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Trançandohistórias

No documento Jaguarari – BA: uma proposta - UEFS (páginas 37-43)

4. Artesanatoetradição

4.1 Trançandohistórias

Durante todo o processo de desenvolvimento da sociedade, o indivíduo demonstrou capacidade de inventar e construir instrumentos que aumentaram a eficácia da ação produtiva.

Esses primeiros instrumentos tiveram origem artesanal, sendo originados no “período neolítico (6.000 a.c.) quando o ser humano aprendeu a polir pedras, produzir peças de cerâmica para armazenar e cozer alimentos, bem como descobriu a arte de tecer fibras de vegetais” (ALCALDE, 2007, p.224).

O percurso de estudos sobre o artesanato propicia traçarmos muitas reflexões, especialmente no caso específico do artesanato de palha, sua origem e seus caminhos. Sabe-se que trançar fibras é um conhecimento que foi ensinado pelos índios, incluindo a construção de esteiras, redes, balaios, chapéus, peneiras e outros. “A grande tradição artesanal que nossos índios nos legaram, o trançado ou a arte de trançar fibras e vegetais, é conhecida e praticada em todo o Brasil” (VALLADARES, 1986, p. 71).

A história do trançado em nosso país, em sua essência, busca manter suas tradições, o que lhe atribui ainda mais significado, pela história que carrega cada peça, cada povo e cada cultura, através do conhecimento que é passado de geração em geração, do trabalho manual, do significado produtivo e econômico.

O desenvolvimento e a organização da sociedade correlacionam-se ao artesanato, pois foi a partir das criações de mecanismos e instrumentos que se possibilitaram as trocas dos produtos.Com o passar dos séculos, o artesanato ganhou um espaço próprio, eram as oficinas, onde um pequeno grupo de aprendizes vivia com o seu mestre-artesão. Este era prestigiado e era responsável por transmitir o saber técnico para as futuras gerações.

Em troca do trabalho voluntário destes jovens o mestre-artesão oferecia conhecimento, vestimentas e comida, era uma forma de ter mão-de-obra barata para construção de seus produtos. Segundo Vallares (1986), o artesanato/produto seria:

[...] o resultado qualificado pela mão-de-obra, pela ação direta do homem em elaborar, em manufaturar. É o compromisso de qualidade do lavor que vai corresponder, para muitos povos, a significação do artesanato. Artesanato seria o feito-a-mão, um toque da qualidade humana acima daquele toque, daquela manifestação do produto que a máquina imprime. (VALLADARES, 1986, p. 14).

O autor enfatiza que a arte é a significação do artesanato e toda arte tem significado relevante que vai além do trabalho artesanal, pois o produto feito manualmente é carregado de sentidos, valores e emoções, que uma máquina nunca poderia expressar, assim, a peça manual é uma das formas mais significativas da cultura de um povo.

Apesar de parecer um trabalho simples, com utilização de elementos básicos, a técnica, para chegar ao produto final, necessita de treinamento, e seu produto precisa ter nível elevado de qualidade. Tais produtos são resultados de trabalho tanto individual quanto coletivo, que exigem habilidade, coordenação motora e revelam a história da cultura de uma sociedade. Assim, o artesão é definidocomo:

[...] trabalhador que de forma individual exerce um ofício manual, transformando a matéria-prima bruta ou manufaturada em produto acabado.

Tem o domínio técnico sobre materiais, ferramentas e processos de produção artesanal na sua especialidade, criando ou produzindo trabalhos que tenham dimensão cultural, utilizando técnica predominantemente manual, podendo contar com o auxílio de equipamentos, desde que não sejam automáticos ou duplicadores de peças. (BRASIL, 2012, p. 10).

Essa cultura, ou dimensão cultural, como o documento acima registra, remete à apresentação do produto artesanal, na maioria das vezes, como um (re) contar da história de uma comunidade, através do trabalho manual que leva, em si, a reafirmação da autoestima do/a próprio/a artesão/ã.

O artesanato agrega o caráter cultural ao econômico. A mobilização da sociedade civil organizada e de instituições governamentais contribuiu no processo de valorização do artesanato através de orientações, execução de projetos e participação em programas, obtendo impactos positivos nos povoados, através da produção artesanal delas, possibilitando também a inclusão social, geração de trabalho erenda.

Observa-se que o Programa do Artesanato Brasileiro – PAB, conforme Decreto nº 1.508/1995, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior que compõe também a Secretaria de Comércio e Serviços, teve como finalidade coordenar e desenvolver atividades que visavam a valorização do artesão brasileiro, elevando o seu nível cultural, profissional, social e econômico, bem como desenvolveu e promoveu o artesanato e a empresaartesanal.

