Para o autor, o intelectual exilado pode configurar novas formas de percepção da realidade, dotado de uma liberdade pouco conhecida pelos intelectuais que se adaptam a uma forma de pensar. Elisa Lispector e Rawet constituem assim trajetórias exiladas que, a partir do isolamento a que foram submetidos, foram e/ou foram. Acreditamos ser importante que o termo seja colocado numa perspectiva histórica, para que seja possível uma interpretação comum até meados do século XX.
Assim, a partir de uma crítica à homogeneização e pureza da cultura, podemos desconstruir a narrativa que fundou a ideia de pertencimento e destacar o seu caráter imaginário. O que chamamos de pós-modernidade é precisamente o desmantelamento deste logos e do seu ethos, o fim da possibilidade de supremacia de uma cultura sobre outra. No seu sentido mais estrito, é um “êxtase” que permite escapar simultaneamente ao encerramento do tempo individual, ao princípio da identidade e à compulsão de uma residência social e profissional.
Segundo Danto, a história da arte foi pensada como uma sequência de fases de uma única narrativa que se desenrola. A partir de uma genealogia literária alternativa ou menos tradicional25, podemos afirmar que Elisa Lispector e Samuel Rawet são os precursores desses novos escritores brasileiros. Entre as narrativas dos imigrantes de Lispector e Rawet e as narrativas da terceira geração que homenageiam seus antepassados reinventando o passado, o tempo não existe mais, o que existe é a formação de uma comunidade literária que se reconhece, se identifica e se honra.
Para Said, o intelectual exilado pode configurar novas formas de percepção da realidade, dotado de uma liberdade pouco conhecida pelos intelectuais adaptados a uma forma de pensamento.
Elisa e o rastro dos Lispector
O teto de Elisa: a escrita no feminino
No mesmo sentido, a pesquisa de Regina Dalcastagnè (2007) se aplica ao estudar a representação da mulher na literatura brasileira contemporânea. A indiferença de Heitor parece ambígua, ora ele parece se distanciar de Marta para que ela viva sua vida de forma autônoma, ora o protagonista nos apresenta argumentos para o distanciamento entre eles, referindo-se ao medo que Heitor tem dessa autonomia. Da mesma forma, acontece o encontro entre Marta e Maurício, primeiro uma reaproximação, depois uma separação. Marta afirma que tudo entre eles terminou abruptamente porque ela sabia que caso contrário não conseguiria superar o rompimento.
Em sua jornada em busca de uma conexão com o entorno, Marta percebe que na “liberdade dada” existe uma “imensa solidão” (LISSPECTOR, 1976, p. 122). A busca de Marta pela própria identidade era contrária ao que se esperava de uma mulher. Eles nem botam mais ovos." Ele, com a cabeça sempre fixada nas coisas de guerra e de diversão, suportava com raiva mal disfarçada as tagarelices da esposa, que ela interiormente defendia contra ele: mas de que falaria uma mulher se fosse deixada às coisas concretas que vê. e eles se tocam.
A ênfase na representação da incomunicabilidade na obra de Lispector revela o isolamento em que as mulheres se encontravam nesse período de questionamento dos paradigmas falocêntricos. Ana, tal como Marta, vive entre a passividade do objeto feminino e o desejo de ação do sujeito feminino. Woolf lembra que o desencorajamento do pensamento crítico das mulheres, institucionalizado pela inflexibilidade dos papéis que as mulheres deveriam desempenhar na esfera doméstica e familiar, não foi o único obstáculo que as escritoras pioneiras enfrentaram.
Essa distinção se deve à presença de uma protagonista feminina nas narrativas desta obra, visto que foram escritas num momento em que se discutiam formas de se tornar mulher. A submissão às relações tradicionais ocorre como forma de buscar estabilidade e tentar fazer jus ao destino da mulher objeto. A liberdade a que a personagem se refere relaciona-se com as convenções do casamento, especialmente tendo em conta o temperamento atávico do marido.
