CURSO
DE l\lESTRADO
EM EDUCAçAO
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rol "I CELSO SIM~ES-BREDARIOL .
ORIENTADORA:
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MARIA
LÓCIA DO
EIRÁDO SILVA
RIO DE
JANEIRO
OUTUBRO DE 1990
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meiro capítulo, um histórico da vivência do autor nas áreas
de Educação Popular e de programas ambientais de governo.
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f ~. ~ .O capl tulo ;'l .. ~:PIi.'! .ob J etl vos do trabalho, no
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sentido de relacionar conceitos da Ecologia que interessam
a uma análise social
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~o. _fesenvol vimento; aprese~tar como estudos de caso, duas experiências de engenharia e
ação social em favelas e discutir ao final a metodologia edu
cativa dessas duas experiências.
Para permitir a discussão sobre Educação
Ambien-tal, sao apresentadas no capítulo 3, cinco correntes do pe~
sarnento ecológico atual, a saber: a Ecologia da Biologia, á
Engenharia Ambiental, a Ecologia política, a Ecologia do De
senvolvimento e a Ecosofia.
O capítulo 4 apresenta um resumo das atividades do
Projeto Ecodesenvolvimentoem ~reas Urbanas do Rio de Janei
ro e o capítulo 5 um resumo das atividades e propostas do
Programa de Reflorestamento de Encostas da Cidade do Rio de
Janeiro. Esses dois programas foram realizados em favelas,
pela Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente FEFMA
-o primeir-o em c-onvêni-o c-om a FINEP - Financiadora de
Estu-dos e Projetbs e o segundo em convênio com o DGPJ - Depart!
mento Geral de Parques e Jardins da Prefeitura da Cidade do
Rio de Janeiro.
movimentos sociais, enquanto produtores de tecnologias,
en-quanto modificadores das propostas do movimento ecol6gico e
enquanto produtores de metodologia de ação social para a de
fesa e promoção do meio ambiente.
chapter, a complete history of the author's background in
the areas of Popular Education and government environmental
programs.
Chapter two summarizes the goals of this paper, in terms
of establishing the Ecological concepts which can be used in
a social and political analisis of the development, presenting,
as case study, two experiences of engineering and social
action in "favelas" (slums) and, at the end, discusses the
teaching methodology of those experiences.
In order to allow discussion around Environmental Education
themes, in chapter 3 we present five contempory lines of
ecological thought, as follows: the Ecology of Biology,
Environmental Engineering, Political Ecology, Development
Ecology and Ecosophy.
Chapter 4 presents in a briefing the activities carried
out by the Ecodevelopment prc.ject for Urban Areas of Rio de
Janeiro and, in chapter 5, a summary of the activities and
proposals of the Reforestation project for Hillsides. and
Slopes of the City of Rio de Janeiro. Those two programs
were carried out in "favelas", by FEEMA (State Foundation for
Environmental Engineering). The first project was done in
joint venture with FINEP (Studies and projects Financing
Office), and the second one, in joint venture with the
DGPJ (Parks and Gardens General Department) of the Rio de
Janeiro Municipality.
movements, considering they produce technology and bring
about changes in the proposals of thE! ecological movement
and,last but not least, they produce methodology for social
action related to the defense and promotion of the
environrnent.
Amélia e Laurindo
Maria Inês
Mircio, Tereza, Isaura e Tomis,
Neca, Priscila, Geraldo e Vitória,
Rute e Roberto, Luzelene e Letícia,
zé Renato e Carmi, Dimas e Dilmar,
Benjamin e Hermínio, Ilone e Clóvis,
Paulinho Rogério
Ney, Pedro Paulo, Anjbal e Marli,
Cotrim~Cartixo e Cisneiros,
Seu Mirio, Miguel Batista, Jorge Vale e Viegas,
Jean Marc, Victor, Mariozinho e Fefeu,
Vasti, Esther, Jaime e João Fernando,
Tirza, Elisa, Walter P. Costa e Ney Castro,
Paula, Cyntia, Rosane e M5nica,
Guilherme, Gabi, Marcos e Roger,
Otivio, Sérgio, Ana Amora e Cecília Pentagna,
Roberto Mariano, Amarílio, Helder e Ignacy Sachs,
Padre Cristiano, Martins, Fia e Zezinho Macedo,
Carlinhos Duque, Carlinhos Pernambuco, Marcão e Armando,
Dona Maria, Dona Margarida, Seu Antonio e Geraldo Torteloti,
Circe, Esther, Luciano Z., Ivandro de Taperoi e
Maria Lucia do Eirado Silva.
Guido, Gusmão e Emílio.
CAPfTULO I
1. A ESCOLHA. . . . • . . • • • . . . • . . • . . . . • . • . . • . . . • • . • . . . .. 01
CAPfTULO 11 2. OS OBJETIVOS . . . ~ . . . 27
CAPrTULO 111 3. AS ECOLOGIAS. . . . 34
A Bio-Ecologia. . . . . 34
A Engen~aria Ambienta~... . . . 39
A Ecologia política... 44
A Ecologia do Desenvolvimento... 52
A Ecosofia e a Educação Ambiental... 60
CAPfTULO IV 4. O PROJETO ECODESENVOLVIMENTO DA FEEMA... 66
Objetivos e Metodologia... ...•... 69
Primeira Etapa do Projeto Ecodesenvolvimento... 74
Segunda Etapa do Projeto Ecodesenvolvimento ... '. 81
Terceira Etapa do Projeto Ecodesenvolvimento... 86
CAPfTULO V 5. O PROGRAMA DE REFLORESTAMENTO DE ENCOSTAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO... 91
Objetivos. . . . . 94
Fases de implantação... 97
Principais resultados... 98
A ação social para o reflorestamento... 98
Diretrizes de ação comunitária •...•••...•..•... 100
Diretrizes para a comunicação ...•...•... 112
Diretrizes para educação ambiental ..•...•... 120
Metodologia de ação social ... ~ •..•••••...•..•.. 126
CAP!TULO VI 6. CONCLUSOES E RECOMENDAÇOES ...•.•.•••... 129
Trabalho de governo ... , . . . 130
A relação governo-movimentos sociais ..•....•.... < • • '0" .. 1·35 O desenvolvimento de tecnologia ....••..•....•.••... 140
Por urna ecologia popular e democrática •... 145
A consciincia ecoI6gica ...•..•... 151
Meio ambiente e açao social... 158
P6s-escrito: botando banca ...••.•. 167
BIBLIOGRAFIA... 170
Resolvi sentar diante da máquina e começar a
pen-sar alguma coisa que pudesse servir de tema. De fato,
es-tou encucando há meses. ~ uma forma de reunir forças para
superar a censura. Falar sempre foi mais irresponsável do
que escrever, e muito dinâmico. Vou falando e refazendo, i~
corporando idéias, ajeitando coisas mal expostas,
sinteti-zando pensamento de grupos, estabelecendo rapidamente
rela-çoes. Tenho uma memória fantástica e nublada. Leio WM coi
sa e saco do fundo da idéia quando é preciso. Relaciono teo
rias a fatos, "mas nem semp~e ~o~ali~o o autor. Com os nfime
~os a mesma coisa, sei que há concentração de renda, que ~
e
escandalosa, mas não sei exatamente as percentagens. Entro
em transe quando leio algum texto difícil e interessante,
mas nem sempre tenho paciência de ir até" o fim. Por fim me
considero muito desorganizado, incapaz de fichas e artes fi
nais. Isso tudo me faz pensar em escrever alguma coisa
pa-ra nao ser lido.
