3.2 João Mangabeira, o desencantado
3.2.3 A falha do quarto poder
conceitual, a Corte da nova República deveria ser, ao mesmo tempo, o último intérprete da Constituição, o árbitro dos conflitos e, para limitar um pouco essa atribuição, era indispensável que tomasse decisões de alto impacto político pela maioria qualificada de seus membros (Mangabeira, 2019 [1934]: 125).
Para além da questão social envolvida, considerando o espaço de experiência da Suprema Corte dos Estados Unidos que impedia sua marcha, havia outras dimensões da proposta de Mangabeira que diziam respeito ao próprio sistema representativo liberal. A nova atribuição do quarto poder, de declarar a inconstitucionalidade de uma lei em tese, deveria ser partilhada com os poderes Executivo e Legislativo e, persistindo o desacordo, a última instância do conflito era o próprio povo, a ser ouvido por meio de plebiscito, eis que existem questões
“de muito mais alto interesse, que só mesmo a própria nação pode resolver” (Idem: 543).
Do ponto de vista teórico, o argumento não era uma completa novidade para os liberais, nem para alguns conservadores, como antes visto, se entendido como um tipo de submissão do quarto poder à opinião pública. O Visconde do Uruguai, Hamilton e Rui já haviam antes mobilizado, por exemplo, a ideia de modo parecido.
A sugestão de Mangabeira tinha mais semelhanças, contudo, com a proposta de Madame de Staël, por meio da devolução ao povo do poder de decidir uma questão que não fora bem resolvida no âmbito dos poderes representativos, como antes visto. À semelhança de Staël, embora não haja indício de apropriação de suas ideias, Mangabeira também fazia uma proposta para que houvesse um compartilhamento direto das novas atribuições do quarto poder com os delegatários do povo e, ao fim das contas, com o próprio detentor do poder soberano, masas diferenças com o contexto francês e as ideias de Staël não devem ser postas de lado, sobretudo em razão da conjuntura mais democrática no cenário brasileiro e no pensamento de Mangabeira. Por isso, prefiro cogitar a hipótese, ainda que também exista uma diferença temporal no mesmo espaço, que Mangabeira absorveu a cultura política de um liberalismo radical, como o de Luiz Gama, no sentido de que, no limite, o quarto poder deveria ser exercido diretamente pela sociedade brasileira.
fez com que ambos vissem, em muitas ocasiões, as portas da Corte se fecharem aos seus pedidos. Isso aconteceu, sintomaticamente, com as sucessivas derrotas pessoais de Mangabeira no Supremo nos anos de 1936 e 1937.
No dia 30 de março de 1936, João Mangabeira, então deputado federal, foi preso sob a acusação de atentar contra a segurança nacional por supostamente ter participado da Intentona Comunista. Pela mesma acusação foram presos o senador Abel Chermont e os deputados federais Abguar Bastos, Domingos Velasco e Otávio Silveira. Em benefício de todos, inclusive de si próprio, João Mangabeira impetrou habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (Costa, 1964b: 68).
O principal fundamento do habeas corpus era a imunidade parlamentar, pois, argumentava Mangabeira, a garantia era atributo inerente à função legislativa, condição essencial à existência do Legislativo (Barbosa, 1980: 111). Ele apelava, deste modo, ante a demora do Congresso em apreciar as prisões, “para a Corte Suprema, a cuja consciência e honra dos Ministros confiou a Constituição a sua última defesa, constituindo-os em sua derradeira salvaguarda” (Idem: 114). Após a deliberação do Congresso, a Corte, porém, negou a ordem, porque as casas legislativas deveriam ter exigido, segundo o ministro relator, que fossem soltos os parlamentares, o que não ocorreu (Costa, 1964b: 81-88).
