3.1 As relações concretas do olhar com o Outro
3.1.3 A segunda atitude para com o Outro: a indiferença, o desejo, o ódio, o
98 sua subjetividade até a angústia”. Ainda assim, radicalizando o fracasso da atitude “pode até ocorrer, como geralmente ocorre, que buscando sua própria objetividade ele venha a encontrar a objetividade do Outro (SARTRE, 2016b, p. 455), o que lhe revela, em contrapartida, sua própria subjetividade. Posso ser apreendido como objeto pelo Outro, mas a objetividade de si por si mesmo é um fracasso e, por conseguinte, fracassa os esforços do masoquista.
O fracasso das atitudes que pretendiam assumir a liberdade alheia como sua conduz a novas atitudes, as que subjugam o outro à sua própria liberdade.
99 específico, é que, se ignoro o Outro a ponto de fazê-lo desaparecer, eu mesmo estou ameaçado de desaparecer, pois, a existência do Outro é fundamental para o meu ser:
No momento mesmo em que posso me crer uma subjetividade absoluta e única, posto que sou visto sem querer poder experimentar o fato de que sou visto e sem poder me defender, por meio deste experimentar, contra meu ‘ser-visto’. Sou possuído sem poder voltar-me contra aquele que me possui. [...] Assim, minha cegueira e inquietação pode ser acompanhada da consciência de um ‘olhar errante’ e inapreensível que ameaça me alienar sem eu o saiba. (SARTRE, 2016b, p. 475)
Esse mal-estar ocasiona numa outra tentativa de apossar da subjetividade do outro através de sua objetividade-para-mim: o desejo sexual. Inicialmente pode-se estranhar estudo dessa ação, classificada como “psicofisiológica”, “contudo, o desejo e seu inverso, o horror sexual, mostram-se como estruturas fundamentais do ser-Para-outro” (SARTRE, 2016b, p.
477).
A sexualidade é vivida de modo privilegiado como “possibilidade de satisfação” no sexo, mas Sartre reconhece que há outras modalidades de sexualidade que se apresentam do nascimento até a morte: “Ser sexuado, com efeito, significa, [...] existir sexualmente para um Outro que existe sexualmente para mim” (SARTRE, 2016b, p. 478).
É o desejo a modalidade primordial da apreensão da sexualidade do Outro desejado, que por sua vez confirma a sexualidade do desejante; “é desejando o Outro (ou descobrindo-me como incapaz de desejá-lo) ou captando seu desejo por mim que descubro seu ser-sexuado; e o desejo me revela, ao mesmo tempo, o meu ser-sexuado e o seu ser-sexuado, o meu corpo como sexo e o seu corpo como sexo” (SARTRE, 2016b, p. 478). O desejo revela minha facticidade como corpo no mundo, bem como ser sexuado, corpo desejado e desejante de outro.
Nesse sentido, as carícias são a apropriação do corpo do Outro e revelação do meu corpo próprio. Ao acariciar com a minha mão o Outro acaricio a mim mesmo: “Em cada carícia, sinto minha própria carne e a carne do Outro através da minha, e tenho consciência de que esta carne que sinto e da qual me aproprio por minha carne é carne-sentida-pelo-outro” (SARTRE, 2016b, p. 492). O que se pretende, porém, não é apenas tocar a carne do outro, mas sua liberdade encarnada de modo que fazer apoderar do corpo é também apoderar da sua consciência. O que o sujeito quer ao acariciar o corpo é tocar e possui a liberdade presente ali:
Daí o sentido do desejo sexual, que é uma tentativa de roubarmos a liberdade alheia pela objetividade. Queremos que a liberdade do amado seja inscrita em seu próprio corpo, em toda a extensão dele, de modo que, ao tocá-lo no ato sexual, eu como que
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‘toque a sua liberdade’, toque a sua ‘consciência de ser possuído’. (PERDIGÃO, 2005, p. 151)
Quem deseja é a consciência, “um modo singular da minha subjetividade” (SARTRE, 2016b, p. 481) que se faz corpo para apropriar do corpo do Outro. Porém, o que o desejo deseja não é apenas o corpo, senão como totalidade orgânica, isto é, a consciência corporificada. O objeto do desejo é a liberdade do Outro. Tal liberdade está em um corpo, e disso decorre o desejo pelo corpo do Outro em sua totalidade: “Eis o ideal impossível do desejo: possuir a transcendência do Outro enquanto pura transcendência, e ao mesmo tempo, enquanto corpo”
(SARTRE, 2016b, p. 489). Possuir o corpo do Outro como consciência encarnada é um meio para captar o modo pelo que sou captado e me fazer objetividade por mim próprio.
