Trabalhamos numa perspectiva histórico-cultural, tendo como fundamento metodológico a “pesquisa com”, que pressupõe o encontro com o outro e o diálogo alteritário no campo da pesquisa. Não se trata de pesquisa sobre o “movimento Occupy” no Brasil, nem no Rio ou em Niterói.
Acontecimentos e experiências
Ocupa Niterói (2011-2012)
Para mim, desde o início, o movimento Ocupa Niterói deveria ser relativizado, até porque somos a periferia da periferia do mundo e o grupo que se formou ano passado tem muito mais características de classe média (e classe alta) grupo. ) amigos. ) do que um movimento popular/militante. Entre os elementos que considero interessante destacar está a já citada opinião de Rafael, que relacionou a falta de engajamento do Ocupa Niterói "principalmente com os jovens", acrescentando um aspecto de classe dizendo que o grupo que se formou "tem muito mais sim o características de um grupo de amigos de classe média (e alta) do que de um movimento popular/militante”.
Ocupa dos Povos (2012)
Por mais que tenha sido tão bonito que as pessoas também conseguissem e existam reuniões interestaduais via internet, que são fruto da Ocupa dos Povos, conseguimos criar uma rede e materializar a ocupação como uma coisa concreta, toda ativa. em suas páginas. A Ocupa dos Povos foi mais uma experiência da Ocupa que ampliou minha visão da pequena Niterói no mundo.
Ocupa Cabral (2012)
A partir dessa pequena ocupação que repercutiu na imprensa, nas redes e nas ruas, o nome do governador Sérgio Cabral ficou cada vez mais evidente nas manifestações pelo direito à cidade. ForaBolsonaro, #ForaSarney, passa a promover campanhas “que se vaiyan todos” ao estilo argentino denunciando a crise do sistema político representativo.
Ocupa Aldeia Maracanã (2012-2013)
Relendo meu caderno de campo, vejo que os dias anteriores às grandes Jornadas foram com pouquíssima gente e vivíamos dias “sonolentos” em comparação com o que já havíamos feito e vivenciado no passado recente. O termo surgiu na década de 1980 para se referir aos policiais militares que recebiam um vale-refeição tão barato que era chamado de “vale-coxinha”, em referência ao popular lanche de frango.
Algumas questões de pesquisa
O conceito de mônada de Benjamin me ajuda a compreender essa relação entre as partes e o todo: “Quando o pensamento pára repentinamente em uma configuração saturada de tensão, dá-lhes um choque, pelo qual essa configuração se cristaliza como uma mônada” (BENJAMIN, 1994, p. 231) A mônada deste estudo é a Ocupa Niterói, que apresenta uma “configuração saturada de tensão” que pode nos ajudar a compreender diversos outros fenômenos relacionados a isso no mundo. A cidade e o espaço público também surgiram como categorias comuns em diferentes revoltas ao redor do mundo que parecem exigir o “direito à cidade”, como diz Harvey (2013, p. 38-43), citando Lefebvre (2001). Não será sua tarefa trabalhar a matéria-prima da experiência – a sua e a dos outros – para transformá-la num produto sólido, útil e único.
Pesquisar com: um encontro entre sujeitos
- A pesquisa como acontecimento
- A pesquisa como experiência
- A pesquisa como cuidado de si
- A pesquisa como transformação do mundo
Este exercício envolve, antes de tudo, a renúncia ideológica de si mesmo e a aceitação da perspectiva do outro como possibilidade legítima de ver o mundo” (PEREIRA, 2012, p. 75). Na perspectiva bakhtiniana, a pesquisa como acontecimento seria “um processo dinâmico de diálogo e produção de sentido que implica um modo de estar no mundo” (PEREIRA, 2012, p. 62). Por isso, recomenda a prática constante de “leitura do mundo”, o que exige uma compreensão crítica da realidade.
Juventudes e alteridade na pesquisa
Para Canclini (2005, p. 209), avançamos no conhecimento da juventude quando nos perguntamos “o que é ser jovem” como uma “questão social”, e não como uma questão geracional, pedagógica ou disciplinar, mas como uma "questão do tempo". entre os jovens".
Quando e onde começa esta história?
O ano de 1968
Pela intensidade desses acontecimentos, o estudo dos movimentos sociais a partir da década de 1960 “adquiriu espaço, densidade e status como objeto científico de análise”, como mostra Gohn (2012, p. 20). A Inglaterra e os Estados Unidos da América na década de 1980, bem como mais tarde na América Latina durante a década de 1990, difundiram a ideia de que o neoliberalismo era a chave para resolver a crise do Estado e restaurar a ordem” (HOPSTEIN, 2007, p. 32). Também na década de 1980, lembra Ortellado, renasceu o movimento anarquista, “fruto da abertura ‘democrática’, do legado político dos movimentos das décadas de 1960 e 1970 e da consolidação da orientação política do movimento punk” (RYOKI; ORTELLADO, 2004, p. 9).