Pensei em fazer mestrado para superar um pouco e~
se modo de ser. ~ mais fácil para quem sai do país, e tem
o tempo todo para estudar. Trabalhar para ganhar a vida,
sustentar família e ainda fazer tese, é muito difícil, mas
vou tentar.
Pensei no mestrado também, devido ao problema da
balho em outras. Classe média baixa, filho de professora
primiria e marceneiro, freqUentando rodinhas de gente rica,
e sentindo a pressão de ascender um pouco que fosse~ lnna pre~
são de todas as fantasias de realização que a família fazia
em cima de mim, o fantasma do vestibular assustando, a
Re-forma Agrária sendo agitada em todos os cantos, abrindo uma
perspectiva diferente para aquela carreira, os amigos,
fi-lhos de fazendeiros e de profissionais da area, um
vestibu-lar que dava para competir, acabei indo fazer Agronomia. Fi
quei excedente em Piracicaba com média cinco e vinte e
oi-to. Eram setenta excedentes. No meio deles um parente do
Adernar de Barros, que era governador na época. Somam-se' pre~
sões, dos excedentes se mobilizando e das pessoas
influen-tes, e acabam 'arranj ando vagas para ,nós no Km 47 - Escola N~
cional de Agronomia.
Primeiro ano foi de saudades, muita carona na Via
Dutra até Campinas, participação na equipe da Juventude Uni
versitária Católica (JUC) , vender todas as semanas alguns
exemplares do jornal católico B~a~~l, U~gente! ouvir confe
r~ncias semanais e até diárias sobre problemas brasileiros,
participação nos movimentos da turma para tirar um
profes-sor reconhecidamente inapto, alguma participação em coisas
que aconteciam no Rio de Janeiro, um comício na Cinelândia
e uma ida
ã
Praia do Flamengo, 132. Peguei uma carona naestrada, um tal de Camarão de Vila Izabel, fui conversando
coisas de política estudantil o tempo todo. No fim ele me
ensinou o caminho. Voc~ toma esse lotação azul e branco na
deles sabia onde ficava. Cheguei. A reunião que ia haver
não houve. Foi a única vez que entrei na sede da União
Na-cional dos Estudantes (UNE).
o
segundo ano foi de equipe regional de JUC,in-tervenção na Universidade, invasão armada, companheiros sen
do presos, outros foragidos, dois seqUestrados e torturados,
a Reforma Agrária foi pro brejo e com ela a Agronomia. Pen
sei em deixar o curso mas fui ficando. Com dependências,s~
gundas épocas, estourando por faltas, estudando nos resumos
dos amigos, fazendo cola mental, provas em segunda chamada.
Mas foi o ano que mais freqUentei a escola. Li Otávio
Ia-ni, Conneio da Manhã, Cni~tiani~mo Hoje, e a Revista da Uni versidade de Pernambuco que apresentava aquela teorização di
. .
fícil do método Paulo Freire.
Terceiro ano foi de vice presidência e
presidên-cia da União Metropolitana de Estudantes (UME) e das primei
ras lutas contra a Ditadura, contra a Lei Suplicy que extin
guia as entidades estudantis, e contra a invasão de São
Do-mingos. Tiago de Melo de paletó azul claro e cravo roxo de
seda na lapela, recitando poemas pela Liberdade. Aprendi a
preparar e dirigir congressos, continuei o curso na mesma ba
se.
Quarto ano, equipe nacional de JUC, formatura a
duras penas. Estudar "algod5n", "anoi~", blocos ao acaso, quiquadrado, ciclo de Crebs, Resistência dos materiais,
hi-dráulica, economia agrícola, tecnologia de alimentos,
ornamentais eu cuido relativamente bem no meu apartamento~
Em Ação Católica foi uma barra. Oposição da
hie-rarquia da Igreja, (assim eram chamados os bispos),
oposi-_çao dos grupos políticos que não viam mais sentido para aqu!
10. Teria o cristão alguma especificidade? Participação em
comitê de Juventude Estudantil Católica Internacional (JECI)
- em Montevideu e numa Sessão Internacional de JECI em
Mon-treal, onde houve um curso de Sociologia do Desenvolvimento
(que posteriormente me valeu um emprego, só porque o cara
que selecionava as pessoas valorizava muito, cursos no
ex-terior). Que fazer no meio dessas oposições, de cima e de
baixo? Procuramos ajuda. Lauro de Oliveira Lima estava re
nascendo das dificuldades do golpe de 64, com um curso de
t~c~i~as de disctissio em grupo. Ainda nio era o curso ~ Di
nâmica de Grupo. Aprendemos alguma coisa e preparamos um
encontro nacional usando aquilo.
Foi a maior confusio. Emoções ao mundo, gente se
apaixonando, casais se desfazendo e se recompondo, os padres
sem saber o que fazer, gente querendo trepar mas ainda
se-gura pela moral católica, conflitos de tendências, os
cora-josos contra os cagoes, DOPS local pedindo nome e endereço
de todos, e no fim tudo bem. Um afeto grande entre todos,
um caminho aberto aos grupos,
ã
Dinâmica dos Grupos! Poucosmeses depois nós decidimos acabar com a JUC, e os padres f~
ram fazer comunidades de base, grupos de jovens, deixarab~
tina, treinar lideranças cristis. Antonio Henrique nio
pô-de fazer nada disso. Um teólogo incrível, cheio de medo co
testamen-to, alguma coisa do cristianismo para abençoar as nossas lu
tas. Foi barbaramente morto no Recife. Encontrado enforca
do próximo à Universidade. Até hoje sua mãe luta para
pu-nir os culpados.
Fazer faculdade é isso. Aprendi Sociologia, Polí
tica, Economia, Dinâmica de Grupos, tive aulas sobre Método
Paulo Freire, exercitei a capacidade de dirigir entidades,
de desenvolver e propagar idéias e colei grau de Engenheiro
Agrônomo.
Fui trabalhar na equipe nacional do Movimento de
Educação de Base - MEB, que se rejuntava de três anos de re
pressão e renascia reduzido de 54 para 21 sistemas de educa
ção radiofônica com recepção organizada, espalhados pelo N0E
te e Nordeste. Eles precisavam de um Agrônomo para
implan-tar_um programa de Sindicalismo Rural e Cooperativismo que
nunca chegou a existir de fato.
Enquanto esperava que saísse o dinheiro do
Minis-tério da Educação e Cultura (MEC), trabalhei num núcleo de
colonização do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária como
"Che6e
da Coo~denaçio deO~ganizaçio Comuniti~ia". Oito meses morando na Baixada Fluminense, entrando em contato com
pequenos proprietários e rendeiros, promovendo reuniões, or
ganizando mutirões, melhorando escolas e caminhos~ conhecen
do a corrupção de um administrador que falsificava notas de
restaurante de 70 para setecentos cruzeiros e dava priorida
de aos carros para a condução do pessoal.
Voltei para o MEB para fazer
"de
um tudo". Treinader às solicitações dos sistemas. Se queriam um
treinamen-to de Comunicação lá ia eu estudar o assuntreinamen-to, contactar pe~
soas, estruturar um curso. Se era Cooperativismo, Desenvo!
vimento Comunitário, Problemas da Amazônia, Técnicas de
Rá-dio, Metodologia, Avaliação, o que fosse, a gente corria
atrás de atender. Nas supervisões se aprendia a chegar em
um sistema cheio de dificuldades e se colocar à disposição
para ajudar a se sair delas, uma consultoria de organização.