Todavia, o olhar, ao mesmo tempo em que sequestra e objetiva aquele que é visto, é o perpétuo interdito da apropriação da consciência sempre em movimento de transcendência e possibilidade de volver o olhar àquele que olha. O outro-liberdade sempre me escapa:
Na relação primordial ao olhar do Outro, com efeito, constituo-me como olhar. Mas, se olho o olhar, a fim de me defender contra a liberdade do Outro e de transcendê-la como liberdade, a liberdade e o olhar do Outro desmoronam: vejo olhos, vejo um ser- no-meio-do-mundo. Daí por diante, o Outro me escapa: queria agir sobre sua liberdade, apropriar-me dela, ou, ao menos, fazer-me reconhecido como liberdade pela liberdade do Outro, mas esta liberdade está morta, já não está de forma alguma no mundo em que encontro o Outro-objeto, pois sua característica é ser transcendente ao mundo. (SARTRE, 2016b, p. 488)
Com isso constatamos que “o desejo é desejo de se apropriar desta consciência encarnada” (SARTRE, 2016b, p. 494), e que ele não obtém sucesso. Mesmo a carícia que “só tinha por objetivo impregnar de consciência e liberdade o corpo do Outro” (SARTRE, 2016b, p. 494) descobre a conversão do corpo em instrumento, “o corpo do Outro, transcendido rumo às suas potencialidades cai no nível de carne ao nível de puro objeto” (SARTRE, 2016b, p.
494), de modo a encontrar-se na mesma situação da qual pretendia sair, ou seja, assegurar minha liberdade ao invés da objetificação do Outro.
O sadismo “é paixão, secura e obstinação” (SARTRE, 2016b, p. 495). O Para-si se capta como comprometido e obstinado com o Outro sem, no entanto, compreender com clareza seu comprometimento. É secura porque age contra o esvaziamento do desejo. Na medida em que o sádico se apega friamente ao Outro é um apaixonado. “Seu objetivo é, tal que o do desejo, captar e subjugar o Outro, não somente enquanto Outro-objeto, mas enquanto pura transcendência encarnada. Mas, no sadismo, a ênfase é dada à apropriação instrumental do Outro-encarnado” (SARTRE, 2016b, p. 495).
101 O sadismo busca se apropriar da facticidade do Outro. Diferente do desejo, o sádico não prevê uma reciprocidade, ele pretende subjugar o Outro ao status de objeto enquanto consciência encarnada, ou seja, transforma o Outro em instrumento para sua própria satisfação.
