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Homem e risco: do oráculo à lei Sarbanes-Oxley

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Academic year: 2017

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FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

ESCOLA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECONOMIA MESTRADO EM FINANÇAS E ECONOMIA EMPRESARIAL

HOMEM E RISCO

DO ORÁCULO À LEI SARBANES-OXLEY

WALDEMIRO SETUBAL JUNIOR

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WALDEMIRO SETUBAL JUNIOR

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Finanças e Economia Empresarial.

Orientadora: Profª Drª EDUARDA LA ROCQUE

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Aos meus pais – in memorian, pelo legado de hombridade herdado. À minha irmã, Maria Lidia Setubal, meu porto seguro, por tudo que já construímos juntos.

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Ao Corpo Docente da EPGE, pela construção cumulativa do conhecimento. A todos que gentilmente leram, opinaram, corrigiram e aprimoraram este texto. Ao alunato, meus colegas, pela cumplicidade.

À Petrobras, pelo patrocínio institucional e financeiro deste curso.

Ao Gerson Luiz Gonçalves, Gerente-Executivo da Auditoria Interna da Petrobras, pelo incentivo dado, viabilizando gerencialmente esse projeto tornar-se realidade. Ao Pedro Gauziski de Araújo Figueredo, Gerente-Geral de Certificação de Controles Internos da Petrobras, por acreditar na minha capacidade de construir. Ao Paulo Sérgio Carvalhaes e Souza e Cláudio Ribeiro Rodrigues Alves, por compartilharem os seus arcabouços da Língua Inglesa.

A todos os meus amigos e amigas de trabalho – parte integrante desta dissertação – que, gentil e pacientemente, me cederam seus ombros e ouvidos, de modo incansável.

À Profª Eduarda La Rocque, minha orientadora, uma referência no Saber.

Ao Prof. Samuel de Abreu Pessôa, meu estímulo acadêmico. Retribuo com o pensamento de Henry Adams: “O professor se liga à eternidade; ele nunca sabe aonde cessa a sua influência”.

Aos Profs. Maria Cristina Terra e Pedro Cavalcanti, pela honra de tê-los compondo a banca examinadora.

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Introdução... 09

1. Risco: Do Divino ao Matemático ... 12

1.1. Deuses exprimem suas vontades – Um resgate histórico ... 12

1.2. O Homem delineia o Risco ... 14

1.3. A Teoria das Probabilidades – A transição para a racionalidade ... 16

1.4.O Risco visto pelo Homem Contemporâneo ... 19

2. Compartilhar riscos como um mecanismo de defesa coletiva ... 22

2.1. As origens ... 22

2.2. A Sociedade e seus mecanismos ... 23

2.3.As bolsas de valores e o mercado de capital – o amadurecimento das relações de capital ... 26

3. Ética Empresarial ... 29

3.1. O Conceito ... 29

3.1.1. A ética na economia globalizada ... 29

3.1.2. Questões éticas vistas pelo legal, pelo econômico e pelo filantrópico ... 29

3.1.3. Códigos de Ética ... 30

3.2. Dilemas e conflitos éticos nas tomadas de decisão ... 32

3.3. Ética e Mercado de Capitais ... 32

3.3.1. Governança Corporativa – Um novo paradigma ... 32

3.3.2. Responsabilidade Social ... 35

3.4. Confiança ... 37

3.4.1. A base ética do compartilhamento de riscos nas realidades contemporâneas ... 37

3.4.2. Corporações nocivas, posturas antiéticas e o abalo mundial nas relações de capital ... 38

4. A Lei Sarbanes-Oxley – Atraídos e atraentes enrijecem suas relações... 40

4.1. Motivação e Instrumentos ... 40

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4.1.2.2. COSO II ... 45

4.1.2.3. PCAOB ... 46

4.2. A reação mundial – Certificação, necessidade ou estratégia ? ... 47

4.3. A Lei Sarbanes-Oxley no Brasil ... 49

4.3.1. Controles Internos – Um Novo Olhar ... 50

5. A Lei Sarbanes-Oxley versada em casos brasileiros ... 52

5.1.Os princípios ditados pela NYSE ... 53

5.2.A Governança Corporativa traduzida em Estratégia ... 61

5.2.1. BRADESCO... 61

5.2.2. Companhia Vale do Rio Doce – CVRD ... 62

5.2.3. GERDAU ... 63

5.2.4. PETROBRAS ... 63

6. Considerações Finais ... 65

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INTRODUÇÃO

“Você deseja uma válvula que não vaze e faz todo possível para desenvolvê-la. Mas no mundo real só existem válvulas que vazam. Você tem de determinar o grau de vazamento que pode tolerar.” Arthur Rudolph, cientista do foguete Saturno 5, em The New York Times, 3 jan 1996.

E pensar que o risco já foi Divino! Ao delegar as suas decisões ao abstrato, o Homem se mantinha refém do além e de seus pares – intitulados com poderes para interceder em esferas celestiais inacessíveis aos comuns – e assim tudo se justificava e por séculos conformou a sociedade. Ainda hoje, em alguns segmentos da sociedade, mais fortemente nos de menor acesso à informação, o risco, principalmente quando associado a perdas, é uma decisão astral, ou uma punição, dependendo em intensidade tão-somente do quão religioso está inserido o processo de avaliação.

O ganhador do Prêmio Nobel Kenneth Arrow advertiu: “Nosso conhecimento do funcionamento das coisas, na sociedade ou na natureza, vem a reboque de nuvens de imprecisão. Grandes males têm se seguido a uma crença na certeza”. A capacidade de definir o que poderá acontecer no futuro e de optar entre várias alternativas é central às sociedades contemporâneas.

Ilustra essa visão a atitude dos pensadores – matemáticos e filósofos –, que transformaram o futuro, de inimigo, em uma oportunidade, com o exemplo de Prometeu, que desafiou os deuses. Ao mostrar ao mundo como compreender o risco, medi-lo e avaliar suas conseqüências, tais pensadores converteram o ato de correr riscos em um dos principais catalisadores que impelem a sociedade ocidental moderna.

A capacidade de administrar o risco, e com ele a vontade de correr riscos e de fazer opções ousadas, são elementos-chave da energia que impulsiona o sistema econômico.

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economia podem fluir naturalmente dos poupadores para os projetos mais produtivos. A existência de assimetrias de informação nas economias modernas, marcadas pela separação entre empreendedores e fornecedores de capital, muitas vezes inviabiliza o financiamento de projetos altamente produtivos.

Contrariamente ao estabelecido, tais assimetrias de informação são fatores críticos e podem afetar o potencial de crescimento de uma nação. Assim, a questão de governança corporativa, que envolvia apenas a questão de justiça distributiva entre duas partes privadas, passa a moldar a percepção de governos, que passam a ver o desenvolvimento do sistema financeiro e do mercado de capitais como mecanismo para a promoção do crescimento econômico.

E nesse processo não basta a adoção voluntária de algumas empresas, dado o custo elevado de obtenção de informação para cada empresa individual, existe o risco do comportamento oportunista de algumas empresas afetar a percepção do mercado em relação às demais. Deste modo, o aumento da proteção aos minoritários, aos credores, e a melhoria das condições sob as quais eles tomam decisões têm sido vistos como mecanismos para a promoção do desenvolvimento.

Visando combater as fraudes empresariais, foi editada nos Estados Unidos, em 2002, uma lei específica tratando dessa matéria, que ficou mundialmente conhecida como Sarbanes-Oxley Act – SOx. É considerada por muitos analistas como a mais importante reforma da legislação do mercado de capitais norte-americano desde a sua regulamentação introduzida em 1930, após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, que afetou toda a economia mundial.

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vista da racionalidade, o Homem já havia conseguido modelar, com base em instrumentos matemáticos, consideravelmente o Risco. Porém, as fragilidades éticas não tinham sido contempladas e desse movimento emerge as Melhores Práticas de Governança Corporativa – um ato voluntário do mercado de capitais. Não foi suficiente. O quarto e último capítulo mostra o enrijecimento nas relações de capital e o que era voluntário, esperado, passa a ser lei, passa a ser obrigação de fazer.

