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Exercícios em psicomitologia.

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TansFrm/Ação, São Paulo, v. 14, p. 1-44, 1991.

J

\

EXERCÍCIOS EM PSICOMITOLOGIA

Osmyr Fia GABBI ÚNIOR *

RESUMO: Tanto a psicooga coo a psicaálse êm a pretesão de serem cêncs. Conudo, sas eplicações parecem ser as estlticas do que ceficas. Em Freud, a menso a pe­ ssão l pate ineree de sa teoa. O que não ipede, cono, que se possam eemiar com precsão os oviens inteos os seus conceitos.

UNTERMOS: Psicaáise; psicooga; expicação ciendica; picação estlca; re�rca.

TRODUÇÃO

Die Userblceit. Vergelung, das ganze Jeseis sind soehe Darstellungen useres pychischen Inneren.Meschugge?

P ycho-Mytoogie.

Simund Freud - Bief an Wilhelm Fliess - 12/12/1897.

A psicologia coo ciência é cda pelo apeciento do laborat6rio de Wundt em

1879.

Enento, sua cientiicidade sempe esteve aberta a intensos debates. Não esta d1vida que a comunidde dos psic610gos, especiente a aericna, conti­ nuente se sentiu fascinda ela cença de que suas esquisas seguim os ditmes do que consideavm como sendo as exigências do "método cienico".

Mas, meso qundo tudo isso é denunciado como sendo a quea, a crítica não ousa tcar a petensão à cientiicidde dos projetos psicol6gicos. Pa alguns, todavia, a psicnálise pece zer no seu bojo novos peceitos, mais compaíveis com o que se supõe que deva ser uma "ciência hna".

nretnto, pa Wittgensein, mesmo a teoia eudina é vítima de tais iluses. Tmém ela conrabndeaia os requisitos metodol6gicos da física, sem se r conta

(2)

de que o jogo de linguagem que ela instaura é ouo. Sem coniçes de pedizer, ela sseelha-se mais a um ito, onde as explicações são eséticas e não cienticas.

Oa, a dimensão da persuasão, pesene na explicação esética, paece ser ineente ao projeto eudino, fendo pe do seu funcionmento. O que não pede que se ossa ser igooso na deeminação e na elucidção das noçes que ele mobiliza.

Por conseguine, nosso rajeto, no que se segue, pe da nálise da peensão da psicologia de ser uma ciência pa, ao rmal, fomular certas hipóeses sobe a naur­ a dos estágios da libido na teoia feudina. O io condutor de nossa esquisa é is visível na terceira pe, qundo explicitmos lgs s observçes de Wittgenstein a eseito da psicanlise.

I! PRTE: O mito da cienicidade

" ••• assim mbos sistemas de fomação (o édico e o psic610go) não podem ser oupados de ua

efoço prssional,

em dois asectos: de uma ceta cegueia pa o

fenômeno scial

e de a inclinação pra tor sem mediaçes e sem pr­ bleas conceitos que são enas sinais de um mundo de experiência. mbos aspec­ os, certamene, ocoem juntos"

(30,

p.

15).

"Os plneas não falm - em primeiro lugr, porque não êm nada a dizer - em egundo lugar, porque não têm tempo - em eceiro lugr, porque se fez com que se calassem"

(27,

p.

277).

"Não estou pensndo em um deus cuja impefeição esulta da cndua de seus criadoes hnos, mas sim em um cuja imefeição epesenta sua cceística es­ sencil: um deus limitado em sua onisciência e oder, flível, incapaz de pever s conseqüências de seus aos e que crie coisas que gerem o horor. Ele é m ••• deus doente, cujas mbiçes excedem seus podees e que, a pincípio, não ercebe isto. Um deus que tenha ciado el6ios, mas não o tempo que eles medem. Ele criou sis­ temas ou mecnismos que servem a rms especicos, as que agora ele ulapassou e aiu. E ciou a eenidae, pra medir seu poder, mas que mede sua deota ininita "

(29,

p.

209).

.

"Poe-se dizer que a liberdade do universo deende do aouxento s es­ ições impostas pela ciência"

(8,

p.

157).

A

mioia das anlises feitas sobe a psicologia está cenda em tomo de dois pontos: um elaivo ao estatuto do conhecimento psicol6gico e ouro efeene s re­ lções ene o psicol6gico e o extrpsicol6gico. Tendo em conta os objetivos do pre­ sente capítulo, vou chr o prieiro ponto de

queso eptemo6gca.

Nesta, a in­ dagção volta-se para a avliação dos pressuostos ilos6icos, elativos ao c­ nhecimento, colocados em prática, de uma foa gerl, pela psicologia. O segund.o ponto, que se pode designr de

queso scio6gca,

efee-se aos limies exteriores da pesquisa psicol6gica, ou seja, às condições de possibilidade de sua existência en­ quanto prática socil ou, pra simpliicr, aos possíveis e inevitáveis vnculos que ela pesenta em relação ao social.

(3)

3

Cermente, a divisão é icil. Mesmo nos autoes que se cupm enas da

qeo epstemoMgca,

a

queo scioMgca

está subentendida e esondida, esmo que seja à evelia deles. Assim, lguém podeia efener a tese de que a psicologia, quando é inequivocamente cientica, é a ciência biol6gica a vez que cons6i o seu objeto como objeto natal. Entetanto, tal mação não isentria o invesigador de mosrar que há, inda, a esecilcidde do psicol6gico, (pa justilcr nossa exigência, basta recordar a obsevação feita por P. Geco (4, p.

937):

"É a infe­

lce o psic610go: nunca estd ceto e qe fz cêca'. Ms se a fz, nunca

esd ceto e que seja a pscologa.")

assim como de exibir o custo social de uma psicologia ensada em tais teos, que, como veremos diante, não é pequeno.

Entetnto, o is inteessnte é exploar os csos onde as duas questes estão explicitamente elacionadas. O pequeno livo de Nick Heaher,

Radical Perpecive

in Pychooy,

pode servir como exemplo, e é excelente para que possmos começr a estabelecer um teeno comum pra uma ua discussão

(25).

O primeiro objetivo do autor é o de er a crítica ao positivismo pesente na psicologia. Segundo ele, os pincipis efeitos dessa Ilosola sobre a psicologia seim os seguintes. Ao plicr métodos e pincípios da ciência natl ao homem, cabia por desnizá-Io: o homem seia tansfordo em um objeto inanimado, despido de intençes. Haveria uma desconsideação pelas implicações sciis da pesquisa psicol6gica, todo ques­ ionmento seia considerado como "metaísico", como despido de senido. Essa eseiteza metdol6gica levria a uma trivialidde de conte1do, onde a situação de lborat6rio aliada a um rreedo de método cientico [tmbém aqui não é in1til nos lembmos de Politzer

(34,

p.

21),

qundo z que

os psc6ogos so o cienfcos

como os sevages so cios]

teinarim por deslcr o estudo pa a nálise de movimentos e não de çes. Ocoeria um desinteresse ela Ilosola e, undmen­ tmente, ela linguagem natl que podeia fonecer um instrumental 1tH pa a invesigação das ações hnas. A adoção de um deteminismo causl, no sentido hno, não levaia em conta que o hoem seria um ser deteminado por egras e capaz de auto-elexão.

Como se pode fcilmente apeender, Heaher não está aenas criticndo um mdelo de ciência, ele está edindo a sua substituição por um ouo. Ele no deseja a psi­ cologia não emprica, o que seia um absurdo, s reivindica a trnsfomação na sua foma de consierr e consuir o objeto psicol6gico. O estudo da

queo epis­

temoMgica

é seguido de a nlise da

queo sciol6gca,

que visa osr como a psicologia, ensda a pir do positivismo, é podutora e eprodutoa de ide­ logias. Para Heather, o seu principal defeito decore da

ibilie o osivmo

em copreeer a sciee historc

e

ne.

A cegueira em elação à hist6ia taria séias conseqüências ideol6gicas

(25,

p.

18-36).

Ao tomr o homem como um objeto inniado, favoeceia e conibuiria pra a sua lienção. Ao ptir da situação de desigualdde social como um "ddo naturl " e ao ratá-lo coo a questão e engenhria socil, facilitria a nutenção do as

quo.

Ao pessupor que o eqüente delniria o nol, pemiia e justlcria a erseguição do difeente ao nsfomá-lo em algo patol

Ó

gico; ao esmo empo, desconsieria a possibilidade

(4)

de que exista uma patologia da noalde. Ao rIXar no indivíduo a sua unidade de nlise e ao cenr seus esforços sobe ele, deixria de lado a tese de que as con­ diçes sociais ossm ser detennindas pra a situação psicol6gica do indivíduo.

