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CAPÍTULO 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.2. Pessoas em Contextos e a Emergência do Sofrimento

5.2.2. Visitas

Na sala de espera da UBS surgem histórias sobre o bairro, como chegaram à cidade.

Algumas histórias revelam-se carregadas de tristeza, desamparo, solidão e um sentimento de impotência. Outras pelo estigma de ser morador da região. Os comentários evidenciam o sofrimento através de suas preocupações e desabafos, além de revelar a linguagem e os costumes.

um monte de coisa... mas eu dependo dele... eu só quero um remédio... eu preciso dormir... eu não vou no psiquiatra eu não sou louca.

M 16 - Estou cansada... todos dependem de mim... e se eu reclamo me perguntam se eu não tomei o meu remedinho...

M 31 - Eu trabalho muito não posso ajudar ela com criança, não tenho paciência ela chora muito então tomo remédio para dormir.

Estes trechos demonstram o que Martín-Baró (2017) referiu como o presentismo que surge do desejo de esquecer o passado e não pensar no futuro. Muitas cenas durante a realização desta pesquisa expressaram esta atitude. Expressões como “não durmo há dois dias... tenho vontade de gritar... sair correndo” da moradora 10, quando perguntávamos sobre as circunstâncias deste sofrimento, a resposta era: “Não... eu preciso dormir se não vou enlouquecer”.

Essas conversas refletem a tendência ao presentismo, a atitudes descritas por Martín- Baró (2017) como a passividade diante das circunstâncias da vida. Uma vez que nada pode mudar o destino, não há sentido em se esforçar para melhorar uma maneira de adaptar-se ao destino fatal. O que importa é resolver o agora, sem pensar o que no passado resultou nos problemas de hoje e sem imaginar como será o futuro. Outro aspecto presente é o medo da pobreza e da privação na cultura das sociedades que desenvolveu uma espécie de desamparo aprendido (MARTÍN-BARÓ, 2017).

A cultura da pobreza2 surge como uma forma de adaptação às condições de marginalização, convertendo-se em uma espécie de profecia, fruto de um desamparo aprendido. As atitudes de pessoas inseridas nesta cultura, apresentam uma dificuldade de controle de impulsos com uma forte tendência presentista.

Relacionado ao presentismo do conceito de fatalismo, na teoria do cotidiano encontramos o economicismo, que tem por definição a busca por soluções rápidas, como ir ao supermercado e comprar o que precisa. Sem esforço para entender quais as situações da sua vida cotidiana levaram não conseguir dormir e resolver os problemas. No economicismo os pensamentos e ações visam execução rápida, com soluções que não necessitem de esforço.

De fato, há indícios nos comentários que evidenciam uma preocupação com a sobrevivência ao hoje. Revelando uma paralisação frente aos acontecimentos, permeado por

2 A cultura da pobreza abordado por Martín-Baró em sua obra, na verdade é um conceito de Oscar Lewis que afirmava ser uma adaptação quanto a reação dos pobres diante de sua posição marginal e uma sociedade estratificada em classes (LEWIS, 1969 apud MARTÍN-BARÓ, 2017, p. 188).

sensações de incapacidade e impotência. Em algumas situações a impotência frente aos fatos e acontecimentos está ligada a uma predestinação:

M 38 - Ele bebe... grita comigo... não se importa, mas eu não penso em me separar casamento é para sempre.

M 45 - Eu vim nessa vida para sofrer... não adianta... eu tento... tento e tudo da errado...

Podemos perceber as atitudes fatalistas nas frases “é para sempre”, “eu vim nessa vida para sofrer”, estas indicam um destino marcado a partir do momento que nasceram, “já está escrito”. Os discursos que confirmam a teoria de Martín-Baró (2017) são diversos. Apontam a questão do medo da pobreza, a questão religiosa e o dever a partir de questões normativas que surgiram dos costumes. A fé surge como conversão da responsabilidade de suas ações, atribuindo a forças externas o poder de decisão sobre suas vidas, como comenta a moradora 45. O fatalismo para Freire (1970, p. 63) sugere uma mistificação: “Dentro do mundo mágico ou místico em que se encontra a consciência oprimida [...] quase imersa na natureza, encontra no sofrimento, produto da exploração em que está a vontade de Deus, [...]”.

Continuando nas atitudes fatalistas, se o destino já está marcado, definido por forças superiores, nada pode se fazer para mudar. Surge a tendência ao não fazer esforço para modificar o destino (MARTÍN-BARÓ, 2017). A equipe de saúde também observa essa situação e afirma:

Equipe de Saúde: Eles não saem dali... passa o tempo... acontecem muitas coisas e permanecem no mesmo lugar, mora a bisavó, a avó, neto e bisneto, todos no mesmo pátio, na mesma casa, continuam na mesma vida, na mesma casa.

Rosssler (2004) afirma que as formações psíquicas construídas ao longo da vida cotidiana das pessoas, geram padrões de pensamentos, ações e sentimentos. Romper torna-se uma tarefa difícil e distante, causando alienação. A alienação como um fenômeno parte de uma estrutura cotidiana social alienada. Portanto, o processo dominação produz um esvaziamento prejudicando a existência das objetivações causando um distanciamento do real papel na sociedade.

Nas relações sociais, a reprodução de forma alienada e de exploração, à lei do mais forte, do mais rápido, estimula o processo de vitimização. Esta lógica surge do modelo econômico capitalista, que promove a precarização do trabalho e do ensino e a mercantilização do social. Proporcionando uma consciência de que os fins justificam os meios, consequentemente um distanciamento das regras prejudicando a construção do caráter

e dos recursos para o apoderamento da sua identidade como parte da personalidade (VERONEZE, 2013; HELLER, 1992).

Segundo Mafra (2010) a educação é uma necessidade sociopolítica e uma carência.

Contudo há uma relação com o desejo, por contar com os interesses individuais. O modo de vida, no entanto, influencia nesses interesses, considerando o valor monetário das escolhas.

Portanto as discussões deveriam permear a respeito da motivação da permanência na escola. Considerando os desejos individuais e o desenvolvimento da subjetividade.

A escola como local da aquisição da educação, no município, possui projetos para atividades nas escolas. Em nossas visitas, procuramos a escola, e, durante a visita, percebemos que a quadra de futebol está com atividades e muitas pessoas acompanham, outras atividades estão sendo realizadas no pátio, mas não tem o mesmo sucesso.

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