Nos treinamentos, foi-se desenvolvendo uma metodo
logia que procurava situar para o grupo, vivências e
drama-tizações no plano da dinâmica do grupo de treinandos que man
tivessem correlações com a temática de treinamento. Então,
em um curso sobre Comunicação, se colocava para o grupo um
conjunto de estímulos à comunicação grupal. Se o -assunto
era Cooperativismo, se tentava vivenciar mais intensamente
a cooperação grupal, para Desenvolvimento Comunitário se co
locava o desenvolvimento do grupo, de tal modo que o proce~
so de informação e discussão sobre um tema se dava pelo pró
prio grupo, confundindo os planos de vivência e
aprendiza-gem num momento e distinguindo ao final o plano comunitirio
e o plano de grupo, o assunto e as relações.
meio diabólica que ainda não foi escrita.
Uma bolação
Mas esse trabalho todo deixava uma frustração. As
-equipes faziam o trabalho educativo com o povo e a gente so
alimentava, orientava, criticava, enaltecia, divulgava mas,
não fazia. Entrei em contato com um pessoal da Juventude
Operária Católica (JOC), e fui trabalhar em uma favela. Fi
con-versando sobre tudo, sem propor nada, apenas tendo um pouco
de'humildade para conviver sem receitar. Consegui ao final
fazer amizades muito intensas e deixar de ser considerado
alguém de fora. Comprei um barraco e ia me mudar no dia on
ze de novembro'. Fui preso a trinta e um de outubro de1969.
A favela ficou dentro de mim, meu barraco da Travessa Santa
Laura, nos sonhos, Geraldo, Ceará, Gilson, Dona Hebe, Maria
e outros no coração. Com eles aprendi a ter paciência, a
não remar de frente contra a corrente, a simplicidade e a
esperança.
Um ano e três meses de experiência de vida em um
grupo confinado. Soubemos sair ,daquela destruição inicial
do ego de cada um para a construção coletiva.
De uma cela insalubre de dois metros quadrados no
porao de uma guarita, onde eu cagava e mijava de medo
(sen-tido literal) todas as vezes que via se aproximar um "inte~
AogadoA" , para uma situação onde foi possível denunciar o
que se passava naquela ilha, em revistas de conceito
inter-nacional como o L'ExpAe~~, e Jornais como o New YOAk Time~,
e onde'foi possível estudar o C6digo do Processo Penal Mili
tar, As Leis de Segurança, A Declar~ção Universal dos Direi
tos Humanos e demonstrar perante um tribunal militar, que
as próprias leis de exceção e compromissos internacionais,
criados e assumidos pelo Governo pós-64, não estavam sendo
cumpridos no trato dos prisioneiros e nos processos que co~
tra nós eram movidos. Onde fo~ possível defender com greve
de fome, a companheiros que estavam sendo seqUestrados por
Tribunal Militar. Só nao foi possível defender a vida de
companheiros como Jorge Leal Gonçalves Pereira, engenheiro,
pai de quatro filhos, torturado até a morte.
Também aí a experiência educativa se fez presente.
De um lado a falência das tentativas de burocratizar a
vi-da, iniciar cursos de línguas, ginisticacoletiva, estabele
cer horirios para leituras ou programar reuniões. Nada dis
so deu certo, só foi importante para ganhar espaço, dar a
sensação de que se estava tentando alguma coisa. Importante
mesmo foi lembrar,a cada momento,da experiência dos ratinhos
confinados que se comem uns aos outros quando lhes falta ali
mento e desenvolver a tolerância consigo mesmo e com os com
panheiros, aprender a se construir nos conflitos eventuais,
valorizar mesquinharias para poder superi~las, descobrir o
afeto num ambiente masculino, ver um homem de cinqUenta e
dois anos chorando,no momento em que desenhava a planta da
sua casa,para mostrar aos companheiros, como era simples sua
vida l i fora. Ouvir histórias, cada um contar exaustivamen
te como foi preso,como foi torturado, o quanto resistiu, o
que falou, como se sentiu. Esperar, esperar, esperar.
Es-perar a hora da auditoria, esEs-perar a suspensão da
preventi-va, esperar _ o julgamento, esperar uma condicional, esperar
a visita semanal da família para saber notícias, esperar a
liberdade construindo-a a cada momento, esperando com
ini-ciativas que são do enfrentamento da ordem de um cabo da
guarda até ações externas mais amplas. Permanente apenas a
consciência dos limites aprendida nos limites frente i dor,
de possibilidades de açao e permanente também a força do co
letivo e o respeito ao caminhar de cada um.
Depois disso é possível trabalhar. Estudei
Ciên-_cia e Existência do Prof. Álvaro Vieira Pinto, Dinâmica de
Grupos de Cartwriht e Zander, Dinâmica de Grupos de Lauro
de Oliveira Lima, Métodos de Pesquisa Social de Jahoda e
Cook, tudo 1 i vrões que eu me imaginava incapaz de ler.;.'
Apren-di a datilografar, uma hora de paciência por Apren-dia, para
fa-zer a ficha bonitinha deles. Quando as fichas já estavam
arrumadinhas,num fichário de colegial, seqUestraram um Cara
velle da Cruzeiro do Sul e nós fomos vítimas da maior revis
ta de todos os tempos, onde nos revistaram até o ânus (tem
que assoprar,tapando a boca com o dorso da mão,para dilatar
o ânus,para verem se sai alguma coisa). Após a revista as
fichas sumiram. Estavam na' cela junto com livros, caixotes,
retratos, facas, rádios, ebulidores, fogareiro elétrico, e
uma porção de bugigangas proibidas que nós guardávamos
pe-los mínimos cantos, enrolados em cobertores, dentro de
col-chões ou das ferragens das camas e onde mais a imaginação
permitisse. Nesse dia eu desci para o banho de sol,
saben-do que ia haver revista, e carregansaben-do apenas um poema que
tinha escrito para Priscila, e que acabei engulindo (o
poe-ma, é claro) para não me denunciar~-deplorei mais a perda
do poema porque jamais consegui me lembrar dele .
. Os livros eu usei bastante. O do Lauro para
ga-nhar a vida depois, o do Vieira Pinto para me orientar,
in-clusive neste trabalho, o do Cartwright e Zander para conhe
cer uma linha de pesquisa social e como referência a
o
livro de métodos de pesquisa social foi muitoimportante no meu depoimento na justiça militar. Estudei ba~
tante o capítulo sobre observaçio participante, e quando o
juiz auditor me fez a clássica pergunta - ao que o réu atri
bui a sua inclusio no processo - eu respondi: em primeiro
lugar
ã
perseguiçio que vem sendo movida contra a Igreja C~tólica, e citei Dom Helder, a invasio do IBRADES, a prisio
de D. Aluisio Lorsheider, e a prisio dos dirigentes do JOC.
Em segundo lugar
ã
perseguiçio movida aos professores e-
asUniversidades, em especial aos educadores, citando a
situa-çio de demissio do Lauro, o exílio de Paulo Freire, .a intef
vençao na Universidade, o fim dos vocacionais, e fui por aí.
Quando ele fez a outra clássica, o que eu estava fazendo no
momento do crime, eU respondi que ~azia um trabalho de
ob-servaçio participante e dei uma aulinha de métodos e
técni-cas de pesquisa social, que estavam bem sistematizados, após
as leituras sobre Pesquisa. Foi a minha formatura em Educa
çao.
Nio deu muito resultado prático porque os juízes,
o "con6elho de jU6tiça", se mudavam a cada tr~s meses, e se
convenci aqueles que me ouviram no depoimento, nio tive co~
tato com nenhum dos que me julgaram. Fui condenado a oito
meses que já tinha cumprido,com saldo de sete a meu favor.
