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Sylvio Artista Plástico

No documento A OBRA DO ENGENHEIRO SYLVIO JAGUARIBE EKMAN (páginas 171-183)

produção arquitetônica ocorreu em julho de 1957, onde trata de uma série de chalés e mirante (figura 1.106) construídas em Campos do Jordão.

Figura 1. 105: Mestre Vitalino. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman. Novembro, 1962.

Fonte: Revista Habitat nº 71, março 1963.

Figura 1. 106: Mirante em Campos do Jordão.

Fonte: Revista Habitat nº 43, julho-agosto 1957.

de São Vicente com a Ilha Porchat ao fundo, em Santos, cidade do litoral paulista (figura 1.107).

Figura 1. 107: Paisagem da Praia de São Vicente com a Ilha Porchat ao fundo, em Santos-SP.

Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman, junho de 1912.

Fonte: Coleção Nancy Yang Ekman.

Sua produção como artista muitas vezes assume a característica de esboços cheios de expressividade, registros de suas viagens, utilizando principalmente nanquim, aquarela e pintura a óleo para retratar suas impressões de cenas cotidianas. Entre seus temas mais recorrentes estão suas viagens à Paris, registrando paisagens urbanas parisienses com suas praças, cafés e monumentos (figura 1.108).

Acerca de seus registros de viagens, o crítico de arte Sérgio Milliet (1898- 1966), no catálogo de uma de suas exposições realizadas em São Paulo no ano de 1961, afirma:

Seus desenhos são como cartas que envia a seus amigos dando suas impressões de Paris. Não são fotografias nem cartões postais, não visam a apresentar um aspecto mais ou menos fiel da realidade: dizem tão somente do detalhe pitoresco que o divertiu, da cena de rua que lhe feriu a sensibilidade. E o faz com inteira liberdade, indo até a caricatura por vezes e por vezes apenas sugerindo, num traço rápido. (...) E que mais ressalta de sua obra é a simpatia pelas coisas do quotidiano. (MILLIET, 1961).

Embora Sylvio já demonstrasse desde a adolescência uma percepção mais aguçada da paisagem construída, como é possível observar em suas primeiras

aquarelas, acreditamos que sua experiência profissional com arquitetura, já na fase adulta, colaborou para construir uma visão mais sensível aos aspectos urbanos nas cenas em que representa. São os elementos construídos que capturam a visão do artista.

Em seus registros de viagem, ou “desenhos-apontamentos”, como Sylvio Jaguaribe Ekman gostava de referir a eles, o artista costumava representar em detalhes elementos do espaço construído como monumentos, ruas, becos, telhados, além de ressaltar edificações. Ora emoldurando-as por meio de outros elementos construídos, como no desenho que retratar a catedral de Notre Damme vista através do vão de uma ponte sobre o Rio Sena (figura 1.108), ora trazendo diversos elementos da urbanização da paisagem em diversos planos, como bancos, postes, obeliscos, balaústres e jardins (figura 1.109).

Sobre sua visão diferenciada decorrente da experiência como “arquiteto”

ao elaborar estes registros de viagem, em matéria publicada na revista Habitat de 1957, afirma-se que:

Sendo, além do mais acima de tudo um arquiteto, compreende-se que aquelas perspectivas de bulevares, ruas, becos, impasses, carrefours e aquêles interiores de cafés, brasseries, recantos de caves, fundos de ateliês, fisionomias de colegas celebres e anônimos atraíssem sua atenção. Ao invés de fotografar, o que seria uma visão direta, porém limitada, êle anota o principal, registra a essência, rabisca a minúcia, surpreende o instante, colhe a atmosfera. (Revista Habitat, nº 42, maio-junho de 1957).

Figura 1. 108: Vista de ponte sobre o Rio Sena onde, ao fundo, se avista a Catedral de Notre Dame.

Sylvio Jaguaribe Ekman, 1960.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

Figura 1. 109: Paris, vista da Torre Eiffel. Sylvio Jaguaribe Ekman, 1960.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

Em entrevista concedida à Quirino da Silva para sua coluna no jornal Diário da Noite, em 24 de outubro de 1961, Sylvio Jaguaribe Ekman complementa: “As ruas, becos, praças, cafés e telhados de Paris sempre seduziram a minha sensibilidade.

Todas as vezes em que lá me encontro não deixo de fixá-los. São motivos que para mim se renovam constantemente”.

Sua sensibilidade artística também se faz manifesta ao retratar Fortaleza.

