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Serviço Social, questão social e opressões

CAPÍTULO III Serviço Social, relações de opressão e intervenção nas escolas

3.1 Serviço Social, questão social e opressões

Os estudos que tratam da emergência, fundamento e natureza do Serviço Social demonstram que a profissão possui relação histórica com a categoria de exploração (trabalho) na sociedade capitalista, imbrincada ao contexto que determinou sua inscrição na divisão social e técnica do trabalho coletivo (Iamamoto, 2002; Almeida e Alencar, 2011). Tais fatos se situam nos marcos da instauração do capitalismo em sua fase monopolista, relacionando-se às necessárias respostas do Estado às contradições da luta de classes, via políticas sociais. Para melhor caracterizar estes argumentos, procedemos inicialmente ao contexto mundial, na explicação de Josiane Santos:

A crise de superprodução, desencadeada por volta de 1870 que se estende até 1930, contraditoriamente, vai levar à nova fase de expansão do capital, conhecida como Capitalismo Monopolista, superando a fase concorrencial, hegemônica até então. As estratégias buscadas para a superação da crise consistiram, basicamente, além da exportação de capitais para países como os Estados Unidos e a Alemanha, o investimento na indústria bélica em face das disputas por hegemonia mundial absorvidas pelos Estados em guerra e o investimento no capital bancário, que redimensiona significativamente o peso do capital financeiro.

Neste novo estágio do capitalismo há o processo de formação de um mercado mundial, pois a

“iniciativa privada” se consolidava devido à concorrência desenfreada e generalizada (Netto, 2006, pp.

72-173). Caracterizada pela concentração e centralização dos monopólios e mudança do papel dos bancos e do Estado, evidencia-se as contradições do sistema e a necessidade de um enfrentamento diferente dado à questão social até então. Se na fase anterior (concorrencial) o Estado assumia postura policialesca e as respostas sociais eram filantrópica e assistencialista, muda-se o trato coercitivo para político. O Estado neste estágio apresenta-se como liberal, restringindo-se a

Assegurar o que podemos chamar de condições externas para a acumulação capitalista – manutenção da propriedade privada e da “ordem pública” (leia-se: o enquadramento dos trabalhadores). Tratava-se do Estado reivindicado pela teoria liberal: um Estado com mínimas atribuições econômicas; mas isso não significa um Estado alheio à atividade econômica – pelo contrário: ao assegurar as condições externas para a acumulação capitalista, o Estado intervinha no exclusivo interesse do capital (e era exatamente essa a exigência liberal) (ibid., pp. 173-174).

Assegurar condições de reprodução do sistema perpassava pelo enfrentamento político das suas contradições, bem expostas pelo conceito de “questão social”, que tem como condição objetiva a seguinte situação: por mais que aumentem as forças produtivas, contraditoriamente, há ampliação da pobreza e o surgimento de outras expressões dela decorrentes. Netto (2011, pp. 153-154) explica que

“questão social” não representa o sinônimo de pauperismo nem seu desenvolvimento, pois está num contexto em que há riqueza suficiente para acabar com a pobreza, mas a sociedade produz coletivamente

79 e se apropria privadamente. Assim, a “questão social” é compreendida quando o pauperismo atinge dimensões nunca antes vistas na história, apesar do alto desenvolvimento das forças produtivas. A outra condição, o elemento subjetivo, encontra-se exatamente nestes desdobramentos sociopolíticos, que representam a reivindicação dos proletários diante das “promessas” da modernidade (igualdade, liberdade, fraternidade), ou seja, quando os trabalhadores se constituem em “classe para si” (Netto, 2011).

Neste ínterim, incorporando para o público o que já tinha legitimidade social, os Estados passam a se responsabilizar pela “formulação e implementação das políticas sociais (...) e estimulam a criação de diversas novas profissões “especializadas”, dentre as quais o Serviço Social aparece para desempenhar seu papel” (Montaño, 2009, p. 33). Para compreendermos o surgimento e a natureza contraditória do Serviço Social, é fundamental entendermos que é a divisão capitalista do trabalho que cria novas necessidades sociais e transforma as relações sociais, afetando todo o modo de vida e de trabalho da sociedade (Iamamoto, 2002).