O principal objetivo do PAB é a geração de trabalho, renda e a melhoria do nível cultural, profissional, social e econômico do artesão brasileiro, cabendo ao programa a coordenação e o desenvolvimento de atividades que valorizem o artesão e desenvolvam a sua produção a nível nacional, por meio da elaboração de políticas públicas. (BRASIL, 2012). O artesanato vem conceituado no Programa de Artesanato Brasileiro como:

[...] o produto resultante da transformação da matéria-prima, com predominância manual, por um indivíduo que detém o domínio integral de uma ou mais técnicas previamente conceituadas, aliando criatividade, habilidade e valor cultural, com ou sem expectativa econômica, podendo, no processo, ocorrer o auxílio limitado de máquinas, ferramentas, artefatos e utensílios. (BRASIL, 2012, p. 12).

O artesanato além de ser visto como uma atividade cultural e econômica, apresenta características peculiares que estão associadas à forma como as pessoas se relacionam com a natureza e dela extraem os recursos necessários à sua utilização.

Nestas atividades estão incluídos os fatores sociais e econômicos (trabalho e geração de renda) e fatores culturais, seja na forma de conteúdo do patrimônio material (produtos, utensílios e demais objetos) e imaterial (significados e conhecimentos) [...] (TEIXEIRA et al., 2011, p. 150).

Concorda-se com os autores quando eles afirmam que o artesanato requer muitos atributos que se encontram associados e que as condições caracterizadas como atividade artesanal tem sua relevância na geração de emprego e renda, uma vez que o dinheiro oriundo desse trabalho revela um impacto significativo no orçamento.

4.2. Artesanato em palha: a arte do trançar do povoado de Jacunã .

A história do artesanato no povoado de Jacunã não difere muito do contexto da sociedade em geral. É uma prática realizada manualmente e passada de geração para geração.

O artesanato do povoado, segundo relatos dos moradores, tem influência da cultura indígena.

E por mais que algumas pessoas verbalizem a respeito dessa origem, em Jacunã, as pessoas não atestam essa descendência de etnia.

Apesar do reconhecimento do povoado como remanescente indígena, não existe nenhuma certificação que comprove tal condição de comunidade tradicional. Na região norte da Bahia, microrregião de Senhor do Bonfim, que compõe os nove municípios do Território de Identidade Piemonte Norte do Itapicuru, existem outras comunidades remanescentes indígenas que se configuram neste mesmo contexto de Jacunã. O não reconhecimento, pelo próprio povoado, de sua ancestralidade advém de paradigmas construídos historicamente, imbuídos de preconceitos errôneos sobre a cultura indígena, que faz com que suas pequenas populações neguem e queiram se afastar de qualquer ligação que possa haver com a cultura indígena.

Contrário ao não reconhecimento do povoado de Jacunã quanto a sua ancestralidade, as falas e os relatos dos moradores revelam a cultura indígena como originária de toda história artesanal, cultural e social do povoado. A fabricação de peças de palhas remete à ancestralidadeindígena.

O artesanato de palha, no povoado, começa a ser praticado muito cedo, as mulheres são protagonistas nesta atividade e ensinam as meninas da família, trata-se de uma atividade feminina. A partir dos sete anos de idade, elas são iniciadas por meio da confecção da trança da palha do ariri, após esta etapa a criança ou a adolescente adquire mais experiência com o trançado e é daí que começa a costura e a montagem das peçasartesanais.

Durante as entrevistas com as mulheres da associação, ao se questionar sobre com qual idade elas começaram a desenvolver a atividade com a palha, ficou claro que as mulheres adquirem esse aprendizado na infância, entre 7 a 10 anos de idade, conforme falas abaixo:

[...] com sete anos que a gente aprendia, era bem novinha, a gente ia vendo e aprendia. (Iris, 37 anos, casada).

Desde oito anos que a gente faz a trança, já faz o artesanato, que desde pequena que a gente faz junto com as mães. As mães já botam logo cedo para fazer o chapéu. (Jasmim, 30 anos,casada).

É, porque o trabalho nosso toda vida desde quando eu era pequena de 10 anos em diante eu faço chapéu. Minha mãe nos ensinou, isso já vem da vó, né?! Aí passou pra minha mãe, de minha mãe passou pra mim, aí é só isso que eu faço. (Rosa,49 anos, semunião).

Eu cresci vendo minha mãe trabalhar e nós pequena ela já dava os comecinhos de chapéu pra gente ir tentando aprender né? E aí nós aprendemos e até hoje... (Margarida, 36 anos, casada).