Paisagens litorâneas, jangadeiros, cenas cotidianas de Fortaleza, são capturadas por sua visão e mão e como consequência de suas profundas conexões com o estado tornam-se tema bastante presente na sua obra. As praias e seus mais puros usuários servem de inspiração para vários de seus desenhos. Homens e mulheres do litoral e dos sertões (figura 1.110) são retratadas: jangadeiros e suas jangadas (figura 1.111), os vaqueiros (figura1.112) e as rendeiras (figura 1.117).

igura 1. 110: Mulher na rede. Sylvio Jaguaribe Ekman, 1963.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

Figura 1. 111: Jangadeiros. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1958

Fonte: Revista Habitat nº 49, julho-agosto 1958

A respeito de sua série de desenhos de jangadas, um artigo publicado na Revista Habitat nº 49 de julho de 1958 discorre sobre a relevância dos registros de uma tradição em risco de extinção. O escrito refere-se a Sylvio Jaguaribe Ekman como arquiteto:

Itinerante, o arquiteto Silvio Jaguaribe Ekman, não resistiu a registrar graficamente as jangadas e os jangadeiros em trabalho. Daí os desenhos que ilustram esta página e que servem a marcar uma reminiscência de viagem, mas também um testemunho, - quem sabe - das últimas jangadas. (...) Os registros gráficos que aqui ilustram estas linhas têm a qualidade do flagrante sôbre o trabalho dos jangadeiros no mar. (...) Os desenhos do arquiteto Silvio Jaguaribe Ekman, servem de notações a esse futuro proximo, a essa extinção de um meio rude de trabalho, superado pelas irrupções, sempre desconcertantes, do progresso. (HABITAT, nº 49, julho-agosto de 1958, p.

52-53).

Para além de participações pontuais com suas gravuras à lápis e nanquim nas Revistas Acrópole e principalmente, na revista Habitat, é no jornal Diário da Noite, que Sylvio, ou Jaguaribe Ekman, passa a ter seus desenhos publicados com regularidade, ilustrando a coluna do periódico paulista.

O Jornal Diário da Noite circulou em São Paulo entre 1925 e 1980, de propriedade de Assis Chateaubriand57 (1892-1968). Em 1950 era um dos jornais de maior circulação na cidade, e adquirira tendência sensacionalista, definindo-se como um jornal voltado para as massas populares. Tinha como slogan “O vespertino de maior circulação em São Paulo” (ROMERO, 2009).

57 Assis Chateaubriand ou Chatô, como era mais conhecido, foi um jornalista, escritor, advogado, professor de direito, empresário, mecenas e político brasileiro. Destacou-se como um dos homens públicos mais influentes do Brasil entre as décadas de 1940 e 1960 (CPDOC/FGV, 2009).

Figura 1. 112: Vaqueiro. Sylvio Jaguaribe Ekman.

Fonte: Acervo UFC, 1966.

Sylvio foi habitual colaborador da coluna de Quirino da Silva no jornal Diário da Noite (Figura 1.113) entre o início de 1960 e final de 1962. Sua participação além de ilustrar os textos de Quirino sobre diversos assuntos (Figuras 1.114 e 1.115) e impressões do cotidiano, ocorreu também na forma de algumas entrevistas concedidas ao crítico acerca da obra de Jaguaribe Ekman.

Em uma dessas entrevistas concedidas à Quirino da Silva, Sylvio Ekman fala de sua relação com o desenho e como os utiliza para expressar sua forma de ver o mundo:

A pasta para Jaguaribe Ekman é como se fosse o chapeu. Sem a pasta embaixo do braço, Jaguaribe não é ele, é outro. Dentro da pasta traz ele os desenhos do dia, ou, melhor, os apontamentos. O desenho-apontamento é a sua verdadeira linguagem, e por meio dele diz o que tem a dizer e o que ainda poderá dizer. Encontramo-nos com Jaguaribe. Excusado seria acentuar que vinha acompanhado da pasta, e perguntamos:

- Quantos desenhos traz hoje na pasta?

- Poucos. Hoje não recolhi muito. A safra foi pequena.

- Você prefere desenhar a falar, não é?

- Para mim é bem mais facil desenhar. O que eu consigo desenhando, não diria falando. É o desenho, como já é sabido, um meio de expressão como a palavra, como o gesto. Cada um usa o meio que lhe é mais fácil.

- Sendo o desenho o seu meio de expressão preferido, a palavra então para você, Jaguaribe, não lhe é sedutora?

- Sim. Não sou lá muito seduzido pela palavra. Não sou mudo. Mas, como já disse, prefiro desenhar. E, talvez por isso, vou cada vez mais me distanciando dela. No desenho eu simplifico tudo... Afinal, estamos vivendo os primeiros instantes da Era Atômica. O desenho-apontamento capta, parece-me, dentro do possível, as linhas que estruturam a rapidez desses instantes. (Quirino da Silva. Diário da Noite, 4 de setembro de 1961).