Estudar na contemporaneidade as abordagens, intervenções e respostas profissionais do Serviço Social implica resgatar a natureza da profissão e as relações com a questão social e as políticas sociais no capitalismo. Não podemos nos omitir da análise da função social que a profissão possui desde sua gênese, as contradições desafiantes que são inerentes desde sua gestação, os aspectos macroeconômicos e políticos, a existência de suas protoformas com ações vinculadas hegemonicamente a teorias de cariz conservador e religioso e, não menos importante, os contextos da formação em cada país.

Acusamos nesta tese que esta concepção de emergência da profissão, exposta até aqui, ainda que carregada de historicidade, não apresentou outros determinantes desta conjuntura, como a questão étnico-racial e as desigualdades de gênero ou, quando o fez, apropriou-se como questões apartadas das bases estruturais da sociedade. Priorizamos argumentar como estas concepções da profissão se relacionam com as relações de opressões tanto em Portugal quanto no Brasil, ou seja, nos interessou perceber as análises políticas expressas na formação profissional acerca das consequências da exploração do trabalho na sociedade capitalista, mas com os diversos determinantes estruturais, como o racismo.

Não há consenso em um único conceito da profissão, já que há concepções diferentes tanto entre Portugal e Brasil quanto em disputa mundialmente. Exibimos a atual definição global de Serviço Social da Federação Internacional de Serviço Social – FITS48:

O Serviço Social é uma profissão de intervenção e uma disciplina académica que promove o desenvolvimento e a mudança social, a coesão social, o empowerment e a promoção da Pessoa. Os princípios de justiça social, dos direitos humanos, da responsabilidade coletiva e do respeito pela diversidade são centrais ao Serviço Social. Sustentado nas teorias do serviço social, nas ciências sociais,

48 Adotamos o nome da instituição com a tradução literal na língua portuguesa.

80 nas humanidades e nos conhecimentos indígenas, o serviço social relaciona as pessoas com as estruturas sociais para responder aos desafios da vida e à melhoria do bem-estar social (FITS, 2014).49

A definição da FITS é objeto de constantes reflexões e alterações, mais efetivamente na década de 2000 quando as disputas vêm acirrando o debate internacional, protagonizado pelos países da América Latina e Caribe acerca da definição, princípios e direcionamentos internacionais da profissão.

A exemplo disto, reproduzimos os argumentos do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS, 2011):

O Brasil, em conjunto com as representações da América Latina, questiona a necessidade de existência de uma definição mundial, desde que passou a integrar a Fits em 2000, justamente por entender que os processos históricos de surgimento e desenvolvimento do Serviço Social em cada país são particulares, determinados pelas condições objetivas, políticas, econômicas e culturais em que se desenvolvem (2011, p. 734).

Entende‑se que uma definição mundial deve ser suficientemente genérica para respeitar as particularidades e historicidades de cada nação, sem ferir suas conquistas éticas, políticas e profissionais. Desse modo, cabe sinalizar, na atual definição da Fits, os elementos que dificultam seu reconhecimento como expressão do Serviço Social no mundo (2011, p. 738).

De acordo com as considerações de Tiago Silva (2015, p. 227) sobre a definição global, “sob uma terminologia ‘guarda-chuva’, se esvaecem as relações sociais em sua concreticidade histórica, as categorias e ficamos com uma definição que não representa as particularidades”, conforme veremos nos próximos tópicos a respeito de Portugal e Brasil. Importante dizermos que apresentamos tais divergências não para criticar a FITS, mas para explicitar as construções que vêm sendo possíveis nas elaborações coletivas, palco de tensões nas disputas por hegemonia política e teórica mundialmente, bem como as diferenças de contextos sociais para uma profissão imbrincada nas relações sociais. A este respeito, Amaro afirma que esta é uma marca identitária da profissão: “Coloca-a com problemas de delimitação e ancoragem, mas fornece-lhe uma capacidade de elasticidade que a transforma numa prática complexa e operacionalizável em contextos muito distintos” (2009, p. 35).

