Ao buscarmos referências sobre o surgimento do selo na História, acabamos por des- cobrir indícios de um longo caminho a ser percorrido, a despeito de valiosas contribuições de estudiosos da sigilografia, o estudo descritivo do selo – não o empregado pelos correios, mas, o selo-carimbo como marca de propriedade – cujo início de emprego nos remete a uma distância considerável de nossos dias.
Do latim sigillum (selo) e do grego graphien (descrever), a sigilografia é um ramo da arqueologia e da diplomática, cuja finalidade é o estudo dos selos. Por considerar que os pri- meiros selos usados eram encavados em castões de anéis, a outra palavra para denominar essa ciência é esfragística (do grego sphragistikê: castão de anel). A palavra sigilo, tão usada na atualidade, tem origem no fato de que o selo era aposto em documentos para torná-los secretos, passando o termo a ser usado, por extensão, ao próprio segredo.
Apesar de termos consultado bibliografia específica sobre esse tema da maior relevância como ciência auxiliar da História, encontramos em Noções de Sigilografia, de Jenny Dreyfus1 os aportes didáticos e necessários de que precisávamos para que, complementado por outras fontes, esboçássemos uma pequena introdução sobre o nosso selo nacional, de que trata os arti- gos 9º e 27 da Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971.
Como ler e escrever eram privilégios de poucos, o selo era uma marca particular ou institucional destinada a autenticar documentos. O timbre era estampado sob pressão, primeira- mente em cera e mais tarde em lacre, este mais usado com os sinetes.
Usado desde tempos remotos como marca pessoal, o selo veio a encontrar seu ápice na Idade Média, com destaque para a França, seguida pela Inglaterra, Itália e Alemanha, tendo caído em decadência para autenticação de documentos no Século XVI, com a vulgarização do uso da assinatura autógrafa, isto é, os atos selados foram aos poucos dando lugar aos atos assi- nados, mas, mesmo assim, passaram a coexistir com o uso da assinatura, o que garantia dupla autenticidade aos documentos.
Podemos então dizer que o selo foi durante largo tempo, o testemunho não só dos direitos como de presença individual. Em poucas palavras diremos, se nos permitirem a expressão, “o selo foi a carteira de identidade da época”
(DREYFUS, 1969, p. 8).
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1. DREYFUS, Jenny. Noções de Sigilografia. Rio de Janeiro:Ministério da Educação e Cultura. Museu Histórico Nacional, 1969.
Com a organização das sociedades, o selo passou da esfera pessoal, familiar e da reale- za, para dar lugar à representação do próprio Estado, como sinal de autenticidade, coexistindo com outros, como os de oficiais de justiça, da Igreja e de algumas autoridades relevantes, o que levou à distinção entre o grande selo (sigillum magnum), usado para as cartas seladas em pre-
presença do chanceler guarda do selo e de outros oficiais reais; e o pequeno selo (sigillum par- vum) para o dignitário que tinha a guarda do selo numa corporação ou numa ordem.
Na Bíblia Sagrada encontramos diversas referências ao selo, como no capítulo 12 de Daniel, versículo 4: “Tu, porém, Daniel, tem fechadas estas palavras, e põe o selo no livro até o tempo determinado”. Ainda sobre religião, lembramos que o famoso “anel do pescador” era usado como um sinete até 1842 para selar documentos oficiais assinados pelo Papa, pressionan- do-se o anel no lacre de cera vermelha derretida, prática hoje substituída por um carimbo com tinta carmim.
Destacamos também que a rainha Jezabel, conhecida pelos leitores da Bíblia como a esposa ímpia e manipuladora do rei Acabe, e uma das piores vilãs do Antigo Testamento, teve sua existência comprovada recentemente, por meio de seu selo pessoal identificado pela pes- quisadora holandesa Marjo Korpel, especialista da Universidade de Utrecht, após avaliação da peça adquirida por um arqueólogo israelense num mercado de antiguidades2.
Figura 134: O anel sigilar de Jezabel.
Fonte: http://www.elnet.com.br/news_interna.php?materia=2997
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2. Fonte: CHAVES, Viviane. O anel real de Jezabel. Especialista descobre sinete usado pela rainha Jezabel, figura bíblica. Disponível em: < http://www.elnet.com.br/news_interna.php?materia=2997>. Acessado em 22/06/2010.
Com relação à composição dos principais selos, os castões de tais anéis sigilares conti- nham entalhes com ilustrações e inscrições invertidos que, uma vez aplicados aos documentos,
“que surgiram muito antes da invenção da assinatura” (DREYFUS, 1969, p. 12), conferiam-lhe autenticidade e, muitas vezes, autoridade suprema e divina, já que poder e religião confundiam- se em alguns momentos da História.
Sobre tais entalhes, que os gregos transformaram em obras de arte, estes eram aplica- dos em cera quente, cujas formas e dimensões variavam de acordo com a região e reino, tendo prevalecido os formatos redondo, ogival e oval, tendo como materiais mais usados ouro, prata, bronze, estanho, chumbo, ferro e, por fim, vidro, com a marca das autoridades: efígies, brasões, monogramas, mandalas, cruzes, animais (mitológicos e fantásticos) e vegetais.