Numa retrospectiva e consolidação da idéia desse trabalho, o Homem entende o risco como escolha e não delega mais a deuses o resultado de suas opções, modela matematicamente e mitiga o risco trazendo-o para níveis aceitáveis. Isto, no entanto, não foi suficiente para imunizá-lo de perdas significativas devido à falta de ética empresarial. A resposta para tais fragilidades e vulnerabilidades é simples: faltou ética nas relações e a conseqüência foi uma sucessão de descobertas de fraudes financeiras e falências. A reação primeira foi uma postura espontânea de adoção, pelas organizações, das melhores práticas de governança, apresentadas ao mercado pelos investidores. A segunda e mais forte reação foi transformar em lei algo que era uma adoção voluntária, que expressava a intenção entre investidores e empresas. A Lei Sarbanes-Oxley é a migração do voluntário para o compulsório.

Encadeamento Lógico

Lei Sarbanes-Oxley

Governança Corporativa

Ética Matemático

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1. Risco: Do Divino ao Matemático

1.1. Deuses exprimem suas vontades – Um resgate histórico

Para explicar o início de tudo, a mitologia grega recorreu a um gigantesco jogo de dados para o que os cientistas modernos denominam Big Bang. Três irmãos, através dos dados, partilharam o universo: Zeus ganhou os céus; Poseidon, os mares; e Hades, o perdedor, tornou-se o senhor dos infernos.

O desejo dos gregos em obter previsões sobre o que o futuro reservara era satisfeito tão-somente pelos oráculos, em vez de consultar os filósofos mais sábios. Segundo BERNSTEIN (1997), a razão mais provável era que os gregos pouco se interessaram pela experimentação; a teoria e a demonstração era tudo o que importava. Tal visão restringiu a ação dos pesquisadores, que nunca se dispuseram a reproduzir certo fenômeno com uma freqüência suficiente para demonstrar uma hipótese, supostamente por não admitirem a possibilidade de regularidade nos eventos terrestres. A precisão era monopólio dos deuses, porém ninguém enfrenta um risco na expectativa do fracasso.

A Humanidade ingressa – e ratifica – nessa conduta por estar convencida de ter um poderoso aliado: a Sorte, que se interporá entre nós, humanos, e o destino – ou as probabilidades – para trazer a vitória para nosso lado.

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O jogo de azar1 mais antigo que se conhece foi uma espécie de jogo de dados com o chamado astrágalo ou osso metatársico, conforme BERNSTEIN (1997, p. 12) descreve: “Este antigo ancestral dos dados atuais era um osso quadrado retirado do tornozelo de carneiros ou veados, sólido, sem tutano e duro a ponto de ser praticamente indestrutível”.

O Liber abaci de Fibonacci2 foi o primeiro passo consistente na transformação da medição no fator-chave do controle sobre o risco. Entretanto, BERNSTEIN (1997) considera que a sociedade ainda não estava preparada para associar números ao risco. Nesse momento da História, a verdade estabelecida ainda era a de que o risco derivava do capricho da natureza.

Com a disseminação do cristianismo pelo mundo ocidental, a vontade de um Deus único emergiu como o guia orientador em relação ao futuro, substituindo a miscelânea de divindades que as pessoas haviam adorado desde o início dos tempos.

Entretanto, se a Humanidade não estava à mercê de divindades impessoais e do acaso aleatório, não poderia continuar passiva diante do futuro desconhecido. Se tudo fosse uma questão de sorte, a administração do risco seria um exercício sem sentido. Invocar a sorte obscurece a verdade, na proporção em que separa um evento de sua causa. Os primeiros esforços sistemáticos de medição e contagem foram realizados cerca de 10 mil anos antes do nascimento de Cristo.

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1

Esses jogos costumavam ser chamados de jogos de azar, de al zahr, a palavra árabe para

dados. (BERNSTEIN, 1997 p.13) 2

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BERNSTEIN (1997) ilustra esse esforço humano com o advento do ábaco – o dispositivo de contagem mais antigo da história – dominou o mundo da matemática até surgir em cena o sistema de numeração indo-arábico, entre cerca de 1000 e 1200 d.C. Os conceitos de pedir um emprestado e vão três remontam ao ábaco. Explica o autor, ainda, que a palavra ábaco deriva da palavra grega abax, que significa tabuleiro de areia. A evolução fez com que

novos métodos de cálculo, que substituíram gradualmente o ábaco, que durante séculos fora o único instrumento aritmético, do Império Maia, no hemisfério ocidental, passando pela Europa, até a Índia e o Oriente.

Mas é preciso perceber-se que as forças em ação na natureza – Divino – não são as mesmas forças em ação na mente humana. A exatidão da maioria das previsões depende de decisões tomadas por pessoas, e não pela Mãe Natureza ou seus deuses.

1.2. O Homem delineia o Risco

“Embora o Acaso produza Irregularidades, as Chances serão infinitamente grandes de que, no decorrer do Tempo, essas Irregularidades não guardem nenhuma proporção com a repetição daquela Ordem que é fruto naturalmente do Projeto Original”. (de Moivre, Abraham apud Bernstein, 1997 p. 127)

A palavra risco deriva do italiano antigo – risicare –, que significa ousar. Neste

sentido, o risco é uma opção, e não um destino. É das ações que o Homem ousa tomar, que dependem de o grau de liberdade de opção, que a história do risco trata. E essa história ajuda a definir o que é um ser humano.

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Ao longo do tempo, a contemplação e o fascínio pelo futuro foram tornando-se uma questão de conduta moral e de fé, fazendo com que o amanhã deixasse de ser ou parecer tão inescrutável como antes. De qualquer modo, a sociedade ainda não expunha a previsão a nenhum tipo de expectativa matemática.

Além disso, os algarismos arábicos, embora tenha sido uma contribuição ímpar, não foram suficientes para despertar a exploração humana, principalmente na Europa, rumo a um novo conceito – radical – de substituir a aleatoriedade pela probabilidade sistemática e por sua sugestão implícita de que o futuro pode ser previsível ou mesmo controlável até certo ponto.

Na visão de BERNSTEIN (1997) há jogos que têm resultados determinados pelo destino; porém há outros determinados pela escolha. O êxito – a chance de ganhar – é fruto da base de conhecimento necessária para apostar em um jogo de azar. O diferencial entre o resultado por habilidade e o por sorte é o acesso crucial a muito mais informações pertinentes para prever quem vencerá ou perderá, quando sorte não é o determinante. A valorização dada à informação é restrita, haja vista que o passado, independentemente da base de análise, é apenas um fragmento da realidade.

Ainda no pensamento do autor, destaca-se que o tempo é o fator dominante no jogo. O risco e o tempo são as faces opostas da mesma moeda, já que sem amanhã não haveria risco. A cadeia de futuro pode ser desenhada desse modo: O tempo transforma o risco, e a natureza do risco é moldada pelo horizonte de tempo: o futuro é o campo de jogo.

Como os aficionados do mercado de ações, colecionam resmas de estatísticas exatamente por precisarem dessas informações para chegar a avaliações sobre as capacidades dos jogadores e times – ou sobre a perspectiva de lucro das empresas negociadas na Bolsa.

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Situações da vida real, com freqüência, exigem a avaliação de as probabilidades exatamente assim – da amostra ao universo. Esse movimento leva a Humanidade ao limiar da quantificação do risco.

A realidade é uma série de eventos interligados e interdependentes, absolutamente diferentes dos jogos de azar em que o resultado de qualquer jogada individual tem influência zero sobre o resultado da próxima jogada. Delinear a gestão do risco converge para seus três pressupostos obrigatórios: plena informação, tentativas independentes e a relevância da avaliação quantitativa.

1.3. A Teoria das Probabilidades – A transição para a racionalidade

Com a passagem dos anos, os matemáticos transformaram a teoria das probabilidades de um brinquedo de apostadores em um instrumento poderoso de organização, interpretação e aplicação das informações. O que poderia parecer uma versão do século XVII do jogo de busca trivial levou à descoberta da teoria das probabilidades, o núcleo matemático do conceito de risco.

A palavra grega antiga eikos, que significa plausível ou provável, tinha o mesmo sentido do conceito moderno de probabilidade: ser esperado com certo grau de certeza. Sócrates define eikos como “semelhança com a verdade”. Semelhança com a verdade não é o mesmo que a verdade. Para os gregos, a verdade era apenas o que pudesse ser demonstrado pela lógica e a partir de axiomas.

