Não somos uma organização. Não somos um partido. Não somos virtuais. Somos REAIS. Uma rede feita por gente de carne e osso. Organizados de forma horizontal, autônoma, livre. Temos poucas certezas. Muitos questionamentos. E uma crença: de que a Liberdade é uma obra em eterna construção. Acreditamos que a liberdade de expressão seja a base de todas as outras: de credo, de assembléia, de posições políticas, de orientação sexual, de ir e vir. De resistir. Nossa liberdade é contra a ordem enquanto a ordem for contra a liberdade. (ABDO et. al., 2013, p. 24) Além desses acontecimentos, vale lembrar que na América Latina, em 2011, ainda aconteceram duas grandes insurreições de estudantes que se somaram às multidões de muitos países: primeiro, no Chile, quando estudantes chilenos reivindicaram uma educação gratuita e de qualidade61, e o movimento #YoSoy13262, no México. Todos esses acontecimentos me ajudam a compreender melhor um processo histórico que se desenrolava antes do acontecimento fundador da pesquisa, o Ocupa Niterói.
suas realidades diversas que revelam problemas a serem superados globalmente e inauguram um tipo de cidadania planetária que expõe uma crise de legitimidade política associada à crise do capitalismo especulativo global. Castells (2013, p. 113) sugere que “se quiséssemos identificar um objetivo para unificar o movimento, ele seria a transformação do processo político democrático”. Mesmo ressalvando-se as singularidades, não há dúvidas de que “os movimentos sociais em rede da era digital representam uma nova espécie em seu gênero”
(CASTELLS, 2013, p. 24) e apresentam aspectos comuns visíveis que foram se espalhando por contágio num mundo conectado pela internet, mas não se limitaram à rede online, ocupando o espaço público das cidades. Após a descrição de todos esses acontecimentos, podemos observar algumas recorrências comuns em todos esses levantes recentes, com a ajuda dos autores com quem dialoguei aqui, em especial, Castells:
a) São desencadeados por um evento dramático, seja uma crise com consequências drásticas, a morte de um jovem ou uma ação violenta do Estado;
b) Telefones celulares e redes sociais da internet desempenharam um papel fundamental, não apenas como um instrumento de comunicação, mas como uma forma de organização;
c) As ações passaram do ciberespaço para o espaço urbano, com a ocupação de praças públicas, e vice-versa;
d) Constituíram, assim, um espaço público híbrido, composto por redes sociais digitais e por uma recém-criada comunidade urbana;
e) As ocupações se tornam um laboratório de uma nova forma de fazer política e de vivenciar a democracia no cotidiano;
f) Propõem novos modos de organização em rede baseados na autogestão, na ausência de lideranças e na tomada de decisão por consenso;
g) São movimentos políticos apartidários ou suprapartidários. A maior parte dos partidos políticos não souberam como lidar com esses novos movimentos;
h) Há forte presença da juventude diplomada, desempregada e com acesso às redes sociais, apesar de também contarem com o apoio e o protagonismo de pessoas de diferentes idades;
h) Estão comprometidos com uma “democratização da democracia”.
No texto “Como se expressa hoje a sociedade civil” (2010), escrito antes de muitos desses acontecimentos, Canclini (2010, p. 2013) já fala sobre a “incapacidade das políticas para absorver o que está acontecendo na sociedade civil”. Ele observa que em meio à globalização continuam existindo necessidades locais e questiona para quem servem os
processos de integração comercial transnacionais quando ainda carecemos de recursos básicos que nos permitam entrar em contato com nossos semelhantes. Canclini aponta a diferença da época em que se depositavam todas as esperanças em alguma transformação mágica do Estado ou na crença de que todas as mudanças se originariam no proletariado ou nas classes populares, e lembra também que a temporada de privatizações neoliberais demonstrou que as empresas privadas não trouxeram melhor funcionamento aos serviços que nossos governantes lhes cederam, fracasso que não justifica qualquer restauração ao Estado como guardião do nacionalismo, nem como administrador eficiente ou agente de doações populistas. Para ele, “o desafio é, principalmente revitalizar o Estado como representante do interesse público, como árbitro ou assegurador das necessidades coletivas de informação, recreação e inovação, garantindo que estas não sejam sempre subordinadas à rentabilidade comercial” (CANCLINI, 2010, p. 217). Ou seja, “agora se trata de ver como podemos refazer conjuntamente o papel do Estado e da sociedade civil” e, para tanto, precisaríamos repensar ao mesmo tempo as políticas e as formas de participação.
