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UMA VISÃO INTEGRAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

No documento dirajaia esse pruner - Univali (páginas 109-113)

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 2 OS DIREITOS FUNDAMENTAIS 231

2.4 UMA VISÃO INTEGRAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Assim, para Garcia350, o processo de especificação é aquele:

[...] pelo qual se considera a pessoa em situação concreta para atribuir-lhe direitos seja como titular de direitos como criança, idoso, como mulher, como consumidor, etc., ou como alvo de direitos como o de um meio ambiente saudável ou à paz.

Por mais que a doutrina ainda não consiga ter uma posição específica e unânime a respeito de quais são os direitos de terceira dimensão, os direitos que emanaram do processo de especificação podem ser considerados de terceira dimensão, uma vez que possuem conteúdos específicos e são dirigidos para pessoas específicas. 351

Assim sendo, da leitura do texto acima, sobre os processos de evolução histórica dos direitos fundamentais, é possível compreender que tais direitos não nasceram da noite para o dia e nem estão prontos e acabados. Na verdade, eles são frutos da luta diária do homem pelo reconhecimento da sua dignidade, são um conceito aberto em constante transformação.

Também é possível assimilar que tais direitos possuem três dimensões: a ética, a jurídica e a social.

Em virtude disso, são considerados pretensões morais justificadas embasadas em valores como a liberdade, igualdade e dignidade. E ainda, para sua efetividade, é importante que sejam incorporados a uma norma, e possam ser garantidos em juízo.

Por fim, não se pode esquecer a influência da realidade social, pois, conforme defende Peces-Barba, em um ambiente de escassez de bens, determinados direitos podem ser limitados, tendo em conta a impossibilidade de concedê-los.

conforme ensinamentos de Garcia352 exige o conhecimento das dimensões dos direitos fundamentais e da sua evolução histórica, por isso esta pesquisa dedicou parte do presente capítulo para tratar deste assunto.

Para Garcia:

O conceito dos direitos fundamentais não deve prescindir de suas dimensões e de suas gerações históricas, uma vez que de forma diferente do professor Peces-Barba não acreditamos em reducionismos ou negações parciais, pois pensamos que se extraímos uma das dimensões ou gerações dos direitos esses são incompletos e como os direitos fundamentais se complementam eles se tornam impossíveis de serem eficazes e por isso mesmo trata-se de uma negação total. Dito de outra maneira: todas as negações parciais ou reducionismo levam a negações totais do conceito. 353 Assim, a visão integral do conceito de direitos fundamentais ocorre quando a sua formação inclui a análise das três dimensões acima citadas: ética, jurídica e social e ainda quando as questões históricas são consideradas.

É impossível compreender os direitos fundamentais sem compreender as pretensões morais que os sustentam (dimensão ética). É impossível compreender os direitos fundamentais sem compreender que eles precisam do direito para serem garantidos e realizados (dimensão jurídica), assim como é impossível compreender os direitos fundamentais sem levar em consideração as lutas históricas que lhe deram origem e o meio social em que estão sendo inseridos (dimensão social).

Além disso, a análise dos processos de evolução histórica dos direitos fundamentais permite compreender que os direitos civis e políticos, os direitos econômicos, sociais e culturais são todos direitos fundamentais sendo, portanto, impossível defender que uns direitos são mais importantes que outros.

A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993354 colocam todos estes direitos (civis e políticos, econômicos, sociais e culturais) como direitos humanos (que nesta tese optou-se por nomear de direitos fundamentais) e não fazem distinção entre

352 GARCIA, Marcos Leite. Uma proposta de visão integral do conceito de direitos fundamentais. p.2.

353 GARCIA, Marcos Leite. Uma proposta de visão integral do conceito de direitos fundamentais. p.4.

354 Tal declaração foi aprovada na II Conferência Internacional de Direitos Humanos, realizada em Viena, em junho de 1993, e reafirma o compromisso dos membros da ONU com a promoção dos direitos humanos. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração e programa de ação de Viena. Belo Horizonte: CEDIN, 1993.)

eles. Neste sentido vale destacar as palavras de Flávia Piovesan:

E o que vem a declaração a impactar na linguagem dos direitos humanos? Vem a dizer: tão importantes quanto os blue rights – os direitos civis e políticos – são os red rights. Os direitos econômicos, sociais e culturais estão em paridade, em grau de importância. Tão importante quanto a liberdade de expressão é o acesso à saúde, à educação e ao trabalho. Tão grave quanto morrer sob tortura é morrer de fome. Há uma paridade com relação ao eixo liberdade e ao eixo igualdade. Não bastando isso, a visão integral dos direitos humanos, ou seja, a declaração compõe o catálogo de direitos civis e políticos ao catálogo de direitos econômicos, sociais e culturais, firmando, assim, uma relação de interdependência, inter-relação e indivisibilidade. Não só estão em pé de igualdade, mas um depende do outro.355

Conforme explica a autora acima citada, os direitos fundamentais são interdependentes, eles se relacionam porque dependem uns dos outros. Não há como ter direitos civis e políticos sem ter direito ao trabalho digno, por exemplo. 356

E esta é a visão integral dos direitos fundamentais, a qual se configura de suma importância para o tema desta pesquisa, conforme poderá ser verificado mais adiante neste trabalho, pois ao final se quer sustentar que os direitos econômicos não podem se sobrepor aos direitos sociais. 357

Assim, pode-se afirmar que a visão integral dos direitos fundamentais é marcada por três características básicas destes direitos: a interdependência (explicada acima), a universalidade e a indivisibilidade (as quais serão explicada abaixo):

Universalidade porque clama pela extensão universal dos direitos humanos, sob a crença de que a condição de pessoa é o requisito único para a titularidade de direitos, considerando o ser humano como um ser essencialmente moral, dotado de unicidade existencial e dignidade, esta como valor intrínseco à condição humana.