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Em um mundo de causas e efeitos, se são conhecidas as causas, pode-se prever os efeitos. Logo, ilustra BERNSTEIN (1997, p. 200): “acaso para o ignorante não é acaso para o cientista. O acaso é apenas a medida de nossa ignorância”.

Teorias de como as pessoas tomam decisões e fazem escolhas parecem ter-se dissociado da vida diária no mundo real. Entretanto, essas teorias prevaleceram por quase cem anos. Em plena Grande Depressão, persistia a noção de que as flutuações econômicas era alguma espécie de acaso, e não eventos inerentes a um sistema econômico impulsionado pelo ato de correr riscos.

O Homem tem sua vida repleta de números, mas às vezes esquece que estes não passam de ferramentas. Eles não têm alma; podem até virar fetiches. As cartas, as moedas, os dados e a roleta, por exemplo, não têm memória. E nenhuma decisão é tomada sem referência a um passado compreendido com certo grau de certeza e um futuro do qual não há nenhum conhecimento certo.

Como reforço, BERNSTEIN (1997, p. 198) escreve:

“Os eventos presentes estão ligados aos eventos precedentes por um vínculo baseado no princípio óbvio de que uma coisa não pode ocorrer sem uma causa que a produza... Todos os eventos, mesmo aqueles que, devido à insignificância, não parecem seguir as grandes leis da natureza, resultam delas tão necessariamente como as revoluções do Sol”.

Nem Cardano, nem Galileu perceberam que estavam prestes a enunciar a mais poderosa ferramenta de administração do risco já inventada: as leis das probabilidades. Eles trabalharam indutivamente na criação, pela primeira vez, de uma teoria das probabilidades. A teoria forneceu uma medida da probabilidade em termos de números exatos, um rompimento fundamental com a tomada de decisões baseada em graus de crença.

Sua solução do enigma de Paccioli3 permitiu que, pela primeira vez, as pessoas

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tomassem decisões e previssem o futuro com ajuda dos números. Nos mundos medieval e antigo, e mesmo nas sociedades pré-escrita e camponesas, os indivíduos conseguiam tomar decisões, defender seus interesses e praticar o comércio, mas sem uma compreensão real do risco ou da natureza da tomada de decisões.

O Renascimento e a Reforma protestante prepararam o terreno para o controle do risco. À medida que o misticismo cedeu passo à ciência e à lógica, após 1300, as formas arquitetônicas, as esculturas refletiram essa nova concepção. A Reforma significou mais do que uma mera mudança na relação da humanidade com Deus. Ao eliminar a confissão, ela alertou as pessoas de que, dali por diante, teriam de caminhar com os próprios pés e se responsabilizar pelas conseqüências das próprias decisões.

À medida que o crescimento do comércio transformou os princípios do jogo em geração de riqueza, o resultado inevitável foi o capitalismo, a epítome de correr riscos. Mas o capitalismo não poderia ter florescido sem duas novas atividades que haviam sido desnecessárias, enquanto o futuro fora uma questão de acaso ou vontade divina. A primeira foi a contabilidade, atividade humilde, mas que encorajou a disseminação das novas técnicas de numeração e contagem. A outra foi a previsão, uma atividade bem menos humilde e bem mais desafiadora, que associa assumir riscos com as compensações diretas.

Sem números, não há vantagens nem probabilidades; sem vantagens e probabilidades, o único meio de lidar com o risco é apelar para os deuses e o destino. Sem números, o risco é questão de pura coragem. Os profissionais tendem tanto quanto os amadores a evitar o risco.

Probabilidade é o grau de certeza e difere da certeza absoluta como a parte difere do todo. No caso das probabilidades serem desconhecidas, para BERNSTEIN (1997) configura-se a Incerteza.

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trilham o caminho entre os riscos a serem contemplados e os riscos a serem enfrentados. Ele é o pai do conceito de administração do risco como uma forma explícita de habilidade prática.

Gauss não tinha nenhum interesse específico na administração do risco como tal. Mas ele foi atraído pelas questões teóricas levantadas pelo trabalho em probabilidades, números grandes e amostragem iniciado por Jacob Bernoulli e levado adiante por De Moivre e Bayes. Apesar de sua falta de interesse na administração do risco, suas realizações nessas áreas formam a essência das técnicas modernas de controle do risco.

1.4. O Risco visto pelo Homem Contemporâneo

A raiz latina de probabilidade é uma combinação de probare, que significa

testar, provar ou aprovar, e ilis, que significa capaz de ser; foi nesse sentido de

passível de prova ou digno de aprovação que Cardano pode ter conhecido a palavra. Segundo o filósofo canadense Ian Hacking, a raiz latina de probabilidade sugere algo como digno de aprovação. Probabilidade significa o grau de crença ou a demonstrabilidade de uma opinião.

BERNSTEIN (1997) acredita que a resposta esteja ligada à sua visão de vida. Quem determina nosso futuro: o destino, os deuses ou nós mesmos ? A idéia da gestão de riscos emerge apenas quando os indivíduos acreditam ser, até certo ponto, agentes livres. Na acepção mais moderna de Leibniz, era quanta credibilidade pode-se atribuir às evidências.

A questão de como os seres humanos reconhecem as probabilidades com que se defrontam e como reagem a elas. Em última análise, esse é o objeto da administração do risco e da tomada de decisões e é aí que o equilíbrio entre a medição e a emoção torna-se o ponto focal de toda a história.

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arriscadas, algumas mais arriscadas do que outras, e ponto final. O risco estava na intuição e não nos números.

A palavra aleae refere-se aos jogos de dados. Aleatorius, da mesma raiz,

refere-se a jogos de azar em geral. Esses termos chegaram até nós pela palavra aleatório, que descreve eventos cujo resultado é incerto. A teoria da decisão, como Hacking a descreve, é a teoria de decidir o que fazer quando é incerto o que acontecerá. Tomar tal decisão é o primeiro passo essencial em qualquer esforço de administração do risco.

A concepção moderna de risco tem suas raízes no sistema de numeração indo-arábico que alcançou o Ocidente há cerca de setecentos a oitocentos anos. Mas o estudo sério do risco começou no Renascimento, quando as pessoas se libertaram das restrições do passado e desafiaram abertamente crenças consagradas.

Qualquer decisão relativa a riscos envolve dois elementos distintos, porém inseparáveis: os fatos objetivos e a visão subjetiva do desejo do que será ganho, ou perdido, com a decisão. O uso da diversificação para reduzir a volatilidade vai ao encontro da preferência naturalmente avessa ao risco de todos por resultados certos, em vez de incertos.

O preço – e as probabilidades – não é suficiente para determinar o valor de algo. Embora os fatos sejam idênticos para todos, a utilidade depende das circunstâncias específicas de quem faz a estimativa. Não há razão para supor que os riscos estimados por cada indivíduo devam ser considerados de mesmo valor. A cada qual o seu próprio. BERNSTEIN (1997) ilustra esse pensamento citando a visão de Charles Tschampion, diretor-executivo do fundo de pensão da General Motors, com patrimônio de US$ 50 Bi, a gestão de investimentos não é uma arte nem uma ciência, mas engenharia...

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negócio para um investidor ou gerente de empresa. Essa revelação desencadeou o movimento intelectual que revolucionou Wall Street, as

finanças corporativas e as decisões empresariais em todo o mundo; seus efeitos até hoje se fazem sentir.

Ousadamente, Markowitz estava tratando da gestão da riqueza total do investidor, sua carteira. Sua tese principal é que uma carteira de valores mobiliários é totalmente diferente das propriedades consideradas individualmente. A metodologia de Markowitz é uma síntese das idéias de Pascal, De Moivre, Bayes, Laplace, Gauss, Galton, Daniel Bernoulli, Jevons, von Neumann e Morgenstern. Ela se vale da teoria das probabilidades, da amostragem, da curva em sino e dispersão ao redor da média, da regressão à média e da teoria da utilidade.