Canclini destaca ainda que estamos lidando com macroempresas que reordenaram o mercado de acordo com os princípios de administração global e criaram uma espécie de
‘sociedade civil mundial’ da qual são protagonistas, com uma capacidade de decisão muito maior do que a dos partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais de alcance nacional. E se elas fazem isso em escala mundial e subordinam a ordem social a seus interesses privados, incluindo aí uma remodelação do espaço público, “conceber o exercício da cidadania somente em nível local ou nacional é o equivalente político a enfrentar a Sony ou a Nestlé com estratégias de varejistas”, enfatiza Canclini (2010, p. 205). Por isso ele aponta para uma redefinição internacional do público, que se aproxima da ideia emergente de cidadania planetária: “Em um processo de integração transnacional, a reivindicação do público não pode ser uma tarefa a ser empreendida apenas dentro de cada nação” (CANCLINI, 2010, p. 206).
Entre as muitas disputas em jogo, também estaria, dessa forma, uma disputa pelo o que é público.
É claro que no centro desta reformulação está a tentativa de reconceber o público.
Nem subordinada ao Estado, nem dissolvida na sociedade civil, a esfera pública reconstituiu-se simultaneamente na tensão entre ambos. Tendo em vista a reflexão hermenêutica que se valeu igualmente das contribuições de Habermans e Bakhtin, a esfera pública é ‘um campo de tradições em concorrência’, ‘um espeço de heteroglossia’, em que ‘certos significados e tradições são fortalecidos’ (o papel do Estado), ‘mas, neste processo, novas forças podem atribuir diferentes significados ou ênfases aos mesmos conceitos’ (o papel da sociedade civil), evitando deste modo os riscos de unilateralidade e autoritarismo.(CANCLINI, 2010, p. 217-2018)
Em relação à reformulação do público, autores como Negri e Hardt (2005, p. 12) vêm trabalhando com a ideia de comum [common], que estaria além do público e privado e seria compartilhado e produzido por essa “emergente classe global” chamada por eles de
“multidão”. A multidão seria “a alternativa viva que vem se constituindo dentro do Império”, temas tratados por esses autores em duas obras principais: “Império” (2002) e “Multidão”
(2005), quando desenvolvem uma genealogia das lutas até as atuais “lutas em rede da multidão” das quais voltarei a falar um pouco mais adiante. Para eles, a multidão pode ser encarada como uma rede aberta e em expansão que expressa um desejo de democracia a partir de sua multiplicidade de desejos e identidades. A multidão é múltipla, multicolorida e difere de conceitos mais “cinzas”, como povo, massa, classe trabalhadora. É um conceito aberto e abrangente que também tenta apreender as recentes mudanças na economia e política globais.
Hopstein (2007, p.26) enfatiza ainda que a originalidade dos movimentos emergentes reside no surgimento de um novo sujeito político e nas formas de entender e fazer política. A nova dinâmica instalada por esses acontecimentos recentes implica não apenas na “instalação de formas inovadoras de organização, mas principalmente de novas linguagens, identidades, estratégias de luta e concepções políticas”. A autora aponta ainda para o surgimento de uma nova subjetividade nas lutas atuais, para além das clássicas organizações modernas. Seguimos com a problemática da representação em muitos desses conceitos e movimentos. “A representação está em crise, mas a crise não é apenas decorrente a falhas internas no sistema.
Ela deve ser entendida como um sintoma que percorre de modo geral os movimentos: o desejo de democracia e de liberdade” (HOPSTEIN, 2007, p.26).