• Nenhum resultado encontrado

As bases do quarto poder no liberalismo renovado

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 106-111)

3.1 Levi Carneiro, o renovador

3.1.1 As bases do quarto poder no liberalismo renovado

Em conferência realizada na Associação Cristã de Moços em 14 de setembro de 1934, depois reunida com outras em Conferências sobre a Constituição (1936a), Carneiro deixava claro para o seu público que o conceito de liberdade passava por transformações substanciais.

Um primeiro giro conceitual estava ligado à superação das ideias de Spencer em O indivíduo contra o Estado, tão difundidas na Primeira República por liberais como Alberto Sales (1882, 1891, 1981 [1904]), cujo acentuado individualismo estava “já agora, derruído em seus próprios fundamentos” (Carneiro, 1936a: 43).

Carneiro partia, então, de Mill, Kant, Kelsen e Léon Duguit para insuflar novos ares

ou o pensamento de Levi Carneiro. O silêncio não é compatível, em especial, com o período da década de 1930, quando desempenhou relevante papel na política nacional. Em sua tese de doutorado em Direito, Luis Rosenfield destaca que, no período, apesar da sua intensa atividade no Governo Provisório, “existe uma lacuna histórica sobre a trajetória de Carneiro”

(Rosenfield, 2019: 92).

ao conceito de liberdade num contexto em que o fascismo e o comunismo afrontavam os princípios da democracia (Carneiro, 1936a: 41-51). A ocasião exigia, dessa forma, um novo significado ao conceito de liberdade, num sentido mais solidarista, pensado menos em termos de ação negativa por parte do Estado, e mais na incorporação do conceito de igualdade à noção de liberdade, traduzindo-se na fórmula da igualdade de oportunidades (Idem: 51):

A liberdade não é mais, unicamente, a ausência de obstáculos legais; é a igualdade de oportunidades. Esta é a primeira aplicação concreta do novo conceito da liberdade. A lei não criaria desigualdades, mas reconheceria as desigualdades preexistentes; agora, não, a lei proporciona a todos iguais oportunidades. Esta concepção da liberdade, começa por afirmar a interdependência de todos os homens, e acaba por assegurar, a cada um deles, iguais possibilidades de desenvolvimento de todas as suas capacidades.

A ação do Estado já não é mais unicamente negativa. Empenha-se em garantir a cada um a sua liberdade. E, com esse empenho, chega a excluir as restrições, aparentemente voluntárias, da capacidade ou do valor do trabalho individual.

Renovar o liberalismo significava, portanto, reconceitualizar o próprio conceito de liberdade. A renovação desse conceito foi um leitmotiv que permaneceu no discurso de Carneiro ao menos até o começo da década de 1950. O aparecimento de novas ideias e regimes políticos que colocavam em xeque as liberdades individuais explica, a partir do seu pensamento liberal, a imperiosidade de se renovar os pilares da democracia liberal, tão combatidos nos anos de 1920 e 1930. Mas se a defesa do liberalismo se mostrava uma tarefa especialmente árdua naquelas décadas, o fim da Segunda Guerra deu novo fôlego ao seu pensamento liberal.

A sua prática discursiva passou a resgatar com mais ênfase, então, um pensador e ator político que desde sempre lhe serviu de paradigma na defesa do liberalismo: Rui Barbosa, a quem ele se referia como “um dos maiores liberais de todo o mundo, em todos os tempos”

(Idem: 40). Em discurso proferido na Academia Brasileira de Letras, Carneiro pregava, por isso mesmo, o culto diário a Rui, por ter sido ele o “defensor da liberdade de todos os oprimidos pelos poderes públicos” (1954 [1946]: 281).

Em outro discurso proferido na Academia Brasileira de Letras, ele dizia que o ressurgimento de Rui representava, naquele contexto, a renovação do próprio liberalismo. Por isso, afirmava que os princípios que nortearam a vida de Rui “atravessaram, em todo o mundo uma fase de esmorecimento – mas hão de ressurgir, se já não estão ressurgindo, ainda que transformados e recebendo novas aplicações” (Carneiro, 1954 [1951]: 286). Houve, assim, pela parte de Levi Carneiro, uma clara filiação ideológica e intelectual ao próprio pensamento liberal brasileiro, sobretudo pelas ideias de Rui. Passada a fase crítica antiliberal, o fim da Segunda Guerra permitiu que ele se voltasse para a história e para as tradições liberais brasileiras com o objetivo de redefinir o liberalismo.

Resgatar Rui, em especial, significava também defendê-lo das críticas, às vezes proferidas de forma muito enfática e por penas autorizadas. Um dos maiores julgamentos de Rui àquele tempo, se não o maior deles, vinha de Oliveira Viana, que criticava Rui pelo seu

“marginalismo”, seu “idealismo utópico” (Viana, 1999 [1949]: 353-396). Tanto que, em conferência realizada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado por conservadores, Carneiro decidiu rebater algumas questões relacionadas a Rui no então recentíssimo Instituições Políticas Brasileiras (1999 [1949]) de Oliveira Viana, também membro do mesmo Instituto.