Para Inês Amaro (2015, p. 23), “O Serviço Social é um agir que está impregnado da ideia moderna de que o homem tem capacidade de ação sobre o mundo no sentido da sua transformação e melhoria”.

No que tange aos termos epistemológicos, a autora ratifica a inserção do Serviço Social no campo das ciências sociais como uma “aceção de que o conhecimento pode e deve informar a ação e de que a abordagem científica supera todas as outras formas de abordagem ao mundo social” (Amaro, 2015, p.

23). Dentre os consensos e dissensos acerca da profissão, a sua definição como “trabalho” e como

“ciência” são duas questões mais polêmicas com que nos deparamos, especialmente por esta investigação possuir Portugal e Brasil como campos empíricos. Esclarecemos a priori que, apesar da FITS utilizar a denominação “trabalhador social” e haver outras nomenclaturas, utilizaremos em todo o texto o padrão “serviço social” para designar a profissão e “assistente social” para nos referirmos aos

49 Disponível em: https://www.ifsw.org/wp-content/uploads/ifsw-cdn/assets/ifsw_102510-8.pdf?q=pt%2Fwp- content%2Fuploads%2Fifsw-cdn%2Fassets%2Fifsw_102510-8.pdf. Acesso em: 23/03/2019.

81 profissionais, como é comumente utilizado em Portugal e Brasil. Destacamos isto porque o uso dos termos carrega consigo concepções teóricas e políticas relevantes, além de poder representar mais de uma categoria profissional. Desta forma, se no Brasil hegemonicamente o Serviço Social é considerado trabalho, perspectiva com a qual coadunamos, em Portugal o “trabalhador social” pode se referir também a outras profissões50.

Há uma polêmica discussão na categoria sobre se a atividade do profissional de Serviço Social deve ser ou não considerada trabalho. Ambas têm como referência as leituras marxistas e concordam que o trabalho é uma categoria central, ontológica do ser social. No entanto, há a defesa de que o assistente social é um ser prático social, dotado de liberdade, capaz de projetar seu trabalho e buscar sua implementação por meio de sua atividade, tendo, para isso, sua relativa autonomia e sendo acometido pela alienação e exploração como qualquer trabalhador.

O assistente social é proprietário de sua força de trabalho especializada. Ela é produto da formação universitária que o capacita a realizar um “trabalho complexo”, nos termos de Marx (1985). Essa mercadoria força de trabalho é uma potência, que só se transforma em atividade – em trabalho –, quando aliada aos meios necessários à sua realização, grande parte dos quais se encontra monopolizado pelos empregadores [...] dependem dos prévios recortes das políticas definidas pelos organismos empregadores, que estabelecem demandas e prioridades a serem atendidas (Iamamoto, 2011, p. 421).

Essa defesa se pauta na contribuição do assistente social ao processo de produção e reprodução das relações sociais. Dessa forma, não existe processo de trabalho do assistente social, mas existe um trabalho do assistente social e processos de trabalho nos quais este se envolve na condição de trabalhador especializado. Em outra perspectiva, é defendido que Serviço Social não é trabalho, pois, na tese marxista, trabalho transforma a natureza em meios de produção e subsistência, não sendo conjunto de práxis. Segue defesa desse pensamento:

Igualar ao trabalho práticas profissionais como o Serviço Social ou a educação [...], significa igualar o intercâmbio orgânico com a natureza com outras atividades em tudo distintas. Ao cancelar o que o trabalho tem de específico, isto é, cumprir a função social de transformar a natureza em meios de produção e subsistência, dissolve-se o trabalho em um enorme conjunto de práxis e, consequentemente, cancela-se a tese marxiana de ser o trabalho a categoria fundante do mundo dos homens (Lessa, 2012, p. 28).