Indivisibilidade porque a garantia dos direitos civis e políticos é condição para a observância dos direitos sociais, econômicos e culturais e vice-versa. Quando um deles é violado, os demais também o são. 358

355 PIOVESAN, Flávia C. Direitos humanos: desafios e perspectivas contemporâneas. Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Porto Alegre, RS, v. 75, n. 1, p. 107-113, jan./mar. 2009. Disponível em: <http://aplicacao.tst.jus.br/dspace/handle/1939/6566> Acesso em: 03 de maio de 2016. p.107- 113.

356 PIOVESAN, Flávia C. Direitos humanos: desafios e perspectivas contemporâneas. p.107-113.

357 PIOVESAN, Flávia C. Direitos humanos: desafios e perspectivas contemporâneas. p.107-113.

358 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. p.153.

Portanto, em conformidade com o que ensina a autora, os direitos fundamentais são universais porque devem ser aplicados a todos que têm a condição de pessoa. 359

Tal característica também é mencionada por Sanchis ao explicar que as pretensões morais se tornam direitos fundamentais quando são passíveis de extensão para todos os homens.360

E ainda, os direitos fundamentais são indivisíveis, ou seja, devem ser reconhecidos e garantidos na sua totalidade.361 A indivisibilidade e a interdependência também é destacada por Héctor Gros Espiell, citado por Flávia Piovesan:

Só o reconhecimento integral de todos estes direitos pode assegurar a existência real de cada um deles, já que sem a efetividade de gozo dos direitos econômicos, sociais e culturais, os direitos civis e políticos se reduzem a meras categorias formais. Inversamente, sem a realidade dos direitos civis e políticos, sem a efetividade da liberdade entendida em seu mais amplo sentido, os direitos econômicos, sociais e culturais carecem, por sua vez, de verdadeira significação. 362

Pisarello363 também reconhece a interdependência e indivisibilidade dos direitos civis, políticos e sociais e, diante disso propõe, inclusive, uma reconstrução das garantias dos direitos sociais. Segundo o autor, em virtude da visão compartimentalizada dos direitos fundamentais (na qual se separa e valoriza os direitos civis, políticos e sociais de formas diferentes), a garantia dos direitos sociais acaba sendo relegada ao segundo plano.

Assim, para o autor:

A defesa do caráter multi-institucional da proteção dos direitos sociais também deve levar à defesa de um sistema multinível de garantias, [...] caberia articular um sistema de proteção em várias escalas, infra e supra estatais, que compreendesse desde os diversos âmbitos

359 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. p.153.

360 SANCHIS, Luis Prieto. Derechos fundamentales, neoconstitucionalismo y ponderación judicial. p.33.

361 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. p.153.

362 ESPIELL, Hector Gross. El derecho internacional de los refugiados y el artículo 22 de la

Convención Americana sobre Derechos Humanos. In: Estudios sobre derechos humanos. Madrid:

Civitas/IIDH, v. 2,1988. Apud PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. p.154.

363 PISARELLO, Gerardo. Los derechos sociales y sus garantías: elementos para una reconstrucción. p. 111-112.

municipais, estaduais e federais, até o plano regional e internacional.364

Ainda sobre a indivisibilidade dos direitos fundamentais, cabe destacar Flávia Piovesan:

[...], há de ser definitivamente afastada a equivocada noção de que uma classe de direitos (a dos direitos civis e políticos) merece inteiro reconhecimento e respeito, enquanto outra classe (a dos direitos sociais, econômicos e culturais), ao revés, não merece qualquer observância.365

Portanto, na concepção atual, os direitos fundamentais são direitos “[...]

universais, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos366 globalmente de forma justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase.” 367

Desta forma, a visão integral dos direitos fundamentais permite compreender que não é possível organizar tais direitos em ordem de importância e, assim sendo, optar por realizar aqueles direitos que foram considerados mais importantes. Os direitos fundamentais devem ser todos realizados, a realização de alguns não exime da realização dos outros. Ao contrário, a não realização de um ou outro direito fundamental importa na negação total dos mesmos, como ensinou Garcia nas citações acima.

Após este apanhado sobre o conceito, a evolução histórica dos direitos fundamentais e a visão integral dos mesmos, passa-se a abordar a dignidade da pessoa humana, valor que perpassou toda a origem histórica e conceitual dos direitos fundamentais e que, como será visto, promove a unidade e a ampliação gradativa destes direitos.

No documento dirajaia esse pruner - Univali (páginas 109-113)