A partir dos relatos e das observações realizadas é perceptível que o conhecimento e a técnica do artesanato com a palha é algo dado como certo na rotina das mulheres do local, uma atividade extensiva aos afazeres domésticos, uma aptidão dofeminino.

As meninas artesãs iniciam a confecção dos produtos para ajudar suas mães, que finalizam os produtos e realizam as vendas. As jovens artesãs só conquistam sua independência financeira e completam a confecção dos seus próprios produtos a partir do momento que adquirem experiência, fase essa que, geralmente, acontece na adolescência, ao casarem ou ainda após a maioridade em que seus ganhos servirão de complemento para renda familiar. Os relatos abaixo expressam o momento em que o artesanato passa a ser uma renda para si mesma e para o grupo familiar.

Mais pra eu mesmo vender, já foi depois que eu me casei. Que eu ajudava o marido fazer a feira para os filhos. (Rosa,49 anos, sem união).

Foi depois que eu possuí minha família, porque quando eu tava na casa de minha mãe era pra ajudar minha mãe. Depois que eu... primeiro, a gente não casou logo, eu peguei gravidez e aí foi que eu comecei trabalhar pra mim, pra meu esposo e pra minha família. (Jasmim, 30 anos,casada).

No início a gente vendia junto com a mãe, o dinheiro ficava com a mãe.

Depois que eu fiquei já de maior eu fazia pra mim. (Iris, 37 anos, casada).

Os depoimentos revelam o sentido do trabalho feminino como uma contribuição no orçamento familiar. Inicialmente o dinheiro das vendas é gerenciado pelas mães e depois, quando da existência de seus próprios núcleos familiares, é remetido para as despesas

domésticas. Geralmente o trabalho artesanal é a única atividade que gera rendimentos para as mulheres do povoado, uma vez que o plantio e a lavoura são incertos devido às frequentes estiagens na região, assim, o trabalho agrícola não tem se desenvolvido de forma positiva, apenas como um meio secundário de subsistência. Observa-se que são poucas as lavouras cultivadas, sendo as mais comuns a horta e o plantio de árvores frutíferas, localizadas nos quintais das casas. Como afirma Rosa (49 anos, sem união): “porque o trabalho de roça, nós trabalha, mais renda minha fia não tem, todo ano nós pelejamos. Todo ano nós pelejamos e perdemos”.

Quanto à comercialização dos produtos, segundo os relatos, ocorre sempre em duplas, ou seja, duas mulheres da associação são encarregadas de levar o material para os municípios vizinhos e feiras livres, contudo, não se constitui em atividade rotineira. As mulheres se reúnem e escolhem quem irá participar do evento, fazendo um rodízio, onde todas podem participar e ajudar umas às outras. O lucro proveniente do artesanato é pouco, mas contribui de forma significativa na economia familiar das artesãs, pois é com este dinheiro que muitas delas suprem as necessidadescotidianas.

Entretanto, o ganho não é só financeiro, há um simbolismo para além do fortalecimento econômico, haja vista o aumento da autoestima e a realização pessoal com a circulação da mercadoria – resultado do produto do seu trabalho; as tomadas de decisões sobre a forma de comercialização, entreoutros.

Nós nos reunimos aqui [Salão da igreja]. Aí nós diz: “cada uma faça suas peças”, aí nós se junta e cada uma vai fazendo suas peças, aí discute quem vai sair. Que vai para tal lugar? É Bonfim? Dia tanto, quem vai? Umas botam o nome. Tem que ser duas, que ninguém quer ir só. Aí uma dá o nome, aquela é responsável por tudo, porque as coisas que vai, pra quando chegar dar conta de quem vendeu, de quem não. Tem que ser tudo anotado, aí repassa o dinheiro quando chega aqui, vai ter que fazer a conta, dividir, ver de quem vendeu e de quem não. Aí nós temos que fazer a conta da despesa, se tomou um suco, se tomou um café, tem que ser dividido com aquele dinheiro. (Margarida, 36 anos,casada)

As atividades de comercialização atendem às necessidades de produção, já que com a renda do artesanato elas realizam a compra da matéria-prima, pagam seu deslocamento e adquirem os materiais que serão utilizados para a confecção dos produtos e, ainda, configura- se como renda familiar.

A matéria-prima utilizada na confecção das peças produzidas pelas artesãs de Jacunã é a palha do ariri, uma planta típica da região norte baiana, mas que pela cultura e manejo

realizado de forma insustentável está em extinção na região do município de Jaguarari, fato que obriga as mulheres artesãs a buscarem as palhas em municípios vizinhos, distantes do seu povoado.

