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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Academic year: 2023

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Contudo, estas transformações na base lógica das operações de paz não ocorreram de forma neutra e imparcial. Para tanto, temos a seguinte questão inicial: Como a atuação do Brasil na MINUSTAH, entendida como alternativa e inovadora, tem contribuído para a propagação de processos de intervenção convencionais em operações de paz?

De Gramsci a Cox: a reflexão sobre a problemática da hegemonia

Antonio Gramsci e a hegemonia cultural

  • O moderno príncipe: coerção, consenso e Estado ampliado
  • Estratégias da hegemonia: guerra de movimento, guerra de posição e revolução

Contudo, a “guerra de movimento” revelou-se infrutífera na análise de sociedades que contavam com uma efetiva consolidação hegemónica da classe burguesa. A estratégia mais adequada seria, portanto, uma transição da “guerra de movimento” para a “guerra de posição” (FORGACS, 2000).

Relações Internacionais e materialismo histórico: a teoria crítica neogramsciana de

  • O propósito da teoria: solução de problemas x crítica
  • Hegemonia crítica e o método das estruturas históricas: o caso da ordem mundial

Ao abordar a abordagem da Teoria Crítica Neogramsciana, é apropriado não considerar a “estrutura” como um conjunto de relações materiais de poder entre estados, como no neorrealismo. A diferença entre a teoria crítica de Cox e a teoria política de Gramsci diz respeito principalmente ao objeto de estudo.

Figura 1 - A dialética de forças em uma estrutura histórica
Figura 1 - A dialética de forças em uma estrutura histórica

A ordem mundial pós-vestfaliana e o bloco histórico neoliberal

A redefinição da agenda de segurança internacional no pós-Guerra Fria

  • Intervenção e Hegemonia: a Organização do Tratado do Atlântico Norte e o
  • As operações de paz da ONU em uma estrutura histórica hegemônica: a
  • Os dilemas e reconfigurações da “paz liberal”: a militarização das operações de paz

A questão é que esta diversificação da natureza das operações de paz na década de 1990 não ocorreu num vácuo ideológico (KEMER; BLANCO; PEREIRA, 2016). A partir de uma abordagem historicista (COX, 1996a) é possível destacar como estes acontecimentos ilustrariam e promoveriam os desenvolvimentos das operações de paz no século XXI. Contudo, entende-se que a diminuição de tropas dos países ocidentais para as operações de paz da ONU não significou necessariamente, por si só, qualquer mudança de paradigma em relação à segurança internacional (BELLAMY; WILLIAMS, 2009).

Essa confusão é intensificada se considerarmos a crescente semelhança conceitual e prática das operações de paz contemporâneas com as operações de estabilização das potências ocidentais e da OTAN (KARLSRUD, 2019; KENKEL; FOLEY, 2021).

Figura 3 - A dialética de forças e o bloco histórico neoliberal (1990 - atual)
Figura 3 - A dialética de forças e o bloco histórico neoliberal (1990 - atual)

O ímpeto reformista da PEB nos governos Lula e Dilma (2003 2016)

Um novo projeto hegemônico em ascensão?

  • O projeto hegemônico e a segurança internacional

Dentro do chamado regionalismo pós-hegemônico, seria do interesse do Brasil construir um projeto que fosse apoiado por unanimidade por outros atores da região, que renunciassem a interesses individuais específicos em favor de uma ordem estável e com regras comuns. e normas de conduta (BURGES. As ideias e iniciativas institucionais adotadas no âmbito deste projeto não seriam um mero reflexo dos "interesses nacionais" e capacidades materiais de um ator mais forte (Estado), neste caso o Brasil), mas seriam ser o produto de uma interação complexa de forças sociais domésticas e transnacionais que atravessam o Estado brasileiro, o que desempenharia apenas um papel intermediário entre essas configurações de forças (COX, 1981).A ponte entre a categoria de "capitalismo de estado" de Cox e a configuração de forças no âmbito do projeto hegemônico brasileiro é direta, pois Clemente (2021, p. 130 ) destaca que era do interesse do Brasil oferecer à região um “pacote de ideias” que incluísse a criação de um mercado regional favorável ao mercado local empresas.

