VINÍCIUS SOARES DOS REIS
HIPERSUPERFÍCIES INVARIANTES EM DINÂMICA COMPLEXA
Dissertação apresentada à Universidade Federal de Viçosa, como parte das exi-gências do Programa de Pós Graduação em Matemática, para obtenção do título de Magister Scientiae.
VIÇOSA
Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e Classificação da Biblioteca Central da UFV
T
Reis, Vinícius Soares dos, 1984-
R375h Hipersuperfícies invariantes em dinâmica complexa / 2012 Vinícius Soares dos Reis. – Viçosa, MG, 2012.
viii, 66f. : il. ; 29cm.
Orientador: Maurício Barros Correa Júnior.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Viçosa. Referências bibliográficas: f. 65-66.
1. Hipersuperfícies. 2. Folheações (Matemática). 3. Geometria algébrica. I. Universidade Federal de Viçosa. II. Título.
VINÍCIUS SOARES DOS REIS
HIPERSUPERFÍCIES INVARIANTES EM DINÂMICA COMPLEXA
Dissertação apresentada à Universidade Federal de Viçosa, como parte das exi-gências do Programa de Pós Graduação em Matemática, para obtenção do título de Magister Scientiae.
APROVADA: 17 de fevereiro de 2012
Luis Guillermo Martinez Maza Rogério Carvalho Picanço
Kennedy Martins Pedroso Alexandre Miranda Alves
(Coorientador) (Coorientador)
AGRADECIMENTOS
Desde o início de minha caminhada no ensino superior, algumas pessoas foram de importância fundamental para chegar até esse momento. Minha mãe, que foi sem dú-vida alguma o pilar que me manteve de pé até hoje, sem dúdú-vidas é a pessoa que mais agradeço e com palavras é difícil expressar essa gratidão, obrigado mãe por me apoiar, acreditar e confiar em mim até hoje. Meu pai, que infelizmente já se foi mas que me ajudou a ser homem e a cumprir com minhas obrigações, muito obrigado por esses ensinamentos pai.
Agradeço demais minha Avó, que também já não está entre nós, obrigado por suas orações e pelas preocupações que sempre tivera comigo, muito obrigado por tudo isso. Não posso esquecer meus irmãos pela amizade e pelo apoio que sempre me deram. Meu sobrinho Pedro, que foi o meu melhor amigo durante essa caminhada e que sem-pre me distraiu muito nos momentos que mais sem-precisei.
Amigos da sala 312 do DMA, em particular meu amigo Frederico que desde a graduação está nessa caminhada comigo pelo mundo da matemática, o agradeço pela hombridade, pela simplicidade, pela força que tens e sem dúvidas pelo amigo que és. Ao Fernando, por ter se tornado um bom amigo e se mostrado uma pessoa simples, dedicada e que sempre esteve disposto a ajudar, valeu mano! Ana Paula, por toda sua gentileza e tranquilidade, Artur pelo companheirismo, o Isaque pela amizade e por tanto nos ajudar com o latex e o Guemael que conheço pouco mas mostrou a pessoa que é nesse pouco tempo que conheço, obrigado a vocês. Aos amigos da Física Tiago e Renan obrigado pela amizade e o apoio.
Não posso deixar de agradecer à Capes pelo apoio financeiro, pois sem esse jamais teria feito uma pós graduação.
Para finalizar, agradeço à Deus, por motivos que dispensam comentários!
SUMÁRIO
RESUMO vii
ABSTRACT viii
INTRODUÇÃO 1
1 Preliminares 3
1.1 Variedades diferenciáveis . . . 3
1.2 Vetores tangentes emCncomo derivações . . . . 4
1.2.1 Derivação em um ponto . . . 5
1.2.2 Campo de vetores e derivações emCn . . . . 7
1.3 Formask-lineares Alternadas . . . 9
1.3.1 Permutações . . . 9
1.3.2 Funções Multilineares . . . 10
1.3.3 O Produto Tensorial de formask-lineares . . . 10
1.3.4 O Produto Exterior . . . 11
1.3.5 Uma Base parak-Covetores . . . 12
1.4 Formas Diferenciais emCn . . . . 13
1.4.1 1-formas Diferenciais e a Diferencial de uma Função . . . 13
2 Variedades Algébricas, Funções polinomiais e racionais 15
2.1 Variedades algébricas . . . 15
2.1.1 Polinômios e Espaço Afim . . . 15
2.2 Variedades Afins . . . 16
2.2.1 Ideais . . . 17
2.2.2 Teorema da base de Hilbert . . . 19
2.2.3 Teorema dos zeros de Hilbert (Hilbert’s Nullstellensatz) . . . 20
2.3 Funções polinomiais e racionais em uma variedade . . . 20
2.3.1 Quociente de anéis polinomiais . . . 22
2.3.2 Funções racionais em uma variedade . . . 23
3 Folheações e Teorema de Frobenius 25 3.1 Folheações Holomorfas . . . 25
3.2 Teorema de Frobenius . . . 27
3.2.1 Distribuição . . . 27
3.2.2 Distribuição dek-planos definidos por formas diferenciais . . 27
4 Hipersuperfícies invariantes por endomorfismos polinomiais 29 4.1 Hipersuperfícies Totalmente Invariantes . . . 30
4.1.1 Sobre formas logarítmicas . . . 34
4.2 Adaptação do Teorema de Cantat para Endomorfismos polinomiais . . 35
5 Integrabilidade de Darboux para campos 38 5.1 Campos de vetores polinomiais e Integrais primeiras racionais . . . . 39
5.2 Prova do Teorema 5.0.3 . . . 44
6 Integrabilidade Algébrica der-formas polinomiais diferenciais 52
6.1 r-formas diferenciais polinomiais emCn . . . . 54 6.2 Hipersuperfícies invariantes e integral primeira racional . . . 56 6.3 Prova do Teorema 6.0.7 . . . 60
RESUMO
REIS, Vinícius Soares dos, M.Sc., Universidade Federal de Viçosa, fevereiro de 2012. Hipersuperfícies invariantes em dinâmica complexa. Orientador: Maurício Barros Correa Júnior. Coorientadores: Kennedy Martins Pedroso e Alexandre Miranda Alves.
ABSTRACT
REIS, Vinícius Soares dos, M.Sc., Universidade Federal de Viçosa, February, 2012. Invariant hypersurfaces in complex dynamics. Adviser: Maurício Barros Correa Júnior. Co-advisers: Kennedy Martins Pedroso and Alexandre Miranda Alves.
We talk about versions the theorem of integrability Darboux - Jouanolou for endo-morphisms, fields, or r-polynomial differential forms. These versions say essentially
INTRODUÇÃO
Um importante assunto na pesquisa na teoria dos campos vetoriais polinomiais é a caracterização de campos algebricamente integráveis, ou seja, campos que admitem uma integral primeira racional. A existência de uma integral primeira para um campo vetorial definido emR2determina completamente seu retrato de fase.
Darboux, em 1878, encontrou uma conexão entre curvas algébricas invariantes e a existência de integrais primeiras para campos polinomiais emR2 ouC2 . Ele mostrou
que curvas algébricas invariantes por um campo de vetores polinomial podem ser usa-das para determinar uma integral primeira. Isto baseado na existência de um número suficientemente grande dessas curvas invariantes.
Jouanolou em [16] apresenta um melhoramento da teoria de Darboux provando que um campo de vetores polinomial, de graud, emR2 ouC2, com pelo menos
d+ 1 2
+ 2
curvas algébricas invariantes, possui uma integral primeira racional. Este resultado é hoje conhecido como teorema de integrabilidade de Darboux-Jouanolou.
No presente trabalho dissertamos sobre versões do teorema de integrabilidade de Darboux-Jouanolou para endomorfismos, campos ou r-formas diferenciais polinomi-ais.