Apesar de partilhar da opinião de Oliveira Viana de que o povo brasileiro não tinha

“educação democrática”, Levi Carneiro (1954: 59) questionava, entretanto, com um argumento tipicamente liberal, inclusive com um tom de crítica velada a Oliveira Viana, o seguinte: “Como se faz a educação democrática? Como há de consegui-la o nosso povo? Mediante a prática da democracia, e somente assim – creio eu. Não é sob os regimes da tirania, ou de despotismo, que se realiza a educação democrática” (Idem). Emendava com outra provocação a Oliveira Viana:

“como supor que Rui Barbosa não conhecia o Brasil?” (Idem: 62). Afinal, “a quem, senão a Rui Barbosa, devemos mais que a qualquer outro, essa tradição, essa regalia, essa aparelhagem de educação democrática?” (Idem: 63). A democracia liberal aparecia no discurso de Carneiro, portanto, ligada à própria concepção do que seria a realidade. Nesse viés, ninguém teria sido mais realista do que Rui. As suas campanhas presidenciais, notadamente a de 1910, teriam sido o exemplo desse processo de educação democrática por que passou o país durante a Primeira República (Idem: 73). Ou seja, Carneiro invertia as categorias de Oliveira Viana para afirmar que Rui havia sido um verdadeiro realista, e não um alienado como pintava o conservadorismo de Viana.

Se, de um lado, havia a necessidade de colocar em dúvida o “marginalismo” de Rui na forma pensada por Oliveira Viana; por outro, havia um ponto do pensamento do autor de Populações Meridionais do Brasil (2005 [1920]) a respeito de Rui que merecia o elogio de Carneiro. Isso porque Oliveira Viana reconheceu, a despeito de suas críticas a ele, que “a maior glória de Rui Barbosa está em haver compreendido a função primacial do Poder Judiciário de defesa da liberdade, e ‘colocado esse Poder fora do alcance da subordinação e dependência dos Executivos e Parlamentos’” (Carneiro, 1954: 60).

Em outra conferência, desta vez no Instituto dos Advogados, também em 1949, Carneiro olhava para Rui sob um ângulo particular e estritamente ligado à atividade forense:

como advogado. Havia sido especialmente por meio desse ofício que, durante a Primeira República, Rui Barbosa usara e ensinara como se deveria manejar “do magnífico recurso

judicial, que é o habeas corpus, no interesse da defesa de direitos individuais e da salvaguarda dos princípios constitucionais” (Idem: 83).

Destacando o papel avant la lettre de Rui como advogado das causas de direito constitucional, numa época marcada pelo direito privado, Levi Carneiro lembrava, por exemplo, o habeas corpus impetrado por Rui em 1892 no Supremo a favor dos presos sob o estado de sítio de Floriano (Idem: 88-89). Apesar das derrotas iniciais no Tribunal, Carneiro sublinhava que foi naquele mesmo Tribunal que Rui “triunfa, vê consagradas – ainda que, nalguns casos, demoradamente e com restrições – as suas doutrinas, consegue, por vezes, a realização do seu ideal de justiça” (Idem: 108-109). A chave interpretativa de Carneiro colocava o judiciarismo ruiano e, portanto, a sua história, em um prisma positivo, ainda que sob as ofensivas dos marechais Floriano Peixoto e Hermes da Fonseca. Ao fim ao cabo, era possível extrair experiências e ideias positivas da Primeira República para a sua definição de quarto poder, de inspiração ruiana.

As referências a Rui não começaram, é certo, naquele momento. Muito antes, no seu livro Do Judiciário Federal (1916), a atuação constitucional de Rui era comparada, por Carneiro, à de Hamilton, nos Estados Unidos e, no que diz respeito à cultura jurídica, até mesmo superior à de John Marshall, o chief justice da Suprema Corte estadunidense, cujo papel havia sido decisivo no julgamento do célebre caso Marbury v. Madison (1803). Levi Carneiro anotava, quando Rui ainda era vivo, que o baiano (Carneiro, 1916: 28-29):

Começou por fazer, antes da Constituição, uma obra merecedora da epígrafe da de Hamilton, e, em um quarto de século, com a maior elevação moral, a mais completa erudição, a mais assombrosa energia, tem evangelizado, no foro, na imprensa, no Congresso, a boa doutrina constitucional. Autor principal da Constituição, ele soube ser, fora do Tribunal, o seu principal intérprete e doutrinador. E essa coincidência se pode considerar, para a consolidação do nosso regime constitucional, tão providencial e feliz como, nos Estados Unidos, se julga a presidência de Marshall, a quem, aliás, faltava a insuperável cultura jurídica do Sr. Rui Barbosa.