Em sua, as conseqüências serim ideol6gicas porque a psicologia, que esularia da doção de um efeencial positivista, seria de um tipo que cultaria e imia que as essoas tomassem consciência de que vivem em ua sociedade que se ermi­ ia elo conito, prdutora e epodutora e segegação no seio do scil. Mas será que as alenativas expostas por Heaher esolvem, ou elo enos,

n

m as sérias queixas que ele mesmo exõe de foma tão claa? Pra pcurr ua esposta ou, mis mdestmente, estabelecer alguns dos seus pmetros, é peciso ecoer a uma hist6ia dos pojetos psicol6gicos, ou seja, é inevitável que examinemos o pano de undo conra o qul surgirm as diversas psicologis. Acedito que, qui, o belo exto de Cnguilhem

(5) Qu' est-ce que a Pychoogie?

, possa nos servir, muito bem, de guia.

Pra o ensdor ncês, pdemos detectr, na hist6ia da psicologia, tês grndes pojetos. O pmeio, intitulado,

cênca a ama,

oigina-se com Arist6teles, e ensa o psicol6gico, mis poprimene,

a pscM,

como erritório do isiol6gico, no senti­ do, oiginrio e universal de eoia da nateza. Na mesma linha, Gleno

(13 1-200)

estabeleceu de foa deinitiva que o céebro, e não o coração, como ensava Aist6teles, era o 6rgão da sensação e do movimento. O que pemitiu nuerosas pes­ quisas, todas na mesa dieção, dne séculos, na ea da pneuatologia empírica e que elcionavam unçes psíquicas e localizações ceebris. Portanto, a psicologia enqunto psicoisiologia e psicopatologia, compeendida como disciplina médica, emonta ao século 1.

O segundo pojeto, inicido com o declnio da física ristotélica no século XVII, concebe a psicologia como ciência da subjetividde (aliás o pr6prio teo, pscolo­

ga,

aprece no século XVI). Inicialmente, ape como uma física do sentido ex­ eno. A psicologia é enendida como uma física em um duplo sentido: o seu objeto é

fonecido elos ísicos - ela, enqunto psicofísica, deve r conta dos engnos da ecepção no ato do conhecimento a ptir de um esudo da esutura do copo hu­ mno, visto como um dado da naeza - e o seu prcediento também deve ser o da física, ou seja, um cálculo - a psicoísica vi exprimir suas descobetas aavés de elações mateáticas. Ua oua modalidade do mesmo pojeto é o da psicologia como ciência do sentido ineno, como ciência do eu. O

eu peso

de Desctes, um sujeito epistemol6gico, é nsfomado em um eu psicol6gico do qul os empiristas fão a sua históia naurl, e os acionalistas um eu substncil a eseito do qual se podeia ter intuiçes. Finalmente, a ciência da subjetividade apece sob a foma de uma ciência do sentido ntimo, onde se troca a conceção do

eu penso

ela do

eu

qero.

Nela, o fato psíquico não é is uma unidade a elo eu, ele é ensado como uma elção, como uma oposiço. Na intersecção ene o primeiro pojeto, o de uma psicopatologia, e esse dlimo, surge a psicnlise, onde a elação somat-psíquico é invertida em psicossomática e a psicologia, ao não se dr ao que é consciente, trnsfoma o conceito de inconsciene, que ea físico, em m conceito psicol6gico.

(5)

5

o deradeiro projeto ape no século X e concee a psicologia como ciência dos elexos e do comporamento, ou seja, como uma biologia do coomento hno. Sua principal cracterísica é a

sa incpcie cotitucoal em pren­

er e xibir com creza o Seu projeto e istaurço

(5, p. 87). Pa Cnguilhem, ele faz do psic610go o insmento da ambição de ratr o homem como insuento. A condição de possibilidade, pra que o psic610go possa nter-se enqunto insu­ mento de segunda potência, é a de ignorr essa mesma condição. Em ouas palavras, é peciso que ele tenha ilusões sobe a sua siuação pra que possa nê-la. Sem d1vida, essas consideraçes, a reseito do

behaviormo,

acabam or enconar-se com as teses de Heather sobe a inluência do positivismo na psicologia.

Todavia, penece a ergunta: por que em todos os projetos há sempe a mesma ambição de ensr-se a psicologia como ciência? O póprio Canguilhem usa sempe a expressão

ciênca e.

Pode apentr que se citica a concepção de ciên­ cia, mas não a idéia de que a psicologia deva ser uma ciência. Não podemos nos es­ quecer, pa icmos nos casos exemples, que Piaget esceveu

Sabeoa e Ilses

a Fiosoa (33)

pa combater a petensão de que se pudesse existir um conheci­ mento psicol6gico supracientico. Mas antes de endossr a tese piagetina, é ele­ vne saber o que se está entendendo, gealmente, por ciência. Talvez rist6teles ossa nos servir de guia, esclecendo sobe alguns dos ontos em jogo. Na

Éica a

Ncomco,

ele estabelece a seguinte compção:

E e fato

m

consutor e

m

ge-mera investigam e moo dverso o ângulo reo: eqanto o primeiro o investiga a

media em

qe

é til para

a

obra, o seguo o invetiga segundo o gêero ou e

coro com a dfereça epecca: esa é e fato a pessa

qe

se edca a contem­

pr a vere

(2, 1.092a, p. 1.178). Ou seja, pra rist6teles, o consutor sabe

usr, para os fms que se prope, propriedades do ngulo eto; entetnto, é o geôme­ a que descobe tais propieddes. Há, pornto, uma difeença ente conhecimento te6rico e conhecimento prático. O primeiro visa à universalidade, o segndo está leSO s conngêncis s ss ncessides momennes, são nteessnes aens as propiedades que resolvem o problema que o consutor tem mnte ne si. Mis adinte, Aist6eles estabelece o caráter de necessidade do conhecimento do geôme­ tra em oposição ao pesente na vida cotidina:

ssim, s

o

s a presso

'levr em conta o pi ou o igo' o

o sento em

qe

dizemos

'acatr propriedades maemá­ ticas' (2, 1.102b, p. 1.185). O que podemos concluir a ptir de tais efeências? Que, pra ist6eles, e pra boa pte da posteridade, s duas condiçes pra que um discurso seja considerado cientico são universalidde e necessidade. Por conse­ guinte, a ergunta que se deve dirigir, agora, à psicologia é a de saber se o conheci­ ento do psic610go pode ser universal, isto é, independente de condições geogri­ cas e s6ciohist6icas, e necessrio, ou seja, se exisem pemissas sobe o hoem, ou sobre o que quer que se petenda colocr no seu lugar, que undmentem quilo que o psic610go ossa amr sobe o seu objeto.

A esosta �tina é negativa. No

Prefcio aos Fuentos Meatscos a

Ciêcia Naural

(26, p. 15-16), Kant acredita que a qumica não ode ser considera­ da inda a ciência. Aesr de er exerientos, de fazer observaçes e de

(6)

estabelecer leis empricas, não possui ainda uma eoia da aéia que cona caáter necessário s elações que já descobiu. Em outros temos, a quica ce e D­ dmentação te6ica. Contudo, em elação à psicologia exeimental, o obstáculo é muito maior, para não dizer insuerável. O objeto psicol6gico apesenta a natur­ za ininsecente hist6ica.

É,

por conseguinte, a pópia historicidade s categ­ ias psicol6gicas que interdita a psicologia de constituir a eoria, onde as elções sejm univesis e necessrias. Se nos voltmos para os diversos projetos, assinla­ dos por Cnguilhem, veremos que neles está pesente a cença na possibiidae da universalidade e da necessidde. Não é or caso que consem seu objeto natal, eja ele o céebo, a estrutura do oo, o eu, ou o copormento. Qundo Heather aponta para as conseqüências ideol6gicas de tal cença, que podemos agora cescen­ tar - pesene mesmo nas bodagens que no se econheceim ou que não seriam positivistas - podemos nos erguntar se é ossível escapar a elas ou se estmos mesmo condenados, qa psic610gos, a semos etenamene objetos de críticas desa­ gdáveis como esta de Cnguilhem:

De fato, e muios ralhos de pcooga, re­

ira-se a presso e

qe

mrm a

a

iosoa sem igor

a

étia sem

igênca e

a

medcina sem coroe

(5, p. 77). Em outas palavras como nter simultnemene a idéia de ciência e a cença de que a sciedde é dotada de histori­ cidade? Não se podeia, psendo Nietzsche, r que todos os psic610gos têm em si o defeito comm de pirem do homem do pesente e aceditem que, mediante sua nlise, atngem o lvo, que sem querer o homem paira dinte deles como uma vedde etena, como lgo que penece igul em todo o vértice, como a medida segura das coisas; que tudo o que o psic610go enuncia sobe o homem, no mdo, nda is é do que nI testemunho sobe o hoem de um espaço de tempo muito limitado; que a flta de senido hist6rico é o defeito heeditário de todos os psic610gos, que muitos, sem se dem conta, até tomm a mais jovem as conIgu­ rações do hoem, tl como surgiu sob a pessão de deeDadas eligies, e mesmo de deenados acontecientos olíticos, como a fOa me de que se em de par­ ir?