Primeiramente, dissertamos sobre uma adaptação do teorema de Cantat [6] para endomorfismos polinomiais em Cn. Este teorema diz que um endomorfismo polino-mialf deCn, comk > nhipersuperfícies totalmente invariantes, preserva um pencil de hipersuperfícies algébricas.
d−1 +n n
+n
hipersuperfícies algébricas irredutíveis invariantes, possui uma integral primeira raci-onal. Isto quer dizer que, nessas condições, o campo será tangente a um pencil de hipersuperfícies.
Por fim, apresentamos um resultado obtido em [7] por M. Corrêa, L. G. Maza e M. Soares , onde os autores provam um teorema do tipo Darboux-Jouanolou parar-formas
diferenciais polinomiais. O resultado diz que umar-forma diferencial polinomial, de graudemCn, possuindo
d−1 +n n
·
n r+ 1
+r+ 1
Capítulo 1
Preliminares
O objetivo deste capítulo é introduzir alguns conceitos e resultados que são fundamen-tais para esse trabalho. Iniciaremos definindo variedades diferenciáveis e variedades complexas. Em seguida, apresentaremos alguns conceitos e resultados básicos relaci-onados a campo de vetores. Apresentaremos também as formas diferenciáveis emCn. Para mais detalhes sobre o assunto veja [2], [3],[4], [11], [18], [23] e [25].
1.1 Variedades diferenciáveis
Variedades diferenciáveis
Seja(M,T)um espaço topológico. EmRn, considere a topologia usual. DadoU ∈ T, um homeomorfismo entreU e um aberto deRné chamado decarta local de dimensão
n. CasoM possa ser coberto por domínios de cartas locais de dimensãon, entãoM é
umespaço topológico localmente euclidiano. Umavariedade topológica de dimensão
né um espaço topológico:
1. localmente euclidiano de dimensãon;
2. Hausdorff;
Duas cartas locais de dimensãon,(U, ϕ)e(V, ψ), sãoC∞compatíveis quando U ∩V =∅ouU ∩V 6=∅e
ϕ◦ψ−1 :ψ(U ∩V)→ϕ(U ∩V)
ψ◦ϕ−1 :ϕ(U∩V)→ψ(U ∩V)
são de classeC∞.
UmatlasC∞de dimensãonpara um espaço topológicoM é uma cobertura deM
por domínios de cartas locais de dimensãonque sãoC∞- compatíveis entre si. Daqui
em diante, cartasC∞- compatíveis serão chamadas apenas compatíveis e um atlasC∞
de dimensãonserá chamado apenas atlas.
Considere todos os atlas que contém um dado atlas A de um espaço topológico
M. Dentre esses, existe apenas um que é maximal, ou seja, que não está contido propriamente em nenhum outro atlas que contémA(veja Proposição 5.10, pag. 150, [25]). Dizemos que um espaço topológico Hausdorff, com base enumerável é uma variedade diferenciávelquando pode ser coberto por domínios de cartas locais de um atlas maximal.
Definição 1.1.1 Uma variedade complexa de dimensãoné uma variedade munida de uma estrutura analítica. Isto é, existe uma cobertura de M por abertos, {Uα}α∈A, e homeomorfismos ϕα : Uα → Vα, onde Vα ⊂ Cn é aberto, tais que as funções de transiçãoϕα◦ϕ−β1são holomorfas.
1.2 Vetores tangentes em
C
ncomo derivações
Definição 1.2.1 Sejam M um espaço topológico, N um conjunto e a ∈ M. Consi-deremos a família de todas as aplicações definidas em alguma vizinhança deae com valores em N. Nesta família definimos uma relação de equivalência. Dizemos que duas aplicações são equivalentes se elas coincidem em alguma vizinhança de a. As classes de equivalência são chamadasgermes de aplicação ema(com valores emN). Chamamos germe emade uma aplicaçãof à classe de equivalência que contémf.
Vamos denotar porC∞
p a germificação deC∞(Cn), ou seja,
onde [u] = {v ∈ C∞(Cn) : v
∼ u} e v ∼ u se, e somente se, existem abertos
V, U ⊂Cncontendoade forma que
v|V ≡u|U em um abertoW ⊂V ∩U que contéma.
Sabendo queC∞
p tem uma estrutura de álgebra e que o conjunto de todos os fun-cionais lineares sobreC∞
p que satisfazem a Regra de Leibiniz, denotado porDp(Cn) e chamado derivações no pontop, é um espaço vetorial. Na seção que segue vamos
provar queDp(Cn)eT
p(Cn)são espaços vetoriais isomorfos.
1.2.1 Derivação em um ponto
Seja a aplicação γ = (γ1, . . . , γm) : C → Cn, definida por γ(t) = p+ tv, onde
p= (p1, ldots, pn)ev = (v1, . . . , vn)são fixos emCn.
As retas parametrizadas γ = γ(p, v) caracterizam o conjunto dos vetores v que tem origem no ponto p, ao qual chamaremos de espaço tangente ao Cn no ponto p e denotaremos por Tp(Cn). Dai, Tp(Cn) = {u∈Cn : u=p+vt;v ∈Cn} e vale ressaltar queTp(Cn)≃Cn.
Para cada vetorv = (v1, . . . , vn)em um pontop∈Cn, a derivada direcional emp
nos dá uma aplicação
Dv :Cp∞ →C, definida porDv =Pvi ∂∂xi
p. ClaramenteDv éC-linear e satisfaz a regra de Leibniz
Dv(f g) = (Dvf)g(p) +f(p)Dvg. (1)
Em geral, uma aplicação linearDv :Cp∞ →Csatisfazendo a regra de Leibniz (1) é chamada uma derivação emp. Denote o conjunto de todas as derivações emp por Dp(Cn). Este conjunto é de fato um espaço vetorial, pois a soma de duas derivações empe a multiplicação por escalar de uma derivação empsão ainda derivações.
φ :Tp(Cn) → Dp(Cn),
v 7→ Dv =
P
vi ∂ ∂xi
p
(2)
é uma aplicação linear.
Lema 1.2.2 SeDé umaderivação, entãoD(c) = 0para toda função constantec.
Demonstração: PelaC-linearidade,D(c) = cD(1). Pela regra de Leibniz
D(1) =D(1×1) =D(1)×1 + 1×D(1) = 2D(1) ⇒D(1) = 0
segue assim o resultado.
Teorema 1.2.3 A aplicação linearφ : Tp(Cn) → Dp(Cn) definida em (2) é um iso-morfismo de espaços vetoriais.
Demonstração: Para provar a injetividade, suponha Dv = 0 para v ∈ Tp(Cn). AplicandoDv à função coordenadaxj teremos
0 = Dv(xj) =
X
i
vi ∂ ∂xi
px j
=X
i
viδji =v j
.
Portanto,v = 0eφé injetiva.
SejamDuma derivação emp = (p1, . . . , pn)e(f, V)um representante do germe defemp. FazendoV menor se necessário, podemos assumir queV é uma bola aberta.
Pelo Teorema de Taylor existem funçõesC∞gi(x)em uma vizinhança deptal que
f(x) =f(p) +P(xi−pi)gi(x), g
i = ∂x∂fi(p).
Df(x) = X(Dxi)gi(p) +X(pi −pj)Dgi(x) = X(Dxi)∂f
∂xi(p).
Isto prova queD=Dv parav =hDx1, ..., Dxni.
1.2.2 Campo de vetores e derivações em
C
nUm campo de vetoresXem um subconjunto abertoUdeCné uma função que associa para cada ponto pem U um vetor tangenteXp em Tp(Cn). Como Tp(Cn)tem bases
{∂/∂xi|
p}, o vetorXpé uma combinação linear
Xp =
X
ai(p) ∂
∂xi
p, p∈U.
Dizemos que o campo de vetores XéC∞emU, se as funções coeficientesai são
C∞emU.
