Esta tese tem como objetivo investigar como uma mudança nas estruturas de participação em sala de aula pode contribuir para a coconstrução do conhecimento no ensino da língua portuguesa. Primeiramente, segundo Schulz (2007), precisamos pensar nas estruturas de participação utilizadas em sala de aula por meio da postura tomada por professores e alunos. Para que os alunos tenham o seu lugar de fala, outras estruturas de participação devem, portanto, ser implementadas na sala de aula.
O objetivo desta pesquisa é investigar como uma mudança nas estruturas de participação em sala de aula, ao proporcionar um ambiente colaborativo, pode contribuir para a coconstrução do conhecimento.
Linguagem e interação
Fazer uso da percepção pragmática da língua em sala de aula implica ver a língua nos seus diversos usos concretos, nos mais diversos contextos onde é utilizada por toda a comunidade escolar. Quando se pensa dessa forma, não faz sentido focar o ensino de línguas em um conjunto de regras gramaticais, focando apenas no aspecto formal de como as palavras se relacionam entre si, ignorando os usos que os alunos realmente fazem nas interações cotidianas. Uma alternativa ao ensino das regras de uso da língua poderia ser começar pela língua que os alunos usam, considerando os vários contextos em que ela é usada, e criar uma.
Austin, ao desenvolver a Teoria dos Atos de Fala, propõe uma análise da linguagem como algo performativo, que indica a realização de uma ação em combinação com o ato de comunicar.
As estruturas de participação
Repensar as estruturas de participação utilizadas na sala de aula é essencial para atingir esse objetivo. Na sala de aula, o ensino ocorre na maioria das vezes por meio de “atividades de conversação”. Em alguns casos, o locutor pode dirigir seu discurso a mais de um ouvinte, ou de forma geral, como no caso da sala de aula.
Considerar as estruturas de participação utilizadas em sala de aula é fundamental para determinar o tipo de contribuição que alunos e professores dão às atividades escolares.
A cooperação na sala de aula
A aprendizagem cooperativa é o uso didático de pequenos grupos nos quais os alunos trabalham juntos para maximizar a sua própria aprendizagem e a dos outros. Grupos de pseudoensino são aqueles em que os alunos aceitam instruções para trabalharem juntos, mas não demonstram interesse em realizar as tarefas. Grupos de aprendizagem cooperativa são descritos como aqueles em que os alunos aceitam a tarefa de trabalhar bem em conjunto, percebendo que o seu desempenho depende do esforço do grupo como um todo.
Os alunos precisam entender claramente o que devem fazer, bem como o resultado esperado, as estratégias que utilizarão e como relacioná-las com experiências de aprendizagem anteriores.
A pesquisa-ação
Em cada uma destas áreas, a investigação-ação assume características distintas na forma como orienta o processo de investigação. A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa participativa engajada, em oposição à pesquisa tradicional, que é considerada 'independente', 'não reativa' e. Segundo Engel (2002, p. 183), a pesquisa-ação tem sido desenvolvida no espaço educacional com o objetivo de aliar a teoria à prática em sala de aula.
A capacidade autoavaliativa da pesquisa-ação permite que os sujeitos envolvidos avaliem cada fase desenvolvida e preparem os próximos passos, com possibilidade de mudança no rumo das atividades desenvolvidas, se for o caso.
O ciclo da pesquisa-ação
Franco (2005) enfatiza a característica crítica da pesquisa-ação e afirma que ela não visa apenas compreender ou descrever o mundo da prática, mas transformá-lo. Franco (2005, p. 489) apresenta três dimensões da pesquisa-ação; a dimensão ontológica (refere-se à natureza do objeto a ser conhecido); a dimensão epistemológica. referente à relação sujeito-conhecimento) e a dimensão metodológica (referente aos processos de conhecimento utilizados pelo pesquisador). De Lewin a Elliot, afirma-se que uma característica importante da pesquisa-ação é o processo integrativo entre pesquisa, reflexão e ação, que se retoma constantemente na forma de espirais cíclicas, dando tempo e espaço para o aprofundamento da integração pesquisador-grupo, que permitem a prática. desse processo se familiarizar gradativamente, bem como tempo para o aprofundamento do conhecimento interpessoal e, por meio de tais espirais, tempo e espaço para compreensão cognitiva/experiência emocional das novas situações vivenciadas por todo o grupo - praticantes e pesquisadores." (FRANCO, 2005, p. 493).