Ficam creditados para algum crimezinho que venha
inadverti-damente a cometer.
Voltei para o mundo, estranhando os cabelos
lon-gos e encaracolados dos homens e as saias compridas das
Maria Pires que,contra todos os interesses mais
imediatis-tas, sustentou a minha volta. Voltei esculhambando um
tra-balho de sistematização da metodologia da ação educativa do
MEB que estava sendo feito por Carmi e Luzelene. Elas
aca-baram gostando da irreverência. aproveitando o que tinha de
aproveitável nas observações e terminando o trabalho.
Ainda fiz a coordenação de um seminário de bispos
sobre a Transamazônica, dei um treinamento de rádio em Ter~
zina, revi um pessoal que eu adorava em Sergipe e conheci a
experiência do Ceará, outra bolação do diabo. Pas~aram seis
meses sem programaçao educativa, fazendo um trabalho de pe~
quisa no interior, usando observação participante, e da qual
sairam com proposta de c~rsos radiofônicos sobre assuntos
especificos: Curso de Agricultura, Curso de Saúde, Curso de
Cooperativismo. Cada aula era apresentada de modo mais for
mal, através de boa técnica radiofônica, e no programa
se-guinte era reapresentada por personagens criados
ã
partirda vivência da pesquisa. Começou a dar um resultado
incri-vel, pois grupos foram se organizando espontaneamente nas co
munidades do interior, apenas a partir do estimulo do
pro-grama: Grupos para compra de remédios, roças, grupos
coope-rativos e outros. Os personagens foram ficando conhecidos
do público e com grande facilidade os membros da equipe
fo-ram encenando as reapresentaçõés, até que já nem precisavam
de texto para compor a fala dos personagens.
Ai aconteceu a desgraça. No curso de
Cooperati-vismo teve uma aula que tinha um pequeno trecho que dizia
inclusive para a produção. Na re-apresentação do trecho,
um dos personagens comentou: "ai que inveja n;~ temo~ de~
te~ paZ~e~". Foi o bastante! A Polícia Federal introduziu
a censura prévia e tirou a força e a espontaneidade da
pro-gramaçao.
A situação política foi ficando cada vez mais
di-fícil e a direção do MEB foi sendo mudada, até que consegu..!."
ram tirar D. José da presidência, e num fim de setembro, bem
no meio de um curso de teatro para os supervisores da
equi-pe nacional, nós recebemos a notícia de que toda a equipe
estava demitida. Fizemos urna festa de aniversário, e
toma-mos o maior porre de todos os tempos. Eu chorava descontro
ladamente e me agarrava a Roberto, meu primeiro companheiro
de viagem e a~iversariante do dia. Nesta mesma data decidi --. -~~.
-
-mos fundar o Centro de Planejamento de Desenvolvimento e Edu
caça0 (CEPLADE).
Ainda recebi urna carta do pessoal do Ceará contan
do as reações da equipe local. Era urna tristeza que só lem
bro urna frase: Laélia dizendo que Jaci ficou ejaculando a
esmo ao receber a notícia da demissão~
Não participei dos quatro primeiros meses do CEPLADE.
Tive que fugir, porque a Priscila estava sendo procurada por
um processo de São Paulo, e nos últimos meses de gravidez
do Márcio. Depois de correr vários cantos, arranjar um je..!.
-to de ter o filho, encontramos um abrigo seguro. Comprei va"rios livros de Dinâmica de Grupo, com parte do dinheiro do
auxílio reclusão do INPS e completei a formação básica: Pier
Kurt Lewin, Gerard Bernard Mailliot, Moreno, Carl Rogers,
Anne Ancelin, FeIa Moscovici e outros.
o
processo de são Paulo foi contornado e nósvol-tamos para o Rio de Janeiro. Trabalhar e esperar o
julga-mento. Voltei para o CEPLADE, j i para preparar o curso de
Desenvolvimento Comunitirio da SUBAM. Tinha lido no B.
Mi-les que "um gllupo nec.e.6.6-i..:ta de c.-i..nc.o :t-i..pO.6 de 6unç.õe.6.6e qu-i..
.6ell .6obllev-i..vell e Ileal-i..zall a .6ua :talle6a: de -i..n-i..c.-i..aç.ão, de Ile
gulaç.ão, de -i..n6ollmaç.ão, de apo-i..o e de aval-i..aç.ão".l Mostrei
para a Rute e a gente decidiu estruturar o curso dividindo
o grupo de treinandos, primeiro com pap;is individuais e de
pois em grupos de funções. Era um curso de dois meses com
diferentes disciplinas e diferentes professores que
obede-ciam um esquema geral de metedologiae trabalho com o gru,;",
po. Iniciado o curso, eu fui me esconder para esperar o ju.!.
gamento do meu processo, preparar a parte de
desenvolvimen-to comunitirio que era a última e que eu deveria dar, e
re-solver uma infecção intestinal do meu filho de dois meses.
Cagou dezenove vezes em um dia. Nós, escondidos na casa de
um casal muito solidirio mas naturalmente cheio de medo e
culpa, recebendo instruções do m;dico através de uma tercei
ra pessoa e esperando o resultado.
Finalmente chega uma caravana de carros
buzinan-teso Tínhamos sido condenados a uma pena j i cumprida e
es-tivamos livres. Enchi um copo com cerveja, enfiei o dedo
na espuma e depois na boca do cagão, e tomei o copo quase
de um gole. Saímos correndo para o hospital para internar
rado na cama, chorando de fome e cagando verde. Nós do
la-do pedinla-do pinico ao munla-do. Foi duro, mas o menino ficou
bom. Ou quase bom, porque passou todo o primeiro ano de vi
da em re-alimentação.
Tive um tempo de uma semana e meia e fui a Manaus
dar o curso. Comecei a aula agredindo as Assistentes
So-ciais e o Serviço Social. As mulheres ficaram
escandaliza-das com um professor que não distinguia D.C de A.C. De
fa-to eu me baseava na experiência do MEB e não em pacotes
teó-ricos, mas terminou numa troca interessante entre teoria e
experiências. O segundo curso, tempos depois, já foi muito
mais consistente. Do terceiro curso eu fui excluído, por
conta dos antecedentes políticos. A repressão fechava o cêr
co. O CEPLADE foi perdendo a clientela, já que esse tip0
de _serviço só podia ser contratado por entidades governameg
tais, e nessas, sempre aparecia a necessidade de comprovar
que nao se tinha antecedentes.
Esse fim de CEPLADE foi doloroso. O grupo
neurótico. Rute assumiu o papel de mãe obsessiva,
o de pai ausente, eu de ~dipo as avessas, Letícia de
contestadora e Luzelene de repositório de piedades.
mim e Hermímo ouviam e contemplavam aflitos.
ficou
Roberto
filha
Benja-Fui ser autônomo. Paguei uma percentagem a Rober
to para ele me passar um trabalho numa pesquisa, e quatro
meses depois, eu estava apresentando em Belém, para a mesma
SUDAM, o pré-Diagnóstico Educa~ional da Região do Tapajós e
Xingu, feito sem nenhuma ida ao campo mas mesmo assimum tra
Foi meu primeiro teste de fogo como pesquisador.
o
único reparo que botaram foi que estava muito detalhadoem uma parte e que em outra parte eu tinha considerado anal
fabeto adulto, todo nao eleitor: Como a mãe de uma das téc
nicas da SUDAM não era elei tora, ela não gostou de ver a mãe
classificada de analfabeta.