Os Zapatistas
Ao contrário dos movimentos políticos anteriores, os zapatistas não se dirigiam apenas à sociedade mexicana, mas a todas as “pessoas oprimidas e excluídas do mundo” (HOSPTEIN, 2007, p. 33). Segundo Castells (1999b, p. 102), os zapatistas lutam contra as consequências excludentes da modernização econômica e também se opõem à ideia da inevitabilidade de uma nova ordem geopolítica na qual o capitalismo se torne amplamente aceito. Os zapatistas falaram sobre Chiapas para o mundo e são, portanto, considerados o “primeiro movimento guerrilheiro de informação” (CASTELLS, 1999b, p. 104), cujo sucesso se deveu em grande parte à sua estratégia de comunicação autônoma.
Dias de Ação Global e A Batalha de Seattle
No ano seguinte, realizou-se um novo encontro em Espanha, onde surgiu a ideia de uma campanha global mais concreta, chamada Global Peoples Action. A primeira Acção Global dos Povos teve lugar em Genebra, na Suíça, sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre 23 e 25 de Fevereiro de 1998, quando foi lançada a proposta de uma coordenação global de resistência ao capitalismo globalizado. A rede de relacionamentos que reúne os Dias Globais de Ação – com ênfase nos acontecimentos mais notáveis de Seattle – e os Zapatistas também conecta os movimentos.
A experiência argentina
Voltando ao caso argentino, que mesmo uma década antes tem inúmeras ligações com acontecimentos no Brasil e no mundo, por já estarem ligados às consequências de um fracasso do sistema neoliberal, tem também outro aspecto comum aos movimentos recentes: a “descrença radical e oposição ao sistema político moderno baseado na democracia representativa”, que, segundo Hopstein (2007, p. 19), é a originalidade e especificidade dos movimentos de dezembro de 2001 (e este aspecto se repete nos levantes de 2011 a 2014 no mundo). Já havia sido transcrito apenas um pequeno trecho de um morador de Malvinas Argentinas, de 24 anos, que, assim como os demais moradores de Niterói, destacou "o tema das relações humanas" e disse que "o mais difícil de manter na luta é como nos relacionamos", e que eles chegaram "ao ponto de morrerem um pelo outro". O aspecto mais importante do bloqueio que mantemos – iniciado em 18 de setembro de 2013 – é o tema das relações humanas.
Não somos mercadorias nas mãos de banqueiros: nós somos os 99%
Islândia
Por isso também exigiram a elaboração de uma nova Constituição, já que a sua era datada de 1944 e era praticamente uma cópia da constituição da Dinamarca, país do qual se tornou independente naquele ano. Foi então que a resposta à crise institucional pôs em marcha uma nova forma de fazer política através de novas tecnologias digitais acessíveis, neste caso, à grande maioria da população. Neste sentido, em particular, foi verdadeiramente uma experiência verdadeiramente revolucionária, cujo exemplo, com todas as suas limitações, inspirou uma nova geração de idealistas pragmáticos na vanguarda dos movimentos sociais que se posicionaram contra a crise.
Primavera Árabe
No dia da morte de Bouazizi, 4 de Janeiro de 2011, as manifestações transformaram-se em revoltas em grande escala nas ruas de várias cidades da Tunísia, que foram recebidas com violenta repressão policial, matando centenas de pessoas e prendendo vários milhares. Na altura, o Primeiro-Ministro anunciou, em 14 de Janeiro de 2011, que o Presidente estava “incapaz de exercer as suas funções”. Freedom Train", em 22 de janeiro de 2011, promoveram a primeira ocupação conhecida da Primavera Árabe: ocuparam a praça do Governo, onde está localizada a maior parte dos ministérios.
Indignados europeus
Em Espanha (onde também houve casos de suicídio e a prática de procurar comida no caixote do lixo tornou-se tão comum que em 2012 o governo tomou medidas: colocaram cadeados nos caixotes do lixo...), entre Fevereiro e o lixo . Maio de 2011, um movimento Uma organização auto-organizada foi formada por milhares de pessoas anônimas nas redes sociais sob o nome Democracia Real Ya (DRY) e com o lema “não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros”. É também por esta razão que Castells (2013, p. 110) considera que as assembleias e comissões “não eram meios, mas fins em si”. Após 28 dias de estadia, a Acampada Sol foi criada no dia 12 de junho de 2011 com o lema “não vamos embora, vamos expandir”.