Outro ponto interessante da pesquisa-ação, mencionado por Franco (2005), é que ela proporciona integração entre os sujeitos envolvidos no processo.
O contexto social da pesquisa
A escola
Como complemento às disciplinas obrigatórias, a partir de 2014 a unidade passou a contar com a parceria do projeto Clin Social, desenvolvido pela Empresa. Em 2015, as aulas começaram a ser oferecidas na sede do projeto, que fica em outro bairro, e também começaram a ser oferecidas aulas de natação. No início de 2016, o atendimento foi interrompido, devido à impossibilidade de atender todos os alunos, pois o projeto passou a atender também alunos de outras unidades.
No final de 2016, a escola foi oficialmente declarada escola a tempo inteiro pelo Departamento de Educação, juntamente com outras quatro que atendiam estudantes de comunidades desfavorecidas afetadas pela violência.
O bairro
A turma escolhida para desenvolver as atividades interventivas
Os alunos NEE são assistidos por um professor de apoio especializado com contrato temporário e dão-se bem com outros alunos. Assim que assumi a aula, percebi que os alunos estavam bastante agitados e dispersos, com muita dificuldade de concentração. Os alunos acharam relevantes as observações que fiz e concordaram com a ideia de que precisavam mudar a sua atitude na escola e envolver-se mais nas atividades propostas pelas diferentes disciplinas com o objetivo de melhorar o desempenho das aulas, uma vez que as notas foram baixas nas avaliações anteriores, dando notas insatisfatórias – principalmente D e E11, em quase todas as disciplinas.
Após a notícia, conversei novamente com os alunos sobre a necessidade de fazer algumas mudanças e falei sobre a pesquisa e a proposta de intervenção.
Esquema geral das atividades interventivas
Interpretação do termo “negro de primeira classe” em que os alunos foram estimulados a compreender o significado das palavras utilizadas no texto; Em seguida, todos os alunos são convidados a responder às perguntas do professor, que aceita diferentes tipos de respostas (diferentes do modelo IRA). Medidas desenvolvidas: • Os alunos foram convidados a expressar livremente a sua opinião sobre o trabalho em grupo;
Leia alguns dos textos: “Viva as cotas da USP” e “10 motivos para ser contra as cotas raciais”.
Um relato autoetnográfico da intervenção
Os alunos reclamaram muito de ter que fazer o trabalho em dupla e disseram que preferiam fazer sozinhos. O objetivo do trabalho em duplas era fazer com que os alunos interagissem entre si para compartilhar conhecimentos e superar problemas enquanto um ajudava o outro. Eu interagi com os grupos, passando de mesa em mesa para observar o andamento das atividades, e os alunos interagiam dentro das equipes.
Aos poucos, os alunos começaram a interagir de forma mais positiva, mesmo não estando satisfeitos com o treinamento. Na fase seguinte, os alunos foram conduzidos à sala multimídia, com o objetivo de assistir ao vídeo do pedido de desculpas do ministro Luís Roberto Barroso. Os alunos pediram para assistir também ao vídeo do primeiro discurso, onde Barroso chama Joaquim Barbosa de “negro de primeira classe”.
À medida que os alunos desenvolviam as atividades por algumas aulas seguidas, sua resistência em trabalhar em equipe diminuiu e eles passaram a cooperar mais com seus parceiros. A estrutura de participação seguiu o mesmo modelo das aulas anteriores, onde todos os alunos foram convidados a responder às questões. Fiquei um pouco preocupado com a organização, pois os alunos ainda conversavam simultaneamente entre si e em tom muito alto.