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2. Compartilhar riscos como um mecanismo de defesa coletiva

2.1. As origens

Ao lado das formas financeiras de administração do risco, os mercadores aprenderam desde cedo a empregar a diversificação para diminuir os riscos ao perceberem que o risco de perder qualquer soma é o inverso da expectativa; e sua verdadeira medida é o produto da soma arriscada pela probabilidade de perda. E mais, se todos avaliassem cada risco exatamente da mesma forma, muitas oportunidades arriscadas seriam perdidas. BERNSTEIN (1997) ilustra o pensamento ao escrever que tostão poupado é tostão ganho, mas só quando o futuro é algo mais do que um buraco negro.

Ao agir perde-se a opção de esperar por novas informações. Por conseguinte, a inércia tem seu valor. Quanto mais incerto o resultado, maior o valor do adiamento.

BERNSTEIN (1997), além de comungar, cita que consta nos Autos da Academia Imperial de Ciências de São Petersburgo, datado de 1738, um ensaio cujo tema central é: O valor de um item não deve se basear em seu preço, mas na utilidade que ele produz, conforme a visão de Bernoulli: “A utilidade resultante de qualquer pequeno aumento da riqueza será inversamente proporcional à quantidade de bens anteriormente possuídos”.

A inovação mais ousada de Bernoulli foi a noção de que cada um de nós – mesmo o mais racional – possui um conjunto de valores único e responderá de acordo com ele, mas sua genialidade esteve no reconhecimento de que tinha de ir mais longe do que isso. Ao formalizar sua tese afirmando que a utilidade é inversamente proporcional à quantidade de bens possuídos, descortina uma visão fascinante do comportamento humano e do modo como chega-se às decisões e opções em face do risco.

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nas decisões com resultados incertos. Enquanto a teoria das probabilidades estabelece as opções, Bernoulli define as motivações das pessoas que optam.

Bernoulli: sua ênfase estava na tomada de decisões e não nos meandros matemáticos da teoria das probabilidades. Ele anuncia de saída que seu objetivo é estabelecer “regras pelas quais qualquer um poderia estimar suas perspectivas em qualquer empreendimento arriscado à luz de suas circunstâncias financeiras específicas”.

Três são as razões pelas quais a regressão à média pode ser um guia tão frustrante à tomada de decisões. Primeira, ela às vezes avança em um ritmo tão lento que um choque perturbará o processo. Segunda, a regressão pode ser tão forte que as coisas não entram em repouso mesmo tendo sida alcançada a média. Pelo contrário, elas flutuam ao redor da média, com desvios repetidos e irregulares em ambos os lados. Finalmente, a própria média pode ser instável, de modo que a normalidade de ontem pode ser suplantada hoje por uma nova normalidade da qual nada sabemos. É arriscado supor que a prosperidade é iminente, apenas porque sempre o foi.

Metaforicamente BERNSTEIN (1997, p. 111) conduz uma reflexão:

“Pense em sua riqueza como uma pilha de tijolos, com tijolos grandes na base e uma diminuição gradual do tamanho dos tijolos à medida que aumenta a altura. Qualquer tijolo que você remova do topo da pilha será maior do que o próximo tijolo que pudesse acrescentar. O desgosto resultante da perda de um tijolo é maior do que o prazer resultante do ganho de um tijolo.”

2.2. A Sociedade e seus mecanismos

A palavra estatística deriva-se da análise de fatos quantitativos sobre o Estado. Graunt e Petty podem ser considerados os co-criadores desse importante campo de estudo.

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desenvolvido por um importante jurista romano Ulpiano. As tabelas de Ulpiano foram a última palavra durante mais de 1.400 anos.

O Código de Hamurábi, que surgiu ao redor de 1800 a.C., dedica 282 cláusulas ao tema da bodemeria. A bodemeria era um empréstimo ou uma hipoteca contraída pelo proprietário de um navio para financiar sua viagem.

O imperador Cláudio (10 a.C. – 54 d.C.), ávido por fomentar o comércio de cereais, tornou-se ele próprio uma empresa seguradora de um só homem e sem cobrar prêmio, assumindo a responsabilidade pessoal pelos prejuízos acarretados por tempestades aos mercadores romanos, à semelhança da ajuda que os governos atuais fornecem as áreas atingidas por terremotos, furacões e enchentes.

Já a atividade seguradora ganhou impulso em torno de 1600. O termo apólice, então já de uso generalizado, deriva do italiano polizza, que significa promessa. Pode-se perceber que os grandes avanços nos esforços de domar o risco, nos anos anteriores a 1800, ganhariam um impulso redobrado à aproximação no novo século, e a era vitoriana forneceria ainda mais impulso.

Grandes centros financeiros se desenvolveram em Amsterdã, Augsburg, Antuérpia, Frankfurt, Lyons e Veneza; Bruges estabeleceu uma Câmara de Seguros em 1310. Novos instrumentos, como letras de câmbio, passaram a facilitar a transferência de dinheiro do cliente ao fornecedor, do credor ao mutuário, do mutuário ao credor e, em somas imensas, do vasto domínio da Igreja a Roma. A palavra inglesa para corretor da Bolsa – stock jobber – surgiu

ao redor de 1688, cem anos antes que a pessoas começassem a negociar ações

em Wall Street, Nova Iorque.

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Quando um negócio era fechado, quem assumia o risco confirmava sua concordância em cobrir o prejuízo em troca de um prêmio específico assinando seu nome sob – under – os termos do contrato; logo esses operadores de

seguros individuais passaram a ser chamados de underwriters.

A regressão à média decreta que as coisas não poderiam ser de outra forma. Se os vencedores continuassem vencendo e os derrotados continuassem perdendo, nossa economia consistiria em um punhado decrescente de imensos monopólios e em quase nenhuma empresa pequena.

Com o conceito de racionalidade tão bem definido e tão amplamente aceito nos círculos intelectuais, sua transformação em regras de controle do risco e maximização da utilidade estava fadada a influenciar o mundo do investimento e da gestão da riqueza. O cenário era perfeito.

BERNSTEIN (1997, p.217) ilustra essa trajetória citando Robert Dixon, economista australiano:

”A incerteza está presente no processo de tomada de decisões, menos por haver um futuro do que porque há, e haverá, nosso passado... Somos prisioneiros do futuro, porque seremos capturados por nosso passado.” Omar Khayyam, tivera o mesmo pensamento cerca de mil anos antes:

“Dispõe o Eterno Escriba: E havendo escrito, A folha vira: e não há ciência ou devoção Que cancele uma Linha; e não há pranto aflito Que risque uma Palavra! Ah, todo choro é vão!”

A teoria dos jogos representa um rompimento drástico com os esforços anteriores de incorporar a inevitabilidade matemática à tomada de decisões. Segundo BERNSTEIN (1997), a teoria dos jogos afirma que a verdadeira fonte da incerteza reside nas intenções dos outros. Tendo sido esta teoria inventada por John von Neumann (1903-1957), físico de imensas realizações intelectuais.

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uma roleta ou um par de dados, e que cada observação é independente da anterior. A oscilação de preços de hoje será o que for independentemente do que aconteceu há um minuto, ontem ou dias antes.

A melhor forma de determinar se as mudanças nos preços das ações são de fato independentes é descobrir se elas se enquadram em uma distribuição normal. Evidências impressionantes respaldam a opinião de que as mudanças nos preços das ações são normalmente distribuídas. Isso não deve constituir uma surpresa. Grande parte do ato de correr riscos baseia-se em oportunidades desenvolvidas a partir de desvios da normalidade.

2.3. As bolsas de valores e o mercado de capital – o amadurecimento das relações de capital

O medo do dano deveria ser proporcional, não apenas à gravidade do dano, mas também à probabilidade do evento. A perspectiva de enriquecer é altamente motivadora, e poucas pessoas ficam ricas sem correr riscos. A atual convenção no mundo das finanças é que se deve ter 95% de certeza de que algo é estatisticamente importante – o equivalente moderno à certeza moral – para aceitar o que os números indicam. BERNSTEIN (1997) lembra que Jacob Bernoulli insistiu que a certeza moral é inferior à certeza.

E o autor acrescenta, ainda, que Frank Knight estava determinado a elevar a incerteza a um papel central na análise do risco e na tomada de decisões e a energia e eloqüência com que Keynes realizou seu ataque contra os pressupostos dos economistas clássicos. Contudo, a fé na realidade do conhecimento racional e no poder da medição na administração do risco persistiu através de todo o tumulto da Depressão e da Segunda Guerra Mundial.

