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Academic year: 2023

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O DESPERTAR: ESCRAVIDÃO, GÊNERO, RAÇA E LITERATURA

O Maranhão oitocentista na produção da memória discursiva sobre

Enfatizando os discursos sobre a escravidão e as questões de raça e gênero na segunda metade do século XIX, procurei, neste primeiro capítulo, compreender o cenário da escrita de Maria Firmina dos Reis e o contexto histórico da produção do romance Úrsula. Nessa mudança discursiva, a análise consiste em pensar o discurso de Maria Firmina dos Reis em Úrsula, e os “discursos sobre” as mulheres, sobre os negros e a escravidão. 9 No tópico 2.2 analisarei os discursos sobre Úrsula e Maria Firmina dos Reis a partir da data de sua primeira publicação, 1859.

Horácio enfatiza a condição de mulher de Maria Firmina dos Reis e considera essa condição o motivo da não valorização do romance. Com isso podemos questionar: qual o motivo da menção da obra e do nome de Maria Firmina dos Reis neste e em outros periódicos. Maria Firmina dos Reis, romance de impressão rápida à venda na tipografia Progresso.

A ascendência africana de Maria Firmina dos Reis só se tornou pública após a publicação de sua primeira biografia, em 1975, como já mencionado, por Nascimento Morais Filho. Leude Guimarães, se Maria Firmina dos Reis era filha legítima, respondeu que não sabia. Assim, em Úrsula, a escrita e o autor são colocados no mesmo lugar do enunciado que compõe a função autoral de Maria Firmina dos Reis.

81 Esta pesquisa não é pioneira na análise do romance Úrsula ou na análise de sua autora, Maria Firmina dos Reis, como será mostrado no subtópico 2.1.1. Utilizando os títulos dos capítulos do romance Úrsula para seguir meus próprios caminhos de escrita, compus uma obra que falava sobre um romance escrito por uma mulher negra, Maria Firmina dos Reis. Escravidão no Maranhão: Maria Firmina dos Reis e representações da escravidão e da mulher no Maranhão na segunda metade do século XIX.

Tabela 01: População do Maranhão Oitocentista
Tabela 01: População do Maranhão Oitocentista

A sociedade escravocrata maranhense da segunda metade do século do

Dizeres em circulação para escravismo, raça, gênero e literatura nos

Tal como as obras literárias, os jornais seguiam uma orientação política adequada à manutenção da Constituição e dos poderes legítimos. Assim como Ana Josefina Ferrari (2008), em seu estudo sobre anúncios de fuga de escravos publicados em jornais da cidade de Campinas entre 1870 e 1880, assumo que “é pela voz do proprietário que se forma uma imagem pública e simples . do escravo na sociedade” (FERRARI, 2008, p.11). Segundo Agostinho (2013, p.64), “os discursos antiescravistas, no Maranhão, começaram a aparecer por volta da década de 1860”, e se intensificaram após a publicação de leis que proibiam o comércio internacional ou que libertavam determinada parcela da população escravizada.

As publicações na maioria dos jornais pré-libertação8 feitas por pessoas negras não violavam os direitos dos proprietários de terras. Para o editor de A Carapuça, é impossível ser abolicionista e proprietário de escravos ao mesmo tempo, porque não convém a quem se diz contra a escravidão. Como exemplo de que este é o trabalho mais meritório que se pode fazer pelo país, temos diante de nós exemplos edificantes.

Como já mencionado, o romance Úrsula ingressa na literatura brasileira na segunda metade do século XIX, período em que se desenvolve a escola literária conhecida como Romantismo. O discurso literário é uma “prática simbólica, numa série de práticas sociais historicamente determinadas, sempre partindo de uma perspectiva discursiva” (LUCAS, 2001, p. 175), que se atualiza de memória.