Utilizando o corpo do Outro como utensílio, o sádico se esforça em realizar de modo violento uma existência encarnada e utilizada. Quanto mais reduz o Outro a dor e ao sofrimento mais sente-se reconhecido na sua subjetividade. Ora, a existência é liberdade. Logo, o que o sádico pretende é a liberdade do Outro, instrumentalizada, manipulada, por sua violência:
O que o sádico busca com tal tenacidade, o que almeja amassar com as mãos e submeter com os punhos é a liberdade do Outro: ela está aí, nesta carne; ela é esta carne, posto que há uma facticidade do Outro; portanto, é da liberdade que o sádico tenta se apropriar. Assim, o esforço do sádico consiste em enviscar o Outro em sua carne através da violência e da dor apoderando-se do corpo do Outro pelo fato de tratá-lo como carne a ser nascida da carne; mas esta apropriação transcende o corpo de que apropria, porque só quer possuí-lo na media em que enviscou em si a liberdade do Outro. (SARTRE, 2016b, p. 500)
O sadismo carrega em si mesmo as causas de seu fracasso. Primeiro, porque, ao fazer da carne do Outro um instrumento de posse, o sadismo se converterá ao desejo, e quanto mais o sadismo utiliza o Outro como instrumento de desejo mais a liberdade lhe escapa. A liberdade sobre a qual ele pode agir é tão somente uma liberdade objetivada, liberdade no meio do mundo com suas “mortipossibilidades”. Outro erro descoberto pelo sádico é “quando a vítima olha para ele, ou seja, quando experimenta a alienação absoluta de seu ser na liberdade do Outro”
(SARTRE, 2016b, p. 503). Descobre então que não pode subjugar a alteridade:
Assim, esta explosão do olhar do Outro no mundo do sádico faz desmoronar o sentido e o objetivo do sadismo. Ao mesmo tempo, o sadismo descobre que era esta liberdade que queria subjugar e constata a inutilidade de seus esforços. Eis-nos remetidos uma vez mais do ser-olhador ao ser-visto; não saímos desse círculo vicioso. (SARTRE, 2016b, p. 504)
A inutilidade das atitudes precedentes radicaliza uma última tentativa: a morte do Outro.
O Para-si abandona seus projetos de apropriação da liberdade do Outro, bem como da submissão da existência alheia. Para livrar-se de sua condição “inapreensível de ser-objeto- Para-outro e abolir sua dimensão de alienação” odeia ao termo de “projetar realizar um mundo onde não existe o Outro” (SARTRE, 2016b, p. 509). Porém, mesmo com a morte do Outro e do seu olhar objetificado não é possível abolir o fato de que o Outro não tenha existido. Aliás, a própria “abolição do outro [...] pressupõe o reconhecimento explícito de que o outro existiu”
(SARTRE, 2016b, p. 511). Além do mais, “aquilo que fui para o Outro fica estabelecido pela
102 morte do Outro, e o serei irremediavelmente no passado; também o serei, e da mesma maneira, no presente, caso preserve na atitude, nos projetos e no modo de vida que foram julgados pelo outro” (SARTRE, 2016b, p. 511). Em última instância, o não reconhecimento do morto é também uma morte do matador.
Sartre, ao apresentar essas condutas, demonstra o círculo vicioso das relações com o Outro. Não importa que atitudes tomemos. Sempre seremos subjugados ao lugar de objeto para uma consciência-liberdade alheia:
Sobre a morte da conduta para com o Outro-objeto surge uma atitude nova que visa apoderar-se do Outro-sujeito, e esta, por sua vez, revela sua inconsistência e desmorona para dar lugar à conduta inversa. Assim, somos arremessados indefinidamente do Outro-objeto ao Outro-sujeito e vice-versa; o curso jamais se detém, e é este curso, com suas bruscas inversões de direção, que constitui nossa relação com o Outro. Qualquer que seja o momento em que nos considerem, estamos em uma ou outra dessas atitudes. (SARTRE, 2016b, p. 506)
Na rotina de dominação e fuga da liberdade como tentativa de salvação de sua existência em-si-Para-si o olhar do Outro é uma condenação ao conflito. Para Sartre não existe relações entre iguais:
Assim, sempre oscilando entre o ser-olhar e o ser-visto, caindo de um no outro por revoluções alternadas, estamos permanentemente, não importa a atitude adotada, em estado de instabilidade com relação ao Outro; perseguimos o ideal impossível da apreensão simultânea de sua liberdade e sua objetividade. [...] Jamais podemos nos colocar concretamente em um plano de igualdade, ou seja, um plano onde o reconhecimento da liberdade do Outro encerra-se o reconhecimento da nossa liberdade pelo Outro. O Outro é, por principio, o inapreensível: foge de mim quando o busco e me possui quando dele fujo. (SARTRE, 2016b, p. 506- 507)
Ainda assim, podemos ou não aceitar a forma como o outro nos vê. Melhor dizendo, dar novos conteúdos a forma que somos conferidos. Só o homem pode escolher por seus projetos e assumir ou não os predicados oriundos do olhar alienador do Outro.