Podemos identificar campos de vetores emU com vetores colunas de funçõesC∞
em U:
X =Xai(p) ∂
∂xi ←→
a1
...
an
.
Denotamos porC∞(U)o anel das funçõesC∞emU. Como podemos multiplicar
um campo de vetores C∞ por uma função C∞ e ainda obter um campo de vetores C∞, o conjunto de todos campos vetoriaisC∞emU, denotado porX(U), não é só um
espaço vetorial sobreC, mas também ummódulosobre o anelC∞(U).
Se X é um campo de vetoresC∞ em um subconjunto abertoU deCne f é uma funçãoC∞emU, definimos a nova funçãoX(f)emU por
X(f)(p) = Xpf para todop∈U. EscrevendoX =Pai ∂
X(f)(p) = Xpf =
X
ai(p)∂f
∂xi(p),
ou
X(f) = Xai∂f
∂xi,
mostrando-nos assim queXf é uma funçãoC∞ emU. Assim, um campo de vetores C∞induz uma aplicaçãoC-linear
C∞(U) → C∞(U)
f 7→ Xf.
Proposição 1.2.4 (Regra de Leibniz para campo de vetores). SeX é um campo de vetoresC∞ef eg são funçõesC∞em um subconjunto abertoU deC, entãoX(f g)
satisfaz a regra do produto:
X(f g) =X(f)g +f X(g).
Demonstração: Ver [25].
Em geral, se A é uma álgebra sobre um corpo K, uma derivação de A é uma aplicaçãoK-linearD:A→Atal que
D(ab) = (Da)b+a(Db)para todoa, b∈A.
O conjunto de todas as derivações deAé fechado sobre a adição e a multiplicação por escalar e forma um espaço vetorial, denotado porDer(A). Um campo de vetores C∞em um conjunto abertoU induz uma derivação da álgebraC∞(U). Então temos a
aplicação
ϕ:X(U) → Der(C∞(U))
Assim como os vetores tangentes em um ponto ppodem ser identificados com os pontos derivações, os campos de vetores em um abertoU podem ser identificados com
as derivações da álgebraC∞(U), isto é, a aplicaçãoϕ é um isomorfismo de módulos
sobreC∞(U).
Note que uma derivação empnão é uma derivação da álgebraC∞
p (U). Uma deri-vação em um ponto pé uma aplicação deC∞
p (U)emC, enquanto uma derivação na álgebraC∞
p (U)é uma aplicação deCp∞(U)emCp∞(U).
1.3 Formas
k
-lineares Alternadas
Se V eW são espaços vetoriais complexos, denotaremos por Hom(V, W) o espaço vetorial de todas as aplicações linearesf :V →W. Defina oespaço dualV∗sendo o
espaço vetorial de todas as funções lineares com valores complexos emV.
Os elementos deV∗são chamados decovetoresemV. Nesta seção, assumiremos
que V é um espaço vetorial de dimensão finita. Seja {e1, ..., en} uma base para V. Cada elementov ∈ V é uma combinação linear unicamente determinada da seguinte
forma,v =Pvie
icomvi ∈C. Sejaαi :V −→Cuma função linear tal que ai-ésima coordenadaαi(v) =vi. Note queαi é caracterizada por
αi(ej) = δi j =
1, i=j; 0, i6=j.
Proposição 1.3.1 As funçõesα1, ..., αnformam uma base deV∗.
Demonstração: Ver [25].
Corolário 1.3.2 O espaço dualV∗ de um espaço vetorial de dimensão finitaV tem a
mesma dimensão deV.
Demonstração: Ver [25].
1.3.1 Permutações
Fixe um inteiro k. Uma permutação de um conjunto A = {1, ..., k} é uma
bije-ção σ : A → A. Uma permutação cíclica (a1a2...ar) é a permutação σ tal que
σ(a1) = a2, σ(a2) = a3, ..., σ(ar) = a1, e de forma que σ fixa todos os outros
Uma transposição é um ciclo da forma (ab) que alternaa e b, mantendos os outros elementos deAfixos.
Seja Sk o grupo de todas as permutações do conjunto {1, ..., k}. Uma permuta-ção é par ou ímpar dependendo se ela é o produto de um número par ou ímpar de transposições.
1.3.2 Funções Multilineares
Denote por Vk = V
× · · · ×V o produto cartesiano dek cópias do espaço vetorial complexo V. Uma forma f : Vk → Cé k-linear se ela é linear em cada um dos k argumentos
f(. . . , av+bw, . . .) =af(. . . , v, . . .) +bf(. . . , w, . . .)
para todoa, b ∈ Cev, w ∈ V.Uma formak-linear emV é também chamada de um
k-tensor emV. Denotaremos o espaço vetorial de todosk-tensores emV porLk(V).
Sef é umk-tensor emV, também chamaremos dekograudef. Definição 1.3.3 Uma formak-linearf :Vk →Cé simétrica se
f(vσ(1),· · · , vσ(k)) = f(v1,· · ·, vk)
para toda permutaçãoσ∈Sk; ela é alternada se
f(vσ(1),· · · , vσ(k)) = sgn(σ)f(v1,· · · , vk)
para todoσ∈Sk. Aquisgn(σ)denota o sinal da permutação.
Denotaremos o espaço das formask-lineares alternadas em um espaço vetorialV
por,Ak(V), parak > 0.
1.3.3 O Produto Tensorial de formas
k
-lineares
(f ⊗g)(v1,· · · , vk+l) =f(v1,· · · , vk)g(vk+1,· · · , vk+l).
Proposição 1.3.4 Sef, gehsão formas multilineares emV, então
(f⊗g)⊗h=f⊗(g⊗h).
Demonstração: Ver [25].
1.3.4 O Produto Exterior
Definimos oproduto exteriorentre formas multilineares por,
∧:Ak(V)×Ak(V) → Ak+l(V)
(f, g) 7→ f∧g = k1!l!A(f ⊗g); ondeA(f) = X
σ∈Sk
(sgnσ)f.
As demonstrações das proposições e corolários abaixo podem ser encontradas em [11], [18] ou [25].
A seguinte proposição mostra que o produto exterior é anticomutativo. Proposição 1.3.5 Sef ∈Ak(V)eg ∈Al(V), então
f ∧g = (−1)klg∧f. Segue diretamente da proposição acima o seguinte
Corolário 1.3.6 Sef é umk-covetor emV eké ímpar, entãof ∧f = 0.
A seguinte proposição mostra que o produto exterior é associativo.
(f∧g)∧h=f∧(g∧h).
Corolário 1.3.8 Com as mesmas hipóteses da proposição (1.3.7),
f ∧g ∧h = 1
k!l!m!A(f ⊗g⊗h).
Proposição 1.3.9 Seα1, . . . , αksão formas lineares em um espaço vetorialV ev
1, . . . , vk ∈
V, então
(α1, . . . , αk)(v
1, . . . , vk) =det[αi(vj)].
1.3.5 Uma Base para
k
-Covetores
Seja{e1,· · · , en}uma base para o espaço vetorial complexoV, e seja{α1,· · · , αn}a base dual paraV∗. Introduzindo a notação multi-índice
I = (i1,· · · , ik)
escrevaeI para(ei1,· · · , eik)eα
I paraαi1 ∧ · · · ∧αi k.
Uma formak-linearf emV é completamente determinada pelos seus valores em
toda k-upla (ei1,· · · , eik). Sef é alternada, então ela é completamente determinada
por seus valores em(ei1,· · · , eik)com1 ≤ i1 < · · · < ik ≤ n. SuponhaI, J
multi-indices ascendentes de comprimentok. Pela proposição (1.3.9).
αI(e J) =
1, I =J; 0, I 6=J.
As demonstrações da proposição e corolários abaixo podem ser encontradas em [25] ou [18].