Arrumar trabalho foi uma parada. Sempre a
histó-ria dos antecedentes. Até que um dia, Pitucha, que
traba-lhava no CEPLON, me telefona desesperada. "Cel~o! voc~
en-~ende de A.P.O.?" Perguntei o que era aquilo. "Adminii~~a
ção po~ Obje~ivo~". Respondi que a gente tinha aplicado a!
guma coisa daquilo no MEB e perguntei porque ela queria
sa-ber. Um professor que estava comprometido com o CEPLON
pa-ra' d'ar um curso para a CHESF em Paulo Afonso, na Bahia, na
sexta feira (estávamos na terça) tinha comunicado que nãop~
der ia ir mais. Topei o trabalho. Varei os dias e noites estu
dando João Bosco Lodi, Peter Drucker e vendo filmes sobre
A.P.O. e viajei na sexta. O curso foi muito bom, porque era
baseado em filmes e discussões em grupo, e estas eu
coorde-nava com bastante segurança. Foi a abertura para o
treina-mento gerencial.
Em seguida eu soube de um programa da Fundação G~
tulio Vargas (FGV) para as ,empresas de saneamento. As Jorna
das de Administração e Gerência, onde tinha um módulo de com'
portamento gerencial. Eu também não sabia bem o que era i~
so, mas com orientação de um professor que estava deixando
o programa, porque esse exigia muita viagem, e assistindo
professo'-estudado recentemente e de Desenvolvimento Organizacional
(DO) cuja coleção eu devorei. Viajei por treze estados e
me inscrevi num curso de Ps icologia da Aprendizagem no IESAE.
Como as viagens eram intercaladas com períodos de folga, deu
para fazer bem as duas coisas.
Interessante desta fase foi o contato com as
em-presas de serviços públicos, através das discussões dos gru
pos de empregados. Desinteressante foi o contrato qe traba
lho. Fui informado inicialmente que a Fundação pagava cem
cruzeiros a hora aula (o que na época estava um pouco
abai-xo do' 'rrie'rcado, mas como eram mui tos' treinamentos eu achei
razoável) e que eu teria que fazer um livro caixa do
Impos-to de Renda porque tinham despesas de coordenação que saíam
como hora aula, e que eu teria que re-embolsar descontando
no livro caixa. Achei estranho mas não percebi nada demais.
Depois dos cinco primeiros treinamentos eu constatei que a
Fundação pagava duzentos cruzeiros a hora aula e que eu
ti-nha que dar a metade do que eu recebia
ã
coordenação do programa. Como a barra de trabalho estava pesada demais eu
aceitei aquilo, e só não paguei a parcela dos três últimos
treinamentos porque aí já era ser besta. O caso veio ã
to-na tempos depois, o escândalo foi abafado, o coordeto-nador e~
trou de férias e depois foi demitido, recebendo os seus
Passei cinco meses sem trabalho, telefonando
dia-riamente para pessoas, fazendo contatos, comprando e vestin
do terno e sapatos (até então só andava de sandália de pneu),
apresentando "eu~~ieulum", recortando anGncio, sendo
entre-vistado, esperando respostas, procurando pessoas ~em
rela-cionadas, sendo recebido ou recusado com pavor por antigos
conhecidos empregados em órgãos pGblicos, mas sempre a
mes-ma conversa, o mercado está ruim, sua ficha não passa no Ser
viço Nacional de Informações (SNI), procure fulano emtal lu
gar, daqui mais um mês talvez tenha uma possibilidade, você
não têm experiência em empresa, até que apareceu um lugar
no Instituto de Desenvolvimento do Estado da Guanabara (IDEG),
por indicação de Pedro Paulo Paiva Chaves. Comecei a traba
lhar e no dia ~eguinte fui chamado para um programa dA A~~o '
ciação Brasileira de Engenharia Sanitária (ABES) com o
Ban-co Nacional da Habitação (BNH) e o Plano Nacional de Treina
mento de Executivos (PNTE). Passei um mês no IDEG e fui fa
zer o planejamento do programa de Administração e Gerência
da ABES. Eu estava com uma boa experiência em empresas de
saneamento, com um excelente diagnóstico das dificuldades
das empresas, com material de leitura sobre empresa todo na
cabeça, sabendo tudo de treinamento, após uns cursos que dei
no Colégio Santo Inácio com Maria Alice do Nutes-Clates, fiz
e implantei um projeto para burocrata se fazer nele. Não
deixava de ser interessante, divulgar participação na empr~
sa. no meio de um clima geral de intensa restrição
ã
parti-cipação.
mestrado em Educação e fui novamente recusado. Eu tinha po~
cos cursos de aperfeiçoamento e não tinha indicação de enti
dade. Fiz inscrição num curso de Métodos de Pesquisa, para
suprir essa ausência de cursos. arranjei uma declaração de
uma faculdade onde eu tinha dado aula e na qual fui posto
em licença não remunerada (estou até hoje), no dia em que o
diretor viu no jornal, o resultado da minha apelação ao SlN,
confirmando a minha condenação a oi to meses de prisão da pri,
meira instância. Re-escrevi o "c.uJtJtic.ulum" e alguns meses
depois me inscrevi pela quinta vez em uma seleção de mestra
do. Desta vez fui aceito.
Fazer os créditos do mestrado teve o sentido de re
descobrir a minha capacidade de pensar a realidade e de me
atualizar sobre as diversas correntes do pe~samento at.ual.
Teve muita coisa chata também, cursos que escolhi só porque
eram em horário de fim de tarde, e portanto compatíveis com
o meu horário de trabalho, professores de minha área de con
centração com as quais não troquei absolutamente nada, quer
dizer, apenas a minha raiva de ter que assistir àquelas
au-las. Fiz fichas de resumo, fichas de comentários~trabalhos
originais, misturando linguagem formal e linguagem pessoal,
aprendi a fazer citações, mas não fui tomado pela febre de
consumo de figurões de moda. Vivi a sensação do
analfabe-tismo nas primeiras aulas de Metodologia da Ciência, dadas
pela Profa. Circe Rivas e descobri um pouco mais de Freud
com o Dr. Carlos Paes e Barros e com o Abraham Ecksterrnrum.
Terminei o trabalho da ABES e fui para a Eundação
tuição e como é pensado o problema ambiental por técnicos,
na maioria com formação fora do país, fato que os ajuda e os
atrapalha a entender as coisas do meio ambiente no Brasil.
Saí do Planejamento para coordenar um projeto de
Ecodesen-volvimento em favelas. Depois fui diretor da FEEMA por
oi-to meses para cair numa geladeira donde só consegui sair atra
vésde um conv~nio com-a ~refeitura da Cidade do Rio,·de
Ja-neiro,para planejar e implantar o Programa de Reflorestamen
to de Encostas.
Vivi um processo de separaçao conjugal que me
abortou no mundo. Fiquei
ã
beira da loucura mas conseguisair do buraco. A situação política do país mudou e os
es-paços foram se. abrindo para que eu me ressituasse na vida.
Completei dez anos de terapia de grupo e fiquei pronto para
outras.
Isto tudo atrasou a dissertação de mestrado.
Ti-nha escolhido, inicialmente, fazer uma dissertação sobre Edu
cação de Adultos, tema que era permanente na minha experi~Q
cia de vida.
No ano de 1976 conheci Maria In~s, a Xuxu,que tra
balhava em uma escola noturna para adultos,na favela da
Ro-cinha. Na primeira vez que ela me convidou para conhecer a
. Ação Social Padre Anchieta (ASPA),eu assisti a uma
apresen-tação do grupo de teatro, na rua defronte ao casarao onde
funcionava a escola. Era uma peça que falava de lixo,
va-la, enchente e mutirão de limpeza. Fiquei tremendo de medo
e voltei para casa com uma dor de cabeça insuportável. Ia
De novo casamento, de novo educação de adultos, de
novo movimento comunitirio. de novo participação política e
social, de novo pensar em fazer tese, de novo um Celso
in-teiro, catando os pedaços.