O lugar do romance Úrsula na história da literatura brasileira

Ainda para este autor, o significado de mulata é caracterizado na literatura brasileira pelo signo da mulher lasciva, trazido pela tradição europeia. Essa textualização destaca o corpo da mulher negra e o objetiva para o prazer carnal nos moldes de uma sociedade patriarcal. No mesmo sentido, a antropóloga Lelia González registra um ditado em que há uma hipersexualização da mulata em relação às outras: “branca para casar, mulata para prostituta, negra para trabalhar” (GONZALEZ, 1988, p. 15).

Assim como González (1983), acredito que quando falamos de mulatas ou negras estamos nos referindo ao mesmo assunto. É nesse ponto que o romance Úrsula se debate, os personagens negros não são considerados mulatos, há uma protagonista negra. Observando que o imaginário da mulher na cultura ocidental baseia-se na dialética do bem e do mal, do anjo e do diabo, cujas figuras simbólicas são Eva e Maria; e que o corpo feminino é redimido através da maternidade, a ausência de tal representação das mulheres negras acaba por colocá-las num lugar de mal não redimido.

Para Evaristo, a maternidade é considerada um símbolo de redenção, e se olharmos para as publicações literárias, há a ausência ou o apagamento da maternidade na descrição das mulheres negras, que são vistas mais a partir de aspectos sensuais, como já enfatizei. Ao considerar a escrita de mulheres negras como um acontecimento discursivo, como um encontro de posições de sujeito que produzem significantes, sinto a necessidade de analisar a escrita afrofeminina no contexto deste estudo.

Autoria da Mulher Negra

Neste escrito considero as assinaturas de autores presentes em Úrsula e reflito sobre os discursos sobre Maria Firmina dos Reis, através de sua trajetória intelectual, com ênfase no romance analisado. Como fica claro no prólogo escrito por Maria Firmina do Reis, nada vemos sobre as questões raciais e sobretudo as características do escritor negro e da escravidão. Talvez o nome da autora, Maria Firmina dos Reis, não precisasse ser revelado no momento da publicação de Úrsula, pois o crivo que legitimava possíveis discursos era o mesmo que proibia outros.

É importante notar que até a década de 1860 não foram registrados discursos em jornais sobre a descendência de Maria Firmina dos Reis, e não temos nenhum material abordando o tratamento dado por Reis à escravidão e às questões de gênero em Úrsula. A associação da assinatura, Uma Maranhense, com a autora, Maria Firmina dos Reis, é feita em consulta ao índice do Dicionário Bibliográfico Brasileiro dos Estados da Federação, de Augusto Vitorino Sacramento Blake, (1900). Filha ilegítima: O livro do 'notário' Sacramento Blake e o livro do Registo Civil de Guimarães mencionam com esta pequena e insignificante diferença neste caso o nome dos pais de Maria Firmina dos Reis.

É nas condições de esquecimento e silêncio descritas por Schmidt e Navarro (2007) que Maria Firmina dos Reis, nascida em 11 de março de 1822, é considerada a primeira escritora negra do século XIX. As falas de tantas mulheres negras demonstram a urgência e a importância da materialização da mulher na escrita literária, reforçando o trabalho de Maria Firmina dos Reis, que ainda hoje está modificando o discurso hegemônico e deixando espaço para que as mulheres negras assumam o papel e voz. escrevendo a partir de sua própria literatura.

Os processos discursivos de identificação em Úrsula: a escravidão e os

Após este período, tanto a obra como o autor passaram por um longo período de esquecimento, redescoberto em 1975 por Horácio de Almeida, a quem pertence o prefácio da 2ª edição do romance. Tenho como objetivo analisar o significado da escravidão no romance e suas implicações para questões de raça e gênero no Maranhão oitocentista e na sociedade brasileira. É amparado nesse uso da linguagem que no próximo ponto apresentarei o romance Úrsula, com o objetivo de não apenas apresentar o corpus de análise, mas trazer reflexões que estão embaladas na obra e que falam sobre pronúncia, autoria, sobre escravidão e a partir disso falam de homens negros, mulheres negras e brancas no discurso literário e social.