Occupy
Doze dias após o início da ocupação do Parque Zucotti, em 29 de setembro de 2011, a Assembleia Geral de Nova York divulgou a “Declaração de Ocupação da Cidade de Nova York”, que na verdade faz mais condenações do que exigências (DECLARAÇÃO). .., 2011). Nós, na Assembleia Geral de Nova Iorque que ocupamos Wall Street na Liberty Square, encorajamo-los a afirmar o seu poder. Como observa Castells (2013, p. 155), “o mais decisivo na avaliação do efeito político de um movimento social é o seu impacto na consciência das pessoas”.
Alguns (outros) acontecimentos no Brasil de 2011
O livro Movimentos em Marcha: atitude, cultura e tecnologia (ABDO, et. al., 2013), escrito por diversos autores e coletivos, conta parte dessa história de quem a vivenciou. O evento no Facebook teve mais de 60 mil pessoas confirmadas, e no dia do churrasco cerca de mil pessoas participaram e, segundo alguns manifestantes, um total de 2 mil passaram pelo país (ABDO et. al., 2013, p. 30 ). Em 28 de maio de 2011, estima-se que entre 5 e 10 mil pessoas marcharam pela liberdade de expressão na Avenida Paulista e, em 15 de junho, o Supremo Tribunal Federal autorizou a Marcha da Maconha (ABDO et. al., 2013, p. 31 ).
Como se expressa hoje a sociedade civil?
Todos esses acontecimentos me ajudam a compreender melhor um processo histórico que ocorreu antes do evento base da pesquisa, a Ocupa Niterói. No texto “Como a sociedade civil se expressa hoje” (2010), escrito antes de muitos desses acontecimentos, Canclini (2010, p. 2013) já fala sobre “a incapacidade dos políticos de absorver o que está acontecendo na sociedade civil”. Por isso, aponta para uma redefinição internacional do público, que se aproxima da nova ideia de cidadania planetária: “Num processo de integração transnacional, as demandas do público não podem ser uma tarefa a ser realizada apenas dentro de cada nação " ( CANCLINI, 2010, p. 206).
Pelo direto à cidade
Tudo acontece como se uma espécie de cegueira caracterizasse as práticas organizacionais da cidade habitada. Nos seus estudos sobre juventude e cidadania, José Machado Pais abordará também o mesmo processo de “planeamento urbano”, que tradicionalmente procura “exorcizar a desordem, purificar comportamentos, escrutinar as populações, periferizar a miséria” (PAIS, 2005, p. 59). A magia da cidade vem de baixo e não dos arranha-céus onde a vida social parece enjaulada” (PAIS, 2005, p. 57).
Lutas em redes de redes
Tempo livre
Ele explicou que a escola, nesta concepção de skholé, seria um espaço-tempo separado do tempo produtivo, um tempo sem destino e sem objetivo ou fim, um tempo livre da economia habitual do tempo (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 161). Por isso, diz que esse tempo educativo seria um tempo de “suspensão” e pode ser definido como “um evento de desfamiliarização, dessocialização, apropriação ou desprivatização: define algo gratuito” (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 162). O tempo de skholé não se limita à transição do passado para o futuro, nem a um tempo de projeto ou de iniciação.
Tempo da escola
Quero ver o mundo, quero ver algo maior, este lugar é muito pequeno.” A família tentou interceder neste momento, impedindo-o de frequentar uma daquelas escolas católicas, onde acreditavam que ele não se enquadraria. Foi através destas experiências que chegou a uma importante realização de si mesmo: “Se há uma coisa que quero fazer na minha vida é isto, quero dedicar a minha energia a este tipo de espaço. Estudante de Belas Artes, Ana já pensava em ser professora de Artes no futuro, mas depois da experiência Ocupa, sua visão sobre o que é ser professora também mudou: “Não quero ser professora. tipo, a única que sabe tudo", diz ela, explicando que também quer aprender com os alunos e se surpreender com o que eles trazem e não reproduzir métodos de ensino restritivos, como "só se pinta dentro desse pedaço. flores, vamos lá."
Tempo de juventude(s)
O “professor rebelde”, criado no imaginário de Ana, não se enquadra no sistema escolar de um modelo capitalista que não abre espaço para o novo, para encontros imprevisíveis com o outro. Neste momento ele observa que Ocupa marcou uma “saída do casulo”, o fim de um processo de incubação e, portanto, uma metamorfose. Os jovens do Ocupa Niterói parecem narrar de diferentes maneiras a saída de um processo de “incubação”, que se realizou principalmente no âmbito da família e das instituições escolares (a igreja/instituição religiosa não apareceu nas conversas), e começaram a ir ao redor do mundo olhando de uma forma diferente, talvez até pela primeira vez, fazendo o esforço para desconstruir os “filtros” através dos quais viam o mundo e começam a se encontrar nesse processo e a se descobrir: quem sou eu? que mundo é esse Quem sou eu no mundo?
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