Proposição 1.3.10 As formask-lineares alternadasαI, I = (i
1 <· · · < ik), formam
uma base para o espaçoAk(V)das formask-lineares alternadas emV.
Corolário 1.3.11 Se o espaço vetorial V tem dimensão n, então o espaço vetorial
Ak(V)dek-covetores emV tem dimensão
n k
.
1.4 Formas Diferenciais em
C
n1.4.1 1-formas Diferenciais e a Diferencial de uma Função
De qualquer função f : U → C de classeC∞, podemos construir uma 1-forma df,
chamada adiferencialdef como segue. Parap∈U eXp ∈TpCn, defina (df)p(Xp) = Xpf.
Proposição 1.4.1 Sez1,· · · , znsão as coordenadas canônicas deCn, então em cada pontopemU,{(dz1)p,· · · ,(dzn)p}é a base para o espaço cotangente T∗
p(Cn)dual a base{∂/∂z1|
p,· · · , ∂/∂zn|p}para o espaço tangenteTp(Cn). Demonstração: Por definição,
(dzi)p ∂ ∂zj
p
= ∂
∂zj
pz i =δi
j.
Se f : U → C é uma função C∞ em um conjunto aberto U em (Cn), então a diferencial def é definida por
df =X ∂f
∂zjdz j
. (1.1)
1.4.2
k
-Formas Diferenciáveis
Mais geralmente, umaforma diferencialωde graukou umak-forma em um conjunto aberto deCné uma aplicação que associa para cada pontopemU uma formak-linear alternada no espaço tangente Tp(Cn), isto é, ωp ∈ Ak(TpCn). Como A1(TpCn) =
T∗
p(Cn), a definição de umak-forma generaliza a de uma 1-forma. Uma base paraAk(TpCn)é
dzI
ωp =
X
aI(p)dzpI,1≤i1 <· · ·< ik≤n. Portanto umak-formaωemU é uma combinação linear
ω =XaIdzI,
com funções coeficientes aI : U → C.Dizemos que uma k-formaω éC∞ emU se todos os coeficientesaI são funçõesC∞emU.
Denotemos porΩk(U)o espaço vetorial dek-formasC∞emU. Uma 0-forma em U associa em cada pontopemU, elemento deA0(TpCn) = C.Daí, uma 0-forma em
U é simplesmente uma função emU, eΩ0(U) =C∞(U).
Uma vez que se pode multiplicar uma k-forma C∞ por funçõesC∞, o conjunto
Ωk(U) de k-formas C∞ em U é um espaço vetorial sobre C e um módulo sobre C∞(U). Com o produto exterior como multiplicação, a soma direta
Ω∗(U) = n
M
k=0
Ωk(U)
Capítulo 2
Variedades Algébricas, Funções
polinomiais e racionais
Neste capítulo vamos estudar polinômios e variedades algébricas afins. Veremos a definição de variedades algébricas, de ideais de uma variedade e a forma como se re-lacionam.
O foco central será a exposição do célebre Teorema dos Zeros de Hilbert que será usado fortemente em demonstrações dos capítulos 4, 5 e 6, os principais desta disser-tação. Apresentaremos uma das versões do teorema citado.
Veremos uma exposição sobre funções polinomiais e racionais em uma variedade. A importância desse assunto, é pelo fato de termos a necessidade de trabalhar nos ca-pítulos 4, 5 e 6 com funções com essas características. Para este capítulo sugerimos a leitura de [10] para mais detalhes.
2.1 Variedades algébricas
Nesta seção estudamos curvas, conjuntos dados por zeros de sistemas de equações polinomias. Utilizaremos um pouco de álgebra e, em particular, precisaremos estudar os ideais do anel de polinômiosC[x1, ..., xn].
2.1.1 Polinômios e Espaço Afim
Definição 2.1.1 Um monômio emx1, ..., xné um produto da forma
xα1
1 .x
α2
2 .· · · .xαnn,
onde os expoentes α1, ..., αn são inteiros não negativos. O grau total desse monômio éα1+...+αn.
Observação 2.1.2 Sejaα= (α1, ..., αn)uman-upla de inteiros não-negativos. Então
xα = xα1
1 .x
α2
2 ...xαnn. Quando α = (0,0, ...,0), temos xα = 1. Temos também que
|α|=α1+...+αndenota o grau do monômioxα
Definição 2.1.3 Um polinômiof emx1, ..., xncom coeficientes emCé uma combina-ção linear finita de monômios. Denotaremos um polinômiof na forma
f =X
α
aαxα,aα ∈C,
onde a soma é sobre um número finito de n-uplas α = (α1, ..., αn). Como usual, o
conjunto de todos os polinômios emx1, ..., xn com coeficientes em C será denotado porC[x1, ..., xn].
Definição 2.1.4 Sejaf =X α
aαxα um polinômio emC[x1, ..., xn].
1. aα é chamado coeficiente dexα;
2. Seaα6= 0, então chamamosaαxα um termo def; 3. O grau def, denotado pordeg(f), é max{|α|;aα 6= 0}.
2.2 Variedades Afins
Definição 2.2.1 Sejamf1, . . . , fspolinômios emC[x1, . . . , xn]. Então temos
V(f1, . . . , fs) ={(a1, . . . , an)∈Cn:fi(a1, . . . , an) = 0, ∀i= 1, . . . , n}.
Assim, uma variedade afim V(f1, . . . , fs) ⊂ Cn é o cojunto de todas as soluções
do sistema de equaçõesf1(x1, . . . , xn) =. . .=fs(x1, . . . , xn) = 0.
Exemplo 2.2.2 Se F ∈ C[x1, . . . , xn], um ponto P = (a1, . . . , an) pertencente ao
espaço afim de dimensãoné um zero deF seF(P) = F(a1, . . . , an) = 0. SeF não
é constante, o conjunto de zeros deF é chamado dehipersuperfíciedefinida porF, e denotada porV(F).
Lema 2.2.3 SeV, W ⊂Cnsão variedades afins, entãoV ∪W eV ∩W também são. Demonstração: ConsidereV =V(f1, . . . , fs)eW =V(g1, . . . , gt), então
V ∪W =V(figj) : 1 ≤i≤s,1≤j ≤t),
V ∩W =V(f1, . . . , fs, g1, . . . , gt).
A demonstração deste lema implica que interseções finitas e uniões de variedades afins são ainda variedades afins. Portanto, podemos definir uma topologia emCn cha-madatopologia de Zariskiem que os abertos são os complementares deV(f1, . . . , fn).
2.2.1 Ideais
Definição 2.2.4 Um subconjutoI ⊂C[x1, . . . , xn]é um ideal se satisfaz:
1. 0∈I;
2. Sef, g ∈I, entãof +g ∈I;
3. Sef ∈I eh∈C[x1, . . . , xn], entãohf ∈I.
A importância dos ideais é que eles nos darão ferramentas para fazer os cálculos com variedades.
Definição 2.2.5 Sejamf1, . . . , fspolinômios emC[x1, . . . , xn]. Definimos o ideal
hf1, . . . , fsi={
Ps
i=1hifi :h1, . . . , hs∈C[x1, . . . , xn]}.
Veja quehf1, . . . , fsié de fato um ideal como sugere a definição.
Proposição 2.2.6 Sef1, . . . , fs e g1, . . . , gt são tais que hf1, . . . , fsi = hg1, . . . , gti, então
V(f1, . . . , fs) =V(g1, . . . , gt)
Definição 2.2.7 SejaV ⊂Cnuma variedade afim. Então temos
I(V) ={f ∈C[x1, . . . , xn] :f(x1, . . . , xn) = 0 ∀(a1, . . . , an)∈V}
A observação crucial aqui é que I(V) é um ideal de C[x1, . . . , xn]. Chamamos
I(V)de ideal deV;
Exemplo 2.2.8 Considere a variedade{(0,0)}consistindo da origem deC2. Então o idealI({(0,0)})consiste de todos os polinômios que se anulam na origem, e afirma-mos que
I({(0,0)}) = hx, yi
1. hx, yi ⊂I({(0,0)})
SejaA(x, y)x+B(x, y)y∈ hx, yi, obviamente este polinômio se anula em(0,0).