Passei a dar aulas na ASPA e a participar das re~
niões e ações do mutirão de saneamento. Seguiu-se a
estru-turação da escola, a formação de professores moradores, a
expansão do trabalho para a criação das escolas das ru~ um,
dois e quatro. Foram dez anos de aulas e lutas, até que eu
senti que não fazia mais falta a minha participação. Pensei
em escrever sobre isso mas, a Maria Inês já tratou
exausti-vamente de escolas comunitirias,na dissertação que fez para
o Instituto de Estudos Avançados em Educação (IESAE).
A experiência de alfabetização de adultos na Roci
nha foi uma das coisas de minha vida que eu vivi com imenso
prazer.
Primeiro foi o contato com os professores de fora
da favela que ainda viviam embuídos e embotados com aquelas
idéias de conscientização, algum proseli tismo político e rui
ta influência do método Paulo Freire.
Os alunos queriam apenas aprender a ler e a armar
contas. Queriam reviver e reconstituir aquela coisa mau vi
vida da escola da infância no interior do Ceará (70% dos alu
nos) ou da Paraíba (20%). Queriam a companhia dos colegas
de escola e trocar um pouco de afetividade com os
professo-res. Queriam aprender para anotar o recado do telefone na
casa da madame, para passar de ajudante a cozinheiro (saber
mo garçom, para sair da faxina para mensageiro no Hotel
Na-cional, para tomar o ônibus com segurança para qualquer
lu-gar da cidade, enfim, sempre por objetivos bem concretos li
gados ao trabalho ou ao dia-a-dia da cidade.
Cobravam competência, tradição e disciplina por
parte dos professores. Não gostavam de falar das coisas da
favela pois queriam aprender aigo novo, do mundo já fora, aI
go bonito ou útil que não fosse lama, lixo, barraco ou
bi-rosca.
A questão do método era totalmente subvertida
pe-la realidade das aupe-las. Pouco a pouco ficava claro' e
cla-ro, como é importante o conceito de trânsito no método Paulo
Freire. Antes de 1964, o alfabetizando adulto rapidamente
se inseria nos movimentos e lutas de transformação. Quando
esses movimentos se tornaram expressões tímidas e heróicas
de desejos ou de alguma luta, sem contar com o apoio do
go-veno (pelo contrário contando com a repressão), ou apoio dos
meios de comunicação, essa inserção social ficava pouco viá
velo Muitos alunos de cursos, promovidos por entidades
li-gadas
ã
Igreja, chegaram a formar grupos de estudos, aen-tender alguma teoria mas com pouca ou nenhuma inserção em
lutas concretas. Há também os que deram certo, pois senao
nós não teríamos sarda daquele sufoco. Mas deram certo porque
havia uma forma de organização muito aberta
ra1 - que respeitava o ritmo de cada um.
CEB ou
Pasto-O trabalho de alfabetização na Rocinha foi feito
de descobertas. Depois de muitos anos trabalhando como su
e trazendo descobertas, tinha ficado para mim uma
frustra-ção: eu nunca tinha ficado diante de uma turma de
analfabe-tos adulanalfabe-tos como professor. Quando fiquei pela primeira ve z,
eu tremi como treme qualquer professor novo. Aquela
histó-ria de círculos de cultura não era admitida pela pressa em
aprender dos alunos. Queriam quadro negro, livro que
ensi-na, professor que corrige cadernos. repetição exaustiva das
silabação, só nao pediam castigos.
Percebi o clima e comecei a criar a partir das exi
gências dos alunos. Insisti no método analítico sintético,
procurei valorizar e ajudar na descoberta do valor ~a vida
de cada um, procurei sempre referências pessoais dos alunos,
sair do concreto conhecido para o desconhecido e
vice-ver-sa. '. T"entei us'ar o arsenal de Dinâmica de Grupo que eu
pos-suia, mas eles começaram a achar que aquilo não era aula, ou
que era aula de boas maneiras ou apenas aulas-recreio.
Depois fui encontrando os caminhos, nao mais no
método mas na relação afetiva com os alunos. Os demais pr~
fessores· também foram apontarido saídas. Ligia propôs uma
pesquisa sobre a história da Rocinha com os alunos e eles
chegaram até a publicar um livro de "c.apa blL..t.tho.6a" O
Va-ral de Lembranças - como tinham sonhado no início. Maria
Inês cuidava mais da preparação dos professores moradores e
juntos, fomos consolidando o trabalho. Criar escolas e cen
tros comunitirios geridos pelos moradores se mostrou um tra
balho muito mais significativo que o de desenvolver
A participação no mutirão dos moradores da
Roci-nha coincidiu com a abertura de possibilidades de se
traba-lhar em saneamento de favelas na FEEMAJusando o conceito de
Ecodesenvolvimento. Por muito tempo os moradores ficaram
se perguntando se eu era FEEMA ou se eu era um agente externo
daqueles trazidos pelo padre. Muitas vezes era
interessan-te ao movimento de moradores mostrar uma certa presença e
apoio do Estado, e aí eu era da FEEMA. Noutros casos, isso
não era importante, então eu era apenas o Celso, professor
da escola comunitária.
o
concei to de Ecodesenvolvimento e o projeto de pe~quisa de saneamento em favelas me jOgaram nas fronteiras da
Ecologia com a questão social. Aprendi Ecologia e ação
so-cial. Trabalhei para o governo e para a comunidade. Conse
gui uma afirmação da questão social em uma instituição de
meio ambiente e me transformei em um militante dos
movimen-tos ecológico e de moradores de favelas. Uns tempos
de-pois, a questão social (meio ambiente de pobre) perdeu esp~
çóna FEEMA, e eu, já ecologista, fui trabalhar no Programa
de Reflorestamento da cidade.
E
sobre essas duas experiências que venhosentin-do necessidade de pensar de uma maneira mais sistemática. Fiz
a re- inscrição no Mes trado do IESAE, reval idei créditos, cur
sei algumas disciplinas que se tornaram obrigatórias e
vol-to a pensar numa dissertação.
As primeiras perguntas de um orientador foram: "Pa
~a que VOQ~ p~eQ~~a do t2tulo de me~t~e? P~etende da~ aula
gostava de deixar uma coisa inacabada. Pensando melhor, eu
descubro que não'preciso mas que eu quero esse título. Qu~
ro dar nome ao boi, ser reconhecido pelo que sempre fui: edu
cador. Pensei at~ em pleitear o título apenas com os
rela-tórios desses trabalhos que citei ate aqui. Mas seria pIei
tear privilegio e afrontar a academia. Teria desse
capítu-lo de memórias, vários temas para dissertar sobre eles. As
experiências de treinamento e supervisão do MEB, o trabalho
de campo na Baixada, a experiência de vida de um grupo em
confinamento, o programa de desenvolvimento comunitário do
Ministerio do Interior, a experiência de pesquisa
educacio-nal na Amazônia, o treinamento gerencial em empresas de ser
viços públicos, o desenvolvimento institucional e a
consul-toria de organi zações, a educação de adul tos em escolas
.CQ-munitárias de favelas, o movimento de moradores de favelas
durante a transição para a Nova República, o trabalho insti
tucional na FEEMA, o 'Ecodesenvol vimento e a educação ambieE
tal, e ecologia da cidade do Rio de Janeiro, o discurso e a
consciência. Temas para escrever pelo resto da vida.