Quando os alunos que compunham o júri manifestaram a sua concordância com uma das partes, o clima competitivo aumentou. Durante as atividades, os alunos concretizaram as expectativas que surgiram durante o desenvolvimento do projeto de intervenção.
Análise dos textos dos alunos de acordo com o “status de participação”
Esses dados indicaram que quando os alunos tinham um papel falante na sala de aula e tinham o poder de decidir sobre as tarefas a serem realizadas, o envolvimento era muito maior do que em atividades onde não conseguiam expressar suas opiniões. Na secção “os negros ficam ofendidos porque se acham incapazes”, os estudantes mencionaram uma ideia tendenciosa que existe na sociedade, nomeadamente a de que os negros não têm a mesma capacidade ou preparação que os brancos para assumirem lideranças ou altos cargos. . cargos de nível, responsabilidade. Os alunos iniciam o texto caracterizando o gênero do discurso e a forma como ele é veiculado em “Estou aqui, em rede nacional”.
Pude perceber durante o acompanhamento das atividades que neste caso os alunos não demonstraram esforço para cooperar entre si. Achei que não existia mais gente boa”, indicando que os alunos entendem que a sociedade não promove tanto os valores cooperativos. De acordo com o “status participativo” definido por Goffman (2002), podemos dizer que os alunos participaram como autores nos trabalhos que produziram.
Após discutir as perspectivas apresentadas pelos dois textos, solicitei aos alunos que se posicionassem a favor ou contra as cotas raciais, de acordo com a discussão suscitada pelos textos. Os alunos Fábio, Ana, Júlia, Igor, Érica e Carlos19 fazem parte do grupo a favor das cotas raciais. Os alunos Gustavo, Allan, Eduardo, Fátima, Valdo, Marcio e Wilma fazem parte do grupo contra as cotas raciais.
Todos os alunos são interlocutores ratificados, inclusive os alunos que não responderam às questões, pois as respostas também foram direcionadas a eles. 25 Porque você acha que os alunos da escola particular, brancos, 26 só estudam na escola. Ao final do debate, os alunos do júri decidem a favor do grupo que se opõe às cotas.
Quando foi feita a pergunta "O que significa a expressão preto de primeira classe?" todos os alunos foram convidados a contribuir com suas respostas, pois não houve uma única resposta correta.
Argumentos contra as cotas
34;Meu ponto continua o mesmo: sou contra as cotas raciais, mas isso não significa que o tema não deva ser discutido. Thaís é contra as cotas raciais porque acha que esse tipo de política mostra que os negros não têm capacidade de entrar sozinhos na universidade. Stella Vaz, 17 anos, moradora de Atibaia, também é contra as cotas raciais por acreditar que a medida agravará ainda mais a desigualdade social.
Para ele, as cotas sociais são bem-vindas desde que existam políticas paralelas para melhorar a educação pública. Primeiro, o Estado brasileiro garantiu às universidades autonomia para adotarem os critérios que considerassem razoáveis e até mesmo para não adotarem cotas raciais. As cotas raciais são ações afirmativas que têm como principal função corrigir as desigualdades econômicas, sociais e educacionais no Brasil.
Outra crítica baseia-se na ideia de que as cotas piorariam a qualidade do ensino superior, nivelando-o para baixo. Mas se nós que estudamos em escolas públicas dermos o nosso melhor, um dia teremos sucesso por causa das cotas raciais. Na minha opinião, as quotas ajudam, mas se as pessoas derem o seu melhor, terão sucesso.
Porque se os brancos não acreditarem no que os negros podem alcançar, as cotas poderiam ajudar muito os negros. Igor: Acho que as probabilidades ajudam porque se você colocar um aluno negro da escola pública contra um aluno branco da escola particular, o aluno branco da escola particular com certeza vencerá. Que as cotas só ajudariam negros, pardos e indígenas e como seria essa pessoa branca?
Allan: Sou contra as cotas raciais porque na minha opinião é uma forma indireta de racismo contra os brancos e também como disse o Igor: se eu estivesse em uma universidade ou faculdade, entrasse em um concurso e fizesse uma prova, e se eu ficasse na frente de um estudante branco?