(3 1 , p. 2-25)

Sem d1vida, poderia ser objetado que Nietzsche falava de Il6sofos e não de psic­ logos, e que, no mdo, se esia endossando a posição cética ou se defendendo a tese de que a psicologia nasceu em pecdo originl sem pder er a esença que um dia irá aprecer um Messias. Não, não é verdade. A resposta apesentda consiste em mosr que se a psicologia quer er ciência, no sentido enciondo, ela pecisa cons­ tituir invarintes e ao fazê-Io ela entra em choque com a hist6ia do social enendida como donio da mudança. Todavia, talvez a saída ossível possa ser enconrada nas pr6prias considerções de Heaher. Em esecil, qundo ele ma que é desejável subsituir a psicologia do movimento, ou seja, uma psicologia onde a unidade de nálise apesenta dimenses ísicas e pessupe a exeiência de naeza ece­ tual, por a orgnizada em tomo de açes, onde a unidade de estudo tem dimensões semnticas, onde, or conseguinte, se presentiIca a questão da intepretação.

Enetanto, convém recordr que, no século xn, no foi aenas a física aristoté­ lica que foi abandonada. Tmbém o foi a teoia das causas istotélicas. No lugr das

(7)

7

quao causas - mateil, fol, eiciente e inal - a nova física, inaua por Galileu, icou enas com a eiciente. Se ntes, tudo que ocoia na natueza na

m propósito, agora a naeza nsfoa-se no cmo e forças cegs, despis de quisquer inençes. Com Newton, o movimeno se copleta e os planetas eixm de flr. Mas os diversos pojetos de psicologia surgidos a pir do século XII, inspi­ rados pela esma ísica, tmbém clm o hoem. Ese é pensado, a pir dese moento, coo a máquina.

É

a pir do jogo ene movmentos maquinais, que se opõem, que nto Descartes como Hobbes o nlisr a ção hna. Pornto, não basta indicr pa a psicologia m novo objeto, o esudo da ação hna.

É

pre­ ciso etirá-lo do mecnicismo intoduzido no século XII e conceber a nova foma de deeminiso que não toe, como modelo, as ineações que esulm do choque de bolas de bilhar.

Por ouo lado, não é enos vedade que lvez seja a popia concepção de ciência, exepliicda nas suas diversas vintes, que deva ser bndonda. Elas tem em ner, seja sob que foma for, o ecurso a m pincípio tnscendene.

É

pciso, ornto, deixr de lado a concepção de ciência em sentido forte, se quiemos apeender lgo sobe o ouro e sobe n6s mesmos. Pa que essas considerções não sejam, mais a vez, enendidas como m convite ao ircionlismo, ao desesero, etc., vamos eder um pouco is na hist6ria da ilosoia e ecoar muito api­ dmente os autoes conra os quis Platão e rist6teles, em pte, escevem suas obas, os soists. A eação conra eles foi tão séia que o emo gurda até hoje co­ notação negtiva. Mesmo qundo se ecuea o seu senido original, hoem hbil ou sábio em lguma maéria, eima-e em negar que eles enhm sido Il6sofos. Ainal, eles vendim penas um falso saber, em et6icos, despidos de qualquer pcu­ pção com o verdadeiro conhecimento. O pincipal ecado deses homens, Potágoras, G6rgias, Hippis, P6dicus, foi o de petender que a verdae ea hua e, potanto, nequivocamene elativa, e no absoluta. No lugr do conase ene ser e apência, vedade e opinião, colocm enas o fenÔeno sem ecoer a qualquer pincípio exteno ou a m ouo mundo, ensado como mais eal do que ese. Eles esconside­ rm qulquer ealidade nscendene. Potágoras, or exemplo, mou que

o

oem

l

a meda e tos s coss,

s

coisas

qe

sO o

qe

so e s coss

qe o

so o

qe o

so

(35, p.

18).

Em outos temos, o homem enqunto "ser em a comnidde" determina e é deeinado por aquilo que toma como sendo verda­ deo pra ele. Se o homem não ode contrir sua natueza, pode, no ennto, vir s nomas elas quis se guia. ogo, abandonar a vedade anscendente não signi­ ica bndonr a pcua da verdde, s constatar que ela depende e páticas ciais, onde as elções de oder desemenhm um pael innseco. Assim, o inte­ esse passa da naeza pa a linguagem, pa a eligião, pa a te, pra a esia, pa a ética e pra a políica, tas entendidas como produções humanas. No lugr do conheciento (há a verdade da qul devemos nos inteirr), surge a ersuasão (a vez que não há mais a verdade absoluta, o máximo que podemos fazer é ten­ r persuir o ouo da nossa verdade). Sempe é possível opor a um iscurso, outro iscurso. Como não há mis deuses, nem a Vedade, nem qualquer nscendente e Plaão, é no live choque ene discursos que se adota m.

(8)

As ápidas consideaçes sobe os soistas levm a lgs conseqüências que se integm com as mis ecentes esquisas na hist6ia da ciência da física. Pdemos ci­ r, ene elas, a liberdade que se gnha em elação a um petenso método cientico. 'Feyerbend, um excepcionl histoidor e il6sofo da ciência, chegou a concluso de

que em temos de etodologia cientica

aything goes.

O esuldo de suas esqui­ sas na hist6ria da física foi o de descobrir que

o

á ea regra, o ipoa

qo pasvel, e o poa quo imelneneena a eptmologa, que

o tenha o voa alga vez

(7, p. 23). Por que então o psic610go deve ser obrigdo a prcurar o que no existe? Por que a epistemologia da psicologia deve perseguir a epistemologia da física que s6 exise no iagnrio de lguns psic610gos? Não estria na hora de zer que a liberdde da psicologia eende do ouxmento das esiçes iposs por a á epistemologia da ciência?

Por ouro ldo, é mbém preciso que se abndone a idéia de que a psicologia é alvo de críicas, como algnas daquelas que apesenmos, porque ela estia inda em seus pim6dios. Wittgenstein considera que a

conso e a ardez a psicooga

o evem ser plicas pea sa juvee enquano ciênca; seu eso o

l

coarvel com o a tsca, por eplo, o seu in(cio. Pois a pscooga á é­

tos permens e

conusão conceitul (38, p. 232e). M está, até onde é ossível ver, o grande poblema da psicologia: conusão conceitual. A psicologia que deveia fzer uma esquisa das egrs subjacentes às ções huanas, teima em escobir leis. Não se dá conta do abismo pesente ente egrs e leis. Pa tomr a difeença is pecisa, acedito que podemos estabelecer, a título de ilusação, ês istinçes ele­ vntes ene elas (Ver, pra ioes delhes, 22, p. 491- 493). eis enqunto is êm a petensão de ser verdades; egras não são nem verdadeas, nem flsas. As leis deinem um donio de aplicação e efeem-se a elçes constntes ene el­ entos; regas são obedecidas ou não e refeem-se ao donio das ineraçes simb6-licas. Finalmente, basta que haja ua ocoência que conia

a

lei pra que esta deixe de ser consideda como l, pornto a sua legitimidade é afetada or qulquer caso que a conie; entetno, a violção de

a

ega não feta sua legitidae -o seu undment-o está sempre nm "dever ser".

A conuso ene egras e leis leva alguns psic610gos a consem objetos a­ hist6ricos, como se fosse possível ensr o psicol6gico com categoias a-hist6icas. m seguida, prc

m

anspor suas teorias, inevitavelene pesciivas, ebora enhm a peensão de seem descitivas, para condiçes difeentes quelas em que fom produzidas. Os efeitos ideol6gicos são imensos. Assim, as pesciçes do psic6logo so ddas a pir de um aval autconcedido de cientiicidde e não como são ealmene, isto é, como etivas moris que se ignom enqunto tais.

2! PRTE: A cieoicidade do io

Mas no se podeia enconr na psicnálise uma esposta satisfa6ria s inda­ gaçes feitas? Ela no nos possibia, o esmo temo, a cientificide lmejada e ua eoia sobe o hoem enqun,to ser que obedece a egas? Pa eliner uma

(9)

9

peira esposta, examinemos um omento muito pticulr e decisivo da hist6ria da constiuição da teoia eudiana: o abndono da eoia da sedução e a elborção do conceito de fntasia. etendo etirr dese estudo lgus coneqüências el­ vnes para a elexão sobe a naeza do conheciento psicol6gico.

O meu io condut:,-sem ser o dnico, será um pequeno livro de Jean aplnche e J.-B. Ponalis,

Fe oigiaire, Fae es oigies, Origies ufe

(28).