2. I({(0,0)})⊂ hx, yi
Sejaf ∈ I, entãof =Pi,jaijxiyj anula-se na origem, daía00 = f(0,0) = 0.
Consequentemente,
f = a00+
X
(i,j)6=(0,0)
aijxiyj
= 0 + ( X
(i,j)i>0
aijxi−1yj)x+ (
X
j>0
a0jyj−1)y∈ hx, yi. Lema 2.2.9 Sef1, . . . , fs ∈C[x1, . . . , xn], então
Embora a igualdade não precise ocorrer, como mostra o exemplo. Exemplo 2.2.10 hx2, y2i ⊂I(V(x2, y2))masI(V(x2, y2))*hx2, y2i.
x2 = 0 e y2 = 0 ⇒ V(x2, y2) = {(0,0)}, mas o ideal de {(0,0)} é hx, yi, então
I(V) = hx, yi. Note quex6∈ hx2, y2i.
Proposição 2.2.11 SejamV eW variedades afim emCn. Então
1. V ⊂W ⇔I(V)⊃I(W); 2. V =W ⇔I(V) =I(W).
Demonstração: Basta demonstrar 1. Seja f ∈ I(W), temos que f(p) = 0 para todo p ∈ W. Como V ⊂ W, f(q) = 0 para todo q ∈ V. Portanto f ∈ I(V)e daí
I(W)⊂I(V).
Considere p ∈ V, por definição f(p) = 0para todo f ∈ I(V). Como I(V) ⊂
I(W), entãog(p) = 0para todog ∈I(W), logop∈W.
2.2.2 Teorema da base de Hilbert
Teorema 2.2.12 Todo ideal I ⊂ C[x1, . . . , xn] é finitamente gerado. Isto é, existem
f1, . . . , fs∈C[x1, . . . , xn]tais que
I =hf1, . . . , fsi.
O teorema da base de Hilbert nos mostra que, todo subconjunto algébrico é a inter-seção de um número finito de hipersuperfícies.
Definição 2.2.13 SejaI ⊂C[x1, . . . , xn]um ideal. Denotemos o conjunto
V(I) ={(a1, . . . , an)∈Cn :f(a1, . . . , an) = 0 ∀f ∈I}.
2.2.3 Teorema dos zeros de Hilbert (Hilbert’s Nullstellensatz)
O Teorema dos zeros de Hilbert identifica ideais que correspondem a variedades, per-mitindo “construir"um dicionário entre álgebra e geometria.
Definição 2.2.15 SejaV uma variedade afim. O ideal deV é definido por
I(V) = {f ∈C[x1, . . . , xn] :f(x) = 0 ∀x∈V}.
Proposição 2.2.16 Sef1, . . . , fs∈C[x1, . . . , xn], entãohf1, . . . , fsi ⊂I(V(f1, . . . , fs)).
Demonstração: Sef ∈ hf1, . . . , fsi ⇒ f ∈ Psi=1hifi, hi ∈ C[x1, . . . , xn]. Como
f1, . . . , fsse anulam emV(f1, . . . , fs)⇒f ∈I(V(f1, . . . , fs)).
SejaIum ideal deC[x1, . . . , xn]o radical deIé definido por
√
I ={f ∈C[x1, . . . , xn] :∃m∈Ntal quefm ∈I}
O Teorema dos Zeros de Hilbert diz que o ideal de uma variedadeV(I)é o radical deI.
Teorema 2.2.17 (Teorema dos Zeros de Hilbert) Se f1, . . . , fs ∈ C[x1, . . . , xn] são
tais que f ∈ I(V(f1, . . . , fs)), então existe m ≥ 1 tal que fm ∈ hf1, . . . , fsi (e reciprocamente).
2.3 Funções polinomiais e racionais em uma variedade
Definição 2.3.1 Sejam V ⊂ Cm e W ⊂ Cn variedades. Uma função φ : V →
W é dita uma aplicação polinomial (ou aplicação regular) se existem polinômios
f1, ..., fn∈C[z1, ..., zm]tais que
φ(a1, ..., am) = (f1(a1, ..., am), ..., fn(a1, ..., am))
para todo(a1, ..., am)∈V.
(f1, ..., fn)∈(C[z1, ..., zn])n
representaφ.
Proposição 2.3.2 SejaV ⊂Cmuma variedade afim. Então
1. f e g ∈ C[z1, ..., zm] representam as mesmas funções polinomiais em V se, e
somente se,f −g ∈I(V).
2. (f1, ..., fn)e(g1, ..., gn)representam as mesmas aplicações polinomiais deV em
Cnse, e somente se,f
i−gi ∈I(V)para todoi, com1≤i≤n.
Demonstração: Se f − g = h ∈ I(V), então para todo p = (a1, ..., am) ∈ V,
f(p)−g(p) =h(p) = 0. Portantof egrepresentam a mesma função, então, em todo
p ∈ V, f(p)−g(p) = 0. Assim ,f −g ∈ I(V) por definição. A parte (2) segue da
parte (1).
Denotaremos porC[V]a coleção de funções polinomiaisφ:V →C.
Uma variedade V ⊂ Cm é ditaredutível se ela pode ser escrita como uma união de duas subvariedades próprias não vazias: V =V1∪V2, ondeV 6=V1 eV 6=V2.
Exemplo 2.3.3 Considere a variedade emC3dada porV(x3+xy−xz, yx2+y3−yz).
Não é difícil ver que
V(x2+y2−z)∪V(x, y).
Portanto,V é redutível.
A seguinte proposição caracteriza variedades irredutíveis.
Proposição 2.3.4 Seja V ⊂ Cn uma variedade afim. As seguintes afirmações são equivalentes:
1. V é irredutível;
2. I(V)é um ideal primo;
3. C[V]é um domínio de integridade.
2.3.1 Quociente de anéis polinomiais
Definição 2.3.5 SejaI ⊂C[z1, ..., zn]um ideal, e sejamf, g ∈C[z1, ..., zn].Dizemos
quef egsãocongruentes móduloI sef −g ∈I, denotando como segue
f ≡g mod.I.
Seja I ⊂ C[z1, ..., zn]um ideal. A congruência móduloI é uma relação de
equi-valência emC[z1, ..., zn].Funções polinomiaisφ : V → Cestão em correspondência
biunívoca com as classes de equivalência de polinômios em congruência móduloI(V).
Veja[10]pag.223.
Definição 2.3.6 O quociente de C[z1, ..., zn] módulo I, é o conjunto de classes de
equivalência para congruência móduloI
C[z1, ..., zn]
I ={[f] :f ∈C[z1, ..., zn]}.
Onde[f] ={g ∈C[z1, ..., zn] :g ≡f mod.I}.
PorC[z1, ..., zn]ser um anel, dadas duas classes[f],[g]∈ C[z1,...,zI n], podemos
defi-nir soma e produtoem classesusando as operações correspondentes sobre os elementos deC[z1, ..., zn]. Isto é, as operações induzidas
[f] + [g] = [f +g],
[f]·[g] = [f ·g], (1)
estão bem definidas.
Teorema 2.3.7 SejaI um ideal emC[z1, ..., zn]. O quociente C[z1,...,zI n] é um anel
co-mutativo.
Proposição 2.3.8 SejaIum ideal emC[z1, ..., zn]. Os ideais no anel quocienteC[z1,...,zI n]
Demonstração: Veja [10] pag.226
O seguinte corolário é uma consequência do teorema da base de Hilbert e da pro-posição 2.3.8.
Corolário 2.3.9 Todo ideal no anel quocienteC[z1,...,zn]
I é finitamente gerado.