Com o ariri é possível confeccionar diversos produtos de forma artesanal. Em Jacunã as artesãs conhecem a prática da confecção do chapéu, do bocapiu12, da esteira, de bolsas, flores, chaveiros, dentre outros produtos.

O ariri ou licurioba-do-sertão é uma palmeira xerófita, rústica, de apreciável valor econômico. É comum na Bahia, em municípios como Senhor do Bonfim, Itiúba, Jaguarari, Andorinha, Ponto Novo, Filadélfia13 e em outros municípios baianos. Esta planta prefere as terras situadas a 300 metros acima do nível do mar, é endêmica de terrenos arenosos, e que se situam próximos às regiões de caatinga. O ariri14 é uma “palmeira rasteira, de caule subterrâneo. É uma planta que caminha, pois, à proporção que o estipe cresce, a parte aérea muda de lugar” (GOMES, 2007, p.103).

A importância do ariri para as famílias do povoado de Jacunã é notória, ele é fonte de renda e faz parte da cultura local desde a origem do povoado, um conhecimento que é transmitido por gerações. Contudo, o manuseio do ariri precisa ser revisto pelas próprias artesãs e todo o povoado, pois o corte desenfreado e a inexistência do replantio da espécie afeta diretamente a economia e a cultura de Jacunã, impactando negativamente na flora regional. As artesãs e os moradores locais devem pensar no replantio da espécie para que as futuras gerações não venham sofrer com a extinção do ariri.

Em Jacunã, o artesanato não é só fonte de renda, é característica da cultura do povoado, de grupos familiares. O trabalho com a palha do ariri não é apenas um ciclo, um conhecimento que é passado de mãe para filha, mas correlaciona-se com a história de um povo.

5.Cotidiano da produçãoartesanal

5.1 Conhecendo os saberes – primeiraoficina.

12 Espécie de sacola confeccionada com a palha.

13 Municípios que compõem o Território Norte do Itapicuru.

14Cada palmeira do ariri, em condições de zelo produz até uma dezena de cachos por ano. Cada cacho contém dezenas de frutos que pesam cerca de 4 a 6 gramas cada. A polpa externa dos frutos é apreciada por herbívoros que se alimentam durante o dia e à noite fazem o processo de ruminação expelindo os coquinhos facilitando assim a disseminação da espécie. As palmeiras têm grande importância econômica pelos diferentes produtos que delas podem ser obtidos. A depender da espécie, estas palmeiras fornecem madeira de construção, folhas e talos para a cobertura de moradias e cercas de quintais e para a fabricação de esteiras, cordas, sacos, cestos, chapéus, etc. (GOMES,2007, p. 103-104).

Esta pesquisa-intervenção foi desenvolvida com a proposta de atender às integrantes da Associação do Povoado de Jacunã, estimular a qualificação da produção e a ampliação da comercialização dos seus produtos. Este grupo desenvolve as atividades desde o ano de 2008 e se destaca dentre as outras produções artesanais por sua organização e produção de qualidade.

Neste capítulo será retratada outra parte do trabalho de campo, as oficinas realizadas com as mulheres da Associação de Artesãs de Jacunã. Paralelo a isso, analisar-se-á as entrevistas, realizadas antes dessa etapa. Por meio dos relatos e narrativas das mulheres instigou-se uma perspectiva para a construção de novos saberes. Fortaleceu-se a identidade artesanal da atividade desenvolvida, historicamente, por elas no Povoado, a organização coletiva; o estudo e a reflexão dos processos e etapas da confecção dos produtos; por fim, desenvolveu-se um material que ajudará na divulgação e ampliação dos produtos confeccionados pelas artesãs.

Já para a preparação das oficinas, foi necessário organizar uma mobilização que propiciou um primeiro contato com as artesãs. As atividades aconteceram por meio do apoio da ex-presidente da Associação e Agente Comunitária de Saúde de Jacunã, nesse contato conversou-se a respeito do projeto que seria desenvolvido com as integrantes da associação e foi acordada uma parceria para os demais encontros com todas as mulheres. Essa senhora se prontificou em agendar a reunião, bem como fazer a entrega dos convites (Apêndice 02) que foram confeccionados com informações sobre a atividade.

Após a mobilização as artesãs se reuniram para a apresentação da proposta do projeto de intervenção. Nesse encontro houve a presença de sete artesãs. Com isso, foram dadas as boas vindas e feito uma pequena apresentação pessoal. Em seguida, foi apresentado o projeto, especificando seus objetivos e o produto final que resultaria em um catálogo de produção.