Aqui a psicanálise pece ter, como seu maerial de estudo, a fantasia. E os autoes nos c�locm de iediato inte da seguine inteogação, como ifeencir o ictício dquilo que é verdadeio? Ou, em temos mais pudentes, em que cmo se move o analista, nquele em que as coisas ocoem, o dos fatos, ou naquele em que as coisas são nrs? Não oderia pecer, à pmeira vista, pa um cítico seveo que a psicnlise é uma dupla icção, a icção que se petende cienica e que simulaneente fla a reseito de icções?

Qundo Beuer ouve Anna O. ele está ouvindo nrrativas. Elas são pduzidas a pir de cenas raumáticas, vivencidas em estado de aut-hipnose. O estado hipn6ide

o mesmo temo que sepra m egistro de outos egistos, pesentes na consciência noal, dá ao pmeio um asecto iccional: são hist6rias que fogem à compeensão, que são ouvidas como relatos fntásticos e que Beuer, por um golpe de sore, acaba or enconar o seu lugar de inseção na vida dina de Anna O.

Enetnto, Feud não ersegue o incomum, ele vai usar o étodo de Beuer paa buscar, por rás das coisas dits, a ealidade de a vivência. No etomo a uma ori­ gem, que pe sempre cr, ele preende encontrar nrativas, contextualmente consisenes, ao ptir da hióese e que as oferecidas estão em a foma uncada. Mas aos oucos, pdemos constatar que, na sua obra, oosiçes apenteente tão inquesionáveis coo icção/ealidade, sujeit% bjeto, mundo inteno/mundo exteno parecem enar em colapso. De um lado, a icção, o sujeito, o mundo inteno, de outo, a elidade, o objeto, o mundo exteno. Como hesir dinte de l quro? Diversas escolas de psicologia escolherm o segundo elemento de cda a dessas oposiçes, aqueles que, segundo elas, as tnsforim, em um passe de mágica, em ciência, sem se erguntem pevimente se a pha ea possível ou e o lado esc­ lhido era esmo o is indicado (Nota A).

Feud em um de�inado momento criou uma egra de prmento: ele ede ao nalisndo que abndone o julgmento de elidde, que diga tudo o que lhe ocore. Sem ddvida, lgo muito esnho paa quem está peocupado com fatos, com a forma de contolá-los. Não seia impossível m conhecimento que se pretendese undar sob a decisão de desconhecer a difeença ene flso e verdadeio? e qulquer ma­ neira, ao f-lo, Feud bndonou decisivmente o inteese elo conteddo poosi­ cional das profeições feitas or seus pacientes. m ouras plavras, desconsiderou ma concepção de verdade, ou elhor, a ese sobe a das funções das pofe­ rições, a saer, a de desceveem estados de coisas e de, enquanto tais, deem ser vedadeiras ou falsas. Contudo, se as pofeições não desemenhm essa unção, não pderímos concluir que elas serim sem sentido e assim desprovidas de inteesse pa­ ra a ciência, ou seja, elas não serim icções?

(10)

Feud batzou a elidde que a nálise evela de realidde psíquica. Ms que tipo de ealidade é esta? Não estímos iane de a foma de expessar, aravés de um vcbulário novo, a velha dicotomia, a dicotomia ene fntasia e elidde? Não, cedito que não. O que se descobe qui é m novo objeo ou, mais popriaente, constói-se m novo objeto de investigação: a fla do sujeito. Desctes ssinalou a difeença undmental pesente enre a fala de m imbecil e sons produzidos or um hbilíssimo papagio. Cemente, o il6sofo rncês não tem culpa se, em m deter­ mindo moento, chou-se que a psicologia deveria tor como modelo o papagaio (Nota B). No lugr da icção, do sujeito, do mundo interior, Feud colca a fala que supe, para ser captada, aenas a escuta, a escuta igualmente desineessda.

Existe a versão da constituição da eoia euiana que acedita que Feud passou da cença na sedução como algo coido, como fato hist6ico, mateial, pa a ese de que a sedução ea a fntasia. Ou seja, Feud descobiu tdimente o que tdos no lhe cnsavam de dier: as hiséicas mentem. Ele teia decidido constrir a ciência da mena, ou melhor, um conheciento que desconsidersse a difeença ente verdde e falsidade. A sexualidde, nese momento, vista como lgo exeno e traumáico, como a seço teia sido tnsfomada em a substncia end6gena, a libido infnil, que poduziia efeios danosos caso não fosse em aminis.

Ms a pópia teoia da sedução, tão agradável queles que e senem mis à von­ ade :om m Feud "cienico", é bem mais soisticda do que seus does. Ela supõe a séie de condiçes que pecism ser explicitdas. O peio evento, o do aentdo, deixa um egisto na mem6ia bastante complexo. Simultneene houve uma liberação sexual pecoce e, devido à inexisência de craceístics se­ xuis no pópio copo - a sexulidde s6 ape na puerdade - a incapci­ dade em compeendê-la enqunto vivência sexual. Trata-e assim de a esécie de "sexual pé-sexul" (28, p. 27). Ap6s o apecimento a sexulidde, o sujeito passa

a ter a possibiidde de decicar quele egisto inicial como sendo sexual. Se ao mesmo temo foem-se epesentaçes mois, o reconhecimento será raumático, e levará a a alucinação. O sintoma é assim a negção da eoalidade, ele apesenta-se como algo instntneo, que se eete incnsavelmene. Os histéricos, de acordo com a velha f6rmula, soem de eminiscências. Não orque esejm pesos ao passado, mas orque estão enceados em m eeno pesente, indifeencido e in­ difeenciável.

Pode-se constatar, de iiato, que o egiso na em6ria não é m esíduo total­ mente exteno: ele ixa, além do sujeito do tentado, a pópia libeção sexual do indivíduo. Por conseguine, ele atua como a inilção junto s outras epesen-. tçes presenes na me6ia, ou seja, a oosição inteno/exteno não é ntida, nem segura, ela é deteinada or um gesto rbirio do analista (Nota C). Por ouro lado, a foma de decdiicção deende de a relaço de sentido que o pr6prio egisto inicial institui, isto é, ele acaba por deteinr as condiçes de ossibilidade de sua revelção. Por exemplo, no caso

E

a

,

pesente no

Ew,

o fato da cena oiginal envolver epesentaçes como vestido, loja, peispe a que sua evivência luci­ nat6ria dê-se a ptir desses esos elementos cênicos (15, p. 45448).

(11)

1 1

Aqui s e abe a questão, assinlada o r aplnche e Pontalis, coo m sujeito nes de ser sujeito ecebe a sua sexulidade de foa nes que exista pra ele a if­ ença inteior/exerior? a, Feud, ao abandonr a eoia da sedução e dor a cinça de sexualide, não desconsideou os poblemas causdos elo fato do ser hno ser pemao. Se ele tem a sexulidade, ele a em enqunto oência, enqunto ualidade. Se a cena não existiu, então ela é a fntasia. Pornto, ata-se de sber ' como ela se constitui, ou seja, é peciso enconar algo que a undente enquanto icção

(28,

p.

3 1).

Sbemos que ês eleentos esão pesentes, a prtir de então, na eoria eudina: fntasia, sexulidade infnil, complexo de Édipo. E, de novo, é preciso pevenir-se pa que não se veja qui um etomo a um estágio aneior ao da teoia da sedução, um onde as poliddes enciondas volem a er o seu vlor de evidência. Pa nto, bsta ler a sexualidde infntil coo um ddo biol6gico, a fntasia coo a pr­ dução nteior e o complexo como a inerdição extena. s leituras a psicnálise como uma teoia dos estágios de mação não se cansm e pestr os seus "bons péstimos" a Feud, ao colcá-lo deno do qudro de a psicologia gerl, nomativa, prescriiva e, no lmie, policilesca.

O pr6prio Feud, ao bndonr a eoria da sedução, pe vlorir os pimeiros temos da seguine séie de oposições: ujeitobjeto, coiuiç-evento, ite­ exeno, agii-eal

(28,

p.

35).

Enento, não nos engnemos, o cene da quesão esá na oosição esu/contecimento. Se a psicnlise eve lgum érito aé a oria da sedução foi o de destacar a pevalência do peio temo sobe o se­ gundo. Uma psicologia dese s6 pode envolver a etição de pincípio, ois é a ptir de l undmento que enconra a conexão que eite eselecer lculos ene os aconecimentos, ensados como autônomos. Ela nunca á ultapassar o nível de uma teoria do homem enqunto máquina, e se encona a máquina no homem, não deve es­ panar-se. Foi ela mesma que o colcou i desde o início. Pelo menos no século

XIII,

os ensadoes paecim não ter esse ipo de iluses sobe os seus projetos • • • (Nota D)

O que vai servir de esutura ap6s o abndono da eoria da sedução? Apente­ mente é a constituição biol6gica. Mas não seria etomar ao que já foi abndonado or Feud desde os seus balhos mis iniciis? Se ele cou o eleento de univer­ salidade dado ela anatomia elo da linguagem, or volta de

1893,

não teria senti­ do voltar o anatômico sob a foa de a sexualidde natômica. Se a fntasia nsfoma-se no sintoma por excelência, toda fla é iccionl, colca-e, ainda, a questão de sber qul é a sua oigem.

