2 PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS
Neste capítulo, abordarei a metodologia utilizada no presente trabalho, a pesquisa- ação, detalhando e exemplificando as etapas que a compõem, de acordo com seus idealizadores. Farei uma consideração sobre as características do contexto em que ela foi realizada, descrevendo a escola, a turma onde o projeto foi desenvolvido e o bairro onde a escola se localiza. Ao final do capítulo, apresentarei um esquema geral das atividades interventivas, indicando os objetivos de cada etapa, as ações desenvolvidas, as estruturas de participação utilizadas, assim como os conteúdos trabalhados.
A pesquisa foi realizada em uma escola pública do município de Niterói, especificamente em uma turma de oitavo ano, composta por 31 alunos, na modalidade regular. O que me motivou a realizá-la foi o fato de ter me deparado com alguns problemas que, na minha opinião, atrapalhavam o desenvolvimento dos alunos em relação ao ensino da disciplina LP, como falta de interesse, apatia perante as atividades propostas, indisciplina, dispersão e baixo rendimento6.
O projeto de intervenção foi desenvolvido com o objetivo de colocar em prática ações que pudessem contribuir para minimizar os problemas citados, proporcionando uma melhora no contexto do dia a dia da sala de aula e gerando conhecimentos úteis para planejar ações futuras.
uma intervenção na qual há uma co-produção de conhecimentos entre os participantes e os pesquisadores por meio de processos comunicativos colaborativos nos quais todas as contribuições dos participantes são levadas a sério. Os significados construídos no processo de investigação conduzem à ação social, ou ainda, essas reflexões sobre a ação levam à construção de novos significados [...]
concentra-se no contexto; seu objetivo é resolver problemas da vida real em seu contexto. (GREEWOOD E LEVIN, 2006, p.102)
A presente pesquisa foi desenvolvida seguindo os pressupostos da pesquisa-ação.
Como professora e pesquisadora, junto com os alunos participantes, tive a oportunidade de construir conhecimento sobre o contexto da sala de aula, identificando os problemas e agindo sobre eles, na tentativa de melhorar a aprendizagem em relação à disciplina LP.
Quando tive a oportunidade de realizar uma pesquisa na escola onde atuo, pensei em uma situação que acredito ser determinante para o meu trabalho, a interação e a participação dos alunos nas aulas de LP, que considerava insuficiente para gerar aprendizagem significativa. Incomodava-me a indiferença e falta de interesse dos alunos, algo que eu via como um grande obstáculo em meu trabalho como professora. O conhecimento das teorias descritas neste trabalho possibilitaram-me entender um pouco mais as raízes dos problemas para, através do projeto de intervenção, colocar em prática ações que, não só puderam contribuir para a instauração de um ambiente diferente do anterior, mas também delinear novos caminhos para ações futuras.
De acordo com Tripp (2005, p. 445), não se tem certeza sobre quem inventou a pesquisa-ação, sendo sua origem muitas vezes atribuída a Lewin (1946). Após seu surgimento, ela “foi considerada um termo geral para quatro processos diferentes: pesquisa- diagnóstico, pesquisa-participante, pesquisa-empírica e pesquisa-experimental”. (TRIPP, 2005, p. 445) O autor diz que mais tarde ela foi aplicada em diferentes campos: na política, na administração, no desenvolvimento comunitário, na agricultura, em negócios bancários, entre outros. Em cada um desses campos, a pesquisa-ação assume particularidades distintas na forma de conduzir o processo de investigação.
Para Tripp (2005), “a pesquisa-ação educacional é principalmente uma estratégia para o desenvolvimento de professores e pesquisadores, de modo que eles possam utilizar suas pesquisas para aprimorar seu ensino e, em decorrência, o aprendizado de seus alunos”.
(TRIPP, 2005, p. 445) Ele afirma que, mesmo dentro da educação, surgiram variedades distintas de pesquisa-ação (voltadas para a parte técnica, para o desenvolvimento profissional do professor ou para a crítica social), levando-a a ser descrita como uma família de atividades.
Posso afirmar que realizar esta pesquisa foi um importante passo para o meu desenvolvimento enquanto professora, uma vez que me possibilitou investigar os problemas
que tanto me incomodavam, conhecer melhor os alunos participantes e poder contribuir ainda mais para sua aprendizagem. Além disso, fez com que os envolvidos construíssem conhecimentos de grande importância para a formação e a integração dos alunos à escola.
Tripp (2005) define a pesquisa-ação como:
uma forma de investigação-ação que utiliza técnicas de pesquisa consagradas para informar a ação que se decide tomar para melhorar a prática’, e eu acrescentaria que as técnicas de pesquisa devem atender aos critérios comuns a outros tipos de pesquisa acadêmica (isto é, enfrentar a revisão pelos pares quanto a procedimentos, significância, originalidade, validade etc.) (TRIPP, 2005, p. 447)
Assim como Geenwood e Levin (2006), Tripp (2005) destaca o valor da prática e do contexto na metodologia da pesquisa-ação, onde o pesquisador levará em conta a qualidade do trabalho que realiza no dia a dia como ponto de partida para iniciar a investigação, buscando uma compreensão dessa prática com o objetivo de alcançar melhoras, tanto para seu próprio trabalho como para seus colaboradores.