E a primeira escolha ê sempre afetiva. Principal~
mente para um trabalho nao pago corno ê urna dissertação. Mas
eu gosto muito de todas as coisas que eu contei ate aqui. E~
tão corno fica? O segundo criterio ê a facilidade de fazer.
E o que está mais próximo e mais documentado ê sempre mais
fácil. Finalmente, aparentemente único e escondendo os dois
primeiros que são principais,vem o crit~rio da relevância.
Sinceramente, acho tudo que eu escrevi ate agora
questão nao resolvida. Os movimentos de moradores entraram
em crise e precisam se repensar. A dinâmica de grupos, o
treinamento gerencial e o desenvolvimento das organizações
dariam saída para muito sofrimento que se vive hoje dentro
de instituições. O comportamento de grupos confinados,de r~
pente pode se tornar muito atual. A ecologia, os
movimen-tos ecológicos, a ação do governo no controle do meio rumien
te, a educação ambiental são coisas de um presente e de um
futuro dramáticos. Enfim, eu não gosto de trabalhar em coi
sas cuja relevância social não esteja clara para mim,mas me
resta fazer a escolha.
Prevalece então o segundo critério. Mais fácil,
mais próximo e igualmente relevantes são a Ecologia, o Eco
desenvolvimento e a Educação Ambiental.
Da Ecologia cabe deslindar essa coisa tão em moda
de uns dez anos para cá. Uma filha da Biologia que vai
abrin-do espaços como ciência social.
O Ecodesenvolvimento encerra uma visão de mundo,
uma utopia, uma proposta que se vai construindo,
brancaleo-nicamente, a partir de rápidas pinceladas teóricas e de
pe-quenas experiências que teimam em existir,dentre as quais
eu, modestamente, incluo a pesquisa de saneamento de baixo
custo em favelas e o programa de reflorestamento conduzidos
pela FEEMA.
A Educação Ambiental entra, nao apenas para justi
ficar a presença dessa dissert~ção em um Instituto de
Estu-dos AvançaEstu-dos em Educação, mas principalmente porque será na
e políticos, sociólogos e engenheiros, comunidade
organiza-da e intelectuais, economistas e naturalistas, executores
de obras e agentes sociais (Estado e sociedade) e na
rela-çio de outros diferentes atores que a questão ecológica
po-derá destruir os mitos da necessidade de um crescimento ili
mitado e discriminatório~para então abrir novas possibilid~
des para a construção de uma sociedade igualitária e
ecolo-gicamente equilibrada.
Registrar e discutir como se deu essa pedagogia
no âmbito de duas experiências de trabalho, o Projeto Ecod~
senvolvimento e o Programa de Reflorestamento.de Encostas~1
CAPITULO 11 2. OS OBJETIVOS
Ao longo do projeto de dissertação foram
defini-dos diferentes objetivos para esse trabalho. Cada capítulo
do projeto procurou situar problemas vividos por uma
práti-ca polítipráti-ca e profissional nas áreas de Ecologia e Edupráti-cação
Popular, problemas esses que eu gostaria de ver resolvidos,
esclarecidos, estudados, equacionados, delimitados,
encami-nhados, superados, enfim refletidos em maior profun~idade.
No entanto, ao realizar o trabalho, vejo claramen
te,o quanto pretensioso se é,ao definir um projeto. Entre a
proposta e a execução há uma distância incomensurável. As
condições de trabalho, o tempo disponível, o acesso à biblio
grafia, além da pr6pria dificuldade envolvida na reflexão,
impedem que se alcancem plenamente os objetivos.
B
do jogo.o
projeto de dissertação está dividido em quatrot6picos e cada um deles definiu objetivos de trabalho.
o
primeiro t6pico, a Escolha, eu decidi repetí-Iocomo introdução dessa tese, pois se trata de um capítulo de
mem6rias que revelam minha intensa vivencia com a questão da
educação popular. Mesmo os fatos relatados que não guardam
essa relação direta com experiências educacionais estrutur~
das em programas de trabalho, foram vividos como oportunid~
des de exercício da aprendizagem. E se isso,
aparentemen-te, é um lugar comum, o aprender a viver ou o aprender com
foi um aprendizado vivido sob a ótica do educador.
Já as experiências citadas de treinamento de
pes-soaI, pesquisa educacional, de participação em programas de
-governo ou de engajamento no movimento comunitario indicam
temas para outros trabalhos de dissertação e revelam, mais
uma vez, um óbvio, ou seja, que a nossa capacidade de produ
zir experiências tem sido muito superior
à
nossapossibili-dade de fazer uma reflexão séria sobre elas. Teoria e pra-
-tica marcham descompassadas. A pratica é obrigada a
cami-nhar em v60 cego, adiante da teoria, mesmo a prática de
ex-periências educacionais fundada sobre uma reflexão teórica.
Se isso, pouco tempo atrás, poderia ser lido como uma críti
ca ao trabalho acadêmico, hoje, muito mais séria, é a
cons-tatação'de que deliberadamente se desestrutura o trabalho
acadêmico, extinguindo centros de ensino e pesquisa que pro
curavam essa aproximação entre prática teórica e pratica edu
cativa. Corremos o risco de aprofundar um vazio que tanto
tem contribuído para a falência do sistema educacional
for-mal e para a obstrução do aprendizado da cidadania.
Gosta-ria de poder dispor de vários institutos de estudos
avança-dos em educação para poder requerer uma banca examinadora,
toda vez que completasse um relatório técnico. Não seria ne
cessaria a tensão entre aprovação ou reprovação, o importa~
te é a realização da troca. E esse é o objetivo real,
con-creto, verdadeiro dessa dissertação. Estabelecer pontes e~
tre a prática e a teoria, entre a ação e a reflexão, entre
Nesse sentido, o primeiro capítulo do meu projeto
definiu como objetivo da dissertação, registrar e discutir
como se deu a atividade educativa no âmbito de dois
traba-lhos, no Projeto Ecodesenvolvimento em Ãreas Urbanas do Rio
de Janeiro e no Progrma de Reflorestamento de Encostas da Ci
dade do Rio de Janeiro.
Essa proposta de registro de experiências é
reto-mada no ítem de metodologia do projeto, depois de uma
dis-cussão do processo de formação teórica,vivido por uma parce
la da intelectualidade brasileira, envolvida em trabalhos de
educação popular.
Ao longo de décadas foram importados autores que
nos serviram de referência: E. Mounier, P.T. Chardin, Roger
Garaudy, Louis Althusser, A. Gunther Frank, Regis Debray, F.
Saussure, E. Morin, H. Marcuse, MacLuhan, Jean Piaget, Bourdieu
e Passerron, La Passade e Lorrau, M. Foucault, A.Tourraine,
F. Guattari, A. Gramsci, N. Bobbio e outros, entremeados de
momentos de brilho de alguns poucos autores nacionais.
Digo no projeto que "a impo~taçio te5~iea
~ep~e-6enta o eoloniali.6mo ou a in.6e~ção no mundo, a alienação .e~
tu~aL ou a de.6eolonizaçio" para então definir como critério
de afirmação da nossa autonomia "a ~e6lexão .6ob~e a
expe-~i~neia". Por isso me proponho a "~egi.6t~a~ expe~i~neia.6,
me.6mo que não eon.6iga me ap~o6unda~ .6u6ieientemente numa ~e
6lexão 6ob~e ela6".2
Finalizo o ítem de metodologia fazendo referência
em chama~ e 6umo~" para daí retomar o ítem tr~s do projeto
que estabelece para a dissertação os seguintes objetivos:
1) Relacionar conceitos da Ecologia
queinteres-sem diretamente a uma análise social e
políti-ca do desenvolvimento do estado do Rio de
Ja-neiro.