O curto tempo transcorrido entre o protocolo do pedido de habeas corpus, no dia 9 de julho, e a data do julgamento, no dia 20 do mesmo mês, foi o suficiente para que o Congresso se manifestasse sobre as prisões, servindo tal fato como razão de decidir para o Supremo. Em carta datada do dia seguinte ao julgamento, dirigida ao seu irmão Otávio, também deputado federal, João Mangabeira afirmava que a decisão era “de fazer desmaiar um frade de pedra”
(Barbosa, 1980: 115). E denunciava que a Corte e seus ministros não podiam escapar à opinião pública. Com um apelo à lembrança de Rui, que nessas horas também nela buscava apoio, Mangabeira prometia que bateria “de novo às portas da Corte Suprema, embora sem esperanças de justiça, mas sobretudo para definir e precisar a responsabilidade pessoal dos seus ministros ante à nação” (Idem: 116).
E assim o fez. Nos dois meses seguintes João Mangabeira impetrou outros dois habeas corpus no Supremo Tribunal (Idem: 117-143). Nos pedidos, ele invocava novos argumentos para que fosse dada a ordem. No primeiro, alegou a inconstitucionalidade do decreto presidencial que havia declarado o estado de guerra e justificado as prisões. Para tanto, indicou a inexistência dos requisitos materiais sequer para a declaração do estado de sítio, muito menos havia para a do estado de guerra. Com amparo expresso nas lições de Rui n’O Estado de Sítio e nas de Pedro Lessa em O Poder Judiciário, ele resgatava o discurso judiciarista da Primeira
República para se defender, naquele novo contexto, das medidas de exceção então promovidas por Vargas (Idem: 120).
Contra abusos do poder, e para sua proteção individual, Mangabeira lembrava, novamente, além da tradição brasileira, a experiência da Suprema Corte americana, muito citada por Rui Barbosa (1983 [1910]: 30; 1892: 132-134) e Pedro Lessa (1915: 371-376), no precedente Ex parte Milligan (1866), que concedeu o habeas corpus, como antes visto, por julgar inconstitucional a submissão da justiça civil à jurisdição militar em uma zona onde não se efetuavam operações de guerra (Barbosa, 1980: 126). Por esses fundamentos, pedia, no segundo habeas corpus, em razão da denegação do primeiro, que o Supremo desempenhasse
“sua função oracular, repondo os outros poderes dentro dos limites que a Constituição expressamente lhes traçou” (Idem: 125).
A Corte, no entanto, negou o pedido, assim como negou o terceiro habeas corpus impetrado por Mangabeira com fundamento no artigo 175, §4º, da Constituição de 1934, que assegurava que as medidas restritivas da liberdade de locomoção não atingiriam os membros da Câmara dos Deputados durante o estado de sítio30. As negativas do Supremo não impediram que Mangabeira continuasse a bater às suas portas, desta vez por antever que seria julgado, em primeira instância, pelo Tribunal de Segurança Nacional.
Onze dias após a criação do Tribunal de Segurança Nacional pela Lei nº 244 de 11 de setembro de 1936, Mangabeira impetrou outro habeas corpus no Supremo Tribunal, por se considerar ameaçado de ser processado e condenado por um “tribunal de exceção” (Idem: 145).
Alertava ao Supremo que não se defenderia perante o “tribunal da ditadura”, “a supressão da democracia”, especialmente porque o Tribunal de Segurança Nacional julgaria crimes anteriores à sua criação, o que, de uma vez só, restringia as competências do Poder Judiciário e violava o princípio constitucional de irretroatividade das leis penais desfavoráveis ao réu (Idem:
145-157).
Diante, mais uma vez, do indeferimento do seu pleito na Corte, João Mangabeira impetrou habeas corpus preventivo no Supremo Tribunal Militar, em seu favor e no de seu filho, Francisco Mangabeira, também detido, em que retomava os fundamentos contrários ao julgamento perante o Tribunal de Segurança Nacional (Idem: 171-2018). O Supremo Tribunal
30 “Art. 175. O Poder Legislativo, na iminência de agressão estrangeira, ou na emergência de insurreição armada, poderá autorizar o Presidente da República a declarar em estado de sítio qualquer parte do território nacional, observando-se o seguinte: (...)