Esse intervalo da minha vida, ou seja, essa temporada no inferno, não teria servido para me mostrar que não importa a hora ou o lugar que você esteja, pois sempre haverá uma forma de escapar de tudo que nos limita. Os leitores de Lispector devem estar atentos a esta característica de sua escrita: a mulher que se percebe inadequada, que deseja uma nova vida. A partir de uma crítica feminista, podemos destacar as narrativas silenciosas em seus textos, que remetem à solidão feminina.
Samuel Rawet e a escrita como traição
Ser eticamente: homossexualidade e escrita
Isto novamente deixa Zakaria e Abama se perguntando: “Por que transformar em palavras complicadas o que era simples e não precisava de definição?” (RAWET, 2004, p. 447). Um dos militares decide não retaliar os golpes sofridos e tenta perceber porque se encontra naquela situação, até perceber que é feito do mesmo material do adversário, atirando-se “na luta com todo o corpo, e para evitar que qualquer parte de seu corpo permaneça. Mesmo que mantenha vestígios do que já foi, ou para não sofrer o desespero do que se sabe ser duplo, sem tom, ele prepara a cabeça para o golpe final. Esses relatos de Rawet são consistentes com proposições elaboradas por teóricos dedicados às questões queer, cuja perspectiva amplia a noção de sexualidade.
O movimento entre gêneros literários é performativo em Rawet e nos permite olhar seu texto como um ato transgressor, do tema ao formato. A demonstração de poder, embora não se traduza para Clemente, pois ele se recusa a adotar comportamentos que não reconhece como legítimos, ocorre à medida que surge a necessidade de resistência diante dos familiares. A pesquisa inicial sobre Elisa, ainda durante a elaboração da dissertação de mestrado sobre Rawet, mostrou alguns pontos de encontro com a trajetória e obra desta autora: olhar para o imigrante, protagonismo dos sujeitos socialmente marginalizados (como mulheres e homossexuais). . ), a maneira como eles se marginalizaram para permanecerem fiéis à sua literatura.
E se Elisa Lispector e Samuel Rawet, nas suas carreiras como escritores, glorificassem a inevitável incomunicabilidade entre os indivíduos, o sentido de comunidade entre eles e os escritores da terceira geração iria, de certa forma, tirá-los do isolamento em que vivem. . foram submetidos ou aos quais se submeteram. Se, por um lado, a crítica enfatizou a ‘estrangeiridade’ dos autores – a partir de suas temáticas centradas na representação do migrante, do judeu na diáspora, da figura feminina e do homossexual que se assemelha ao estrangeiro porque se encontra estão à margem do discurso e dos espaços hegemónicos – por outro lado, adoptaram a perspectiva distante comum aos intelectuais no exílio, e acolheram a sua interpretação para não serem cooptados. Segundo Vidal (2013), a ficção de Adriana Lisboa exige que suspendamos os paradigmas que descrevem o texto na literatura brasileira.
Mesmo que se tentasse explicar a exclusão dos autores pelo desajuste relacionado ao seu judaísmo, isso seria insatisfatório, visto que existiram outros escritores judeus mais integrados ao sistema literário brasileiro, como Clarice por exemplo o próprio Lispector e Moacyr Scliar. Podemos, portanto, concluir que as leituras destes autores, constantemente associadas à marca identitária, judaica e estrangeira, sempre rodearam a marginalidade, que amadureceu através de Lispector e Rawet como forma de resistência ao meio literário. A primeira leitura do autor girou em torno da marginalização baseada na recusa da identidade.
O isolamento por que passaram representou uma escolha de não se submeterem aos anseios de um sistema literário e cultural que colocava estas figuras marginalizadas apenas como coadjuvantes e quase sempre de forma estereotipada. Esse pós-exílio, ou segundo exílio, como propomos, constitui um novo meio de desfazer as trajetórias dos autores estudados desde o primeiro “exílio” por que passaram. Dissertação (Mestrado) – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.