2) Estabelecer como estudo de caso, em caráter g~
nérico, a descrição das principais linhas do
desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro )c~
racterizando as conseqU~ncias socio-ambientais
desse desenvolvimento e procurando, com base na
avaliação dos recursos naturais do estado, pro
por cenários alternativos para esse desenvolvi
mento.
3) Definir Ecodesenvolvimento, citar experi~ncias
que a nível internacional se denominaram como
ecodesenvolvimentistas, detalhando a criação
de um Projeto de Ecodesenvolvimento em Áreas Ur
banas do Rio de Janeiro e as principais propo~
tas de trabalho desse Projeto~
4) Registrar o conjunto de ações do Projeto Ecod~
senvolvimento em Áreas Urbanas do Rio de Janei
ro, discutir ·sua inserção na política de
con-trole ambiental do Governo do estado do Rio de
Janeiro e avaliar sua influência na
implanta-ção de políticas Públicas para a Integraimplanta-ção de
favelas ã infra-estrutura urbana e aos
siste-mas de prestação de serviços públicos.
I
I
I
5) Descrever o Programa de Reflorestamento de
En-costas do Município do Rio de Janeiro enquanto
exemplo de influência na formação e
implanta-ção de políticas públicas para a Integraimplanta-ção de
Favelas ao sistema urbano da cidade do Rio de
Janeiro.
6) Caracterizar as linhas de açao social do proje
to Ecodesenvolvimento e do Programa de
Reflo-restamento de Encostas, compreendendo ação
co-munitária, comunicação social e educação ambien
tal.
7) Propor linhas para o desenvolvimento de uma m~
t~dologia de ação social para intermediar açoes
de prodtição de tecnologia e conhecimentos onde
estejam envolvidos população e poder público.
A entrega está diferente da encomenda. Não tinha
óleo de milho e eu trouxe de soja; no lugar do feijão
roxi-nho veio o preto; a carne de boi estava muito cara então eu.
comprei frango; manteiga só tinha com sal; o arroz é muito
-novo e limitaram dois quilos a compra de açucar de cada fre
gues, deve ser o Plano Brasil Novo. Por que eu nao posso
usar comparaçoes como essa? Qualquer leitor entenderia
fa-cilmente o que eu tentarei explicar. Pois bem, vamos à lis
ta do supermercado, ou melhor, dos objetivos.
A questão de relacionar conceitos da Ecologia que
interessam a uma análise social nao só está mal colocada no
objetivo I como é impossível de ser feita no momento. Está
da Biologia para a Sociologia, que nao se pode
grandes inconvenientes, aliás já apontados no
teórico do projeto de dissertação.
fazer sem
referencial
Essa relação de conceitos é impossível de ser fei
ta porque existem hoje, Ecologias, tão diversas, que seria
totalmente arbitrário escolher uma dentre elas. Optei por
situar essas Ecologias, as principais apenas, para então de
finir orientações gerais, conscientemente arbitrárias, para
o trabalho de dissertação, incluindo nesse quadro geral de
Ecologias uma definição de Ecodesenvolvimento (parte do
ob-jetivo 3).
O objetivo 2 só é tocado ligeiramente, na aprese~
tação do Projeto Ecodesenvolvimento, já que a elaboração de
um sumário sobre o desenvolvimento do Estado do Rio de
Ja-neiro e a proposição de cenários alternativos para esse
de-senvolvimento exigiria uma outra dissertação para então se
ter um capítulo de síntese. Especulações sobre o
desenvol-vimento e o meio ambiente do Rio de Janeiro estão no Anexo
r.
Os objetivos 3 e 4 sao atendidos através da
apre-sentação das propostas, etapas de implantação e relação de
atividades do Projeto Ecodesenvolvimento, o mesmo se dando
com o objetivo 5 de descrição do Programa de
Reflorestamen-to.
A caracterização das linhas de açao social das ati
vidades em estudo, o objetivo 6, é feita na própria
descri-ção das atividades.
para a reflexão sobre as relações entre população e poder p§
blico na produção de tecnologia e soluções sócio-ambientais.
A metodologia de trabalho está bastante
simplifi-_cada, já que, sendo o objetivo maior, o registro de experiên
cias, cabia, num primeiro momento, transmitir ao leitor uma
delimitação do campo teórico do trabalho e a opção do autor.
No segundo momento faz-se o relato das experiências,
origi-nal, mas com base em documentação existente na FEEMA, para
em seguida fechar a discussão da questão pedagógica envolv!
da em uma ação de governo, delimitando a discussão ao
âmbi-to das experiências relatadas.
. I
.
I
f
f
CAPITULO I I I
3. AS ECOLOGIAS
Optei por relacionar as Ecologias porque o que se
dá no momento é um debate entre orientações e, um embate poli
tico. A Ecologia nio existe mais, existem Ecologias. As
principais correntes nascem da~Biologia e da Geografia, da
Engenharia Ambiental, da Economia política, do Planejamento
do Desenvolvimento e das questões·docomportamento:humano.
A Bio-Ecologia
A Ecologia nasceu na segunda metade do século XIX
através ue Ernest Haeckel que, pela primeira vez, utilizou o
termo Ecologia para designar uma ciência que estudasse a eco
nomia da natureza ou as relações dos organismos com o meio
ambiente.
..
Haeckel viveu uma epoca de intenso interesse pela
natureza, época das grandes expedições de estudo que
produ-ziram, entre outros resultados, a obra de Darwin sobre a evo
lüçâb das espécies. O próprio Darwin publicou estudos
eco-lógicos sobre a estrutura e distribuição de arrecifes de co
ral, formação de terra vegetal pela ação das lombrigas e ou
tros.
Embora tenha se mantido como uma ciência de sínte
desenvolveu em diferentes .direções, sendo as pri.ncipais: as
que sao citadas por Ramôn Margalef:
"J1 A
de~c.Jc.iç.ao e oltde-naç.ao da pai~agem geogJc.i6ic.a; 21 QutAt;e~ pltatic.a~ deaglti-cultulta e pec.u;ltia;
31
fi~iQlogiae Etologia e41
Vemoglta-l ' " 3
u-<.a •
A Ecologia evoluiu também de acordo com os
estu-dos estu-dos ambientes (agua, solo, ar) e estu-dos seres vivos
.(ani-mal ou vegétal). O uso da palavra Ecologia sem essas
espe-cificações de ambiente ou seres, ê muito recente e remonta
a década de cinquenta, jáno século
xx.
Enquanto ci6ncia de síntese, a Ecologia foi sist!
matizando um conjunto de conceitos e métodos que formam a
base para se pensar ecologicamente a realidade natural.
-Destacar.- termos é muito perlgoso em t..ima ci6ncia que. é
ci6ncia de relações, mas se trata aqui, nio de discutir uma
ci6ncia mas apenas de introduzir o leitor numa discussio.
Cabe, entio destacar:
UA
bio~6elta que he c.ompoe da vida epe-lah 6h.aç.;eh do alt, da água e do -6olo on
de he dehenvolve a vida;
O
bi5topo que dehigna o ~upoltte inoltgª nic.o da vida.A
biocenohe enquanto conjunto deo!tga-nihmOh que vivem num bi5topo deteltmina do" • 4
A associação de biótopo e da biocenose constitui
o ecossistema cujos limites são variáveis e em certa
medi-da arbitrários. Se eu levantar uma pedra em um jardim, vou