A utilidde do étodo de Breuer ea a de popiciar a busca ela oigem. Feud ôde descever as suas descobertas sucessivas como esuldo desse eomo incnsá­ vel. E aqui emos uma nova icção: o que hoje apece o homem como lidade psíquica foi um dia, segundo Feud, a lidae hist6rica. Pornto, devem existir cenas primitivas que tom ossível cenas inocentes aem com osterioidde. Em ouos emos, pa mnter o esquema conceil da teoria da sedução, Feud foi obigdo a supor cenas pimevas equivlenes s cenas da sedução. Mas o que está

(12)

or

s

dessas hipóteses que a nopologia não deixrá de citicr, de enuncir como

mito quando asl lê em

Totm e Tabu?

Acedito, com aplnche e Pontlis, que Feud

queia apenas difeencir ene um peiro momento, inda não simbolizável, e um

segundo em que isso já é ossível. Ou seja, a eceção e a em6ia se orgnizm de

codo com esutuas distintas no temo. As fntasias originias assinalm tã­

soente a foma pimeva de egiso. Não sendo, pornto, conecientos edidos

na hist6ia do hoem, são fo

s

primitivas de captr e epesentr o que coe.

Feud constata a existência de fntasias comuns, típicas, de conteádo semelhnte.

Em qulquer momento da sua hist6ia, o sujeito nunca é

a

tbua rasa onde a expe­

iência vem deixr o seu egiso. Existe sepe lgo que orgniza, que captra, que

tla, que seleciona, que estbelece difeenças, ou seja, a mem6ia de lgo é unção

da orgnizção

s

ecordes já exisentes. Poder-se-ia ensr que a fntasia ori­

ginria iria uncionr como

a

esécie de nscendental, que ia as condiçes de

possibilide do egiso da exeriência h

n

a ao mesmo empo que a estbeleceia.

O que é plenente possível, se ensmos a fntasia como

a

espécie e sintético

a pi,

ou seja, como lgo exigido pa constituir a exeriência e que apesenta,

ponto, um cáter de necessidde. Cito aplnche e Pontlis:

"e

fato, em Feud, a

concepção do Édipo é

c

da elo elismo: quer seja epesentado como conlito

inteno ("coplexo nucler") ou como instituição socil, o complexo e

n

ece um

ddo;

o

sujeito o

reeconra,

'a todo ser h

n

o impe-se a tefa e dominá-lo' "

(28,

p.

49).

O papel da fntasia oiia é o de orgnizar as fntsias oserioes da esma

foma como a pimeira cena de seduço conicionava a segunda na teora da se­

duço. O que há de comum ns fntasias originias? O fato de seem tdas fntasias

de origem. Elas esolvem pra o sujeito a oigem de si eso, da vida, da sexulidde,

da difeença sexul, da morte.

O que ossibilita o seu pael orgnizador é o fato da fntasia ser ensda como

cena, como cena oigináia, como a cena edipina, a cena de sedução por excelência,

quela opde ação e desejo fom um todo indivisível. Por exeplo, o mor dulto s6

será possível qundo a sedução for abandond� Dominar o Édipo é suer a se­

dução. Pornto, não é de esr que · Feud conira

à

fntsia originria o esmo

pael deseehado elo instinto no niml, isto é, a fantasia determina o horione

de possibilidades disoníveis pa o homem. Se o niml é condicionado, deno de

certos limites, elos eus instintos, o homem o é ela fntasia originria.

Em

Viso e Conjunto s Neroses e Tra�erêca (19),

Feud desceve, de

foma esquemáica, a fora de atução de eis fatoes que, segundo ele, estim pe­

entes nas neuoses de nsfeência. Meso se atando de m esboço, de um exto

não publicdo, a nossa atenço volta-se de imediato pra a enoe desigualdade, em

elção ao espço, que ele confee aos diversos fatoes. Repessão

(Verrngung),

Conra-Investimento, Foção Substituiva e Fomação de Sintoma, Relço com

a Função Sexual e Regessão, todos eles ocupm penas um terço do texto e efeem-se

tão-soente

à

histeia e ngástia,

à

hiseria de conversão e

à

neose obsessiva.

(13)

13

Em contraposição, o fator disposição paa a neurose vi ocupar o esto do mnus­ crito e vai exigir, pra a sua exosição, que se considere a divisão entre neuroses de transferência e neuroses narc!sicas, ou seja, as difeenças entre os quadros onde há mnutenção do objeto e aqueles onde há peda do objeto. Certmente, devido ainda à olêmica com Jung, Feud tinha todo inteesse em explicar uma abordagem ceente das psicoses ou neuoses nrc!sicas. Entretanto, o problema prece ser de outra ordem; pois se trata de ensr o fator disosição como m moento que serve de ediador na escolha da neurose. Já sabemos que Freud, em ocasies nteiores, havia reletido sobe a questão da escolha da neurose.

Por exemplo, encontramos na cta de

30

de maio de

1 896 (9,

p.

197-201),

enviada a Fliess, uma tentativa, por parte de Freud, de solucionr a questão da etiologia das neuoses. Ele acedita que é peciso considerar, em elação à cena traumática, quatro etapas ixadas conologicamente.

Se a cena de sedução é vivenciada até os

4

nos (pimeira pte da primeira etapa), não há imagens verbais, e os sintoas posteioes, caso ocorm, s6 poderão ser de natureza histéica. Se a cena é vivida ente os

4

e

8

anos (segunda pte da pmeira etapa), já há tadução em palavras, e os sintoas, se aprecerem, serão obsessivos. Até os

14

nos (segunda etapa), pode surgir uma cena, cujo ecalque na maturidade (terceira etapa) levrá a uma pran6ia.

No esquema proposto, o fator fundmental na deteinação do quaro patol6gico é dado pela época em que ocoreu a cena inicial. Se ela aprece numa época pré-verbal estão dadas lgumas das condições da histeia, ou seja, da conversão. Quando a cena surge numa épca onde a criança já é dotada de linguagem, os sintomas são de natu­ eza representativa. As cenas vividas até os

14

anos, se despertadas na vida madura, pdem levar a uma paran6ia. Feud se interoga sobre o que ocoeria caso as cenas se estendessem or diversas fases etrias; sua esposta é imediata - o fator decisivo é dado ela cena que ocoeu em época mis emota.

A mesma problemática é etomada em oura cata a Fliess, datada de

6/12/1 896

(9,

p.

217-226).

Nela Feud combina uma hip6tese de cráter topol6gico sobe o apa­ relho psíquico -r é fomado por pelo menos ês sisemas nêmicos distintos: signos perceptuis, inconsciene e pré-consciente - com uma eoria etiol6gica das diverss neuroses, tabém baseada na conologia das cenas traumáticas. Aqui ele ecore, inclusive, à eoria dos eros, fomulada por Fliess, pra estabelecer uma peiodi­ cidade sobe o surgimento e a escolha das neuoses.

O

elemento comum s duas ctas, e ao texto em exme, eside na entativa de r uma enorme prioidde ao fator temporal, ou, mais pecisaente, ao fator conol6gico na determinação da neuose. Mas o tempo serve aenas pra datar uma foma de eistrar uma cena. Evidentemente, as duas ctas, ainda, são prisioneiras da teoria da sedução, abndonada na crta de

21109/1897 (9,

p.

283-286).

Portanto, a questão que se colca é a de saber or que a cronologia, a foma de registrar, é tão funda­ mental na determinação da escolha da neurose.

(14)

Pdemos já suspeitr que a esposta consistirá em nr

que a foa de egisro

condiciona a disposição. Mas pa pecisá-la, em todos os seus detalhes, pos de

lgumas consideações presentes no Enwf. Na sua primeira pte, ao discutir "O

Ponto de Vista BioI6gico", Feud declara que "na edida em que lguém e ocupa

om

a consução de hipóteses cienticas, deve começar por levr a sério suas col­

cçes, por ver se elas são incorporáveis, a ptir de ais de um ngulo ao conhe­

cimento, e se é possível atenur a bitraiedade

s

construçes

d

c em elação a

elas"

(15,

p.

39-395).

O contexto da discussão é ddo pela naeza da distinção

entre os neurônios

>

(erceptuis) e os neurônios

'

(mem6ria). O que se deseja é

encontrar uma foma de manter a difeença enre eles, a ptir de

a

identidade inicial.

Em outras plavras, as difeenças não serão intínsecas aos neurônios,

s

esidirão

na quantidade a que eles estão submetidos. Ora, o fundamento pa essa difeença

vi ser procurado, segundo Feud, "a ptir do desenvolvimento biol6gico do sistema

neuonal, o qul, pra o investigador da natureza, como todas as outras, é lgo que

se fona gradualmente"

( 15,

p.

395).