Por isso, no próximo tópico apresentarei a obra, destacando o papel de cada personagem na trama e as falas que tecem a trama. Aqui procuro pensar as formas como Maria Firmina dos Reis representou os cativos, a escravidão e as mulheres nesta sociedade, e me pergunto até que ponto o romance Úrsula pode ser lido como uma acusação por ser ficção.

Úrsula

E continuou seu trabalho piedoso, aguardando ansiosamente a ressurreição do desconhecido, que tanto lhe interessava (REIS, 2018, p. 42). A primeira é a filha de Luzia B, representada como uma menina pura, casta, cheia de bondade e inocência, “ingênua e simples em todos os seus atos” (REIS, 2018, p. 42). Úrsula, meditando sobre os acontecimentos recentes de sua vida” e irá “conhecer este homem animado por esperanças tão loucas, e tão disposto a amar, bem como a perseguir o objeto de sua adoração” (REIS, 2018, p.164).

O comandante estava acostumado a dar ordens e por isso acreditava que todos eram seus súditos, ou seus escravos” (REIS, 2018, p.165). Ele é vigiado por Antero, “um velho escravo que guardava a casa e cujo maior defeito era o carinho por todas as bebidas alcoólicas” (REIS, 2018, p.187). Seu sofrimento foi terrível e profundo, e o que havia de amargo e pungente naquela alma de coração aberto e gentil foi suficiente para perturbar sua razão” (REIS, 2018, p.196).

Você poderá compreender a extensão dos meus afetos e eu não sentiria agora desespero e arrependimento por ter envenenado minha alma” (REIS, 2018, p.199). A Justiça, se a pintarem de olhos vendados, ficou completamente cega e os assassinatos do seu apaixonado e leal jovem Túlio ficaram impunes (REIS, 2018, p.206).

Tabela 1: Organização de Úrsula por capítulos  Prólogo
Tabela 1: Organização de Úrsula por capítulos Prólogo

Sentidos para escravismo: alforria versus liberdade

Também chamados erroneamente de libertos (há uma contradição lógica e histórica nesta definição), eram esses escravos que recebiam cartas de alforria ou liberdade (V.). Eram considerados livres, mas não gozavam de um conjunto de direitos como cidadãos sem origem escrava [...] (MOURA, 2004, p. 242). SD9: “Eram considerados livres, mas não gozavam de um conjunto de direitos como os cidadãos sem história de escravidão” (MOURA, 2004, p. 242).

E em torno das muitas questões formulei, como principal, aquela que melhor abraçou este estudo: Quais sentidos da escravidão aparecem em Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, e como esses sentidos são atravessados ​​por sentidos relacionados à raça, gênero e literatura. Ao situar o lugar do romance na historiografia literária brasileira, foi possível verificar o que Maria Firmina dos Reis disse sobre si mesma e seu livro e também o que os discursos de outros disseram sobre esta autora. Iniciei algumas análises no processo de descrição do romance e nesta parte específica discuti os significados de liberdade embutidos em meu texto.

Na verdade, entendo por tudo que delineei até agora quando escrevi sobre Úrsula, de Maria Firmina dos Reis: o sentido da escravidão atravessado pela literatura e pelas questões de raça e gênero, que ao falar de um romance escrito por uma mulher negra em um período em que a escravatura foi legitimada levantou uma série de questões sobre, como disse, a validade deste escrito naquele período e mesmo no presente. Com este sentimento, no meu gesto de despedida, volto ao prólogo escrito por Maria Firmina dos Reis, esperando que a sua escrita "serve de alento a outros, que com uma imaginação mais brilhante, com uma educação mais precisa, com uma visão mais ampla e instrução mais liberal, seja mais tímido que nós” (REIS, 2018, p. 34).

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Tabela 01: População do Maranhão Oitocentista
Tabela 1: Organização de Úrsula por capítulos  Prólogo

Referências

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