2.2 Pedro Lessa, o juiz
2.2.3 A teoria do habeas corpus como problematizadora do conceito
O ministro Enéas Galvão entendia, ainda, que essa interpretação mais ampla do cabimento do habeas corpus visava a atender um imperativo da realidade brasileira, que não tinha outros instrumentos hábeis a assegurar as liberdades individuais para além das que eram atinentes à liberdade de locomoção. Desse modo, o Supremo tinha a faculdade de interpretar soberanamente as disposições da Constituição, não tendo a obrigação de adotar o entendimento de países que interpretavam mais restritivamente o cabimento do habeas corpus, de acordo com suas instituições históricas (Idem: 230-231).
Com um voto mais liberal do que Lessa, Enéas Galvão, o indicado por Hermes da Fonseca para o Tribunal e com tradição familiar militarista, concedia a ordem a Nilo Peçanha.
Em síntese, a maioria do Tribunal entendeu, seguindo o voto do ministro Enéas Galvão, que as disposições constitucionais relativas à concessão do habeas corpus eram “mais amplas que as empregadas na lei ordinária para definir a garantia de liberdade individual, compreendem qualquer coação, e não somente a violência do encarceramento ou do só estorvo à faculdade de ir e vir” (Idem: 229).
A posição liberal de Pedro Lessa em relação à concessão do habeas corpus e ao papel de quarto poder do Supremo Tribunal encontrava, assim, o seu limite conceitual e extralinguístico. O fiel da balança não deveria socorrer os que, em sua compreensão, não compartilhavam da mesma visão do referente conceitual do quarto poder.
pessoa, com o fez Edmundo Lins em seu discurso de inauguração do busto de Lessa no Supremo (Lins, 1981 [1926]: 194). Na mesma ocasião, Levi Carneiro não escondeu que igualmente se permitira, um dia, “apontar certa intolerância sua [a de Lessa], contra opiniões adversas, ou melhor, certa revolta incontida e indissimulada contra as divergências da sua opinião”
(Carneiro, 1943b [1926]: 44). Ainda que sua análise pareça ter sido influenciada por outros fatores que ela mesma deixou escapar em sua história do Supremo, Leda Boechat Rodrigues não deixou o seu julgamento de Lessa por menos, ao afirmar enfaticamente que ele fazia
“provocações intoleráveis” ao ministro Enéas Galvão (Rodrigues, 1991b: 118), que a sua atitude em relação ao colega era de uma “empáfia ilimitada” (Idem: 124) e mesmo de “raiva” e
“ódio” (Idem: 333).
Pelos resultados da pesquisa, parece-me que o elogio de Rui, em particular, derivava do modo altivo como Pedro Lessa julgava as causas que chegavam ao Supremo Tribunal, sendo que em muitos aspectos ambos tinham a mesma concepção sobre alguns temas, como o exame, pela Corte, do mérito dos decretos que declaravam o estado de sítio, especialmente os editados pelos marechais Floriano Peixoto e Hermes da Fonseca. O compartilhamento da definição de que o Supremo Tribunal Federal seria uma espécie de quarto poder não impediu que Rui fizesse suas críticas ao modo pelo qual Pedro Lessa interpretava juridicamente o cabimento do habeas corpus em alguns casos, atrelando-o à liberdade de locomoção.
A concepção de Rui era mais ampla do que a de Lessa e certamente muito mais larga do que aquela dos outros ministros do Supremo. Se, por um lado, Rui e Lessa tinham a mesma visão sobre a competência do Supremo para julgar o mérito das declarações dos estados de sítio, o que era um ponto fora da curva no contexto republicano e oligárquico, ambos divergiam do cabimento do habeas corpus para além das situações relativas à liberdade de locomoção, ainda que Pedro Lessa fizesse uma interpretação mais ampliada do instituto que ministros como Epitácio Pessoa, por exemplo. Em discurso proferido no dia 22 de janeiro de 1915 no Senado, Rui faria uma crítica direta a Lessa, embora sem citá-lo nominalmente, justamente para criticar a visão que considerava mais restritiva do habeas corpus (Barbosa, 1915: 5-6):
Agora temos a reação contra o habeas corpus firmada em outro terreno, depois que essa instituição passou pela transformação ampliativa que recebeu com o novo regime. Agora uma escola de índole restritiva o pretende circunscrever a uma esfera limitada como a sua antiga esfera, reduzindo-o às condições de um recurso utilizado unicamente nos casos em que se trate de acudir à liberdade de locomoção, de manter o que se chama a liberdade corporal, de assegurar ao indivíduo a sua faculdade ordinária e legal de se mover, de ir e vir, de entrar e sair. Eis ao que se reduzira o habeas corpus, amesquinhado pela interpretação constitucional com que alguns espíritos o interpretam no texto da carta republicana.
