3.2 Não somos mercadorias nas mãos de banqueiros: nós somos os 99%
3.2.5 Alguns (outros) acontecimentos no Brasil de 2011
Apesar de ter nascido digital e viver intensamente nas redes da internet, nota-se novamente que a potência do movimento, especialmente o Occupy se dá na ocupação do espaço público, onde a experiência acontece, já que nesses espaços “os manifestantes podiam reunir-se e formar uma comunidade para além de suas diferenças. Um espaço de convivência.
Um espaço de debate (...). Em suma, um espaço de autonomia” (CASTELLS, 2013, p. 132).
O fluxo seguia mais ou menos o mesmo: as organizações começavam pela internet, partiam para a ocupação do espaço público e se reorganizavam na internet novamente e, da mesma forma, uma vez que as ocupações eram esvaziadas pela repressão do Estado, os indivíduos continuavam conectados de muitas maneiras nas redes para desenvolver novas ações de ocupação do espaço público. Castells diferencia os dois principais espaços de configuração desses novos fenômenos sociais como “espaço dos fluxos” da internet e “espaços dos lugares”
das ocupações, e percebe-se que o movimento seguiu transitando entre esses espaços ao longo dos anos seguintes. Desde a primeira ocupação do OWS, os diversos sites e coletivos formados em torno dessa causa seguiram pensando em novas formas de sair dos espaços dos fluxos para os espaços dos lugares da cidade, como aconteceu mais recentemente no aniversário de 3 anos do OWS, em 22 de setembro de 2014, quando eles promoveram a campanha #FloodWallStreet, unindo a crise financeira com a crise ambiental e propondo
“inundar” Wall Street com um “mar de gente” fluindo pelas ruas de Nova Iorque vestidas de azul. Assim, define-se o OWS como “um movimento híbrido em rede que liga o ciberespaço ao espaço urbano por intermédio de múltiplas formas de comunicação.” (CASTELLS, 2013, p. 140) Assim como aconteceu na Espanha (e também considero que aconteceu algo semelhante no Brasil pós-Jornadas de Junho), observa-se como principal legado do movimento uma perceptível mudança na consciência dos americanos sobre a disparidade entre os 99% e o 1%, tema que se tornou comum no discurso local e também global. Como observa Castells (2013, p. 155), “o mais decisivo na avaliação do efeito político de um movimento social é seu impacto sobre a consciência das pessoas”. Nesse sentido, OWS segue influenciando processos políticos de diversas maneiras.
financeiro, fome, miséria, desemprego, enquanto nós, os eternos “subdesenvolvidos”, parecíamos surfar numa onda de prosperidade e aquecimento econômico após dois mandatos de Luis Inácio Lula da Silva - que chegou a declarar em 2008 que a crise econômica era um
“tsunami” nos EUA, mas “uma marolinha” no Brasil – e com o surgimento da então chamada
“emergente classe C” no Brasil, que abriu novas frentes de consumo. Somados aos anúncios de que a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 aconteceriam no país, e ainda com a vitória de Dilma Roussef, a primeira mulher presidenta do Brasil, cujo mandato começava em 2011, o país passou a ser também uma referência constante no mundo do consumo cultural global: estávamos “na crista da onda”, e essa era uma sensação rara. Além dessas novidades, as revoltas populares começaram e tiveram êxito onde menos se esperava: na África e no Oriente Médio, derrubando ditaduras há décadas no poder, fazendo com que países outrora orgulhosos de seu sistema democrático fossem buscar numa praça do Egito a inspiração para sua própria rebelião. Foi um ano cheio de acontecimentos políticos novos e muitas expectativas.
Antes dos movimentos Ocupa chegarem ao Brasil em outubro de 2011, diversos atos e marchas aconteciam no país nesse mesmo ano: contra o aumento da passagem, contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, pela legalização da maconha e pela liberdade de expressão. O livro Movimentos em Marcha: ativismo, cultura e tecnologia (ABDO, et. al., 2013), escrito por vários autores e coletivos, narra partes dessa história por quem a vivenciou.
Na introdução da obra, Silvio Rhatto, Henrique Parra, Pablo Ortellado e Anah Assumpção lembram que os debates sobre novas formas de mobilização social no Brasil eram pautados pelas novidades apresentadas pelos movimentos árabes e europeus e foi sob o impacto desse debate que testemunhou-se e debateu-se a nova onda de ativismo que promoveu mobilizações de rua nos primeiros meses de 2011 (ABDO, et. al., 2013p. 9). Especialmente após a gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura, entre 2002 e 2009, considerada um avanço em relação a projetos de descentralização das verbas da cultura (especialmente com os Pontos de Cultura) e de fomento ao software livre e a políticas de direitos autorais mais abertas (com adoção da licença Creative Commons em diversos projetos do setor), a indicação de Ana de Hollanda para esse Ministério, em janeiro de 2011, também foi um fator mobilizador de diferentes setores do campo da cultura, especialmente vinculados à chamada
“cultura digital”, por ter sido considerada um retrocesso (ABDO et. al., 2013, p. 9-10).