Embora não possamos, por motivo de espaço, aprofundar as concepções e disputas mundiais em torno destas questões, destacamos duas reflexões: 1) Não sabemos se é possível uma definição consensual que englobe tantas diferenças nas concepções, que são produtos de diferentes contextos, formações e exercícios profissionais; 2) Adotamos que, no decorrer destas disputas, é preciso garantir a pluralidade e pressionar pela exposição das contradições sociais que afetam a profissão e os fenômenos

50 Em que pese tais denominações e as questões filosóficas discutidas no seio da categoria, neste estudo adotamos a “intervenção” para nos referirmos ao trabalho do assistente social nas escolas pesquisadas, sem prejuízo de compreender as interpretações apresentadas.

82 de opressões racistas e sexistas articulados à exploração do trabalho, pois são demandas universais e estão patentes também à intervenção do Serviço Social.

Interessa-nos, portanto, destacar quais são as perspectivas que se aproximam da lacuna existente ao tratar da questão étnico-racial e de gênero, articuladas com classe, pois estas categorias que envolvem determinantes da totalidade social estão ocultas ou distanciadas nas discussões da exploração do trabalho. Acerca da relação Serviço Social, questão social/ exploração do trabalho e opressões, as assistentes sociais brasileiras ratificam:

[...], ainda que o universo teórico-metodológico da análise atual da “questão social” apresente um esforço teórico-metodológico em atribuir centralidade ontológica às categorias centrais da análise marxista do modo de produção capitalista, ele é insuficiente por reproduzir, mesmo involuntariamente, uma visão genérica das suas determinações. E nesse sentido, rebatendo em uma formação que, embora tenha a

“questão social” como elemento central, a sua análise encontra-se esvaziada dos componentes histórico- sociais (...) (Martins, 2012, p. 178).

As contribuições de Elisabete Pinto também já pontuavam:

Uma vez que o racismo e o preconceito fazem parte das relações de dominação e exploração, é o assistente social – que tem como principal função trabalhar as relações sociais através de uma ação educativa, visando à consciência e à participação – um profissional indispensável para a eliminação das situações de discriminação em que vivemos (2003, p. 28).

As argumentações expostas nos levam a refletir como as desigualdades sociais são interpretadas pelo Serviço Social com limitação de determinantes da realidade que ora privilegiam as questões macroestruturais como causadoras e ora os atribuem às subjetividades das pessoas, responsabilizando- as pelas suas condições sociais. Como profissão interventiva, o Serviço Social precisa estar em constante mediação e reflexão das questões originadoras, das quais destacamos a questão social, o racismo e o sexismo como fundantes da exploração e opressões que vivenciamos e atuamos cotidianamente.

Ainda concordando com Teresa Martins (2012, p. 131), as ideias de Gilberto Freyre fomentaram uma crença que, “por um lado, produziu um consenso generalizado da ausência do preconceito e da discriminação racial; por outro, impediu que as desigualdades sociais – inerentes ao sistema capitalista –, vivenciadas pelos (as) negros (as), fossem enfrentadas” em duplo sentido, ou seja, na perspectiva da

“classe” e da “raça”. Destarte, confirma a percepção de que no âmbito da formação profissional em Serviço Social, o conceito de questão social, por exemplo, abarca as discussões de exploração do trabalho, mas se esvazia das opressões do racismo e sexismo. As consequências disto podem ser verificadas em todas as políticas sociais, desde o mercado de trabalho – “mantendo intocado o racismo no mercado de trabalho, com notórias limitações nas possibilidades dos trabalhadores racialmente discriminados constituírem a questão social” (Martins, 2012, p. 131) – a rebatimentos na educação, conforme abordaremos nesta tese.

Nesta perspectiva, as opressões vivenciadas por mulheres afrodescendentes negras não se constituem como exploração do trabalho, ou seja, como uma questão de pobreza apenas, mas estão repletas dos diversos determinantes e marcadores sociais que têm sido utilizados para justificar as

83 desigualdades. Outra grande armadilha teórico-epistêmica e política é considerar a existência do racismo e do sexismo, mas mantê-los apartados da análise estrutural da sociedade, restringindo-os a ideologias que estão presentes apenas no campo simbólico ou individual.