Fzendo s devidas adaptações, podemos su­

gerir que a questão da escolha da neurose vai repousar em um esquema explicativo

semehante, ou seja, a conologia determina a fona de captação daquilo que ocor­

e, o qual, por sua vez, se rlXa enquanto um dispositivo biol6ico que caba por

dr conta da diversidade dos quadros patol6gicos. Dado que a era conologia não

pode desempenhar o papel que a quantidade realizava denro do contexto de

a

teoria do apaelho psíquico no Enw, será peciso recoer a ouros fatores para

oder explicitr porque há

a

ordem no apecimento das diversas neuoses. Sem

esquecer que, para Feud, o patol6gico está sempr� contido como possibilidade no

nomal.

Feud vi enconrr tis fatoes em uma suposta "pré-hist6ria" da hunidade,

c u

seja, em um ito instaurdor. Vamos acompanhr os embros da sua consução

uma vez que eles ilunam os pontos que estamos discuindo.

Segundo ele, as neuroses testemunham a hist6ria do desenvolvimento psíquico do

ser h

n

o, ou seja, o ser humno está condenado a repetir a hist6ia dos seus n­

cestrais.

a,

pra os leitoes de Feud, não é difícil eceber qul é o conceito pe­

sente aí em iligrana e que já fora sugerido desde a época do Enwuf - o conceito

e copulsão

à

reetição. Em outras palavras, pode-se encontrar aqui a sugestão de

que a epetição, neste moento, vai ser ensada enqunto epetição de uma pré­

hist6ria da humnidae que pedisporia os homens a apesenem certas estruturas

libidinis. O patol6gico é apenas uma rlXação em uma deteminada fona de ape­

ensão do que ocore.

Em um primeiro momento da pé-hist6ria, o hoem eria vivido o mundo como

paraíso. Com o início do período glcil, a hunidade se tomou universlmene an­

siosa e passou a exeentar

a

ngdstia eal diante de oda novidade.

A

libido

objetai se ransformou assim em ngástia da relidde. Dessa foa, teria sido criado

o prot6tipo da histeia de ngástia. Notem que a primeira foma de apeensão se ins­

tala ap6s a perda do praíso, isto é, o psíquico s6 aparece depois que surgiu o perí­

do glacial.

(15)

1 5

Mis trde, devido ao conlito ente a autoconsevação e o desejo

à

reprodução,

teria coido o sacrifício dos ecé-nascidos. Supondo que já fosse de conhecimen­

to coletivo que a sexualidade leva

à

eprodução, eia havido um favoecimento das

satisfaçes sexuais erversas porque elas serim não procriativas. Como a humanida­

de, ainda, não conhecia a linguagem, estavm dadas as condições pra ua estutura

libidinal do ipo histeria de conversão.

Em um teceiro momento, eia apecido o pai pimordil como esultado da

adaptção

s

cências do eríodo glcial. Pi poderoso e inteligente, elaborria as

pemissas da linguagem e estabeleceia a ei, ou elhor, ele pr6prio seria a ei. A

conseqüência do primado da inteligência sobe a sexulidade teia sido a construção

de uma esrutura libidinal obsessiva.

Em esmo, as ês neuoses de transfeência terim seus prot6tipos na luta do

homem contra os rigoes e caências do pêríodo glacial. Mas os destinos da libido

não e deixm encerar

í. O

fato do pai pimordial despojr os ilhos de sua virili­

dade, levaos a abandonr todo objeto de mor, a cessar toda sublimção, a encerr

toda libido em um esdo de auterotismo. Não estamos mais na esfera da neuose

de transfeência, passmos pa as neuroses ncísicas ou, mais simplesente, pra

as psicoses. No caso em

p

auta, pra uma estrutura libidinl do tipo deência pecoce.

Pa fugir ao pai casrador, os primogênitos entrrim em aliança e apeceiam,

como conseqüência, os sentimentos sociis ediicados sob a égide da satisfação h­

mossexual. A pran6ia seria tã-soente uma defesa contra o etomo dessa fase da

pré-hist6ria da humanidade.

Finalmente, os mãos se uniiam e matriam o pai.

O

seu sentimento de jdbilo da­

ria origem ao quaro maníco. Mas como estavm totlmente identiicados ao pi,

enqunto objeto e amor, acabariam or se tomaem melnc6licos, ou, mais mder­

namente, depressivos. A psicose maníco-depressiva seria o reviver deste 1ltimo

eríodo da pé-hist6ia da h

n

idade

( 19,

p.

3343).

Mesmo um leitor muito caridoso, mas ingênuo em elação ao que está sendo discu­

tido, poderia icr abismado com a natueza das suposiçes antropo16gicas feuinas:

o mundo inicial como um príso, o conhecimento, elos homens, na pé-hist6ria de

que a função exul está ligada

à

epodução, a existência de um pder desp6tico e

cenrlizador nos prim6rdios da humnidade, etc. Enetnto, pemancer nesse nível

do texto, é ignorar as questões muito icas que o cecam, a saber,

s

elativs

à

ee­

tição e ao pael instauador da fantasia. Por que os destinos da libido são sempe os

mesmos e apecem numa ordem ixa?

A

primeira tentativa de esposa or pe de

Freud foi a de ecorer a uma ntropologia fantástica, onde a ilogênese crrega dentro

de si uma ontogênese primordial. Em suma, a conologia, pa Feud, é ixada pela

forma de aprensão da ivência extena e manifesta-se enquanto fator isposicional.

Em outras palavras, Feud considera um fator fntástico, um para lém da pr6pia

psicanálise que, contudo, tem a função de estabelecer as condições do desejo humno,

de exibir a ação na qul ele se instaura. Trata-se de um ito instaurador que peite

constitur outra ticulação, a pesente entre desejo e fantasia. Cada um de n6s, seia

(16)

dessa foma, herdeiro de um determinado período da hnidade, cada um de n6s testemunharia a imorlidde da "pré-hist6ria", entendida no mesmo sentido em que o sonho é a prova da imortalidade do desejo infantil. Por conseguinte os sintomas neur6ticos expessm fomas rcicas de egistro, descritas por Feud, a ptir de nossa "pé-hist6ia" coletiva.

Para voltar s questes iniciais: qul a posição da psicanálise em elação às pola­ riddes icção/ealidade, sujeit% bjeto, mundo inteno/mundo exteno que pecem desemenhar um pael tão importante na consituição da psicologia enqunto disciplina autônoma e que se vinculam a uma deternada cença em relação à ação hna?

Antes de mis nada, a teoria feudiana opera �a desconsrução dessas oosições, ao mostrar como elas se constituem. Não as toma ingenumente como um dado seguro, a partir do qual se poderia nstaurar um projeto cientico baseado na crença da inde­ pendência entre ação e intenção. A psicanlise constr6i a fala do sujeito enquanto

seu objeto, porque é s6 í que ela pode constatar os efeitos prduzidos elas foms arcaicas de apeensão do que ocoe. Em outros temos, tais estruturas deterinm o que vi ser captado, a foma de sua organização.

3! PRTE: Mito como ciência

Mas, dadas as considerações feitas, a psicnálise traria verdadeirente

a

s­ lução adequada para as questões perenes da psicologia? Segundo muitos autoes, a resposta é negativa. Por exemplo, Dniel Taylor, em

xpanation

d

Meaning,

con­ sidera que se pode ter um caso exemplar do que seria uma teoria vaga, se nos voltmos para o tipo de explicação proposto por Feud. Segundo ele: "Praticamente qualquer coisa pode ser vista como asscida a qualquer outra. Dado que a mioia de n6s tem alguns ensaentos eprimidos, qualquer caso de esquecimento poderia ser atribuído à associação com um pensamento eprimido. Se o leitor quiser fazer um exeriento, substitua qualquer sentença de sua escolha pela sentença 'Senhor, o que posso dizer, etc.' e então a ligue, medinte liames intermediios, com 'Signoelli' de um lado e sexualidade do outro.

O

exercício tomará manifesto coo a lexibilidade da noção de assciação emite que qualquer evento seja explicado pelas hip6teses freudia­ nas"

(36,

p.

3 1).

Assim, Taylor acredita que Feud não foneça citérios pra que se possa decidir, a partir das assciaçes prduzidas, qual a assciação que deve ser considerada como sendo a mais signiicativa. Na ausência deles, pode-se tomar qulquer coisa como constituindo uma explicação.

O

primeiro problema, que merece ser examinado, é o de saber se ealmente existe, do onto de vista do analista, lgo que ele enha o direito de estabelecer

a priori,

como sendo a associação mais impornte, a mis signiicativa. Para tanto, seria n­ cessário que o analista formulasse hipóeses especicas sobe o que seria elevante numa dada situação de análise. Contudo, ao fazê-lo, ele estria colocando em cheque o pocedimento necessáio da "atenção lutuante". Por coneguinte, a questão que

(17)

1 7

penece é a de deterinar e existe algum critério,

a posteriori,

para julgar a sua cença de que uma determinada assciação revelou-se, na construção do caso, como sendo a mais imortante. Porém, mesmo que o critério existisse, já estaria compome­ tida a idéia que na psicanlise explica-se se utilizamos 'explicação" no sentido de que se há explicação, então, há predição, dado a ausência da últia nesta teoria.