Após a concordância em participar do projeto, montou-se um cronograma de atividades.

O primeiro encontro, assim como os demais, aconteceu no salão da igreja católica, visto que é um espaço onde as artesãs já se reuniam para fazer seus trabalhos, uma vez que ainda não possuem sede própria da Associação. Os horários das reuniões foram sempre no período vespertino, pela disponibilidade das mulheres, que são donas de casa e, durante o período da manhã, realizam atividades domésticas. É também durante a tarde que confeccionam o artesanato.

Nesse primeiro encontro foi realizada uma avaliação de como estava a organização da Associação e a interação das artesãs, para isso se utilizou como técnica uma dinâmica de

entrosamento e o quadro dos saberes, o objetivo era visualizar as dificuldades e fortalezas, como também adquirir conhecimento sobre o perfil da Associação.

Para a construção do quadro (Figura 3) as mulheres da associação foram preenchendo as lacunas com informações a partir dos seguintes questionamentos: Quem somos? O que queremos? Quais as principais dificuldades que vivemos? Quais os avanços? O que precisamos para avançar?

Figura 3: Construção do quadro do diagnóstico da Associação.

Fonte: Trabalho de campo, novembro de 2015, Jacunã- Jaguarari -BA.

No início, as respostas estavam sendo feitas verbalmente, pois todas estavam tímidas, algumas se recusaram a escrever no quadro. Então, nesse momento, houve uma intervenção ressaltando a importância de todas participarem do processo. No entanto, durante todo o encontro, somente duas artesãs foram até o quadro para escrever as respostas.

Após o preenchimento, o quadro foi analisado e, a partir das respostas, as mulheres pontuaram algumas questões, sendo uma delas: a necessidade de cursos para aperfeiçoamento das técnicas já desenvolvidas. De acordo com as artesãs: “Não só de cursos novos, mas precisamos é praticar, porque se a gente não praticar vamos esquecer... A gente precisa usar nossas bolsas, ninguém usa, só eu. Como é que o povo vê nosso trabalho? ” (Margarida, 36 anos, casada).

Um aspecto observado nas falas das artesãs durante a oficina foi que elas produzem suas peças e não as utilizam, dificultando, assim, a divulgação, exposição e valorização do trabalho realizado. Durante o debate, a partir dos aspectos destacados no quadro, as artesãs perceberam a necessidade de usarem seus próprios produtos e, com isso, fortalecerem a divulgação do material.

Apesar de falta de capacitação continuada, o grupo de artesãs vem, aos poucos, se superando e através do seu esforço tenta dar continuidade no seu trabalho, incluindo a busca de parcerias governamentais e não governamentais. Os relatos demonstram que ogrupo conseguiu, através da associação e do trabalho coletivo, uma capacitação inicial promovida por algumas ONGs e equipamentos que enriqueceram ainda mais seus instrumentais de trabalho, em que podemos perceber segundo as falas obtidas através das entrevistas realizadas, durante o trabalho decampo:

Porque a gente já sabia a trança e tudo, então nos queria o curso de designer para se aperfeiçoar mais no artesanato... as flores mesmo a gente aprendeu com ele [instrutor do curso de designer]. (Angélica, 56 anos, com união).

A gente fez uns cursos do SEBRAE e os outros cursos foi do instituto Mauá, junto com a prefeitura. (Azaleia,40 anos, casada).

A gente já aprendeu mais coisa diferente depois da associação, a gente sabe fazer mais coisas diferentes, bolsas, esteira, tudo umas coisinhas mais bonitinha que a gente faz pra vender. (Iris, 37 anos, casada).

[...]ganhamos uma máquina num sabe, pra gente aprender a costurar.

(Gardênia, 59anos, casada).

Por outro lado, a associação enfrenta dificuldades internas, limitações quanto à capacidade de gerenciamento, que apesar de exercer um trabalho essencialmente coletivo, acaba por colocara maior responsabilidade em uma das mulheres artesãs, com relação às atribuições que todos têm no grupo.

Às vezes fica tudo numa pessoa só, no caso a Carmélia. Fica tudo nas costas da Carmélia, quando vem uma coisa, só corre pra Francisca, aí fica difícil do trabalho ir pra frente, né?! De uma associação ir pra frente, porque só esperam por uma ou duas, aí a coisa fica puxado. (Jasmim, 30 anos, casada).

Em seguida a descrição do quadro realizado pelas artesãs durante o primeiro dia de oficina:

No documento Jaguarari – BA: uma proposta - UEFS (páginas 37-43)

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