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2.4 A(s) universidade(s) que habitamos

2.4.2 UEZO

O Centro Universitário Estadual da Zona Oeste – UEZO é a única universidade pública situada na zona oeste do estado do Rio de Janeiro. Em 2022, a instituição foi incorporada à UERJ. A Lei 9.602/2022 estabelece que a UEZO será o novo Campus UERJ - Zona Oeste. Com essa mudança, a ex-reitora, Luanda de Moraes, acredita que “os estudantes estarão mais tranquilos e felizes por saberem que existe possibilidade de auxílios para sua permanência na universidade”51. A partir dessa transformação, muitas mudanças estruturais irão acontecer nas dependências da instituição. Como a pesquisa foi realizada antes dessa alteração, decidimos publicar os dados encontrados, mesmo que a instituição tenha alterado a sua categoria.

Após mandar e-mails para distintos departamentos, sem obter um encaminhamento, ao solicitar as informações necessárias através do Serviço Eletrônico de Informação ao Cidadão (e-SIC.RJ)52, obtive respostas. A devolutiva foi uma das mais completas dos contatos que realizei. Com a descrição do corpo docente por gênero, autodeclaração racial e unidade de trabalho. Desse modo, consideramos a relevância de trabalhar com esses dados. Este seria um retrato de sua antiga, mas recente realidade. Abaixo, a tabela com os dados de gênero e autodeclaração racial do corpo docente da antiga UEZO.

51 Trecho da entrevista da ex-reitora para o site da UERJ. Disponível em:

<https://www.uerj.br/noticia/incorporacao-da-uezo-a-uerj-vai-garantir-ampliacao-da-oferta-de-ensino-superior- publico-na-zona-

oeste/#:~:text=E%2C%20ao%20mesmo%20tempo%2C%20os,e%20a%20evolu%C3%A7%C3%A3o%20na%2 0carreira>. Acesso em: 14 jun. 2022.

52 O sistema pode ser acessado através do site http://www.esicrj.rj.gov.br/. O portal possibilita o acompanhamento da administração dos recursos públicos referentes ao Estado do Rio de Janeiro.

Tabela 2 - Corpo docente da UEZO

Fonte: informações fornecidas pela Coordenadoria de Recursos Humanos da UEZO, 2021.

Vários pontos de análises podem surgir com base na tabela. Primeiramente, como já pontuamos, as informações dos censos acerca da autodeclaração racial podem não ser homogêneas, o que dificulta análises mais densas53. Diferente das outras tabelas com o mesmo tema, ao invés das categorias em cor/raça: preta e parda, vemos negras/os e parda. O que poderíamos inferir seria que a categoria “preta” ocuparia o lugar de negras/os, contudo, como já argumentamos, a classificação parda gera um debate multifacetado e a divisão apresentada no esquema anterior seria um obstáculo. Por exemplo, mesmo sendo pessoas pardas, algumas poderiam optar por sinalizar a categoria negras/os, visto que, também abarcaria sua autodeclaração racial.

Em diálogo com essa questão, a experiência da professora Fabiana elucida nossa problematização, pois ela comenta o seguinte: “eu sempre soube que eu era negra. Estudar numa escola privada não te faz ter dúvida nenhuma, mesmo sendo de pele clara.” Sendo assim, a docente afirma sua vivência como uma mulher negra de pele clara e como o racismo não a exclui. Pessoas negras com a mesma tonalidade, contudo, poderiam não se incluir na categoria negras/os, pois não se identificam ou ainda sentem dúvidas em se reconhecer e serem reconhecidas por pares como pessoas negras.

Mesmo com essa distinção, podemos concluir que a única população não branca presente no corpo docente seria a população negra. Levando em consideração o alto número de docentes sem a declaração racial. Tal particularidade se repetiu nas outras investigações. Depois de reflexões sobre o tema e diálogo com representantes das instituições, diversas hipóteses são possíveis, desde a escolha facultativa do não preenchimento dos formulários até a não atualização ou engajamento por departamentos nos novos sistemas de dados. Mesmo com altos índices de ausência da declaração racial, a população branca é a predominante em todas as

53 Abordamos essa discussão no segmento 1.3 Problemas de identidade.

universidades investigadas. A seguir, um gráfico com o percentual aproximado do corpo docente que autodeclarou seu pertencimento racial.