Ora, Srs. senadores, em apoio dessa hermenêutica eu não vejo senão a autoridade
muito respeitável, mas suscetível de erro como todas as autoridades, de alguns homens eminentes, um dos quais me merece especial consideração, como um dos mestres cujo saber, cuja competência jurídica ilustram o Supremo Tribunal Federal.
Rui não concordava com a interpretação de Lessa a respeito do cabimento mais limitado do habeas corpus, pois, em sua visão, o remédio jurídico não estava circunscrito “aos casos de constrangimento corporal; o habeas corpus hoje se estende a todos os casos em que um direito nosso, qualquer direito, estiver ameaçado, manietado, impossibilitado no seu exercício pela intervenção de um abuso de poder ou de uma ilegalidade” (Idem: 7). E Rui não aceitava a interpretação de Lessa de que o habeas corpus deveria ser lido a partir da legislação imperial e da extensão que tinha àquela época. Para Rui, o constituinte republicano havia manifestado a vontade deliberada de conferir maior envergadura ao habeas corpus, com uma redação mais larga do seu cabimento, “sempre que o indivíduo sofrer ou se achar em iminente perigo de sofrer violência ou coação, por ilegalidade ou abuso de poder”, não se exigindo prisão ou constrangimento corporal (Idem).
Neste sentido, Rui lembrava o acórdão do Supremo no habeas corpus nº 3.535, em que garantiu a liberdade de publicação dos seus discursos, quando não havia liberdade de locomoção em debate. Eram precedentes do Supremo como esse, inclusive com o voto favorável de Lessa, que conferiam, para Rui, a moldura interpretativa da Constituição, mais até do que a visão constituinte estampada no texto da Constituição (Idem). Restringir juridicamente o cabimento do habeas corpus significaria reduzir as atribuições do quarto poder dos liberais, algo que Rui não admitiria nem no julgamento de seus adversários.
O discurso de Rui era uma resposta direta às repercussões do caso Nilo Peçanha, julgado menos de um mês antes, em 16 de dezembro de 1914, no habeas corpus nº 3.697, em que Lessa ficou vencido, sendo vencedor o voto do ministro Enéas Galvão. O acórdão, que nessa matéria específica aproximava o entendimento de Enéas Galvão do de Rui, foi duramente criticado por Lessa, como sublinhou em Do Poder Judiciário, ao destacar que o entendimento mais ampliativo do cabimento do habeas corpus produzia “por outro lado a mais perturbadora confusão, o mais estonteante baralhamento dos conhecimentos jurídicos” (Lessa, 1915: 333- 334). Para Lessa, a interpretação de Enéas Galvão, que era a mesma de Rui no ponto, equivalia a um arbítrio judicial (Idem: 339). Embora adversário político de Nilo, Rui não tinha motivos para render confetes a Lessa (Barbosa, 1915: 5-11), pois, de acordo com sua definição, o quarto poder tinha uma significação mais larga e atribuições mais abrangentes, para salvaguardar até mesmo os adversários políticos.
Pela análise do discurso judiciarista de Lessa, no Tribunal e fora dele, é possível
concluir, ainda que com as limitações metodológicas e temáticas da pesquisa, que a teoria do habeas corpus estava longe de ser, na Primeira República, uma doutrina incontroversa ou uníssona. Pelo contrário, a teoria parecia tão divergente que até mesmo a composição do Supremo nas sessões de julgamento poderia levar o resultado para um lado ou para o outro.
Além disso, a doutrina decompôs-se em subtemas que multiplicavam as hipóteses interpretativas, como a análise das condições para a decretação do estado do sítio ou ainda a questão de saber se o remédio jurídico deveria abranger apenas os casos que envolviam, em alguma medida, a liberdade de locomoção. Para todas as hipóteses, o argumento mais generalista a respeito do julgamento de casos considerados políticos também dividia não só o Tribunal, mas igualmente os judiciaristas.
