Durante o século XX, os periódicos especializados em arquitetura foram fundamentais na difusão da produção arquitetônica do período difundindo nova soluções técnicas e formais, que décadas depois se consolidariam com a arquitetura moderna. Ainda acerca das revistas especializadas, Segawa et al (2003) afirmam que estas representam um valioso acervo de documentação e informações de uma época.
Dentre estes periódicos, a Revista Acrópole circulando entre 1938 e 1971, foi a revista especializada em arquitetura de maior longevidade durante o século XX, tendo um total de 390 edições lançadas durante seu período de circulação. De acordo com Segawa (2014), era uma revista comercial, que sobrevivia de publicidade, sem aspirações vanguardistas ou intenção de ditar tendências em seus editoriais, e sem ideologias ou convicções estabelecidas claramente.
52 Ver tópico 1.2, figura 1.19.
53 Relato colhido a partir de depoimento de Nancy Yang Ekman, em janeiro de 2023.
Contudo, fora imprescindível para a documentação da produção de sua época e difusão da atuação dos arquitetos e demais projetistas inseridos em cada momento histórico, como no caso de Sylvio Jaguaribe Ekman, reunindo em seu acervo, um panorama da produção nacional, vinculada à uma visão editorial de cunho comercial.
Ainda acerca da relevância da Revista Acrópole, ao difundir a produção arquitetônica nacional, esta, através de suas edições, contribuiu para que as ideias e soluções projetuais pudessem circular pelo país, conforme pode-se constatar em suas edições que abordam a obra de Sylvio Jaguaribe Ekman em São Paulo e outras que cobrem suas repercussões na produção cearense e demais estados em que atuou (LOPES; JUCÁ NETO, 2020).
Pouco tempo após sua chegada ao Ceará, em 1938, já na segunda edição da Revista Acrópole (figura 1.97), Sylvio Jaguaribe Ekman publica um artigo de sua autoria, intitulado “Aspectos do Nordeste Brasileiro: Seu Desenvolvimento Industrial, Urbanistico e Architectonico”54.
No texto, com forte caráter empreendedor, seguindo os passos de seu pai, além de apresentar um panorama de suas obras recém executadas na cidade, descrevia a onda de progresso que as regiões Norte e Nordestes passavam, com destaque para a capital cearense e seus potenciais que favoreciam o desenvolvimento urbano.
A produção de Sylvio passou a ser documentada pela Revista Acrópole de 1938 até 1953, quando esta publica uma última matéria sobre sua obra, intitulada
“Residência no Jardim Paulista” (figura 1.98), apresentando uma residência em São Paulo com traços em estilo neocolonial, largamente utilizado na época e adotado por Sylvio em diversos projetos residenciais que executara.
Através das edificações de Ekman publicadas nas edições da Revista Acrópole, observava-se a diversidade tipológica de sua atividade: edifícios comerciais, símbolo da modernização através da verticalização e adoção de uma estética de aspirações modernizantes, clubes sociais e residenciais. Obras projetadas e construídas em São Paulo, Fortaleza, Campos do Jordão e Recife.
54 Ver transcrição deste artigo no Capítulo 2.
Figura 1. 97: Capa e interior da edição nº 02, de 1938, da Revista Acrópole contendo o artigo de autoria de Sylvio Jaguaribe Ekman
Fonte: Revista Acrópole, nº 02, jun. de 1938.
Figura 1. 98: Residência no Jardim Paulista
Fonte: Revista Acrópole nº 180, abr. 1953.
Além dos projetos de sua autoria, Sylvio Jaguaribe Ekman também utilizou o espaço da revista para a divulgação de suas ações de fiscalização de obras do IAPB e execução de obras de terceiros. Na edição nº 92, de 1945, apresentava a residência em Fortaleza (figura 1.99), projetada em 1942, por Oscar Niemeyer (1907-2012) para
o Sr. Herbert Johnson55 (1899-1978) e outra residência também em Fortaleza, projeto do arquiteto Darcy Bove de Azevedo, na edição de 1950 (figura 1.100), ambas construídas por Sylvio Jaguaribe Ekman.
Ademais da divulgação de sua obra na Revista Acrópole, Sylvio Jaguaribe Ekman atuou como “Consultor Técnico no Ceará” na referida revista, colaborando na curadoria das matérias publicadas na revista entre maio de 1942 a janeiro de 1952.
O espaço na Revista Acrópole, para além da divulgação de suas realizações arquitetônicas, também serviu para Sylvio expor sua vertente mais artística, como no exemplar em que publica uma de suas gravuras feitas à lápis que retratam o Convento de São Francisco em Olinda-PE (figura 1.101). Contudo, é na Revista Habitat que sua atuação como ilustrador ganhou maior volume de publicações.
Figura 1. 99: Casa Johnson. Construída em Fortaleza para o Sr. Herbert Johnson,
projetada por Oscar Niemeyer.
Fonte: Revista Acrópole, nº 92, dec. 1945.
Figura 1. 100: Residência para o Deputado Péricles Moreira da Rocha. Fortaleza, Ceará.
Fonte: Revista Acrópole, nº 147 jul. 1950.