2.3.2 Funções racionais em uma variedade
O anel dos números inteiros pode ser imerso em muitos corpos. O menor deles é o corpo dos números racionais Q, pois Q é formado pela construção de frações m/n,
ondem, n ∈ Z. Apenas números inteiros foram usados. Da mesma forma, o anel de polinômiosC[z1, ..., zn]é incluído como um subanel no corpo das funções racionais.
C(z1, ..., zn) =
f(z1, ..., zn)
g(z1, ..., zn)
:f, g∈C[z1, ..., zn], g 6= 0
.
Este é o chamadocorpo das fraçõesdeC[z].
Definição 2.3.10 SejaV uma variedade irredutível afim emCn. ChamamosC(V)de corpo de funções racionaisemV.
Escrevemos o corpo de funções racionaisC(V)explicitamente como
C(V) =
φ
ψ :φ, ψ∈C[V], ψ6= 0
=
[f]
[g] :f, g∈C[z1, ..., zn], g /∈I(V)
.
Definição 2.3.11 Sejam V ⊂ Cm e W ⊂ Cn variedades irredutíveis afins. Uma aplicação racionaldeV emW é uma funçãoφrepresentada por
φ(z1, ..., zm) =
f1(z1, ..., zm)
g1(z1, ..., zm)
, ...,fn(z1, ..., zm) gn(z1, ..., zm)
,
Note que uma aplicação racional φ de V paraW pode não ser uma função deV
paraW no sentido usual, ou seja,φpode não estar definida em todos os pontos deV.
Por esta razão, utilizaremos a seguinte notação para indicar uma aplicação racional
Capítulo 3
Folheações e Teorema de Frobenius
Para este capítulo sugerimos a leitura de [5] e [24]. Veremos as definições de folhe-ações holomorfas não singular e singular, os conceitos de distribuição de k-planos e algumas de suas propriedades. Enunciaremos o teorema de Frobenius. Sabemos que toda folheaçãoF de dimensãok induz uma distribuição de planosk-dimensional. O
teorema de Frobenius nos garante a recíproca desta afirmação. Isto é, nos dá uma condição necessária e suficiente para uma distribuição de planos k-dimensional seja
tangente a uma folheação.
Vale ressaltar que nos capítulos 5 e 6 estudaremos teoremas que nos fornecem algu-mas condições para a existência de integral primeira racional para campos de vetores polinomiais er-formas polinomiais respectivamente. E como veremos neste capítulo,
as distribuições possuem uma forte ligação com os campos de vetores e as formas.
3.1 Folheações Holomorfas
SejaM uma variedade complexa de dimensãon ≥2.
Definição 3.1.1 Umafolheação holomorfa não singular de dimensãok(ou codimen-sãon−k) emM, onde1≤k ≤n−1, é dada pelo seguinte conjunto de informações:
1. uma cobertura{Uα}α∈AdeM por abertos;
3. sempre queUαβ =Uα∩Uβ 6=∅,
Φαβ : Φα(Uαβ) −→ Φβ(Uαβ) (z, w) 7−→ Φβ ◦Φ−1
α (z, w) = (ϕ1, ϕ2).
satisfazΦαβ(z, w) = (ϕ1(z, w), ϕ2(w)).
Cada aberto Uα é chamado deaberto trivializadorda folheação. Por (2),Uα é de-composto em variedades de dimensãokda formaΦ−1
α (Dk× {w0}), ondew0 ∈Dn−k,
chamadas deplacas. Por (3), as placas se sobrepõem nas interseções de abertos trivi-alizadores da seguinte forma: sePα ⊂Uα ePβ ⊂Uβ são placas, ouPα∩Pβ =∅, ou
Pα∩Pβ =Pα∩Uβ =Pβ ∩Uα.
Definimos a seguinte relação de equivalência em M: p ∼ q se existem placas P1,· · · , Pn, comp ∈ P1 eq ∈ Pntais que P1 ∩Pi+1 6= ∅parai = 1,· · · , n−1. A
classe de equivalência dep∈ M por essa relação é chamada defolhapassando porp. Cada folha, com a topologia gerada pelos abertos de suas placas, possui estrutura de variedade complexa de dimensãok imersa emM, veja [5].
Uma folheação de dimensão k proporciona uma decomposição da variedade em subvariedades imersas de dimensãok, duas a duas disjuntas.
Oespaço tangenteà folheaçãoF emp∈ M, denotado porTpF, é definido como o espaço tangente, no ponto p, à folha passando por esse ponto. Dizemos que duas folheações são iguais se todas as suas folhas coincidem.
Definição 3.1.2 Umafolheação holomorfa singular de dimensãok (ou codimensão
n − k), onde 1 ≤ k ≤ n − 1, em uma variedade complexa M é uma folheação não singular de dimensão k em M \S, onde S é um conjunto analítico em M de codimensão maior ou igual a 2.
Exigiremos ainda que o conjunto S da definição acima seja minimal no seguinte sentido: não existe subconjunto analítico próprio S′ ⊂ S tal que a folheação regular
emM \Sse estenda aM \S′. Nessas condições,Sé chamado deconjunto singular
da folheação.
O conjunto singular da folheação F é denotado por Sing(F). Os elementos de
Sing(F)são chamados depontos singularesousingularidades, enquanto os elemen-tos deM \Sing(F)são chamados depontos regulares.
As folhas deF são, por definição, as folhas da folheação regularF|M\Sing(F). Duas
folheações singularesF eF′são iguais se:
2. as folhas regularesF|M\Sing(F)eF′|M\Sing(F′)são iguais.
3.2 Teorema de Frobenius
As demonstrações das proposições e dos teoremas desta seção podem ser encontradas em [5].
3.2.1 Distribuição
Uma distribuição de k-planos em uma variedade M é uma aplicação D que associa à cada ponto q ∈ M um subespaço vetorial de dimensão k de TqM. Dizemos que uma distribuição dek-planos é de classeCrse para todoq∈M existemkcampos de vetoresX1,· · · , Xkde classe Cr, definidos em uma vizinhançaV deqtais que para todox∈V,{X1(x),· · · , Xk(x)
}é uma base paraD(x). Um fato relevante segue
Proposição 3.2.1 Toda folheaçãoFde classeCr(r≥1)de dimensãokemM define uma distribuição dek-planos de classeCr−1 emM denotado porTF.
Definição 3.2.2 Dados dois campos de vetoresX, Y ∈ X(U), podemos produzir um terceiro[X, Y] =XY −Y X que é denominado ocolchete de LiedeX, Y.
Definição 3.2.3 Dizemos que uma distribuição de planos D é involutivo se, dados dois campos de vetoresX eY tais que, para cadaq ∈M, X(q)eY(q)pertencem a
D(q), então[X, Y] (q)∈D(q).
Uma distribuição dek-planosDé dita completamente integrável se para todop ∈ U ⊂ M tal que D(p) = hX1(p), . . . , Xk(p)i existe uma subvariedade Fp tal que
TpFp =D(p).
Teorema 3.2.4 (Frobenius) SejaDuma distribuição dek-planos de classeC∞.
En-tão,Dé completamente integrável se, e somente se, é involutivo.
3.2.2 Distribuição de
k
-planos definidos por formas diferenciais
Sejamω1,· · · , ωk Cr (r≥0)1-formas definidas e linearmente independentes em um conjunto abertoU ⊂Mm. Para cadaq
D(q) = {v ∈TqM; ωq1(v) = · · ·=ωqk(v) = 0} Comoω1
q,· · · , ωqksão elementos linearmente independentes do dual(TqM)∗,D(q) é um subespaço de codimensãokdeTq(M).