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que estiveram dispostos a pagar qualquer preço pelo privilégio de possuir ações de empresas como a Xerox, a Coca-Cola, a IBM e a Polaroid. Esses gerentes de investimentos definiram o risco nas Nifty-Fifty, não como o risco de pagar

demais por elas, mas como o risco de não possuí-las.

A incerteza inevitável do futuro sempre nos impedirá de banir totalmente o destino de nossas esperanças e temores; porém, após 1654, a feitiçaria deixaria de ser o método de previsão favorito.

Em 1654, era um fato estabelecido que a Terra era redonda, a pólvora reduzia os castelos medievais a pó, a imprensa de tipos móveis deixara de ser novidade, a riqueza bafejava a Europa e a bolsa de valores de Amsterdã florescia. Alguns anos antes, na década de 1630, a famosa bolha das tulipas

holandesas estourara como resultado da emissão de opções, cujas características eram idênticas aos instrumentos financeiros sofisticados atualmente em uso. Essas evoluções tiveram conseqüências profundas que puseram o misticismo em retirada.

Com essa abertura de opções e decisões, reconheceu-se gradualmente que o futuro oferecia oportunidades, além de perigos, que era ilimitado e cheio de promessas.

BERNSTEIN (1997) traz o pensamento de Keynes ao escrever o argumento:

“... que os juros são recompensas pela renúncia à liquidez, e não pela abstenção do consumo. Mesmo que a taxa de juros decline, ela poderá não declinar o suficiente para encorajar os dirigentes de empresas a arriscar investimentos adicionais de capital em um ambiente econômico em que falta vitalidade e em que mudar para um novo conjunto de decisões é dispendioso. As decisões, uma vez tomadas, criam um novo ambiente sem oportunidade de repetir o antigo.” (p.227)

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3. Ética Empresarial

3.1. O Conceito

3.1.1. A ética na economia globalizada

Nesta virada de século a ética empresarial é uma das preocupações mais importantes do mundo dos negócios, ainda que talvez seja a mais malcompreendida. A palavra ética tem muitas nuances. A ética é definida por FERRELL (2004, p.6) como a “indagação sobre a natureza e fundamentos da moralidade, sendo o termo moralidade entendido como juízos morais, padrões e regras de conduta”. Embora a ética tenha sido denominada também estudo e filosofia da conduta humana, com ênfase na determinação do que é certo e do que é errado.

A diferença entre uma decisão comum e a decisão ética reside no ponto em que regras aceitas não se aplicam mais e o tomador de decisões enfrenta a responsabilidade de contrabalançar valores e chegar a um juízo, que não necessariamente será o da situação enfrentada antes. Além disso, o respeito ao grau de ênfase posta nos valores de interesse próprio quando da tomada de decisão.

A maioria das definições de ética empresarial acena para regras, padrões e princípios morais sobre o que é certo ou errado em situações específicas. Ou seja, ética empresarial compreende princípios e padrões que orientam o comportamento no mundo dos negócios.

3.1.2. Questões éticas vistas pelo legal, pelo econômico e pelo filantrópico

Com o surgimento de os grupos de interesses, ou stakeholders, que incorporam

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Como as questões éticas freqüentemente surgem de conflitos, é útil examinar as causas dos conflitos éticos. Não raro a base dos conflitos patronais é oriunda das convicções pessoais e as obrigações contratuais assumidas. Existe conflito de interesses quando o indivíduo tem que optar entre promover seus próprios interesses, os interesses da empresa ou os interesses de algum outro grupo.

As avaliações da determinação do que é justo na ética empresarial dizem respeito à eqüidade, ou à disposição de remediar injustiças cometidas. Justiça significa tratamento eqüitativo e recompensa apropriada de acordo com padrões éticos ou legais. Para FERRELL (2004), no mundo dos negócios, isso significa que as regras de decisão usadas para averiguar o que é justo poderiam basear-se nos direitos reconhecidos do indivíduo e nas intenções associadas a uma transação empresarial. Isto posto, a justiça diz mais respeito àquilo que os indivíduos sentem que lhes é devido, com base em seus direitos e no seu desempenho.

3.1.3. Códigos de Ética

Um programa ético deve ajudar a reduzir a possibilidade de penalidades ou reação pública negativa a casos de má conduta. Cabe à alta administração da empresa o dever de prestar contas e a responsabilidade pela conduta imprópria. Com isso, a empresa precisa de um programa ético eficaz, que assegure que todos os empregados compreendam os valores e cumpram as políticas e códigos de conduta que criam um clima ético.

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Os empregados podem adotar filosofias morais diferentes e ter origens e formações diversas. Sem políticas e padrões uniformes é provável que eles tenham dificuldades de saber o que é conduta aceitável na companhia. O Código de Ética – ou declarações formais do que a empresa espera em matéria de conduta – informam tanto aos empregados como ao mercado que tipos de comportamento são aceitáveis ou impróprios.

O código precisa refletir o desejo da alta administração de que a empresa cumpra os valores, as regras e as políticas que sustentam um clima ético. Além de a alta administração, a assessoria jurídica deve ser consultada para assegurar que o código avalia corretamente as principais áreas de risco e que problemas legais potenciais foram, tanto quanto possível, previstos.

Os valores das empresas tendem a dominar a maioria das culturas organizacionais, particularmente na ausência de valores éticos individuais. Embora participem das decisões, os valores pessoais são apenas um dos componentes fundamentais que orientam decisões, ações e políticas das empresas. Os valores da companhia, de maneira traduzida em procedimentos e políticas, tendem a impulsioná-la para determinadas metas de longo prazo. Assim, o ônus da conduta ética relaciona-se com os valores e as tradições da empresa, e não apenas com os indivíduos que tomam e executam as decisões.

3.2. Dilemas e conflitos éticos nas tomadas de decisão

As oportunidades e o conflito são importantes fatores de influência na tomada de decisões éticas nos relacionamentos interpessoais. Uma vez descoberta a oportunidade, surge freqüentemente o dilema ético de explorá-la ou não. A oportunidade é um conjunto de condições que limitam a conduta condenável ou recompensam a conduta digna de elogio. Com grande freqüência, é uma situação com o potencial de produzir um resultado ou recompensa positivo.

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oportunidade leva a – ou decorre de – um conflito entre os valores do indivíduo que toma as decisões e os seus pares, a empresa ou a sociedade com seus inúmeros grupos de interesse. E se as normas e os valores de a empresa colidem com os da sociedade em geral, está estabelecido o conflito externo, ou seja, entre a empresa e o mercado.

Quando a sociedade acredita que algo é antiético, ainda que permitido por lei, novas leis podem ser promulgadas para ajudar a definir o nível mínimo de conduta moral. No mundo dos negócios, esse padrão teve início em uma data tão remota quanto a dos monopólios das estradas de ferro norte-americanas na década de 1880, conforme afirma FERRELL (2004).

Compreender a influência de decisões interpessoais na empresa possibilita que se entenda o processo de tomada de decisão ética. Em decisões relacionadas com negócios, descobriu-se que os terceiros significativos, ou seja, superiores hierárquicos, pares e subordinados, constituem a variável mais poderosa. Segundo FERRELL (2004), as organizações podem ser consideradas agentes morais responsáveis por condutas éticas. Assim, a ética e a responsabilidade devem ser atribuídas às organizações e não ao indivíduo ou ao grupo. Uma cultura interna coesa surge de relacionamentos individuais, interpessoais, de consenso e consentimento em toda a empresa.

3.3. Ética e Mercado de Capitais

3.3.1. Governança Corporativa – Um novo paradigma

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Não é uma tarefa tão simples relacionar todos os interesses envolvidos nas decisões e nos atos das corporações. E eles se tornam ainda mais complexos quando se dá a separação entre a propriedade e a gestão das grandes companhias, e conseqüentemente emerge uma nova classe social – a dos executivos que assumem, de fato, o poder nas empresas por eles gerenciadas. Foi em meio a essas questões, crescentemente complexas, geradas pelas novas realidades do mundo corporativo, que surgiu a governança corporativa.