Lançada em outubro de 1950, a Revista Habitat foi periódico especializado em arquitetura, desenho industrial e artes plásticas, fundado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) e seu marido, o jornalista e crítico de arte Pietro Maria Bardi (1900- 1999), ambos de origem italiana. O casal dirigiu a revista até sua edição de número 15, de março e abril de 1954. A revista Habitat foi um dos principais veículos de difusão da arquitetura moderna brasileira, teve um total de 84 edições lançadas e circulou até dezembro de 1965 (CAPPELLO, 2014).
55 Nascido em Racine, Wisconsin, EUA, foi um empresário e fabricante estadunidense, proprietário da fábrica de ceras S.C. Johnson and Son, com sede em Racine, Wisconsin, EUA (MINNER, 2017).
Figura 1. 101: Convento de São Francisco, Olinda-PE. Desenho à lápis de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1942.
Fonte: Revista Acrópole n° 55 - Nov 1942 - Ano 5
As ilustrações de Sylvio Jaguaribe Ekman publicadas na Revista Habitat chegaram a ser tema de pelo menos dois artigos sobre sua obra como artista plástico.
Em um destes artigos, publicado em junho de 1957, são exibidos e comentados seus desenhos feitos como registros de viagens contendo paisagens e cenas do cotidiano (figura 1.102), muitas delas à Paris e no outro, lançado em julho de 1958, são abordadas suas gravuras de jangadas (figura 1.103), todas feitas à nanquim.
A respeito das características dos desenhos como registros de paisagens observadas em viagens feitas por Sylvio Jaguaribe, no artigo publicado em 1957 faz- se o seguinte comentário:
Entre os desenhistas, ‘Testemunhas do seu Tempo’, e que, na expressão de Gérard Bauer, ‘vêem não só o ar e a luz, mas também a alma da época que passa’, existe uma organização objetiva, direta, com a programação real no tempo e no espaço. (...) Não é de estranhar que um artista estrangeiro, uma vez assimilado por aquele meio de disponibilidade e existencialismo, queira abrir seu canhenho e encher-lhe as páginas com anotações. Foi o que fez Sylvio Jaguaribe Ekman. (...) Os desenhos aqui disseminados neste artigo não só significam a manifestação ainda não divulgada de sua capacidade para a sínteses gráfica, como também os qualificam voluntariamente ou não
entre os artistas ‘Testemunhas de seu Tempo’. Não resta dúvida que Sylvio Jaguaribe Ekman ao aclimatar-se, mesmo momentaneamente à atmosfera típica de Montparnasse, de Saint Germain, das galerias de arte, das exposições, dos terraços e recantos de cafés, das rodas de figurativos, abstratos e concretos, não só se enriqueceu com um material local e cosmopolita bem recente e predominante, como também sentiu a necessidade duma atuação. (Revista Habitat, nº 42, maio-junho de 1957).
Figura 1. 102: “Bar tender” Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1956.
Fonte: Revista Habitat, nº 42, maio-junho de 1957.
Figura 1. 103: Jangadeiros. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman, 1958
Fonte: Revista Habitat nº 49, julho-agosto 1958
Na Revista Habitat, Sylvio Jaguaribe Ekman também ilustrou matéria publicada em maio de 1960 sobre a obra de Aleijadinho (1738-1814) (Figura 1.104).
Na outra edição, de março de 1963, expos seu lado escritor, onde além de redigir, ilustrou seu artigo sobre Mestre Vitalino (1909-1963), importante artesão pernambucano que quando da publicação da matéria, havia falecido recentemente.
No artigo, a respeito do processo de elaboração de seu retrato (figura 1.105) Sylvio escreve: “Privei com o Mestre Vitalino e fiquei fazendo esboço de sua figura singular com o seu chapelão preto enquanto êle atendia a clientela e dava o preço dos seus bonecos de barro” (EKMAN, 1963, p. 30).
Figura 1. 104: Os Profetas de Aleijadinho, no Santuário do Bom Jesus, em Congonhas do Campos- MG. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman.
Fonte: Revista Habitat nº 60, maio-junho, 1960.
Apesar da publicação de matérias referentes às artes plásticas, a arquitetura era o principal tema que circulava nas páginas da Revista Habitat e, assim como ocorrera na Revista Acrópole, Sylvio Jaguaribe Ekman também tem suas obras divulgadas em matérias deste periódico.
Durante a segunda metade da década de 1950, a produção de Sylvio Ekman já não era tão constante como nas décadas anteriores, uma vez que neste momento, Sylvio já não mais se dedicava exclusivamente à engenharia. Neste período há apenas duas matérias publicadas na Revista Habitat referentes à sua produção arquitetônica.
Um destes projetos é o do edifício residencial multifamiliar Carlos Ekman, já publicado anteriormente na revista Acrópole de maio de 1951, quando este ainda se encontrava em construção. Desta vez, na Revista Habitat, agora concluído, é publicado em maio de 1955. A segunda publicação deste período que trata de sua
produção arquitetônica ocorreu em julho de 1957, onde trata de uma série de chalés e mirante (figura 1.106) construídas em Campos do Jordão.
Figura 1. 105: Mestre Vitalino. Desenho de Sylvio Jaguaribe Ekman. Novembro, 1962.
Fonte: Revista Habitat nº 71, março 1963.
Figura 1. 106: Mirante em Campos do Jordão.
Fonte: Revista Habitat nº 43, julho-agosto 1957.