remete a questão de como os serviços de saúde são estruturados. A medicalização amplamente divulgada, no modelo atual de saúde, não é capaz de absorver a demanda e mesmo assim não são oferecidas alternativas práticas de saúde que possam amenizar este sofrimento.

Tal como as práticas de saúde realizadas nas UBS, a organização da comunidade, suas reuniões e encontros, também podem ser indutores de saúde. Quando falamos em práticas em saúde, logo vem ao pensamento um conjunto de procedimentos e técnicas orientadas para um tratamento. Para Ayres (2004), ao assumirmos a saúde e a doença na condição de objeto como modo de ser no mundo, decidir qual tecnologia utilizar, resultaria de um juízo prático, diferente do conhecimento científico, por não gerar produtos e procedimentos.

Na sala de espera da UBS surgem histórias sobre o bairro, como chegaram à cidade.

Algumas histórias revelam-se carregadas de tristeza, desamparo, solidão e um sentimento de impotência. Outras pelo estigma de ser morador da região. Os comentários evidenciam o sofrimento através de suas preocupações e desabafos, além de revelar a linguagem e os costumes.

Documentos relacionados