Wittgenstein tmbém citica o prcedimento da associação livre:

"O

que acontece no

reier Eifal

é povavelmente condicionado por um grnde número de cir­ cunstncias. Pece não haver razão para aírmar que deva ser condicionado tã­ soente pelo tipo de desejo em que o analista esteja interessado, e que tenha motivos para considerar que esteja desempenhando algum papel. Se vcê quiser completr o que paece ser um fragmento de um quadro, talvez seja is recomendável desistir de ensar intensente qul seria a mais provável coniguração do quadro e, em vez isso, simplesmente olhar o fragmento e desenhr o primeiro traço que lhe vier à mente, sem ensar. Esse poderia ser, em muitos casos, um conselho muito proveitoso a dr-se. Mas seria pasmoso que

sepre

poduzisse os melhores resultados. Quisquer que sejam os traços que você faça, serão possivelmene condicionados por tudo quanto ocore à sua volta e no seu ntimo. E se eu conhecesse um dos fatoes presentes, ele não me poderia revelar de nemão, com certeza, que raço vcê iia desenhar"

(37,

p.

8 1).

Como podemos facilmente constatar, a críica de Wittgenstein volta-se contra a suposta convergência do proceento, ou seja, por que um certo tipo de desejo -pensado por Freud como o núcleo de cristalização do sonho (Nota E) - é o ponto de aração, de convergência do

reier Eifal?

Vou tentar clicr alguas das questões pesentes tanto na crítica de Taylor como na de Wittgenstein. Feud, no inl da parte

A

do séimo captulo da

Intepre­

tço os Sohos,

pece ntecipá-las.

O

seu objetivo principl é o

e

justiicr o uso do

reer Einfal

na intepretação crítica.

Ele principia por ua aparente descrição do seu método: "Procedemos de tal foma que deixmos de lado todas as representações de objetivo que, de outro modo, dominm a relexão, diigimos nossa atenção pra um pticulr elemento do sonho e então anotamos aquilo que nos core como ensamentos não propositados em elação a ele"

(12,

p.

53 1).

A descrição oferecida paece coincidr com o conselho dado pelo ilósofo vienense: desistimos de determinr qual seria a possível coniguação do sonho e dizemos a primeira coisa que nos core. "Pensmento não propositado" pode ser lido como "pensamento que não visa deteminr o sentido do sonho". Mas, em temos eudianos, l procedimento prece in�cr a remoção do mecanismo de atenção, por pte do ego, isto é, a susensão do prcesso secundrio, dando lugar ao aparecimento do processo pio. Pois, se falmos em levr em conta o mundo exteno, o contexto, estamos no limiar de processos alucinatórios.

O edido do anlista pece cir, por­

tnto, as condições ínimas para um diálogo fundado no contra-senso (Nota ).

Segundo Feud, o proceimento é epetido até que se alcance os ensmentos do sonho: "Então captmos um elemento seguinte do conteúdo do sonho, epetimos em

(18)

relaçã' a ele ' mesm' trabalh' e n's deixam's, despeocupd's c'm a direçã' pa a qual 's ensaent's levm, c'nduzir p'r eles, pra 'nde - c'm' se c'stuma dizer - Cal'S de cem em mil. á mntem's a exectativa c'niante de cir n' fml, sem nenhum acré�cim' n'sso, n's pensment's d' s'nh', a ptir d's quis ' s'nh' é c'nstituíd'''

( 1 2,

p.

532).

Aqui Feud pece r zã' a Dniel Tayl'r e a Witgenstein. A' primeir', qund' nã' n's inf'rma c'm' se dá a esc'lha d's fragment's, a' segund', qund' enc'nra por trás da multiplicidade - a passagem d's cem pa mil - ua dnica unidade: ' ensameno d' sonh'.

Ap6s essa descriçã' suria d' que p'deria ser a utilizaçã' d'

reier Einfall,

' pr6pri' Feud c'loca ua série de 'bjeçes a' prcediment' descit'. P'r que ' aband'n' da relexã' levaria, p'r si s6, a's pensment's d' s'nh'? ["A cada epre­ sentaçã' se p'de juntr associativente alguma c'isa; é bastane estanh' que se deva cir aravés desse lux' de ensment's sem 'bjetiv' e rbitrri' justaene s'bre 'S pensament's d' s'nh'' '

(12,

p.

532)].

Que se possa juntar sempe lguma c'isa c'm 'ura, Tayl'r já ' sabia, s a sua pergunta era: c'm' deteminr ' que seria ' pensment' d' s'nh'? Nã' estria

í

pecismente a vaguidade da e'ia feudiana, 'nde qualquer c'isa p'de ser 'feecida c'm' send' ' pensament' d' s'nh'? Para Wittgenstein, ' pr'blema é 'utr'. P'r que se deve c'nvergir sempe pra ' mesm' lugar, 'u seja, pa ' ensment' d' s'nh'?

É

mesm' necessri' que se acredite que haja alg', n' s'nh', que tenha a funçã' de ser o p'nt' de c'nvergência?

Em segund' lugr, Freud se ergunta se nã' seria muit' mis simples -se que tud' se relaci'na c'm tud' e que, p'rtant', sempe se chegá a lgum p'nt'? [" A crítica terá ag'ra a 'bjetar c'nra iss' mis 'U men's ' que se segue: que, a pir de algum element' pticular d' s'nh', se chegue em qulquer p'nt', nã' é nadâ espant's'''

(12, p.

531-532)].

Pra Tayl'r, seria pecis' prever 'S p'nt's de chegada se a psicnálise tem petensões de cientiicidade. Wittgenstein, a' c'ntri', dad' que nã' acedita que nenhuma empresa semelhnte à psicanálise, or sua pr6pia natureza, p'ssa vir a ser cientíica, questi'na a hip6tese d' pensament' d' s'nh'.

Ag'ra Freud se inter'ga s'bre as garntias de que esse pont' seja precismente 'S pensament's d' s'nh': "Dad' que se eie assim t'da a liberdade de ligaçã' de ensament's e que s6 se excluem precisamente as passagens de uma epresentaçã' a 'utra que vig'ram n' pensment' n'mal, entã' nãO' é diícil, a ptir de uma série de 'pensament's intermediri's', trr lg' a que se dá ' n'me de pensament's d' s'nh' e que, sem nenhuma grantia, dad' que nã' sã' c'nhecid's de 'ur' m'd', se faz passr por substitut' psíquic' d' s'nh'''

(12,

p.

532).

Uma vez que ' procedi­ ment' exige que nã' se ense na possível c'niguraçã' d' sonh', excluem-se "as passagens de uma epesentaçã' pra 'utra"

(12,

p.

532).

Nã' havend' qualquer deteminaçã' pévia d' que seia "' pensament' d' s'nh''', qualquer c'isa pode-se passr p'r ele. Ora, a indagaçã' de Tayl'r visava saber se nã' é exatamente a ex­ clusã' de tis passagens que ermite dizer que alg' é um "pensaent' d' s'nh''' , ' U trocand' e m idd's, ' "pensament' d' s'nh''' seia pecismente estas passagens,

(19)

19

os "pensmentos intenediios". S6 a existência de hipótees pévias, aceca da na­ tureza dos pensamentos do sonho, enitiia ecpar a l ipo de objeção. Seria pre­ ciso uma gntia te6rica que pudesse ser raduzida em tenos empricos

e

foma a está-la apropriadmente - seiam necessárias, em suma, pediçes. A indagação

e

Wittgenstein pode ser pfraseada da seguinte mneira: quantas coniguações são possíveis,

a proi,

para um deteminado quadro? A sua esposta é imediata: ine­ ras, inda que nem todas sejm igualmente inteessantes.

Finlmente, Feud e questiona se não estaríamos conferindo ao acaso um papel cômico que eiiria encontrr sempe uma intepetação qualquer pra qualquer sonho? ["Mas isso é totalmente rbitrio e é um uso apaentemente chistoso do ca­ so, e quem quer que se dê a este rabalho in1til pode, aravés desse cminho, encon­ r, para si, em qualquer sonho, qualquer intepetação"

( 1 2,

p.

532)].

A insinuação reuiana é aqui astuciosa.