Ainda durante a Primeira República, Levi Carneiro indicava que era o “Supremo Tribunal – ‘a pérola das instituições republicanas’” (Idem: 31), isto é, o quarto poder, de acordo com a definição ruiana. Mais uma vez, Carneiro interpretava a história do país de maneira positiva, a despeito das dificuldades que Rui e o Supremo encontraram com as investidas autoritárias dos marechais Floriano Peixoto e Hermes da Fonseca.

Às vésperas da Revolução de 1930, Carneiro insistiria, na condição de presidente do Instituto dos Advogados, ao proferir os discursos inaugurais dos trabalhos do Instituto nos anos de 1929 e 1930, que um dos alicerces da Constituição de 1891 era justamente “o judiciarismo

efetivado por um tribunal supremo, investido da guarda da Constituição, e, portanto, da defesa dos direitos individuais” (1930b: 125). No que tange à definição do Supremo como referente do conceito de quarto poder, Levi Carneiro realçava, naquelas oportunidades, que (Carneiro, 1929: 89):

Dentre todos os ramos do Poder Judiciário escusado é repetir que nenhum tem importância comparável à do Supremo Tribunal Federal. Este é que o caracteriza, que o regula, que lhe dá prestígio, coesão, força. Ele é, como dizia o maior dos nossos juristas de todos os tempos, a joia das instituições republicanas. A mais bela criação dos constituintes de 91. A mais alta garantia dos direitos dos cidadãos. E, dentre todos os nossos institutos, o que, na continuidade dos anos decorridos, melhor tem merecido a confiança pública, o que, em suma, melhor tem preenchido a sua grande missão constitucional e política.

Sem fugir à tradição judiciarista brasileira, Levi Carneiro confiava ao Supremo a guarda da Constituição, podendo-se afirmar que ele partilhava da ideia de que o legado do Poder Moderador imperial caiu nas mãos do Tribunal, o grande árbitro da República, na linha pensada por Rui, e antes dele, por Tavares Bastos e Cândido Mendes em relação à Suprema Corte dos Estados Unidos. Àquela altura já estava mais nítida a atribuição da Corte, a partir do judiciarismo ruiano, sobretudo de defesa das liberdades individuais.

A despeito da sua relevância, isso não significava que o Supremo Tribunal, aqui ou alhures, no passado ou no presente, estivesse isento de ofensivas, notadamente em momentos conturbados no cenário político. Atento às novidades dos Estados Unidos, ele notava, por exemplo, as investidas contrárias aos juízes estadunidenses que declaravam a inconstitucionalidade de determinadas leis. Mostrando-se atualizado com as tendências políticas daquele país, ele contestava, já em 1916 (Carneiro, 1916: 48), a proposta da campanha presidencial de Theodore Roosevelt de 1912 acerca do “recall of judges” e do “recall of judicial decisions22 aventada no pronunciamento A Charter of Democracy (Roosevelt, 1919 [1912]:

48), algo controverso mesmo nos Estados Unidos.

Ainda que a proposta de Roosevelt não envolvesse expressamente a Corte norte- americana, Levi Carneiro apontava que, na iniciativa, havia o “gérmen de um movimento contra a Suprema Corte” (Idem). O mesmo exemplo seria retomado por Carneiro, doze anos depois,

22I do not believe in adopting the recall [of judges] save as a last resort, when it has become clearly evident that no other course will achieve the desired result. But either the recall will have to be adopted or else it willhave to be made much easier than it now is to get rid, not merely of a bad judge, but of a judge who, however virtuous, has grown so out of touch with social needs and facts that he is unfit longer to render good service on the bench”. (Roosevelt, 1919 [1912]: 14). Tradução livre para “Não acredito no recall [dos juízes] a não ser como último recurso, quando se tornar claramente evidente que nenhum outro meio alcançará o resultado desejado. Mas ou a revogação terá que ser adotada ou terá que ser muito mais fácil do que agora para se livrar, não apenas de um mau juiz, mas de um juiz que, embora virtuoso, tenha perdido tanto contato com as necessidades e fatos sociais que não está apto por mais tempo para prestar um bom serviço no tribunal”.

ao proferir seu discurso de posse em 8 de novembro de 1928 como presidente do Instituto dos Advogados (Carneiro, 1928: 94). Ele empregava o mesmo exemplo com o fim de defender a autonomia e a independência do Poder Judiciário, mas sem explicitar o contexto da proposta do recall nos Estados Unidos, que também envolvia, dentre outros elementos, a controversa decisão de 1857 da Suprema Corte em Dred Scott v. Sandford.

De qualquer maneira, o que Carneiro buscava mostrar era que, embora o Brasil tivesse importado, especialmente pelas mãos de Rui, a organização judiciária dos Estados Unidos, seria um erro “fundar na experiência daquele país o cerceamento das atribuições que a nossa Constituição conferiu ao Poder Judiciário” (1916: 49). Era preciso, portanto, para alcançar um liberalismo renovado, preservar e defender não só o Poder Judiciário como estruturado no país, mas também, e especialmente, o Supremo, interpretado como o quarto poder encastelado no Judiciário. Mas a tarefa não seria simples, especialmente depois da Revolução de 1930.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 106-111)