Proposição 3.2.5 Uma distribuição de planos de classeCr(r ≥0)de codimensãok pode ser definido localmente como o núcleo dask Cr 1-formas linearmente indepen-dentes. Reciprocamente, se ω1,· · · , ωk são Cr 1-formas linearmente independentes então
D(q) ={v ∈TqM;ωq1(v) =· · ·=ωkq(v) = 0} define uma distribuição de planos de codimensãok.
Segue a versão do teorema de Frobenius para formas.
Teorema 3.2.6 Seja D um Cr (r ≥ 1) distribuição de planos de codimensãok de-finido em um aberto U ⊂ M por ω1, . . . , ωk 1-formas linearmente independentes. EntãoDé completamente integrável se, e somente se, para todoj ∈ {1,· · · , k}temos
dωj
Capítulo 4
Hipersuperfícies invariantes por
endomorfismos polinomiais
Neste capítulo vamos estudar um teorema devido a S. Cantat, extraído de [6]. Este te-orema nos diz que um endomorfismo holomorfo sobre uma variedade complexa com-pacta preserva uma fibração meromorfa não trivial se, e somente se, possui infinitas hipersuperfícies totalmente invariantes. Nosso objetivo é apresentar uma adaptação desse teorema para endomorfismos polinomiais emCne demonstrá-la.
Antes da demonstração, apresentaremos alguns resultados importantes sobre endo-morfismos polinomiais e hipersuperfícies totalmente invariantes por esses endomorfis-mos. Faremos uso direto do Teorema dos Zeros de Hilbert para demonstrar algumas proposições fundamentais na prova da adaptação que fizemos.
Falaremos um pouco sobre formas logarítmicas apresentando um lema devido a Jouanolou.
Precisamente, o teorema de S. Cantat diz o seguinte.
Teorema 4.0.7 (Cantat) Seja M uma variedade complexa compacta, e f um endo-morfismo deM. Se existem k hipersuperfícies totalmente invariantesWi ⊂M; com
(∗) k > dim(M) +dim(H1(M; Ω1
M));
Então existe uma funçãomeromorfaΦe um número complexo não nuloαtal que Φ◦f =αΦ.
H1(M; Ω1
componentes irredutíveisWi. Mais sobre cohomologia de Cˇech pode ser visto em [12].
4.1 Hipersuperfícies Totalmente Invariantes
Definição 4.1.1 SejaV(f)uma hipersuperfície comf ∈C[z1, . . . , zn], dizemos queV
é totalmente invariante por um endomorfismo polinomialG:Cn−→CnseG−1(V) =
V.
Proposição 4.1.2 SejaV uma hipersuperfície totalmente invariante por um endomor-fismoG:Cn−→Cn, entãoG(V) =V.
Demonstração: Mostremos queG−1(V) = V ⇒ G(V) = V. Vamos mostrar que
G(V) ⊂ V. De fato, sejab ∈ G(V), então existea ∈ V tal queG(a) = b. Como G−1(V) = V, temosG(a) ∈ V, ou seja, b ∈ V. O caso G(V) ⊃ V segue de forma
análoga.
Definição 4.1.3 Uma aplicação contínuaf : M → N é ditaprópriaquando a ima-gem inversaf−1(K)de todo compactoK ⊂N é um conjunto compacto.
Teorema 4.1.4 (Teorema da aplicação própria). Sejaf : U ⊂Cn
→ Cnuma aplica-ção holomorfa e própria. SeV ⊂U é uma variedade algébria irredutível entãof(V) é uma variedade algébrica irredutível.
Demonstração: Ver [12] pag.34.
Seja V = V1 ∪. . .∪Vr uma hipersuperfície, com Vj irredutivel, para todo j = 1, . . . , r. Se Gé um endomorfismo polinomial, tal que G(V) = V. O lema abaixo
nos garantirá que parai, j = 1, . . . , rtemosG(Vi) =Vj. Isto é,Genvia componentes irredutíveis deV em componentes irredutíveis deV.
Lema 4.1.5 Toda aplicação polinomial homogênea é própria.
Demonstração: Mostremos primeiramente que dada a aplicação polinomial
p = (p1, ..., pn) :Cn → Cn,pi homogêneo de mesmo graud, existemm en tais que
nkzkd ≤ kp(z)k ≤mkzkd. Considere
Note que z
kzk ∈S(0,1)esfera centrada na origem de raio 1. Daí, usando a
homogenei-dade depresulta
nkzkd ≤ kp(z)k=kzkdkp( z
kzk)k ≤mkzk
d.
Verifiquemos com isso quepé uma aplicação própria. SejaK um conjunto compacto,
e defina L = p−1(K). Suponha por absurdo queLnão é compacto. Temos que L é
fechado, poispé contínua. Resta mostrar queLé limitado. Seja
z0 ∈Ltal quekz0k> supz∈K
d
q
kzk+1
m
,
comoz0 ∈p−1(K)temosp(z0)∈K. Ainda
supz∈K d
q
kzk+1
m
d
<kz0kd ⇒sup(kzk+ 1) <kz0kdm≤ |p(z0)|.
Absurdo, poisz0 ∈p−1(K).
ConsidereGum endomorfismo polinomial em Cn. SejamV ⊂ Cn uma hipersu-perfície totalmente invariante e V1, ..., Vr suas componentes irredutíveis. Como V é uma hipersuperfície totalmente invariante, segue da proposição 4.1.2 que
G(V) = V.
Portanto,
G(V1∪...∪Vr) = V1∪...∪Vr.
Utilizando o teorema da aplicação própria temos queG(Vi) = Vj, parai, j ∈ {1, ..., r}. Proposição 4.1.6 SeV(f)é uma hipersuperfície irredutível totalmente invariante, en-tão
Demonstração: Por definição
I(V) ={g ∈C[z1,· · · , zn] :g(z) = 0 ∀z ∈V}.
Dado p ∈ V, comoV é totalmente invariante (f ◦G)(p) = f(G(p)) = 0, ou seja, (f◦G)∈I(V). Pelo Teorema dos Zeros de Hilbert temos
(f ◦G)∈I(V) = √I =hfi.
Como(f◦G)∈I(V) = √I =hfisegue quef◦G=hf. Pelo fato deG−1(V) =V,
teremos que hf se anula exatamente em V, e pela irredutibilidade de V segue que
existeλ∈Ctal quef◦G=λfk.
Definição 4.1.7 Sejaf : N → M uma aplicação ehuma função emM. Opullback dehporf, denotado porf∗h, é a função compostah◦f.
Proposição 4.1.8 Sejam f1, ..., fr ∈ C[z1, ..., zn] polinômios irredutíveis cujo
con-junto de zeros definem uma hipersuperfície totalmente invariante por um endomor-fismo polinomialG:Cn −→Cn.Então
G∗dfi fi
=ri
dfj
fj ,
onde j = k(i), k é uma permutação dos elementos {1, ..., r} e ri ∈ N para todo
i= 1, ..., r.
Demonstração: ComoG(Vi) =Vk(i), segue da proposição 4.1.6 que
fi◦G=λifkri(i), λi ∈C∗. Utilizando a propriedade do pullbackG∗d =dG∗ segue
Logo
d(fi◦G)
fi◦G
= d(λif ri
k(i))
λifkr(ii)
= λirif ri−1
k(i) dfk(i)
λifkr(ii)
= ridfk(i)
fk(i) ⇔
G∗dfi
fi =ri
dfk(i)
fk(i)
Considere o espaçoE =hdfi/fi, i = 1, ..., riC.Pela proposição (4.1.8) temos
G∗ :E −→ E
dfi
fi 7−→
ri
dfj
fj
.
Note que a matriz deG∗é uma matriz permutação e portanto diagonalizável.
De fato, temos pela proposição 4.1.8
G∗dfj
fj =ri
dfi
fi .