Uma perspectiva neogramsciana enfatizaria que o suposto sucesso do “jeito brasileiro” de construção da paz seria apenas um elemento decorrente de um projeto mais amplo marcado pela internacionalização de um modelo de desenvolvimento teoricamente hegemônico no nível doméstico (neodesenvolvimentismo). e que influencia globalmente, explorando novas estruturas históricas que consistem num pacote de ideias, capacidades materiais e instituições (Figura 4).

As desilusões da PEB e o fracasso do projeto hegemônico

Portanto, podemos questionar se uma situação de hegemonia foi alcançada e, logicamente, se as ideias promovidas no âmbito do projecto materializaram alternativas à estrutura histórica hegemónica neoliberal. Sobre o descompasso entre os elementos domésticos e as propostas e ações do projeto hegemônico brasileiro, estudos vinculados às fontes de apoio interno às estratégias políticas. Outros aspectos ilustram o facto de o fosso entre os níveis interno e externo estar ligado à incapacidade do projecto hegemónico ser sustentado a nível internacional.

As inconsistências no projecto levado a cabo pelo país levantam questões sobre se foi alcançada uma situação de hegemonia e logicamente sobre as ideias promovidas no âmbito do projecto.

Das resistências coloniais ao século XIX: uma independência limitada

Porém, não mudaram a estrutura social do país: formaram-se como uma elite e permitiram que negros (ex-escravos) trabalhassem nas plantações de produtos primários. Isto frustrou muito os ex-escravos que lutaram pela emancipação do país e acreditavam que este seria o primeiro passo para se libertarem da condição em que se encontravam durante o período colonial. A falta de convergência dos interesses desses segmentos sociais resultou em conflitos internos de poder no país (MATIJASCIC, 2010, p. 6).

Como apontam Martins, Lewis e Morain Martin (2012 apud AGUILAR, 2014, p. 53), em retaliação ao impacto negativo da revolução sobre o capital estrangeiro, a França exigiu o pagamento de 150 milhões de francos pelo reconhecimento do Haiti, valor que foi reduzido em 1838. para 60 milhões, esvaziando o tesouro e hipotecando o futuro do país aos bancos franceses.

As ingerências externas no Haiti durante o século XX

  • A intervenção dos Estados Unidos no Haiti e seus reflexos (1915-1934)
  • A Era Duvalier e o recrudescimento do autoritarismo político (1957-1986)
  • Os governos da Junta Militar e os impasses para a redemocratização (1986-
  • A década de 1990: o início das operações de paz da ONU no Haiti

A condenação da violação generalizada dos direitos humanos no Haiti pela comunidade internacional enfraqueceria gradualmente a sustentabilidade do governo Baby Doc, apesar da sua tentativa de se aproximar dos Estados Unidos. Outra intervenção também seria enviada pela ONU em 1993, a Missão das Nações Unidas no Haiti (UNMIH), focada na formação de policiais e na modernização das forças armadas para garantir o respeito às liberdades individuais e aos direitos humanos ( ONU, 1993b; GUERRA, 2017 ) . Além disso, esta última seria substituída pela Missão Internacional de Assistência Civil no Haiti (MICAH), uma missão de consolidação da paz encarregada de identificar os resultados alcançados por missões de manutenção da paz anteriores, tais como a promoção dos direitos humanos, a coordenação e a facilitação do diálogo entre a comunidade internacional. . e atores políticos e sociais no Haiti e fortalecendo a eficácia institucional da PNH (AGUILAR, 2014).

A Missão de Transição das Nações Unidas no Haiti deu continuidade ao trabalho de profissionalização da PNH: promoveu unidades policiais de resposta rápida além de zelar pela segurança das autoridades do país.

