• Nenhum resultado encontrado

2.4 UMA HEGEMONIA ESTRUTURAL

2.4.1 Trecho em obra

Congruentes com a relação de indução mútua entre o crescimento urbano e a ampliação do sistema viário, novas obras estruturantes seguem em construção em direção àquelas que se tornaram as principais zonas de expansão imobiliária de Maceió, embora, em grande parte já esteja liberada a circulação de veículos.

Nesse sentido, para conectar a chamada parte alta da cidade com o litoral norte de Maceió, foi inaugurada em abril de 2022 a Ecovia Norte, agora denominada Rota do Mar (Figura 52), ligando os bairros do Benedito Bentes e Guaxuma. Com quase 6 km de extensão, a rodovia conta com corredores de acesso aos bairros Antares, Serraria e São Jorge, após um investimento de R$ 26 milhões (PREFEITO JHC, 2022).

Figura 52: Rota do Mar

Fonte: Gazeta de Alagoas, 2022.

Por sua vez, segue em ritmo acelerado a construção da avenida Alice Karoline, no bairro Cidade Universitária, que visa ligar a localidade à avenida Menino Marcelo, através de uma via com 4,5 km de extensão. Uma obra viabilizada com recursos do fundo de US$ 70 milhões provenientes da Corporação Andina de Fomento (CAF) e que teve um trecho de 480 metros entregue em fevereiro de 2022 (PAULINO, 2022).

Ainda nessa região, mas em fase de acabamento e com o tráfego já liberado, a rodovia AL-405 foi implementada com o objetivo de direcionar os turistas que chegam pelo Aeroporto Zumbi dos Palmares rumo às cidades do litoral norte de Alagoas sem a necessidade de transitar por dentro de Maceió. Embora os pontos de origem e destino acabem sendo fora dos limites municipais, o contorno da AL-405 contempla o bairro Cidade Universitária em direção à avenida Cachoeira do Meirim no Benedito Bentes.

Também tendo como um dos intuitos o fortalecimento do turismo no litoral norte do Estado, o Governo de Alagoas autorizou em 2021 a continuidade da duplicação da AL-101 Norte no trecho entre o bairro de Garça Torta e o município de Barra de Santo Antônio. Contando com um investimento na ordem R$ 285 milhões, esse segmento com 28 km de extensão terá um novo traçado, não mais em paralelo à via existente, sendo então prevista a implementação de novos acessos aos aglomerados urbanos de Riacho Doce e Ipioca, por exemplo (HOLANDA, 2021).

Entretanto, enquanto novos projetos são concebidos, antigos ainda não tiveram sua conclusão, tal como o Eixo Viário do Vale do Reginaldo, que teve suas obras paralisadas em 2009 devido a alterações projetuais que suspenderam o envio de recursos. Uma proposta de urbanização que contemplava, além de pavimentações, a implementação de infraestrutura de drenagem e a entrega de habitações à população carente, mas que após diversos anúncios de retomadas e novos prazos de entrega, permanece com as obras inacabadas até então (MORADORES DO VALE, 2015).

Da mesma forma, à medida que novas vias seguem sendo construídas, outras passam por um intenso processo de deterioração. Com o avanço das desocupações de imóveis na área de resguardo sob risco de desestabilização do solo, ruas dos bairros afetados pelo fenômeno de subsidência atingiram um elevado estágio de desertificação. Provavelmente, o caso mais emblemático seja o da avenida Major Cícero de Góes Monteiro, no bairro do Mutange, integrante de um dos principais eixos viários da planície lagunar, na qual um trecho de quase 2 km entre os bairros de Bebedouro e Bom Parto está interditado desde março de 2020 (MUTANGE, 2020).

Devido a essa interdição recomendada preventivamente pela Defesa Civil de Maceió, e que se estendeu à linha férrea instalada no segmento em questão, rotas alternativas

ao mais importante corredor de transporte da localidade foram viabilizadas para dar vazão ao fluxo de veículos e à demanda dos modais coletivos que transitavam pela região. Com isso, trechos do chamado Eixo Cepa foram liberados para tráfego antes mesmo da abertura do novo eixo viário em sua totalidade (HOLANDA, 2020).

E assim como o já citado Eixo Quartel, o Eixo Cepa também foi idealizado como uma alternativa viária paralela à avenida Fernandes Lima. Com início no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), o Eixo Cepa tem sua implementação prevista na forma de um binário com 9 km extensão entre os bairros Gruta de Lourdes e Farol, contando com a construção de novos trechos, tal como a via que corta o Hospital Portugal Ramalho. Uma obra que foi embargada em 2018 devido aos danos em Área de Preservação Permanente (APP), sendo retomada após ser firmado um Termo de Ajuste de Conduta entre a Secretaria de Estado de Transporte e Desenvolvimento Urbano (Setrand) e o Ibama para a elaboração de um Projeto de Recuperação de Área Degradada (OBRAS DO EIXO, 2018).

A degradação causada pela implementação do Eixo Cepa é apenas um dos exemplos de impactos provocados, direta ou indiretamente, por essas obras de ampliação do sistema viário, muitas das quais não estavam previstas pelo Plano Diretor, o que denota ao descompasso entre o idealizado pelos planos e o praticado pelas gestões de que se trata essa investigação. Bem como, reforçam a predileção à circulação automotora nos investimentos públicos referentes à mobilidade urbana em Maceió, a qual também se mostrou induzida em virtude do ambiente construído na cidade.

Tendo em vista, que o processo de urbanização de Maceió no período em questão sustentou, além da sua histórica propensão ao espraiamento urbano, uma produção verticalizada de acordo com os parâmetros urbanísticos pouco restritivos das legislações que disciplinam o urbanismo municipal, no que se refere ao espaço dedicado à acomodação dos automóveis. Um panorama que, associado ao fato dos modais ativos e coletivos não terem sido contemplados de maneira proporcional a tais investimentos viários (Figura 53), vai no sentido oposto ao de não estimular o uso de veículo motorizado particular e reverbera em efeitos adversos que transcendem os aspectos ambientais, conforme será discutido no próximo capítulo.

Figura 53: Mapeamento dos projetos previstos, obras em andamento e vias recém-inauguradas.

Fonte: Google Earth, 2022 (adaptado pelo autor).

CAPÍTULOIII

VIAS DE FATO

Nós perdemos a capacidade de entender como a complexidade do espaço urbano está falando com a gente. Quando um carro potente está travado no trânsito, sendo ultrapassado por uma bicicleta, isso quer dizer que a cidade falou. A cidade tem fala, tem discurso e essa capacidade dela tem o poder de nos tornar mais sujeitos.14

Saskia Sassen

Este capítulo trata das externalidades negativas provocadas pela predileção ao automóvel no ambiente urbano de Maceió, estimulada, em grande medida, pelos aspectos legais, residenciais e infraestruturais discutidos previamente, trazendo observações sobre potenciais adequações no sistema viário que corroboram a diretriz de Mobilidade em estudo. Dessa forma, expõe como as intervenções em prol dos modais ativos e coletivos, realizadas após o Plano Diretor de 2005, se deram dentro de um contexto em que a circulação automotora se manteve predominante, a influência dessa conjuntura na dinâmica populacional e os danos socioambientais inerentes a esse modelo de mobilidade, além de alternativas elaboradas de acordo com os princípios do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS).