Em termos de enfoque temático, a tese examina a mobilização do conceito de quarto poder no pensamento político-constitucional liberal brasileiro, que tem lugar mais frequente no discurso judicial. O objetivo geral da tese é compreender desta forma a mobilização do conceito de quarto poder no pensamento liberal brasileiro entre 1860 e 1968.
O conceito no contexto
Sob a forte influência de Nabuco de Araújo, os liberais moderados denunciaram o poder pessoal do imperador através da tribuna parlamentar e jornalística, e portanto a limitação dos poderes do Poder Moderador (Lynch. Influenciado por Zacarias, a luta liberal moderada, em por um lado, o argumento conservador de que a atuação do Poder Moderador dispensava a necessidade de referendo ministerial, mas sem chegar ao ponto de questionar a própria instituição (Carvalho, 2007: 10).
O conceito segundo o liberalismo moderado de Zacarias
Para ele, e com base na leitura do artigo 70.º da Constituição, os atos do poder moderador eram “em si completos, completos, vinculativos e executórios, sem dependência de outro poder”. O ponto central de divergência entre Zacarias e o Uruguai era, portanto, saber, e com base na teoria de Benjamin Constant, se os ministros seriam responsáveis pelas ações do poder moderado.
Aquele que não era, nem de longe, o referente do quarto poder
Crítico ferrenho do Supremo Tribunal Federal (Lopes Sato) e movido pela ideia francesa de desconfiança no poder judiciário, Feijó responsabilizou os juízes por suas decisões.
Uma antecipação linguística
Da mesma forma, disse que “o judiciário sempre foi o defensor das liberdades públicas, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos” (Idem: 203). A interpretação de Cândido Mendes sobre a organização jurídica dos Estados Unidos está estritamente ligada à importação do modelo inglês por aquele país.
O lance hamiltoniano a respeito do quarto poder
Aconteceu na jurisprudência norte-americana, antes da visita de Tocqueville, após uma importante decisão da Suprema Corte nos primeiros anos da experiência constitucional. Apesar da antecipação conceitual de Hamilton (Hamilton, Madison, Jay), não havia nada na Constituição sobre a atribuição da Suprema Corte de declarar leis inconstitucionais, o que, entre outras coisas, provocou o famoso embate entre.
O estado de coisas aperta o passo rumo à antecipação conceitual
Entre eles, Rui Barbosa e Campos Salles foram os que mais propuseram alterações quanto à estrutura, organização e atribuição do Supremo Tribunal Federal (Sato, 2018: 83). O pensamento de Campos Sales enquanto Ministro da Justiça e durante a Assembleia Estadual Constituinte é bastante representativo desse delineamento do papel do Supremo Tribunal Federal na concepção das oligarquias estatais.
Considerações
O Imperador, na função de poder moderado, foi o 'primeiro representante' da nação, na forma do artigo 98 da Constituição de 1824. Até a promulgação da Constituição de 1891, o arsenal linguístico não estava à altura do difícil tarefa de dar ao conceito um novo significado.
Rui Barbosa, o missionário
O novo referente do conceito
No que diz respeito ao papel do Supremo Tribunal na defesa das liberdades individuais, é difícil selecionar apenas um exemplo da atuação de Rui. A terceira principal função do Supremo Tribunal Federal como quarto poder era declarar a inconstitucionalidade de ações do Executivo e do Congresso que ultrapassassem os limites constitucionais, mesmo que não envolvessem necessariamente a defesa das liberdades individuais.
O espaço de experiência americano como arquétipo
Uma das principais afirmações de Rui sobre o argumento das questões políticas foi que se tratava de uma “afirmação vaga”, razão pela qual se referiu à tese num dos seus artigos de imprensa publicados após a decisão adversa do habeas corpus. nº 300 (Barbosa. Naquele em particular, no caso do habeas corpus nº 300, os ataques à liberdade foram materializados pelas prisões realizadas em substituição ao estado de sítio decretado por Floriano. Madison foi simbólico porque havia definido um princípio fundamental questão que teria sido reiteradamente sublinhada por Rui e que, aliás, não foi considerada pelo ministro reportando o habeas corpus nº 300: o caso do Supremo Tribunal dos Estados Unidos julgado em 1803 envolveu intervenção judicial para a protecção dos direitos individuais mesmo em casos que envolviam questões políticas.
A autoridade moral como atributo relevante do quarto poder
Quase duas décadas depois, em relação às decisões militaristas de Hermes, Rui diria mesmo que “a justiça é a essência do Estado” (Barbosa. Mas isso não o impediu de dizer na Campanha Civil que “o exército não deve fazer política” (Idem: 90) .Em Cartas da Inglaterra, especificamente naquela em que explica suas conversões, ele associa uma série de palavras e expressões negativas referentes ao modo como o presidencialismo republicano no Brasil foi um mal de "origem militar", um “elemento perigoso” e que “atualmente o nosso mal é o militarismo” (Barbosa.
Pedro Lessa, o juiz
A influência ruiana
No habeas corpus n. A Resolução nº 3.527 discutiu se o tribunal, apesar de tratar de questões políticas, poderia intervir e declarar inconstitucional o estado de sítio decretado pelo Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. Segundo o Ministro Relator Amaro Cavalcanti, os peticionários alegaram a inconstitucionalidade do estado de sítio sem comprovar violações de direitos individuais (Costa, 1964a: 165-167). Diante da prorrogação do estado de sítio por parte de Hermes, Rui Barbosa no Senado critica a atuação do presidente da República como uma violação das normas constitucionais.
Uma limitação pragmática do alcance das atribuições do quarto poder
No recurso de habeas corpus nº 2.793, Lessa decidiu de uma só vez contra Nilo Peçanha e seus co-acusados. O habeas corpus nº 2.794, por sua vez, foi movido pelo segundo grupo de intendentes no mesmo dia do habeas corpus anterior, com resultado diferente. A posição liberal de Pedro Lessa em relação à concessão de habeas corpus e ao papel do quarto poder do STF encontrou assim o seu limite conceitual e extralinguístico.
A teoria do habeas corpus como problematizadora do conceito
Limitar legalmente o alcance do habeas corpus significaria reduzir o poder do quarto poder dos liberais, o que Rui não admitiria nem segundo o julgamento dos seus adversários. Entendeu, portanto, que a redação mais geral da Constituição em relação ao habeas corpus permitia uma interpretação que não escapava ao seu significado original relacionado à liberdade de circulação. A discussão da teoria do habeas corpus é importante para que a tese teste a hipótese de que no pensamento liberal o referente conceitual do quarto poder é o Supremo.
Considerações
A Constituição, que previa que caberia ao Congresso "proteger a Constituição", teria um conceito próprio, oligárquico, e que permitia a interpretação de que o quarto poder está nas mãos do Presidente da República (Lessa, 2000: 33 ). Numa visão mais geral, o liberal Kelsen argumentou que o referente do conceito de quarto estado deveria ser atribuído fora da estrutura dos três estados, apesar das críticas de Schmitt. O discurso que tentou deslocar o referente do conceito de quarto poder para o presidente da república, tema presente desde a primeira república, não se apagou.
Levi Carneiro, o renovador
As bases do quarto poder no liberalismo renovado
Em outro discurso na Academia Literária Brasileira, disse que o ressurgimento de Rui neste contexto representou uma renovação do próprio liberalismo. Uma das maiores condenações de Rui na altura, senão a maior de todas, veio de Oliveira Viana, que criticou Rui pelas suas. Isto porque, apesar das críticas, Oliveira Viana admitiu que “a maior glória de Rui Barbosa é que ele compreendeu a função primordial do poder judiciário na defesa da liberdade e ‘colocou esse poder fora do alcance da subordinação e da dependência da liderança e parlamento'" (Carneiro, 1954: 60).
Um esforço para frear o estado de coisas revolucionário
O discurso de Levi Carneiro contra a dissolução do STF encontrou no meio jornalístico um forte antagonista revolucionário, que se opunha diretamente à sua posição na Corte, com direito a respostas dele. Nesse sentido, Carneiro encontrou mais uma vez um interlocutor digno e que não concordou com esta notícia em particular: o Ministro do Supremo Tribunal Federal e o Procurador-Geral da República, Pires e Albuquerque. Contrariamente às expectativas de Levi Carneiro quanto às boas intenções do Governo Provisório, porém, a grande mudança do Supremo Tribunal da época ocorreu com a menor medida regimental.
Do conceito à renovação institucional, extralinguística
Talvez, portanto, a maior aposta de Carneiro tenha sido resolver a comoção na Corte. A criação dos tribunais federais de primeira instância, órgão intermediário entre os juízes federais em primeira instância, e o Supremo Tribunal Federal, em última instância, foi uma proposta institucional de Carneiro que remonta há muito tempo, desde a publicação do livro Do Judiciário Federal (Do Judiciário Federal ( judiciário federal) (1916). A sugestão institucional de Carneiro só se tornaria realidade trinta anos após a publicação do livro Do Judiciário Federal (1916), com a promulgação da Constituição de 1946.
João Mangabeira, o desencantado
O lugar do quarto poder no liberalismo social
Esta seção analisa a mobilização do conceito de Quarto Estado por Mangabeira no período de 1930 a 1945. Os textos e discursos de João Mangabeira dessa época são marcados por uma defesa das liberdades individuais no sentido liberal, bem como por um significado mais progressista do conceito de liberdade, em trânsito contínuo e fluido com o conceito de igualdade. No entanto, mesmo a sua definição de igualdade invocava uma linguagem característica do liberalismo social emergente, como quando disse, em palavras semelhantes às de Levi Carneira na mesma altura sobre a definição do conceito de liberdade, que "o essencial é a igualdade de oportunidades para alcançar os objetivos das pessoas humanas.