O século XXI e os antecedentes da implementação da MINUSTAH

Como brevemente mencionado no capítulo anterior sobre as negociações da MINUSTAH, influenciado pelas ideias de solidariedade com o desenvolvimento económico haitiano e de não indiferença à miséria, o governo utilizou a justificação de que se tratava supostamente de uma missão de manutenção da paz. Na opinião das autoridades brasileiras de política externa, a referência ao Capítulo VII no parágrafo 7 do mandato da MINUSTAH, em vez de no preâmbulo, como no caso do MIF-H, significaria que não seria caracterizada como uma operação de imposição da paz ( VALLER FILHO, 2007; ALLES, 2011). A resolução também previa o estabelecimento de uma nova missão de estabilização no prazo de três meses, que deveria substituir o MIF-H e deveria ajudar na continuidade do processo político pacífico e constitucional e na garantia de um ambiente seguro e estável (SÁ, 2019).

A proposta do SGNU para uma missão de estabilização continha uma operação robusta capaz de recorrer à violência para garantir a implementação do mandato e multidimensional, abrangendo objectivos em áreas que vão desde a segurança até à promoção da democracia e garantia da validade dos direitos e liberdades, incluindo aspectos como como reformas profundas do Estado, apoio a redes de serviços públicos, apoio a políticas de criação de emprego ou mesmo participação em iniciativas de cooperação multilateral (ONU, 2004a).

A Missão da ONU para a Estabilização do Haiti: características e momentos

Neste sentido, os contingentes da missão, especialmente entre finais de 2004 e 2007, concentraram-se na perseguição e desmantelamento de grupos armados ilegais que operam nas zonas periféricas da capital. Houve ampliação do componente militar da missão e mobilização da operação “Resposta Unificada” dos Estados Unidos, que emprega a Força-Tarefa Conjunta Haiti (JTF-H) com cerca de 22 mil soldados, 23 navios e 53 aeronaves para realizar tarefas repressivas contra grupos armados e ações emergenciais de busca, resgate e distribuição de apoio humanitário (BRAGA, 2019; PAULA, 2020). Segundo o General Floriano Peixoto Vieira Neto, chefe da componente militar da missão (comandante da força) entre Abril de 2009 e Março de 2010, “mesmo com o terramoto a missão não se alterou, a natureza da missão continuou a ser uma missão de estabilização - o “S” da Minustah é entendido como estabilização.

Depois de traçar um panorama histórico desde a época colonial, contextualizamos brevemente os antecedentes que levaram à criação da MINUSTAH, bem como analisamos as diferentes fases da missão.

Os significados da estabilização na MINUSTAH: a pacificação e o nexo entre

É assim operacionalizado como uma forma multidireccional de governar o território 'à beira do Estado', restaurando a soberania e o monopólio da violência, mas não é um processo linear, porque envolve a criação de um espaço político em que diferentes atores interagem entre si (MÜLLER F.; STEINKE, 2018). Como argumentam Gomes e Santos (2019, p. 140), as práticas de uso da força no contexto da MINUSTAH são caracterizadas por uma noção específica do nexo entre segurança e desenvolvimento, sendo a primeira entendida em termos de produção de “ordem”, e a segunda parcela é adiada para um momento posterior à consolidação de um “pedido” específico. A relação não só entre o governo provisório do Haiti e o FMI, mas especialmente com os futuros governos, possibilitada pelas ações da MINUSTAH, aumentaria à medida que a missão se tornasse mais complexa e obtivesse ganhos militares contra grupos armados, como vimos no parágrafo anterior.

A questão é que isto reflecte precisamente os componentes da construção da paz liberal e reflecte as noções do que seria um Estado “estável”, em oposição à ideia de fragilidade associada aos contextos em que uma missão de estabilização é empregue.