A governança corporativa, como conjunto de princípios e práticas que têm sido incorporadas aos modelos de gestão das empresas, tem atraído a atenção de diferentes partes interessadas culminando com o próprio interesse público. A definição do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC:

Governança Corporativa é o sistema pelo qual as sociedades são dirigidas e monitoradas, envolvendo os relacionamentos entre acionistas/cotistas, conselho de administração, diretoria, auditoria independente e conselho fiscal. As boas práticas de governança corporativa têm a finalidade de aumentar o valor da sociedade, facilitar seu acesso ao capital e contribuir para sua perenidade. (ROSSETTI 2004, p.24)

Os diversos modelos de governança corporativa são decorrentes de condições históricas, culturais e institucionais dos países em que cada um deles predomina. São também decorrentes da formação econômica dos países, com destaque para as relacionadas à configuração e à maturidade de seu sistema financeiro e, dentro deste, ao desenvolvimento de seu mercado de capitais, dois fatores essenciais que definem, junto com a cultura empresarial e as instituições legais, a forma dominante de propriedade e de financiamento das empresas.

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companhias mais sensíveis à função social do mundo corporativo, como o objetivo central da gestão.

Uma das mais impactantes macromudanças da transição do séc. XX para o XXI, desencadeada com o fim de as hostilidades Leste-Oeste, com a ruptura da Cortina de Ferro, com a desintegração da antiga URSS e com a constituição da União Européia, foi o avassalador processo de abertura das fronteiras para mercados de bens e serviços, inclusive financeiros, e a conseqüente constituição de blocos econômicos. As uniões nacionais, os mercados comuns, as áreas de livre comércio e os acordos bilaterais impuseram à competitividade e à produtividade níveis cada vez mais desafiadores.

Com as mudanças de ordem global, a governança corporativa emerge como balizador e seu desenvolvimento tem raízes firmes. Sua adoção tem razões substantivas para se disseminar. ROSSETTI (2004, p. 52) acrescenta: “as Nações Unidas e a OCDE vêem as boas práticas de governança como pilares da arquitetura econômica global e um dos instrumentos do desenvolvimento sustentável em suas três dimensões: a econômica, a ambiental e a social”.

A Governança Corporativa tem três pilares, também conhecida como a tríade de Governança: Eqüidade, Transparência e Prestação de Contas. Além do respeito ao intrínseco ao meio ambiente e às leis, normas e regulamentos, formais ou informais, sendo entendido os informais como a tradição, a cultura e a regionalismo.

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Do lado do Estado, os governos têm grande responsabilidade na criação de uma estrutura reguladora, que proporcione flexibilidade suficiente para que os mercados funcionem de modo eficaz e atendam aos interesses dos acionistas e outros grupos de interesse, levando sempre em conta os custos e benefícios de sua regulamentação.

As principais tendências da governança corporativa, segundo ROSSETTI (2004), podem ser sintetizadas em quatro palavras: convergência, adesão, diferenciação e abrangência. Elas constituem um todo integrado. Resultam mais de pressões externas do que mudanças internas nas companhias. Estão em curso mundial, mas a velocidade é fortemente influenciada por valores culturais, sistemas institucionais e características estruturais das organizações.

3.3.2. Responsabilidade Social

Os conceitos de ética nos negócios e responsabilidade social são muitas vezes usados como sinônimos, mas as duas expressões têm significado diferentes. A ética empresarial compreende princípios e padrões que orientam o comportamento no mundo dos negócios. Por outro lado, a responsabilidade social no mundo dos negócios consiste na obrigação da empresa de maximizar seu impacto positivo sobre os grupos de interesses ou stakeholders e minimizar

o negativo. FERRELL (2004) destaca quatro tipos de responsabilidade social: legal, ética, econômica e filantrópica. Assim, ética empresarial e responsabilidade social estão estreitamente vinculadas.

Responsabilidade Social de natureza legal: Por meio de leis, normas e regulamentos, a sociedade força uma conduta aceitável. Do ponto de vista ético, as empresas decidem o que consideram certo, justo e eqüitativo, além de outras especificações sociais. Há quem considere a lei como sendo a ética codificada, pelo fato de que um ato voluntário pode no futuro transformar-se em lei.

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espontânea, por intermédio de projetos e programas sociais, culturais e ambientais. A natureza filantrópica é vista pelas contribuições em recursos financeiros e humanos visando melhorar a qualidade de vida da comunidade e da sociedade em geral. As dimensões econômica e filantrópica são complementares, haja vista que quanto maior for o resultado econômico, maior será o investimento em obras assistenciais.

A empresa ética e socialmente responsável depende dos valores e princípios morais sustentados pelos indivíduos e grupos que dela fazem parte. Sob o prisma da responsabilidade social, os valores e convicções morais dos empregados e da empresa revestem-se de alta importância, mas isso não significa que os outros grupos de interesse estejam, ou sejam postos, no ostracismo.

Responsabilidade social na estratégia empresarial traz a reflexão sobre a compreensão dos valores de seus membros e dos grupos de interesse, com base na natureza ética e avaliando as implicações, os impactos e as conseqüências para todos os envolvidos direta ou indiretamente – stakeholders. Na relação

entre ética, economia, responsabilidade social e estratégia, é de importância crucial o papel da alta administração das empresas e suas culturas organizacionais.

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3.4. Confiança

3.4.1. A base ética do compartilhamento de riscos nas realidades contemporâneas

DUARTE JUNIOR (2005) esclarece que os riscos empresariais são todos os eventos e expectativas de eventos que impedem a empresa e seus empregados de auferir lucros. Os riscos são os elementos incertos que agem constantemente sobre os meios estratégicos e o ambiente e que provocam os desastres financeiros e morais, mas bem gerenciados forçam a criatividade e fazem nascer as oportunidades de ganhos financeiros, de reputação e de relacionamento.

Riscos estão presentes em todas as atividades humanas. O maior risco é o de não se assumir riscos. Eliminar o risco, para DUARTE JUNIOR (2005) é um equívoco. Desejo de assumir riscos é o que move o ser humano e fez o mundo se desenvolver. Foi assim na época das grandes descobertas no séc. XVI, quando, apesar de apenas um em cinco navios conseguir regressar aos portos de origem tendo cumprido seus objetivos, o valor obtido pela carga era suficiente para cobrir as perdas dos outros quatro e ainda dar lucro à empreitada.

O risco global está presente em qualquer operação financeira. É importante classificá-lo pelos fatores que o causam, formando, assim, quatro grupos principais: riscos de mercado, operacionais, de crédito e legais. Os prejuízos de bilhões de dólares decorrentes de megafraudes e mesmo as perdas expressivas atribuíveis a custos de mitigação do risco ou à desconsideração dos direitos dos minoritários têm levado grandes e pequenos investidores a buscarem empresas que aderiram aos fundamentos das melhores práticas de governança corporativa.

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informações, conformidade com a regulação e adoção de modelos confiáveis de gestão.

A disseminação das boas práticas de governança não impediu que o final do séc. XX e o início do XXI fossem marcados por escândalos e fraudes corporativas. Em resposta a essas ocorrências as leis que regulam os mercados têm-se tornado mais severas, bem como as punições envolvidas.

3.4.2. Corporações nocivas, posturas antiéticas e o abalo mundial nas relações de capital

Em resposta ao abalo mundial das megafraudes as leis que regulam os mercados têm-se tornado mais severas, bem como as punições dos envolvidos. Um dos exemplos é a lei estadunidense Sarbanes-Oxley, sancionada em 2002. Sua premissa maior é notória: a boa governança corporativa e as práticas éticas do negócio não são mais requintes ou desejo – são leis.

DUARTE JUNIOR (2005) cita alguns colapsos no mercado financeiro internacional, tais como: Orange County, Barings Bank, Daiwa Bank e Long Term Capital Management, e no âmbito doméstico, o Banco Nacional, o Banco Econômico e o Banco Marka, além de empresas de administração de recursos de terceiros – locais e internacionais – que desapareceram ou foram vendidas por preços irrisórios.

Mas outras empresas internacionais também vêm sendo citadas e postas pelo mercado como maus exemplos empresariais. Encabeça tal lista a Enron, seguida pela WorldCom, Xerox, Qwest, Tyco. Todas envolvidas em acontecimentos que abalaram não apenas os mercados, mas também a opinião pública mundial. O fato de os dois punidos, no caso WorldCom, terem sido justamente os executivos financeiros, fragilizou e expôs sobremaneira todos os outros, em âmbito global.