O discurso de Pedro Lessa, objeto específico desta seção, refletia bem, inclusive pelo confronto dialógico com seus pares juristas, essa diversidade de interpretações sobre a extensão e o cabimento do habeas corpus. Sua concepção do instituto era bem ampliada, robustecendo o âmbito de atuação do Supremo Tribunal quando dizia respeito à limitação do Executivo ou do Legislativo para a decretação do estado de sítio, uma vez que a medida excepcional limitava as liberdades individuais. Nesse ponto, sua concepção aproximava-se da de Rui, mas distanciava-se da maioria da Corte. No geral, Lessa costumava ter uma concepção de maior intervenção do Supremo nessas questões, consideradas políticas, se comparada, por exemplo, à visão de ministros como Enéas Galvão e Amaro Cavalcanti, que entendiam que a prestação de contas do presidente da República pela decretação do estado de sítio deveria ser analisada e julgada, em última instância, pelo Congresso.
Por outro lado, ao compreender o habeas corpus pelas suas origens históricas, algo que pode ter sido utilizado como fundamento contra os seus adversários, Lessa não aceitava uma interpretação mais ampliativa do instituto. Entendia, por isso, que a redação mais genérica da Constituição acerca do habeas corpus admitia uma interpretação que não escapasse dos seus significados originais, conexos à liberdade de locomoção. Nesse ângulo, sua concepção do instituto distanciava-o de Rui e, dentro do Supremo Tribunal, da de Enéas Galvão. Como antes indicado, essa divergência ficou clara no julgamento do habeas corpus de Nilo Peçanha para a posse no cargo de presidente do estado do Rio de Janeiro. Em seu voto, Lessa fez críticas contundentes à interpretação mais larga de Enéas Galvão e, por consequência, do Supremo, chegando a afirmar que os ministros não eram pretores de Roma, que ditavam as leis civis (Lessa, 1915: 338).
Sem o objetivo de compreender as intenções de Pedro Lessa, algo que está fora do escopo da pesquisa, inclusive por razões de ordem epistemológica, é possível, porém,
estabelecer algumas questões a respeito da coerência ou incoerência do seu discurso sobre o judiciarismo do Supremo. Alguns comentadores indicam, por exemplo, o fato de que o ministro teria mudado de entendimento ou posição acerca do habeas corpus ao longo dos julgamentos do caso do Conselho Municipal do Distrito Federal (Rodrigues, 1991b: 57; Horbach, 2007: 84).
Essa leitura não parece atentar para questões mais contextuais e, por isso, não é a leitura que faço de Lessa.
Sem querer identificar coerências inexistentes ou salvá-lo de suas incoerências, a leitura de que Lessa teria mudado de entendimento desconsidera até um fator jurídico relevante, que ele próprio, enquanto ministro, considerava nos seus votos: a necessidade de comprovação do direito líquido e certo para a concessão do habeas corpus. A questão explica por que razão, por exemplo, no caso do Conselho do Distrito Federal, Pedro Lessa concedera, de um lado, o habeas corpus aos intendentes adversários de Nilo, uma vez que eles haviam seguido o Regimento Interno do Conselho, mas, de outro, negara a ordem aos intendentes aliados de Nilo, que não respeitavam a regra. Nesse viés mais jurídico, seu discurso soa até muito coerente. Não parece acertado, assim, desconsiderar questões jurídicas como esta, que estavam em seu momento embrionário e que não aparecem nos votos de Lessa com a clareza de raciocínio que se deve esperar de quem, com o benefício do tempo, conhece a evolução da teoria do habeas corpus e da invenção do mandado de segurança. É seguro que, no entanto, essas questões jurídicas não explicam, por si só, o pensamento de Lessa, como visto.
O que desponta importante para a tese é a discussão acerca da teoria do habeas corpus para o fim de testar a hipótese de que no pensamento liberal o referente conceitual do quarto poder é o Supremo. Neste sentido, havia pouca diferença entre Rui e Lessa. Do ponto de vista mais conceitual, linguístico, as duas visões conservavam grande distância da realidade extralinguística, do estado de coisas político-constitucional. As divergências estavam mais concentradas nos atributos relevantes do conceito. Em comparação a Rui, a concepção de Lessa era mais restritiva justamente em razão da sua limitação conceitual da atribuição do Supremo para julgar certos habeas corpus como aquele impetrado por Nilo Peçanha, algo que Rui não admitia como limitador das funções do quarto poder.