O modo de atuação do Brasil na MINUSTAH: a natureza controversa da “via

A pacificação dos contingentes militares brasileiros: da “paz” à “ordem”

A transformação do conflito como um conceito mais amplo é, portanto, instrumentalizada para “consertar” as deficiências deste Estado, e reformulada para alcançar “ordem” ou “estabilidade sustentável”, em vez de “paz” duradoura (OLIVEIRA, 2020). Nem todas envolveram a participação de militares brasileiros, mas das que o fizeram, merece destaque especial a Operação Liberté de 2004, operação conjunta e multinacional, em nível de brigada, envolvendo militares brasileiros e jordanianos, com o objetivo de desestruturar a Cité Gangues Soleil (BRAGA, 2019). Como também afirma o general: “em combinação com ações militares típicas, procuramos também dar um apoio consistente a projetos sociais e económicos a nível local”.

Contudo, Heleno declara que tais ações civis visam a “busca obstinada do apoio da população” já que “numa missão de paz é obrigatório conquistar corações e mentes” (PEREIRA A., 2019b, p. 82, grifo nosso). ).

A pacificação e os atores civis brasileiros na MINUSTAH: o caso do Viva

Este programa foi implementado no Haiti a partir de 2006 e posteriormente integrado como uma abordagem ‘adaptada localmente’ para construir resiliência comunitária para reduzir a violência em outras missões da ONU” (MÜLLER M.; STEINKE, 2018, p. 11). Nessa perspectiva, a MINUSTAH aproveitou os desafios econômicos enfrentados pela maioria dos haitianos” (MÜLLER F.; STEINKE, 2018, p. 15). Desta forma, “o trabalho da ONG ilustra a estreita colaboração entre actores civis e militares (e policiais) no funcionamento da abordagem CVR da MINUSTAH, uma colaboração que, não surpreendentemente, quando se consideram as origens militares da estabilização, seguiu a lógica militar”. (MÜLLER M.; STEINKE, 2018, p. 15, tradução nossa).

Um pressuposto básico do Viva Rio é que as comunidades são socialmente resilientes e podem ser apoiadas nos seus esforços de integração.

As resistências haitianas à MINUSTAH e a insustentabilidade da “via

Reduz a legitimidade da missão e contribui para o seu baixo nível geral de aprovação entre a população local (MÜLLER F.; STEINKE, 2018, p. 16). O aparente consentimento da população haitiana à intervenção deteriorou-se a tal ponto que a própria narrativa de “solidariedade” do modus operandi do Brasil foi questionada, permitindo que a missão fosse categorizada como mais um ato de ocupação estrangeira no Haiti em seu legado histórico de colonização., o que limita a capacidade de atuar como Estado soberano (MÜLLER M.; . STEINKE, 2018). Seu papel foi entendido pelos haitianos como servindo aos seus próprios interesses de maior importância no cenário mundial, embora os haitianos também entendam que "a ONU está instrumentalizando o sonho do Brasil de se tornar um país imperialista para que o Brasil possa fazer o trabalho" (MÜLLER M.; STEINKE ). , 2018, pág. 21, tradução nossa).

Nós, que entendemos de política, diplomacia e administração, olhamos de uma certa maneira para o que os brasileiros fazem” (MÜLLER F.; STEINKE, 2018, p. 13).

MINUSTAH: um caso de sucesso?

Tese (Doutorado em Relações Internacionais) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Instituto de Relações Internacionais, Rio de Janeiro, 2014. A Lógica da Ordem: Vestfália, Liberalismo e a Evolução da Ordem Internacional na Era Moderna. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Instituto de Relações Internacionais, Rio de Janeiro, 2005.

Tese (Doutorado em Relações Internacionais) - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Relações Internacionais, Rio de Janeiro, 2019.

Imagem

Figura 1 - A dialética de forças em uma estrutura histórica
Figura 2 - Hegemonia sob três esferas de análise
Figura 3 - A dialética de forças e o bloco histórico neoliberal (1990 - atual)
Figura 4 - A dialética de forças e o projeto hegemônico reformista da PEB

Referências

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