Joseph Nocera, didático colunista de finanças do New York Times, lembra que

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4. A Lei Sarbanes-Oxley – Atraídos e atraentes enrijecem suas relações

4.1. Motivação e Instrumentos

4.1.1. O fomento

A lei estadunidense Sarbanes-Oxley, de 2002, reescreveu, literalmente, as regras para a governança corporativa, relativas à divulgação e à emissão de relatórios financeiros. Mais, a intenção de postura passou a ser lei. E de forma notável a Lei privilegia o papel crítico dos controles internos e torna os diretores financeiros e executivos explicitamente responsáveis por estabelecer, avaliar e monitorar a eficácia dos controles internos sobre relatórios financeiros e outras divulgações correlatas.

O intuito de tal edição foi dar continuidade à introdução de sua regulamentação

– o Securities Act, de 1933, e o Securities Exchange Act, em 1934 – após a

quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929. A Lei faz referência a dois membros do Congresso Americano, o Senador Democrata Paul Sarbanes e o Deputado Republicano Michael Oxley.

Os recentes escândalos no mundo dos negócios trouxeram à tona declarações de executivos que afirmavam não ter conhecimento das atividades duvidosas

praticadas por suas companhias – participações não registradas nos livros, reconhecimentos impróprios de receitas, entre outras fraudes. A Lei foi, então, criada para desencorajar essas alegações por meio de várias medidas que intensificam as conferências internas e aumentam a responsabilidade dos executivos.

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E no pensamento do mesmo autor, que destaca a relevância da Lei citando que “alguns observadores descreveram a Lei Sarbanes-Oxley como a peça mais significativa da legislação comercial nos últimos cinqüenta anos” (DTT, p.1). Isto decorre da mudança substancial imposta ao ambiente empresarial e regulador. Destaca, ainda, que tais exigências legais podem promover benefícios que extrapolam o cumprimento compulsório. O potencial para revisar e concretizar novas visões corporativas e atingir novos níveis de excelência corporativa é inesgotável.

A necessidade de vincular a governança corporativa íntegra às atividades de controle eficazes nunca foi mais clara. E, em termos de recuperação da confiança pública nos mercados financeiros, nunca houve tanto em risco. A Lei vem repleta de reformas para a governança corporativa, a divulgação e a contabilidade. Ela busca, por meios tangíveis, reparar a perda da confiança pública nos líderes empresariais e enfatizar mais uma vez a importância dos padrões éticos na preparação das informações financeiras relatadas aos investidores. Companhias e executivos que têm o pensamento inovador vão aproveitar essa oportunidade.

Não só as obrigações estão claras na Lei como as oportunidades também. Ao percorrer de forma eficaz nesse novo terreno, o potencial para revisar e perceber as novas visões corporativas e atingir novos níveis de excelência corporativa é, sem dúvida, um dos solos mais férteis no mundo dos negócios contemporâneo.

A Lei codifica a concepção de que a administração da companhia deve conhecer as informações materiais arquivadas na Securities and Exchange

Commission – SEC e distribuídas aos investidores e deve, também,

responsabilizar-se pela probidade, profundidade e precisão dessas informações. Ela muda fundamentalmente o cenário empresarial em âmbito mundial.

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essencial para as companhias de capital aberto, determinando processos cuja adoção as companhias deveriam ter considerado em primeiro lugar. Acrescenta, também, que a concentração do foco na boa governança corporativa e na transparência das informações financeiras farão despertar um novo senso empresarial. Mas, tais regras impõem um custo adicional associado.

Cabe ressaltar que tais mudanças necessitam de alterações significativas nos procedimentos e nas práticas, bem como na cultura organizacional e postura empresarial de alguns executivos. Por outro lado, muitas companhias já estão aptas a adaptar processos já existentes para cumprir as exigências de controles internos da Lei.

4.1.2. Instrumentos legais

Muito se tem falado sobre controles internos. O que é um controle interno? É um normativo? É um sistema? Afinal, para que serve um controle interno? É uma ferramenta para auxiliar as operações de uma empresa ou para atrapalhar? É um instrumento que só é útil à auditoria ou a toda empresa?

Estas perguntas eram respondidas de diferentes maneiras, conforme a quem se perguntava. Gerentes tinham uma opinião sobre controle interno que não era a mesma dos auditores internos, que por sua vez tinham uma visão diferente dos empregados da controladoria. A falta de um denominador comum ajudava a aumentar a confusão sobre o papel e significado dos controles internos para a empresa.

Em 1985, foi criada, nos Estados Unidos, a National Commission on

Fraudulent Financial Reporting, ou Comissão Nacional sobre Fraudes

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estudo foram os controles internos. Em 1992 publicaram o trabalho

"Internal Control - Integrated Framework", ou Controles Internos – Um

Modelo Integrado. Esta publicação tornou-se referência mundial para o estudo e aplicação dos controles internos.

Posteriormente a Comissão transformou-se em Comitê, que passou a ser conhecido como COSO – The Comitee of Sponsoring Organizations ou

Comitê das Organizações Patrocinadoras. O COSO é uma entidade sem fins lucrativos, dedicada à melhoria dos relatórios financeiros através da ética, efetividade dos controles internos e governança corporativa. É patrocinado por cinco das principais associações de classe de profissionais ligados à área financeira nos Estados Unidos, a saber:

AICPA American Institute of Certified Public Accounts

Instituto Americano de Contadores Públicos Certificados

AAA American Accounting Association Associação Americana de

Conta-dores

FEI Financial Executives

International

Executivos Financeiros Internacio-nal

IIA The Institute of Internal Auditors Instituto dos Auditores Internos IMA Institute of Management

Accountants

Instituto dos Contadores Gerenciais

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4.1.2.1.COSO – Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission

A metodologia indicada pelo COSO identifica os objetivos essenciais do negócio de qualquer organização e define controle interno e seus componentes, fornece critérios a partir de os quais os sistemas de controle podem ser avaliados e gerar subsídios para que a administração, auditoria e demais interessados possam utilizar, avaliar e validar tais sistemas de controle.

Nessa metodologia, controle interno é um processo conduzido pela Alta Administração das organizações, pelos gerentes e pelos empregados, os quais devem assegurar o sucesso dos objetivos:

- economia e eficiência das operações, incluindo o alcance dos objetivos em termos de desempenho e segurança dos ativos contra perdas;

- veracidade das demonstrações financeiras; e

- compliance com as normas e legislação locais.

Deve-se enfatizar que o sistema de controles internos é um instrumento de administração e não o seu substituto. Apesar de terem o comportamento de processo, os controles internos são avaliados em um ponto específico do tempo e não ao longo do tempo. E é nesse ponto, nesse momento, que parte de as exigências da Lei Sarbanes-Oxley fica atendida.

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4.1.2.2.COSO II – Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission – Enterprise Risk Management

COSO II, o Gerenciamento de Risco Empresarial – Estrutura Integrada, também conhecido pela sigla ERM, Enterprise Risk

Management – Integrated Framework, é um documento que define o

ERM como sendo um processo realizado por um comitê interno, gerências e empregados, incluído na estratégia empresarial das corporações, desenhado para identificar eventos que possam, potencialmente afetar o desempenho da empresa a fim de monitorar os riscos e assegurar que estejam compatíveis com a propensão estabelecida, permitindo prover, com segurança razoável, o alcance dos objetivos.

Em 1992, o COSO publicou o COSO Report, focado na questão dos

controles internos, com ênfase nos cinco elementos de controle interno: ambiente de controle; identificação do risco; atividades de controle; atividades de monitoramento; e informação e comunicação.