Gráfico 1 - Autodeclaração racial divulgada do corpo docente da UEZO

Fonte: gráfico produzido pela autora, 2022.

Como podemos observar, a população negra chega a cerca de 20% do total, um número muito inferior se compararmos com a população branca. Ressaltamos também a ausência das populações amarelas e indígenas do quadro da autodeclaração. Quando direcionamos nosso olhar para a tabela acerca das intersecções de gênero e raça, mesmo com uma diferença tão pequena, mulheres negras estão presentes em um número maior do que os homens negros. Já as mulheres brancas estão em um número inferior aos homens brancos.

Segundo pesquisa recente, “percebe-se que, entre as mulheres de 15 a 17 anos, 76,4%

estavam frequentando o ensino médio, porém, entre os homens desta idade, a taxa foi de 66,7%

(PNAD, 2019, p.8), ao verificar o marcador racial conferiu-se que “a taxa ajustada de frequência escolar líquida ao ensino médio foi 79,6% para as pessoas brancas, enquanto para as pessoas pretas ou pardas, 66,7%”. Por mais que os dados não nos mostrem um atravessamento direto entre sexo e cor, verificamos que o contingente de homens negros, provavelmente, sofre com a evasão do ensino médio de maneira diferenciada, algo que podemos refletir sobre a sua baixa participação nos quadros da docência universitária.

O genocídio da população negra provocado, em particular, pela violência policial também merece ser apontado em meio às estatísticas de exclusão de cargos de prestígio. A partir do relatório Pele-alvo: a cor da violência policial (2021), destacamos que com uma população de 51,7% de pessoas negras, no estado do Rio de Janeiro, 86% das pessoas

assassinadas pela polícia são negras54. Esses crimes, que muitas vezes acabam sem uma resolução, demonstram, mais uma vez, o racismo institucionalizado que também provoca ausências e silenciamento de projetos de vida.

Importante ressaltar alguns dados compartilhados das cincos unidades da instituição, isto é: Unidade Universitária de Computação - UCOMP, Unidade Universitária de Biologia - UBIO, Escola de Engenharias - EENG, Unidade Universitária de Farmácia - UFAR e da Unidade Universitária de Construção Naval - UNAV. A área da computação contava com 17 docentes, nenhuma dessas pessoas se autodeclarou negra ou parda, conforme divisão da tabela enviada pelo órgão responsável. Isso significa que, provavelmente, a unidade detinha um grupo docente formado apenas por pessoas brancas. Problematizando esse cenário, podemos inferir a existência de campos do conhecimento acadêmico “que funcionam sem que tenha havido nenhum questionamento político ou legal, em regime de completo apartheid” (CARVALHO, 2007, p.32) sobre a conjuntura de seu quadro funcional.

Ao analisarmos a presença de professoras negras e pardas e professores negros e pardos em outras unidades, pontuamos que as áreas da Biologia e da Farmácia contavam com apenas uma mulher negra em seu departarmento, representando assim o total de sua população não branca declarada. Já na Unidade da Construção Naval temos somente dois homens pardos constituindo esse contingente. O melhor cenário é encontrado na Escola de Engenharias, pois mulheres negras e pardas e homens negros e pardos estão presentes.

A conjuntura detalhada, anteriormente, sustenta o argumento de intelectuais que apontam para a solidão dos corpos negros nesse ambiente enquanto docentes (hooks, 2019;

RATTS, 2006). Na pesquisa de Eliana de Oliveira, Mulher negra professora universitária:

trajetória, conflitos e identidade (2006), a pesquisadora nota, na fala das docentes que entrevistou, a urgência da criação de laços de solidariedade no ambiente de trabalho. Dessa forma, conclui que “a professora negra não conta com uma rede de relacionamentos, composta por profissionais negros, que possa ser convertida em determinada quantidade em capital social” (OLIVEIRA, 2006, p.75). Podemos elaborar essas hipóteses sobre o cenário apresentado pela UEZO.

No documento Camila Santos Pereira Vozes que importam (páginas 97-100)