Os conceitos de questão social e o de questão racial desenvolvem-se tomando como critério, respectivamente, as disputas políticas do “capital x trabalho” e “opressão racial x negritude”. Apesar de representarem teoricamente as lutas político-sociais e serem contemporâneas historicamente, não têm sido analisadas concomitantemente, no movimento dialético que a realidade exige. O conceito de negritude, cunhado em ação conjunta dos intelectuais Aimé Césaire (Martinica), Léopold Senghor (Senegal) e Léon-Gontran Damas (Guiana), embora com diferentes estratégias, exprime a condição de

“ser negro”, conforme sintetiza Zilá Bernd em sua obra “o que é negritude”, abordando-a tanto no sentido coletivo quanto individual:

Em um sentido lato, negritude – com n minúsculo (substantivo comum) – é utilizada para referir a tomada de consciência de uma situação de dominação e de discriminação, e a consequente reação pela busca de uma identidade negra. Nesta medida, podemos dizer que houve negritude desde que os primeiros escravos se rebelaram e deram início aos movimentos conhecidos por marronnage, no Caribe, cimmarronage, na América Hispânica, e quilombismo, no Brasil, iniciados logo após a chegada dos primeiros negros na América (...). Em um sentido restrito, Negritude – com N maiúsculo (substantivo próprio) – refere-se a um momento pontual na trajetória da construção de uma identidade negra, dando-se a conhecer ao mundo como um movimento que pretendia reverter-se o sentido da palavra negro, dando-lhe um sentido positivo (grifos da autora. Bernd, 1988, p. 20).

Consoante as elaborações apresentadas no capítulo anterior, ratificamos que as análises históricas têm as chaves para estes entendimentos de ocultação e distanciamento na formação e intervenção profissionais também. Questionamos se todas as formas de opressões “cabem” no conceito de desigualdade social sem as devidas explicitações. Ou são inerentes às expressões da questão social, amplamente utilizadas para relacionar o objeto de intervenção do Serviço Social. Nas demandas manifestas à intervenção do Serviço Social na educação, por exemplo, supomos que nem todas estão situadas em conceitos que não agregam outros determinantes da exploração e opressão do homem pelo homem que não seja o trabalho sem cor/raça, sem sexo, sem contexto.

Consideramos que a compreensão do racismo, uma das categorias centrais nesta investigação, precisa se dar face a sua natureza estrutural e estruturante, pois é o entendimento que nos leva a refletir que suas expressões estarão presentes nas relações interpessoais institucionais, nas relações familiares e afetivas, no acesso aos direitos e políticas sociais:

Nossas considerações tomam o racismo como elemento estrutural de uma racionalidade instituída para ser a norma de compreensão e manutenção das relações sociais. Afirmar que o racismo é estrutural implica pensá-lo como sendo relativo ao fundamento das sociedades ocidentais contemporâneas, o que abrange as dimensões da economia, da política e da cultura. Não se trata, portanto, de uma anomalia no interior de um sistema, mas de um modo próprio de funcionamento. De outra parte, o racismo também é um estruturante, então funciona como elemento dinâmico que favorece, condiciona e mantém um tipo específico de

84 racionalidade. É um agente expressivo que articulado a outros, como por exemplo o sexismo, impede a erosão das relações de exploração e das condições de desigualdade presentes em todas as dimensões da vida social (Procópio, 2017, p. 27).

Ainda que este entendimento possa ser debatido nos diferentes contextos, os rebatimentos e expressões têm particularidades em cada formação nacional. Neste sentido, Procópio (2017) salienta que tanto a categoria classe é constituída de forma diferente na América Latina e nos países europeus face aos processos de escravidão negra e colonização, logo, tratar da realidade do Brasil é diferente de Portugal, e assim exportar o conceito de questão social e constituição da classe trabalhadora também, pois desconsidera a luta de classes na escravidão, diferenciadas em colônias e metrópoles, e as desigualdades macroeconômicas mundiais que estruturaram a modernidade. Nos tópicos seguintes adentramos nestas particularidades expressas na profissão.