As atividades práticas desenvolvidas durante a intervenção proporcionaram um ambiente na sala de aula bem mais descontraído e empolgante, fazendo com que os alunos fossem motivados a participar e interagir, tanto com a professora como os colegas de classe.
Esse fato gerou uma grande melhora no clima da sala de aula, transformando o espaço em um ambiente mais produtivo e propício à construção de conhecimento.
De acordo com Engel (2000):
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa participante engajada, em oposição à pesquisa tradicional, que é considerada como ‘independente’, ‘não-reativa’ e
‘objetiva’. Como o próprio nome já diz, a pesquisa-ação procura unir a pesquisa à ação ou prática, isto é, desenvolver o conhecimento e a compreensão como parte da prática. É, portanto, uma maneira de se fazer pesquisa em situações em que também se é uma pessoa da prática e se deseja melhorar a compreensão desta. (ENGEL, 2000, p.182)
Segundo Engel (2002, p. 183), a pesquisa-ação desenvolveu-se no espaço educacional com o objetivo de aliar a teoria à prática da sala de aula. Até então, não havia essa preocupação, e, com a implementação da pesquisa-ação, os professores puderam dedicar-se a resolver problemas presentes em suas salas de aula. Dessa forma, ela se torna um importante instrumento para o desenvolvimento profissional dos professores, ao proporcionar a esses profissionais a construção do conhecimento de “dentro para fora”, onde eles próprios podem investigar os problemas que vivem no seu cotidiano, buscando um entendimento a respeito da sua prática, na tentativa de melhorar a qualidade do seu trabalho. A pesquisa-ação é diferente
da pesquisa tradicional, em que um pesquisador de fora é envolvido na prática de outra pessoa, trazendo conhecimentos e procedimentos alheios ao que é vivido no contexto real, tornando-se, assim, um conhecimento construído de “fora para dentro”. Além disso, essa forma de pesquisar – a tradicional – não leva em consideração as opiniões e interesses dos participantes e colaboradores da pesquisa.
Por suas características específicas, a pesquisa-ação proporciona aos professores transformarem suas salas de aula em objetos de pesquisa, ao invés de serem apenas consumidores de pesquisas realizadas por outras pessoas, que nem sempre dizem respeito às suas reais necessidades.
Segundo Engel (2000), caracteriza a pesquisa-ação os seguintes aspectos: ser “um processo de aprendizagem para todos os participantes”; ser observação de realidades que sejam “suscetíveis de mudança” e “exigem uma mudança prática”; ser “situacional”, ou seja, identifica os problemas “específicos numa situação também específica”; ser “auto-avaliativa”, no sentido de que irá avaliar as ações implementadas pela intervenção, redefinindo-as, se necessário; e ser “cíclica”, pois se utilizará das “fases finais” para “aprimorar os resultados das fases anteriores”. (ENGEL, 2000, p. 184)
Essa lista de características mostra, de forma geral, o processo da pesquisa-ação.
Primeiramente, o autor fala a respeito da participação de todos os sujeitos envolvidos, que é fundamental para se obter um conhecimento mais profundo da própria prática. Não tem como isso acontecer excluindo os demais participantes e colaboradores da investigação, uma vez que é da interação entre todos os indivíduos que fazem parte da prática que se chegará à compreensão dos fenômenos que a envolvem. Também, como se busca a melhoria das condições dessa prática, o resultado irá afetar todas as pessoas que fazem parte dela.
Nesta pesquisa, todos os sujeitos envolvidos tiveram uma participação efetiva no processo de investigação e de produção de conhecimentos, a partir das ações implementadas.
Os resultados obtidos resultaram da interação constante entre professora e alunos durante as atividades. Os conhecimentos foram construídos, por meio dessas ações, por todos esses sujeitos que dela participaram.
Outro fator importante, indicado por Engel (2000), é a possibilidade de agir sobre uma determinada situação para tentar modificá-la. O pesquisador, ao avaliar os resultados, irá verificar se os procedimentos utilizados foram válidos ou não, se foram capazes de interferir nos problemas detectados, ocasionando em melhores condições para o cotidiano dos envolvidos.
Os problemas encontrados nas salas de aula surgem de situações muito diferentes, dependendo do tipo de classe, da localização da escola, da comunidade atendida, entre outros fatores. Esse tipo de pesquisa possibilita aos profissionais investigar cada situação em particular, em cada contexto específico, buscando alcançar as melhores soluções para os problemas existentes.
No caso desta pesquisa, havia alguns problemas que são comuns em outras salas de aula, contudo, trata-se de sujeitos situados em espaço e tempo determinados, que possuem histórias de vida e interesses diferentes de alunos de outras escolas. Portanto, a melhor forma para amenizar esses problemas seria a investigação e a implementação de ações neste mesmo contexto. Conhecimentos advindos através do estudo de outras salas de aula poderiam não ser eficazes neste caso específico.
A capacidade auto-avaliativa da pesquisa-ação possibilita que os sujeitos envolvidos possam avaliar cada fase desenvolvida e preparar os próximos passos, podendo haver uma mudança no direcionamento das atividades desenvolvidas, se for pertinente. Não há um protocolo fechado a ser seguido, pois as etapas posteriores deverão ser definidas conforme avaliação das anteriores.