Sobre os selos portugueses, quem os concebeu na forma que hoje o conhecemos foi o rei D. Dinis, em 1305. Decretou ele que, para que um documento tivesse validade e se reconheces- se como verdadeiro, deveria ser escrito por tabeliães, autenticado com o carimbo-selo da cidade ou vila e feito na presença de cinco testemunhas. Os carimbos-selos dos concelhos, como eram chamados, deveriam conter palavras régias, sinais reais, o nome de D. Dinis e o nome da cidade ou vila. O carimbo-selo ficava na posse de um “homem-bom” nomeado pelo rei, sob juramento de fidelidade sobre os “Santos Evangelhos”3.
Figura 135: O selo de D. Dinis.
Fonte: http://www.numismatas.com/phpBB3/viewtopic.php?f=96&t=4741&start=60.
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3. Fonte: <http://www.carimbosreal.com.br/historia.html>. Acessado em 02/04/2010.
Na evolução por que passou o selo, encontramos registros de outros tipos, como os cilindros-selos dos caldeus, babilônicos e assírios, que eram peças que giravam em torno de seus eixos para imprimir, geralmente em argila, as mais variadas ilustrações representativas de posse, com preponderância do desenho animalista.
Também foram encontrados selos em forma de cones, que deram origem aos selos atu- ais, já que tinham bases próprias para serem seguradas por dedos. Mais tarde apareceram outros tipos como os pendentes e os contra-selos (aplicados aos pares nos selos pendentes, um de cada lado).
O selo da atualidade é uma evolução de todas as tentativas de se apor um sinal identi- ficador da autoridade, com a diferença de que algumas repartições públicas, hoje em dia, estão autorizadas a autenticar atos oficiais, sendo, portanto, todas consideradas guardiães do grande selo. Abaixo, alguns exemplos ilustrados por Dreyfus em Noções de Sigilografia.
Figura 136: A evolução do selo.
Fonte: Noções de Sigilografia. Dreyfus, 1969.
Com relação aos selos pendentes, a História registra seu largo uso, tendo se constituído em modismo que atravessou séculos. Era a etiqueta dos diplomas elaborados pelos mandatá- rios. “Em Portugal o uso dos selos pendentes introduziu-se ainda na primeira metade do século XII, mas os exemplares que ainda se conservam são todos posteriores a 1150” (DREYFUS, 1969, p. 143) como podemos observar neste exemplar de selo de família, numa carta portugue- sa datada de 14 de fevereiro de 1459:
Fig. 137: Selo pendente.
Fonte: http://www.numismatas.com/phpBB3/viewtopic.php?f=96&t=4741.
Sobre como estabelecer distinção entre sinete e selo, sua principal diferença está no tamanho, pois, em quase todas as fontes de pesquisa, inclusive dicionários, são usados um pelo outro. Os exemplos abaixo ilustram essa variante.
Figura 138: O sinete e o selo de Adão e Eva.
Antes de centrarmos nossa atenção no Selo brasileiro, lançamos um olhar sobre os de outros países, com o fim de comparação. Encontramos curiosidades, como o caso de um país que usa somente o selo em lugar de armas, outros que usam as armas em seus selos e alguns que ainda usam selos pendentes como marcas de autenticidade.
Consideramos os exemplos abaixo significativos para nosso trabalho, como o Grande Selo do Reino Unido que autentica importantes documentos oficiais, incluindo cartas-patente, proclamações e mandados de eleições e está sob a custódia do Lorde Chanceler, mas que só é utilizado para os documentos oficiais da Inglaterra, já que os demais países integrantes possuem selos próprios, todos contendo a efígie da rainha.
Também chama à atenção o Grande Selo dos Estados Unidos, criado em 1782, por William Barton, adotado como brasão de armas em 1790, que enseja uma enorme polêmica por uma teoria conspiratória, por conter o “olho da providência” em seu reverso, uma influência dos ilumminati4, já que os legisladores da época eram maçons e uma nova ordem mundial já visava ao domínio do mundo.
Por fim, citamos o Grande Selo da França, usado durante a Segunda República (1848- 1852), que ainda é usado como símbolo nacional, embora não seja o brasão de armas, onde a figura alegórica de Marianne5 representa a República.
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4. Ilumminati é empregado como sinônimo de Nova Ordem Mundial e tem origem em diversos grupos, alguns históricos outros modernos, poucos verdadeiros e muitos fictícios: uma organização conspiracional que controlaria os assuntos mundiais secretamente. Queriam provar que a ciência pode perfeitamente conviver com a religião, e que tudo da religião pode ser explicado pela ciência. Fonte: <http://www.pt.wikipedia.org.wiki/>. Acessado em 22/06/2010.
5. Ver Capítulo 3 (3.7).