As lutas pelo Passe Livre e contra os consecutivos aumentos da passagem já aconteciam desde o começo dos anos 2000 em diferentes capitais, mas do início de 2011 até abril, passaram a reunir uma quantidade de pessoas cada vez maior em São Paulo, quando, em
vez de esvaziarem, os atos mantiveram-se cheios, como conta o Coletivo Passa Palavra (ABDO et. al., 2013, p. 31). Outros acontecimentos de disputa pelo direito à cidade geravam ações cada vez mais inusitadas em diálogo com as redes online e o espaço urbano, como aconteceu após os moradores de Higienópolis, um bairro nobre de São Paulo, organizarem um abaixo-assinado para impedir a construção de uma estação da linha amarela do metrô no local.
Uma moradora fez uma declaração à imprensa alegando que a estação faria com que “gente diferenciada” passasse a frequentar a região. Espontaneamente, começou a ser organizado pela internet o “Churrascão da gente diferenciada”, a ser realizado nas ruas de Higienópolis.
O evento no Facebook contou com mais de 60 mil pessoas confirmadas e, no dia do churrasco, cerca de mil pessoas compareceram e, segundo alguns manifestantes, ao todo, 2 mil passaram pelo local (ABDO et. al., 2013, p. 30). (Em 2014, outro “churrascão de gente diferenciada” aconteceu em São Paulo, após um novo abaixo-assinado de moradores de outro bairro classe A, Jardim Europa, que dessa vez reclamavam do excesso de frequentadores do Museu da Imagem e do Som...).
Desde o começo dos anos 2000, indivíduos e coletivos a favor da descriminalização das drogas tentavam articular a “Marcha da Maconha”, que era sistematicamente proibida sob a justificativa de apologia. Em 21 de maio de 2011, foi a primeira vez que a Marcha saiu em São Paulo e sofreu violenta repressão policial, atraindo mais pessoas indignadas, que logo articularam uma nova Marcha a acontecer sete dias depois, agora com o nome de “Marcha da Liberdade”, agregando assim diversos movimentos e indivíduos em prol dessa causa universal. No dia 28 de maio de 2011, estima-se que entre 5 e 10 mil pessoas marcharam pela liberdade de expressão na Avenida Paulista e, dia 15 de junho, o Supremo Tribunal Federal autorizou a realização da Marcha da Maconha (ABDO et. al., 2013, p. 31). Com o chamado amplificado pelas redes sociais, 40 cidades também fizeram suas edições da Marcha da Liberdade, dia 18 de junho de 2011. Credita-se a esse momento um marco importante para uma nova fase de mobilizações de rua, em sintonia com os levantes globais, como demonstra o final do Manifesto da Marcha da Liberdade: “Estamos diante de um momento histórico global. Pela primeira vez, temos chance real de conquistar a liberdade. O mundo está despertando. Levante-se do sofá e vá à luta. Vamos juntos construir o mundo que queremos!
Espalhe a rebelião. #marchadaliberdade #worldrevolution” (ABDO et. al., 2013, p. 25).
Outro trecho do Manifesto dava o tom da horizontalidade em rede que contaminava diversos movimentos no mundo, e afirmava:
Não somos uma organização. Não somos um partido. Não somos virtuais. Somos REAIS. Uma rede feita por gente de carne e osso. Organizados de forma horizontal, autônoma, livre. Temos poucas certezas. Muitos questionamentos. E uma crença: de que a Liberdade é uma obra em eterna construção. Acreditamos que a liberdade de expressão seja a base de todas as outras: de credo, de assembléia, de posições políticas, de orientação sexual, de ir e vir. De resistir. Nossa liberdade é contra a ordem enquanto a ordem for contra a liberdade. (ABDO et. al., 2013, p. 24) Além desses acontecimentos, vale lembrar que na América Latina, em 2011, ainda aconteceram duas grandes insurreições de estudantes que se somaram às multidões de muitos países: primeiro, no Chile, quando estudantes chilenos reivindicaram uma educação gratuita e de qualidade61, e o movimento #YoSoy13262, no México. Todos esses acontecimentos me ajudam a compreender melhor um processo histórico que se desenrolava antes do acontecimento fundador da pesquisa, o Ocupa Niterói.