Alguns limites ao quarto poder
Ficou claro para os membros do Subcomitê, e para o próprio Mangabeira, que a atribuição de legislar estava fora dos poderes do Supremo Tribunal Federal e, portanto, do importante Quarto Poder Ruyan. Uma lei da Assembleia Nacional só seria declarada inconstitucional quando 2/3 dos ministros do Supremo Tribunal votassem em conformidade. Portanto, era fundamental evitar que tais decisões – que foram, na verdade, tomadas por maioria qualificada da Suprema Corte dos Estados Unidos – prejudicassem o prestígio do Supremo Tribunal Federal no Brasil.
A falha do quarto poder
Onze dias após a criação do Tribunal de Segurança Nacional pela Lei nº. 244, de 11 de setembro de 1936, Mangabeira impetrou outro habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, por acreditar que corria o risco de ser processado e condenado por um “tribunal extraordinário” (idem: 145). João Mangabeira, mais uma vez diante do indeferimento de sua pretensão judicial, impetrou pedido preventivo de habeas corpus a seu favor e em favor de seu filho Francisco Mangabeira, também preso, no Supremo Tribunal Militar, no qual reiterou as razões contrárias ao julgamento perante o Tribunal de Segurança do Estado (Idem: 171-2018). Mangabeira foi posteriormente condenado a três anos e quatro meses de prisão depois de o presidente do Tribunal de Segurança Nacional ter votado decisivamente contra ele.
Considerações
O quarto poder diante de um novo mundo
Compreender a mobilização de Baleeiro do conceito de quarto poder requer também compreender a sua percepção das experiências da Suprema Corte dos Estados Unidos. A viagem deveu-se a outros factores, incluindo o facto de Baleeiro ser um conhecido especialista do Supremo Tribunal dos EUA e, mais importante, de ser na altura presidente do tribunal brasileiro. A última referência foi aquela que Baleeiro utilizou diretamente para receber a história do Supremo Tribunal dos EUA no Brasil (Baleiro, 1968: 42).
O quarto poder não pode comandar um governo de juízes
Era essencial assegurar as funções do tribunal em regime excepcional e preservar o oráculo da constituição. Para ilustrar, veja um trecho de uma das votações de Baleeiro no Supremo Tribunal mostrando sua visão no julgamento de 1967 (Amaral Júnior. Tanto que Victor Nunes Leal observou em uma entrevista de 1975 que a proposta de Baleeiro de aumentar o número de juízes no tribunal era não previsto (Val.
Victor Nunes Leal, o altivo
O controle do terceiro poder sobre atos ilegais e arbitrários
No artigo de 1946, Nunes Leal faz novos comentários com base em outra decisão do Supremo Tribunal, esta de 1944. A compreensão progressiva de Victor Nunes Leal sobre o controle judicial dos atos executivos aparece com mais profundidade no artigo de 1948. Se já existe, tem, Por um lado, nos debates sobre a demarcação entre o julgamento da legalidade e o mérito do ato administrativo, Nunes Leal tentou nesta ocasião traçar a fronteira mais sutil entre o mérito da lei e o julgamento de conveniência e oportunidade de entendimento do Executivo.
O quarto poder deve conter, sobretudo, atos arbitrários do Executivo
Nunes Leal, porém, acreditava que o Supremo Tribunal Federal pode reconhecer o abuso de poder “em razão de princípios constitucionais e não por discricionariedade dos juízes” (Idem: 41). Num outro processo decidido em dezembro de 1967, Nunes Leal levantou a questão da natureza jurídica dos atos institucionais até então publicados e da competência do Supremo Tribunal para os avaliar. A análise de alguns votos de Nunes Leal no Supremo teve como único propósito mostrar a sua concepção de quarto poder.
Reformas para (re)construir o quarto poder
Victor Nunes Leal concordou com a postura institucional do Supremo Tribunal e mais uma vez deu o exemplo do Supremo Tribunal dos EUA, omitindo as experiências negativas lá e no Brasil. Nunes Leal não descartou que a proposta de aumento do número de juízes visasse alterar a jurisprudência do tribunal. A questão do número de ministros no Supremo teve força, como mostrou a história dos Estados Unidos e do Brasil, mas não foi destacada por Nunes Leal.
Considerações
Tese (Doutorado em Ciência Política) – Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2015. Nada de novo sob o sol: a teoria e a prática do neoliberalismo brasileiro, Insight Intelligence, Rio de Janeiro, v. O dilema do pensamento constitucional brasileiro: tupi ou não tupi, Revista Direito & Práxis, Rio de Janeiro, v.