§ 4º As medidas restritivas da liberdade de locomoção não atingem os membros da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, da Corte Suprema, do Supremo Tribunal Militar, do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, do Tribunal de Contas e, nos territórios das respectivas circunscrições, os Governadores e Secretários de Estado, os membros das Assembléias Legislativas e dos Tribunais superiores.”
Militar, no entanto, sequer conheceu do habeas corpus, por julgá-lo incabível durante o estado de guerra (Brasil, 1937: 54-61). Em face dessa decisão, ele recorreu, outra vez, ao Supremo Tribunal, em recurso em habeas corpus (Idem: 63-72).
A Suprema Corte, mais uma vez, negou a ordem pleiteada, em acórdão bastante fundamentado, em que refutava um a um os argumentos de Mangabeira. Embora julgasse cabível o habeas corpus com amparo em sua jurisprudência, o Supremo Tribunal Federal entendeu, em breve síntese: 1) que o Tribunal de Segurança Nacional não era um tribunal de exceção, mas um tribunal especial, como tantos outros, com atribuição específica para julgar crimes políticos; 2) que sua organização e constituição poderia ocorrer de maneira diferente dos tribunais ordinários, mas deveria obedecer aos ditames constitucionais; e 3) que era possível a retroatividade da lei penal no que diz respeito à organização judiciária, ponto que exigiu maior esforço argumentativo da Corte (Idem: 159-216).
Em nova carta dirigida ao seu irmão Otávio, lida na Câmara dos Deputados no dia seguinte ao julgamento do Supremo, Mangabeira afirmava que o seu “amor ao direito” e
“devoção à liberdade” não permitiriam que se defendesse “ante um tribunal de exceção, que é o maior atentado que se poderia conceber contra os princípios cardeais do nosso regime político, levantado sobre mais de cem anos de tradições liberais” (Barbosa, 1980: 223-24). E assim o fez. Não se defendeu pessoalmente, como advogado em causa própria, perante o Tribunal de Segurança Nacional, tendo havido a nomeação de outros patronos para que não ficasse sem defesa (Idem: 317-366).
Mangabeira é, então, condenado à pena de prisão de três anos e quatro meses, após o voto de desempate do presidente do Tribunal de Segurança Nacional contra ele. Em face dessa decisão, ele impetrou novo habeas corpus no Supremo Tribunal Militar. Nele aduziu que, segundo a jurisprudência do Supremo, o empate em julgamento de causa penal deveria ser decidido favoravelmente ao réu, não podendo haver o desempate pelo presidente em desfavor do acusado (Idem: 261-272). Foi, enfim, com base nessa matéria e no mesmo precedente do Supremo invocado por Mangabeira, que o Tribunal Militar deferiu o habeas corpus, absolveu- o da condenação imposta pelo Tribunal de Segurança Nacional e concedeu-lhe a liberdade após quinze meses de prisão (Idem: 367-374).
As constantes e sucessivas derrotas de Mangabeira no Supremo Tribunal Federal parecem ter posto à prova a sua máxima de que a Corte tinha tremendos poderes. Em sua conferência formatada no livro Rui: o Estadista da República (1999 [1943]), Mangabeira apresentava um discurso quanto ao Supremo muito diferente daquele do início da década de 1930. Se, cerca de dez anos antes, a Suprema Corte era frequentemente avaliada como o oráculo
da República, na definição quase que religiosa de Rui; agora, nos idos de 1940, a Corte era designada como “o órgão que, desde 1892 até 1937, mais falhou à República” (Mangabeira, 1999 [1943]: 83). A frase, motivada por uma tragédia pessoal, teria grande influência no judiciarismo das décadas seguintes, após a queda de Vargas, com impacto direto na definição do quarto poder, fosse para absorvê-la, fosse para criticá-la.