É

como se ela nos colcasse dinte de apenas duas lter­ nativas: ou o prcedimento é birio, e assim govenado elo caso, ou ele é ne­ cessrio e, pornto, determinado. O problema reside em sber se esses dois pes de atributos caminhm juntos: rbitrário, logo casual, não arbitrário, logo determindo. Porém, Taylor, que acusa o procedimento de ser rbitrário, não na que ele seja casual. Ao contrário, ele é deteminado ms, dado a vaguidade da teoia feuina, não se sabe exatamene o quê o detenina. Se o prcedimento no fosse rbitrário, isto é, se ele ivesse as grantias e6ricas eigidas or Taylor - uma teoria falseável pelo campo empico - a deteinação equeida seria dada pela teoia. Pra Wit­ genstein, a deeminação não pode ser reduzida a uma SÓ, por conseguinte não se -de pever qual será o pr6ximo traço ou a pr6xima assciação, ou seja, a convergência ó pode ser hipostasiada. Assim, para os dois autoes, não há a altenativa proposta or Feud, entetnto há uma diferença elevane ente eles. Pra Taylor, a psicanáli­ se não é cientica, s oderia r a ser. De acordo com Wittgenstein, ela não é cientica e, dado o seu objeto, nunca podeá sê-Io.

Mas vejamos como Feud esponde aos "opositores" que ele criou. Em primeiro lugar, ele vai esponder s cíticas de vaguidade e indeteninação. Segundo ele, a in­ tepetação a que se chega não é uma qualquer, s ua que possibilita um entendi­ mento exausivo do sonho, ua na qual o sonho é apesentado como uma foação psíquica, cujo sentido é inteligível, isto é, uma intepetação que fonecerá a "coniguração" do sonho.

Certamente, Taylor odeia erguntar se é possível pever qual será essa conigu­ ração e se a teoia deteina o que se vi enender por "entendimento exaustivo do sonho" . Ora, a Intepretaço os Sohos parece fonecer um sem n1meo de exemplos do que seria l entendimento. Em elação à coniguração - a questão de Wittgenstein - vamos exminá-la diante. Por ora, basta atentr para o fato de que Feud está igulente peocupado com a questão da falseabilidade. Dado que a teoria estabelece uma identidade te6rica enre sonho e sintoma neur6tico, e que, na situção da neurose, é possível garntr a legitimidade do reier Eifal, a ptir do aparecimento/desapa­ recimento de sintomas, a sua validade também estaria assegurada no cso do sonho ["Tmbém odeíamos mr em nossa justiicativa que o método dnte a

(20)

petação do sonho é idêntico ao utilizado na esolução e sintomas histéicos, onde a

retidão do método é garntida elo surgimento e desapecimento de sintomas em seu

lugar, onde, portanto, a exegese do texto encontra um poio nas ilusrações interca­

ladas." (12, p. 532-533)].

Mas não poderia haver mais de uma coniguração satisfatóia? Ou para etonr a

uma outra observação de Wittgenstein: "Você poderia coeçar com qulquer m dos

objetos desta mesa - que, evidentemente, não form postos aqui or via de sua ati­

vidade onrica - e compovr que todos eles poderim estr corelacionados nma

coniguração assim; e a coniguração eria igualente lógica" (37, p. 87). ogo,

paece não existir critérios para decidir sobe que explicações podem ser considerdas

como satisfatórias e quis devem ser deixadas de lado, ou seja, "Freud nunca mosra

como sabeemos onde parar, onde está a solução coreta" (37, p. 75).

Enretnto, a solução eudiana nos ecorda até certo ponto as de Wittgenstein, ou

seja, Freud procura clicr a questão pra ver se não estmos diane de um falso

enigma ["Mas não temos nenhuma azão pra afastar do caminho o poblema de sa­

ber como se ode, a ptir de

a

cadeia de pensmentos, através de iação contnua,

rbirária e sem objeto, chegr a um im preexistente; embora não consigamos solu­

cionr o problema, podemos eliminá-lo completmente" (12, p. 533)].

As razes pra se declrr que se trata de um falso problema são diversas. Em

pimeiro lugar, não é verdade que no

reier Eifal

nos enreguemos a um luxo casual

de representações ["É demonstrável como incoreto que nos abndonamos a um luxo

sem objetivo de repesentações, quando nós, como no trabalho de intepetação do

sonho, abandonamos a nossa elexão e pemitimos que sujam epresentações não

propositadas" (12, p. 533)]. Podemos constatr que essa obsevação só se aplica ao

crítico constuído por Freud. Tnto Taylor como Wittgenstein não acreditam em um

processo casual. O primeiro acha que Feud não consegue deteminar,

a prioi,

qual

seja a deteminaço desses luxos: o segundo acha, por princípio, que não se pode

atribuir ao luxo uma lica determinação, mas não que não exista uma, aliás, para

ele, exisem inneras.

Em segundo lugr, durante a utilização do procedimento, o luxo de epresen­

tações é govenado por repesentaçes deconhecdas de objetivo ["Isto eite r­

velr que sempe podemos enuncir aenas às epesentações de objetivos conheci­

das e que, com o seu término, imediataente

s

epesentações desconhecidas de ob­

jetivo - que ch

m

os imprecismente de inconscientes - gnhm força e determinam

agora o luxo das epesentações não popositadas" (12, p. 533)]. Em suma, paa

Freud, a intencionalidade está sempe pesene. O que lIXa a determinação das epesen­

tações é a presença de intenções. Aqui, as dóvidas de Taylor se pecisam: "A expli­

cação do compormento humano em toda a sua complexidade, através de hipóteses

sobre atitudes e crenças, apesenta problemas. Consideem a diiculdade pa calcu­

lar os desejos, as atitudes e as cenças de um homem, a ptir do seu comportmento.

Dado o seu comoramento seia possível, se se conhecessem suas atitudes e desejos,

adivinhar suas cenças e vice-versa. Mas nenhum deles é conhecido, as combinações

(21)

2 1

possíveis de cenças e atitudes que podeiam ser consistentes com o comportaento são infinitas. Os escritos reudianos, por exemplo, mostram que quase todo compor­ tmento pode ser explicado através de motivos sexuais, se hip6teses adicionais ade­ quadas são feitas a reseito de cenças e do signiicado simb6lico de atos e objetos"

(36,

p.

7 1).

Em outras palavras, não pode ser cientica uma teoria que ecore

à

in­ encionalidade porque ela não pode ser testada de forma independente. Ora, para o Il6sofo austríaco, o problea está na cença eudiana de que a intencionalidade possa ser emetida a

a

lica foma.

Finalmente, Feud nos infora que a apente ausência de relaçes, usualmente presentes na descrição do sonho, decoe da censua e não do luxo ser casual ou govenado por epresentaçes de objetivo desconhecidas ["Os delrios são o trabalho de uma censura que não se dá incômodo de esconder o seu domínio, que, em lugr de pestr sua colaboração, para

a

modiicação que não seja mais chocante, des­ cata sem a menor consideação o que lhe fz oposição, de mdo que o estnte e tome sem conexão. Esta censura comporta-se de mneira análoga

à

censura ussa dos jonais na fronteira, que emie que os jonais estrngeiros cheguem s mãos dos leitores a poteger aenas e estiveem ecobetos por raços negros. "

( 12,

p.

534)].

Feud está sugerindo que a intencionalidade não é constatada porque a censura con­ fee s nrrativas

a

idéia de algo casual. Em outras palavras, se não existisse a censura, o sentido do que é dito seria imediato.

É

ela que produz escndalo e não os ensmentos do sonho.

A

ergunta que caberia a Wittgenstein seria: esmo que o sentido dos ensmentos onricos fosse imediato, por que eles deveriam ter sepe o mesmo sentido, ou seja, por que todas as conigurações h

n

as devem expessar sempe a esma coniguação?

A

longa resposta freudiana

à

questão da convergência consistiu, em dltima análise, em r que não há casualidade e que a sua apente pesença decore da censura e não da ausência dos prcessos de atenção e elexão. Contudo, ela s6 pode até aqui satisfazer ao crítico consuído pelo póprio Freud, está, ainda, longe de oçr a questão de Wittgenstein.

A

tentativa de respondê-la pode er construída, a prtir da observação eudiana de que a teoria ensina que, or tás das relações "supericiais e escndlosas", as encontradas no sono, existem outras " coretas e

e

gande calado", as presentes no discurso da vigiia

(12,

p.

536).

Mas, de novo, não se poderia erguntar a Feud: o que o leva a cer que mesmo na vigiia esteja sempe pesente a mesma coisa?

Freud considera que o

reier Einfal

está apoiado sobre dois pilares: "as ass-. ciações supeiciais são apenas um substituto de ligação para s eprimidas mais pr­ undas" e "o domnio sobe o luxo das epesentações passa para as repesentações de objetivo escondidas" (Nota G)

(12,

p.

536-537).

Wittgenstein poderia tomar o pimeiro pilar como um guia pra o trabalho do analista. Um guia do tipo: "não tome o que é dito pelo seu valor ediato", o seu valor é ditado elo uso que o anlista faz dele, prcue conhecê-Io. Contudo, a unção do segundo pilar é completamente difeente.

A

tese freudiana é a de que indeendente do uso que se faça, constata-se sempe a presença

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