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2.4 A(s) universidade(s) que habitamos

2.4.4 UFRJ

A Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ é considerada uma das mais antigas do país e a primeira estabelecida pelo governo federal, em 1920. A instituição possui mais de 65 mil estudantes e notoriedade como uma das mais premiadas e concorridas do Brasil. Em 2021, a maior universidade nacional federal anunciou a crise orçamentária que está enfrentando.

O vice-reitor Carlos Frederico Leão Rocha relatou ao G1 que com o financiamento atual do Ministério da Educação (MEC) não teriam condição de manter a instituição. Tal precariedade

origina-se com os cortes do governo federal55.

Importante ressaltar a atuação social e científica exercida pela UFRJ, comportando 9 unidades de hospitais e institutos de atenção à saúde, 13 museus, entre outras construções56. A crise de desmantelamento dos estabelecimentos de ensino e pesquisa brasileiros se estende ao longo do território e com a pandemia da Covid-19, mesmo com o protagonismo dos mesmos, a negligência continua imperando. Desse modo, pontuamos, novamente, que a investigação e a problematização de determinadas estruturas das instituições públicas do ensino superior surgem com o objetivo de impulsionar e desvendar estratégias de discriminação que persistem entre os corredores, os grupos de whatsapp e as salas virtuais de aula e reuniões, para que um ambiente democrático realmente se consolide.

Devido à pandemia, todos os setores universitários precisaram estabelecer novas maneiras de atender o público. Entendi que o método utilizado pela UFRJ foi centralizar no sistema da PR4 - Pró-reitoria de Pessoal, um atendimento virtual, com descrição do requerimento e retirada de ticket. Após várias tentativas e longa espera, sem nenhuma previsão exata ou um encaminhamento mais direcionado, não obtive resposta sobre o corpo docente. O sobrecarregamento de departamentos, durante a pandemia, aumentou muito o tempo e diminuiu bastante a disponibilidade para atender a pedidos externos, pois as demandas internas multiplicaram-se, como relatado durante as interações com representantes das universidades.

Levamos essa conjuntura em consideração nesta pesquisa.

Quando uma matéria foi compartilhada no grupo de pesquisa geni falando sobre a criação de um coletivo de pessoas negras docentes da UFRJ, guardei a referência para análises futuras57. Com a falta de devolutiva da Universidade, entrei em contato com o professor Vantuil Pereira, um dos idealizadores do Coletivo de Docentes Negros da UFRJ, originado em março de 2021. Ao dialogarmos, o pesquisador apontou que estava produzindo uma pesquisa mais densa sobre a população docente da instituição, pois ainda não havia uma oficial. Após alguns meses, entrei em contato novamente. Em seguida, estarão dispostos os números disponibilizados pelo professor da primeira etapa da pesquisa “Traçando o Perfil Étnico-

55 BARREIRA, Gabriel. UFRJ detalha crise após bloqueio de verba e cita risco de fechar: 'Não dá para manter', diz vice-reitor. G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/05/12/ufrj-detalha-crise- apos-bloqueio-de-verba-e-cita-risco-de-fechar-nao-da-para-manter-diz-vice-reitor.ghtml>. Acesso em: 17 abril.

2022.

56 Para mais informações sobre o histórico da UFRJ, disponível em: <https://ufrj.br/a-ufrj/sobre-a-ufrj/>. Acesso em: 17 abril. 2022.

57 ALMEIDA, Liz Mota. Preta de orgulho: nasce coletivo de docentes negros. ADUFRJ. Disponível em:

<https://adufrj.org.br/index.php/pt-br/noticias/arquivo/80-atual/3664-preta-de-orgulho-nasce-coletivo-de- docentes-negros>. Acesso em: 17 abr. 2022.

Racial/Gênero dos Servidores Docentes e Técnico-Administrativos em Educação da UFRJ”

(2022), em colaboração com a Pró-Reitoria de Pessoal, o NEPP-DH e a Ouvidoria da UFRJ.

Tabela 4 - Corpo docente da UFRJ: Magistério Superior

Fonte: Traçando o Perfil Étnico-Racial/Gênero dos Servidores Docentes e Técnico-Administrativos em Educação da UFRJ, 2022.

A tabela acima representa o número geral de docentes permanentes da categoria do Magistério Superior, ou seja, nesse levantamento excluiu-se o montante que contabiliza docentes da categoria substituta e do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT), das duas sedes do Colégio de Aplicação da Universidade. A partir da tabela, verificamos que a UFRJ possui o menor percentual de docentes que não declararam cor/raça, portanto, teríamos um retrato mais próximo do contexto atual. Com base no material das pessoas que declaram seu pertencimento racial, percebemos que em torno de 15% do corpo docente é composto por pessoas não brancas e 85% por pessoas brancas. A pesquisa do professor Vantuil Pereira toma contornos mais aprofundados, pois ao elaborar um questionário específico para trabalhar com as questões raciais, temos uma distinta ferramenta para analisar o quadro do magistério.

Adiante, introduzimos os aspectos ressaltados em sua pesquisa.

Tabela 5 - Corpo docente da UFRJ: Magistério superior, docentes substitutas/es/os, EBTT

Fonte: Traçando o Perfil Étnico-Racial/Gênero dos Servidores Docentes e Técnico-Administrativos em

Educação da UFRJ, 2022.

Os dados da tabela 5 são referentes ao questionário produzido pelo professor Vantuil Pereira e aplicado entre 2020 e 2021, através da Superintendência de Tecnologia da Informação da UFRJ58. Como a população é distinta da tabela 4, em virtude da adição de docentes que atuam na substituição e no Colégio de Aplicação, algumas pontuações são necessárias. Ao unir os três grupos, o total docente seria próximo de 4619 profissionais. Desse quantitativo, 1389 responderam o questionário, ou seja, cerca de 30% do total. O engajamento com a temática pode ser um marcador de interesse ao responder à pesquisa ou não. Também ocasionando, hipoteticamente, o baixo número de respostas.

Um aspecto que dialoga de alguma forma com nossas afiliações ético-político- epistemológicas, presente no questionário, é a inclusão de uma identidade de gênero que não seja apenas a feminina e a masculina. A inclusão da categoria “outro”, ao menos possibilita a inscrição e o reconhecimento de docentes que não se identificam na divisão binária de gênero.

Elemento este ausente em todos os documentos sobre a população docente pesquisados, mesmo que os dados sobre as identidades de gênero tenham sido extremamente mais acessíveis, praticamente, obrigatórios, apenas duas identificações eram possíveis: a feminina e a masculina.

Como pontua a pesquisadora Letícia Nascimento (2021, p.106): “nos jogos de gênero, não há gênero original, mas uma incansável produção das diferenças”.

Nos contextos que já foram apresentados, da UENF, da UEZO e da UNIRIO, notamos a falta de mulheres asiáticas e indígenas no quadro docente. Já na UFRJ constatamos a maior presença dessas populações, até mesmo igual ou superior ao contingente masculino, algo que não irá se repetir na próxima análise, da UERJ. Desse modo, algumas interrogações surgem:

estariam as mulheres mais propensas a engajar-se nesse tipo de pesquisa/questionário? Quais seriam os diferenciais da UFRJ que proporcionam esse distinto cenário? Seria devido ao expressivo número total de docentes ou a políticas e iniciativas específicas? Tais respostas carecem de maior tempo para o seu aprofundamento, o que pode suscitar investigações posteriores.

No documento Camila Santos Pereira Vozes que importam (páginas 102-105)