Os componentes de controle estão inter-relacionados, sendo derivados da forma pela qual a empresa é administrada e devem ser integrados aos processos gerenciais. São componentes:

- ambiente de controle: postura da organização frente ao risco; - definição dos objetivos: O ERM deve assegurar que há correlação entre os objetivos definidos e a missão da organização;

- identificação de eventos: Sejam internos ou externos podem afetar o cumprimento dos objetivos e devem ser classificados separadamente em riscos ou oportunidades, sendo a última necessariamente canalizada para a estratégia empresarial e processos de definição de objetivos;

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- respostas ao risco: regras para aceitar, reduzir, partilhar ou evitar os riscos, com o desenvolvimento de ações alinhadas a esse gerenciamento;

- atividades de controle: as políticas e procedimentos devem ser estabelecidos e implementados para assegurar que as respostas aos riscos sejam tomadas de forma eficaz;

- informação e comunicação: fatos relevantes devem ser identificados, coletados, e transmitidos na forma e nos prazos que permitam às pessoas executar correta e tempestivamente as suas tarefas, fluindo vertical e horizontalmente em toda a organização; - monitoramento: a monitoramento das atividades da empresa deve ser um processo contínuo e permanente, previsto em todas as atividades gerenciais.

Cabe observar que o COSO II não contempla um processo em série, no qual um componente afeta somente o próximo, mas constitui um processo multidirecional e interativo, no qual todos os componentes podem influenciar – e influenciam – os demais.

4.1.2.3.PCAOB – Public Company Accounting Oversight Board

Depois de tantos escândalos financeiros, tanto nos Estados Unidos como na União Européia, foi posta em evidência a importância do papel da independência da auditoria e da revisão legal como garantia da credibilidade e confiabilidade das contas das empresas. Impunha-se, então, reforçar tal independência, como forma de aumentar a transparência sobre a realidade contábil-financeira das empresas, evitando, assim, quebras de confiança de investidores e outros agentes econômicos, porque seria desastroso para todos os envolvidos conviver com possíveis impactos negativos.

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profissionais, designada Public Company Accounting Oversight

Board – PCAOB, chamado no Brasil de Conselho de Fiscalização de

Auditoria de Companhias Abertas.

PCAOB é uma conselho supervisonado pela SEC, que, em conjunto com representantes do setor privado, fiscalizará as auditorias independentes para que elas cumpram todas as premissas da Lei. Deverá, também, editar um regulamento para adaptar a conduta profissional esperada aos advogados das empresas, conforme exigência da própria Lei. Ao mesmo tempo em que exige dos mesmos advogados que relatem toda e qualquer evidência de irregularidades.

O maior desafio é conciliar as premissas legais impostas aos interesses e às jurisdições internas dos outros países. Já se observam protestos de países como Alemanha e Japão com relação a tais imposições aos estrangeiros. E isto traz o risco de perda para o mercado americano, pela possibilidade de migração de companhias estrangeiras para outras praças globais de negociação.

4.2. A reação mundial – Certificação, necessidade ou estratégia ?

O cuidado com o risco é o desaguadouro natural da evolução gerencial do setor corporativo. Os especialistas prevêem a ocorrência de um efeito em cadeia, pelo qual mesmo as empresas não diretamente sujeitas às novas regulações acabarão por enquadrar-se, devido à exigência do mercado e à valorização da prática de gestão transparente.

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Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários sobre a divulgação de informações sensíveis relativas a preços, discussão e análise da diretoria sobre demonstrações financeiras, independência da auditoria e sua fiscalização.

Muitas jurisdições, inclusive alguns países membros da União Européia, estão empenhados em reformar os sistemas de fiscalização de auditoria, e a União Européia anunciou as chamadas Prioridades para a Melhoria da Qualidade de Auditorias Exigidas por Lei em seus países membros. Além disso, as emendas de 2004 aos Princípios de Governança Corporativa da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico enfatizam mais o papel de conselheiros independentes e de comissões de auditoria no processo que envolve relatórios financeiros.

Embora a SEC compartilhe as metas regulatórias com os outros países, é reconhecido o conflito potencial existente entre determinados aspectos da Lei Sarbanes-Oxley, no que tange questões que envolvem leis e soberania de alguns órgãos reguladores e participantes dos mercados fora dos Estados Unidos. O Congresso Americano deixou claro que, de modo geral, a Lei não deverá fazer nenhuma distinção entre empresas nacionais e estrangeiras.

Torna-se evidente que os investidores dos Estados Unidos que fazem transações nos mercados americanos terão direito à mesma proteção, independentemente de o emissor de um valor mobiliário ser estrangeiro ou não.

Uma das principais prioridades dos Estados Unidos e da SEC é ajudar a estimular o crescimento dos mercados de capitais e dos múltiplos benefícios que fluem de mercados dinâmicos e de governança corporativa esclarecida. Esses benefícios ajudam a reduzir o custo do capital e proporcionam uma plataforma mais estável para o crescimento econômico de longo prazo.

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Somente com a comum aceitação desses valores será possível para os mercados de capitais manterem seu legítimo lugar como motor da prosperidade, não só nos Estados Unidos, mas globalmente.

4.3. A Lei Sarbanes-Oxley no Brasil

Em janeiro/2005 havia 32 empresas brasileiras obrigadas a cumprir rigorosamente o conjunto normativo, por possuírem American Depositary Receipts – ADRs – de níveis 2 e 3, que são ações negociadas em bolsa. Entre elas estão a estatal Petrobras, a Companhia Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN – e os bancos, Bradesco, Itaú e Unibanco.

Além dessas 32, há uma série de outras empresas brasileiras – para não dizer a maioria das companhias abertas – que estão incorporando as normas de boa gestão para continuarem despertando interesse dos investidores, que ficaram mais exigentes. O próprio órgão regulador do mercado nacional, a Comissão de Valores Mobiliários – CVM –, aproveita idéias da Sarbanes para fazer ajustes nas suas normas.

As principais novidades da Sarbanes-Oxley estão ligadas às exigências de criação de um comitê de auditoria, desenvolvimento de controles internos pelas empresas para a verificação das informações a serem divulgadas e responsabilidade dos executivos e dos auditores externos em relação aos números apresentados pelas companhias. A constituição do comitê de auditoria é um ponto que vem dando grande trabalho às companhias brasileiras. Quando a exigência foi feita, gerou certa polêmica interna, haja vista que a Lei das Sociedades por Ações brasileira prevê a criação de um conselho fiscal, que tem atribuições bastante parecidas – basicamente a de supervisionar o trabalho dos auditores.

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Apesar dessa possibilidade de substituição, a constituição do comitê tem se mostrado uma tendência no Brasil e vista como uma iniciativa positiva, porque esse órgão é focado na atuação da auditoria, enquanto o conselho fiscal tem algumas outras funções, como a de verificar as contas da empresa. É consenso no mercado que a criação do comitê é a melhor forma de cumprir a legislação americana, mas é preciso também que as companhias prestem especial atenção ao regimento interno do órgão.

A Lei Sarbanes-Oxley requer que, além de desenvolver os controles, os executivos da empresa – presidente e diretor financeiro – analisem e certifiquem o desenho e a operação dos mecanismos. Há, ainda, a exigência de que o auditor externo certifique a avaliação da administração e emita o seu parecer.

4.3.1. Controles Internos – Um Novo Olhar

O aprimoramento dos controles internos também tem sido um grande desafio às empresas brasileiras. O trabalho envolve identificar as áreas de negócio, documentar processos e garantir que as informações precisas e corretas fluam até chegar à administração da companhia, responsável pelos resultados financeiros.

Para os analistas de mercado, o impecável funcionamento desses controles é importante para dar segurança aos administradores e auditores para a certificação. Além disso, os executivos terão responsabilidade individual pelas informações divulgadas e certificadas. Em caso de fraude, podem ser multados e presos. A implementação do sistema de controles internos nas empresas estrangeiras foi postergada pela SEC para o exercício de 2005, apresentado em 2006.

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escolha: adaptar o Conselho Fiscal existente ou instituir o Comitê de Auditoria. A maioria vem optando pela segunda possibilidade.

Era entendimento do mercado que os bancos estariam em melhores condições, mais preparados do que outras empresas brasileiras para adaptação à referida lei estadunidense. Isso se deve ao fato de já cumprirem uma série de normas do Banco Central e da Basiléia, que se assemelham às norte-americanas.

As instituições financeiras já são obrigadas a ter controles de processos internos e comitê de auditoria, como agora exigido. O Brasil já exige que sejam elaborados relatórios periódicos sobre as atividades exercidas, análise das auditorias interna e externa, avaliação da qualidade das demonstrações financeiras e observação dos controles.

Referências

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