Figura 1. 113: Recorte da coluna do jornal Diário da Noite, ilustrada por Sylvio Jaguaribe Ekman.

Fonte: Diário da Noite, 21 de dezembro de 1962

Figura 1. 114: Representação de um café Parisiense. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman.

Fonte: Diário da Noite, 24 de outubro de 1961.

Figura 1. 115: Véspera de São João. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman.

Fonte: Diário da Noite, 22 de agosto de 1961.

Algumas de suas obras pertencem a coleção de museus como o Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM (figura 1.116) ou a Pinacoteca Rubem Berta, de Porto Alegre-RS (figura 1.117). Uma pintura à óleo representando uma jangada, fora levada por Assis Chateaubriand para o Museu de São Petersburgo, na Rússia (CASTRO, 1998). Sylvio Jaguaribe Ekman realizou exposições em São Paulo e Fortaleza durante os anos 1960.

Figura 1. 116: “Chopinho”. Desenho em nanquim (bico-de-pena) sobre papel de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1969.

Fonte: Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Figura 1. 117: “Mulher rendeira”. Pincel atômico sobre papel de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1963.

Fonte: Pinacoteca Rubem Berta em Porto Alegre-RS.

Em 1961 Sylvio realiza a exposição “Apontamentos de Paris”, ocorrida na Galeria São Luís, em São Paulo, contendo uma série de 23 obras, todas de registros feitos por ele de cenas parisienses, resultado de uma estadia de três meses que havia feito na cidade durante o ano anterior (figura 1.118). E, em 1964 realiza uma nova exposição, também em São Paulo, mas dessa vez na Galeria Astreia, sob o título

“Aquarelas e óleos de Sylvio Jaguaribe Ekman”.

Figura 1. 118: "Rumerie la Martiniquaise" Paris, 1960. Sylvio Jaguaribe Ekman.

Fonte: folheto de divulgação da Exposição Apontamentos de Paris, São Paulo, outubro de 1961.

Sylvio retorna a Fortaleza para promover a exposição intitulada “S.

Jaguaribe Ekman”, realizada no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal do

Ceará, no dia 28 de outubro de 1966 (figura 1.119). De acordo com informações coletadas no próprio folheto da exposição (figura 1.120), Sylvio Jaguaribe Ekman expôs uma série de 25 desenhos e pinturas, com temáticas relacionadas ao Ceará.

As obras retratavam jangadas, jangadeiros e rendeiras e paisagens do sertão com suas fazendas, vaqueiros (figura 1.112) e a seca.

Na ocasião, Raimundo Girão (1900-1988), então Secretário de Cultura do estado do Ceará, no catálogo da exposição (1966), a respeito da obra de Jaguaribe Ekman afirma: “as linhas seguem o sentido do movimento e às vezes perecem até sopradas pelo vento. Pintura sobre cartão, óleo dissolvido em essência de petróleo com a leveza das aguadas e das aguarelhas”.

Figura 1. 119: Exposição “S. Jaguaribe Ekman”, realizada no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal do Ceará, no dia 28 de outubro de 1966. Na foto, à esquerda, Sylvio Jaguaribe

Ekman.

Fonte: Acervo do Memorial da UFC.

Figura 1. 120: Capa do folheto da exposição S. Jaguaribe Ekman, realizada no Salão Nobre da Reitoria da UFC, 1966.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

Na década de 1970, embora o tema dos registros de viagem continue presentes, é possível observar algumas mudanças em seus desenhos e pinturas como uma maior presença do uso de cores como se vê nas paisagens do Rio de Janeiro (figuras 1.121 e 1.122) e Paris (figura 1.123) por ele registradas. Novamente, o espaço construído ganha protagonismo, atraindo a atenção do artista.

Sylvio Jaguaribe Ekman (figura 1.124) faleceu em 14 de julho de 1978 deixando um importante legado não só para a engenharia e arquitetura do país, mas também para as artes plásticas.

Figura 1. 121: Largo do boticário, Rio de Janeiro. Sylvio Jaguaribe Ekman, 1973.

Fonte: Coleção Nancy Yang Ekman.

Figura 1. 122: Arcos da Lapa, Rio de Janeiro. Aquarela de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1976.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

Figura 1. 123: Place Pigalle, Paris. 1975.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

Figura 1. 124: Sylvio em seu ateliê. Fotografia sem data.

Fonte: Acervo Nancy Yang Ekman.

No documento A OBRA DO ENGENHEIRO SYLVIO JAGUARIBE EKMAN (páginas 171-183)