Considere a permutaçãok :{1, ..., r} → {1, ..., r}comk(j) = i. SejaG∗ :E → E,
onde E = hdfi/fi, i = 1, ..., ri, temos pelo lema de Jouanolou (4.1.9)dfi/fi linear-mente independentes, segue que
[G∗] = [Gij] =
ri, j =k(i);
0, j 6=k(i).
4.1.1 Sobre formas logarítmicas
Lema 4.1.9 (Jouanolou). Sejamf1, ..., frpolinômios irredutíveis. Então as 1-formas logarítmicasdfi/fi são linearmente independentes sobreC.
Demonstração: Sejama1, ..., ar ∈Cefi como no teorema tais que r
X
i=1
aj
dfi
fi
= 0. (4.1)
Defina para i = {1, ..., r}, Vi = {fi = 0}. Pelo Nullstellensatz de Hilbert, pode-mos escolherpj ∈Vj rS1≤i≤r,
i6=j
Vi.
Agora, seja Lj uma reta afim passando por pj não contida emVj eu : C → Cn uma parametrização de Lj com u(0) = pj. Coloque gi = fi ◦ u, para todo i =
{1, ..., r}i6= j, a função g′
i/gi é regular em 0 eg
′
j/gj tem um polo simples em 0 com
Res(g′
j/gj,0) = ρi, que é a multiplicidade de 0 como um zero degj. Por outro lado, segue de (4.1) que
a1
g′
1
g1
+...+ar
g′
r
gr = 0
Tomando resíduo em 0 na equação acima obtemos aiρi = 0, pois as g
′
i/gi são holomorfas e, comoρi 6= 0, temos queai = 0parai= 1, ..., r.
4.2 Adaptação do Teorema de Cantat para
Endomor-fismos polinomiais
Teorema 4.2.1 Sejaf um endomorfismo polinomial deCn. Se existemk hipersuper-fícies totalmente invariantes com
k > n,
então existem uma função racional não constanteΦe um número complexo não nulo
αtal queΦ◦f =αΦ.
Este teorema significa que f preserva o pencil de hipersuperfícies induzido pela função racionalΦ. De fato, escrevaΦ = P/Qe considere o pencil de hipersuperfícies
induzido porΦdado porVλ ={P −λQ= 0}λ∈C. Dadoz ∈Vλ, então Φ(z) = P(z)/Q(z) =λ.
ComoΦ◦f =αΦ, comα6= 0, temos que
(Φ◦f)(z) = (αΦ)(z) = αΦ(z)
= αP(z) Q(z)
= αλ.
Daí, concluimos queΦ(f(z))∈Vαλ. Isto mostra quef(Vλ)⊆Vαλ. Portanto, as fibras da função racionalΦsão preservadas porf.
Demonstração: Defina a 1-forma racional ηi = dfi/fi comi = 1, ..., k. Comof∗ é diagonalizável, temos
f∗ηi =µiηi, i= 1, ..., k, (4.2) ondeµi ∈C∗.
Sef possuik > nhipersuperfícies totalmente invariantes, entãoηisão linearmente dependentes sobre o corpo de funções racionais emCn.
Suponha que o espaço vetorial E sobreC(z1, ..., zn), gerado por η1, ..., ηm tenha dimensão igual am. Temos então que
ηm+1 =
m
X
i=1
Riηi, Ri ∈C(z1, ..., zn). (4.3)
Pelo menos um dosRi′s é não constante pois pelo lema de Jouanolou lema(4.1.9), as
1-formasηi′ssão linearmente independentes sobreC.
Aplicandof∗ na equação (4.3) e usando (4.2) segue
f∗η
m+1 =
m
X
i=1
f∗(R
iηi) = m
X
i=1
(Ri◦f).f∗ηi = m
X
i=1
(Ri◦f).µiηi. (4.4) Por outro lado
f∗ηm+1 =µm+1ηm+1. (4.5)
Note queµm+1 6= 0. Caso contrário, teríamos
0 =µm+1ηm+1 =f∗η1 =
m
X
i=1
(Ri ◦f).µiηi. (4.6) Isto contraria o fato deη1, . . . , ηmserem linearmente independentes sobreC(z1, . . . , zn),
pois pelo menos um dosRi é não constante. Daí,
µm+1ηm+1 =
m
X
i=1
(Ri◦f).µiηi. (4.7) Comoµm+1 6= 0, segue, usando as equações (4.4) e (4.5)
ηm+1 =
m
X
i=1
µi
µm+1
(Ri◦f)ηi. (4.8) Subtraindo (4.3) de (4.8), temos
Pm i=1
h
µi
µm+1
(Ri◦f)−Ri
i
ηi = 0.
µi
µm+1(Ri◦f) =Ri.
Obtendo assim o resultado esperado pois pelo menos uma das funções racionaisRi é
não constante.
Exemplo 4.2.2 Considere o endomorfismo
g :C3 −→ C3
(x, y, z) 7−→ (x2, y2, z2).
Observe que os eixos coordenados {x = 0}, {y = 0}e {z = 0}são totalmente invariantes porg. De fato, considereW ={x= 0}, observe que
g−1(W) = {x∈C3 : g(x)∈W}.
Daí, dadop∈g−1(W), temos
g(p)∈W ⇒g(p) = (0, y, z)⇒p= (0, y1, z1), ondey12 =yez12 =z.
Portanto,g−1(W)⊂W.
Seja q = (0, y2, z2) ∈ W, temos então g(q) = (0, y22, z22), ou seja, g(q) ∈ W.
Daí, por definiçãoq ∈ g−1W. Concluindo assim queW ⊂ g−1(W). Portanto temos
g−1(W) =W.
Para os eixos{y = 0}e{z = 0}o raciocínio é análogo.
Capítulo 5
Integrabilidade de Darboux para
campos
Neste capítulo estudamos o teorema de integrabilidade de Darboux. Estudamos as condições para a existência de uma integral primeira racional para um dado campo de vetores polinomiais. A demonstração que apresentaremos do teorema de Darboux foi feita por M. Corrêa Jr em [9]. J. Llibre e Zhang em [20] mostraram esse resultado usando técnicas diferentes.
Após essa discussão, veremos a definição e alguns resultados sobre Curva extac-tica, conceito este introduzido por J. V. Pereira, C. Christopher e J. Llibre em [22]. Apresentaremos um exemplo de duas cotas, optimais, sobre o número de hipersuper-fícies invariantes por um campo polinomial. Essas cotas estão em função dos graus da folheação e das curvas. Utilizamos para isso as referências [8] e [22].
O resultado principal desse capítulo segue abaixo:
Teorema 5.0.3 SejaXum campo de vetores polinomiais emRn ouCn de graud. Se
X admite
d+n−1
n
+n
hipersuperfícies algébricas irredutíveis invariantes, entãoX admite uma integral pri-meira racional.
5.1 Campos de vetores polinomiais e Integrais
primei-ras racionais
Um campo de vetores polinomiais emCnde graudé da forma n X i=1 Pi ∂ ∂zi
ondePi ∈C[z]ed= max{deg(Pi),i= 1, ..., n}. Escreveremos por simplicidadeC[z] ao invés deC[z1, . . . zn].
Definição 5.1.1 Seja V(f) uma hipersuperfície algébrica em Cn e X um campo de vetores polinomiais. Dizemos queV é invariante porXsedf(X)|V ≡0.
A invariância deV porXsignifica queX(p)⊂TpVreg, ondeVreg =V \Sing(V)é a parte regular deV.
Proposição 5.1.2 SejaV = {f = 0}uma hipersuperfície emCn e X um campo de vetores polinomiais invariantes de graud. Então,V é invariante porXse, e somente se, existe um polinômiohf ∈C[z], de graud−1tal queX(f) = hff.
Demonstração: Esta proposição é uma consequência do teorema dos zeros de Hilbert. Com efeito, sejaX =
n X i=1 Pi ∂ ∂zi
um campo de vetores polinomiais, ondePi ∈ C[z]. Temos então que
df(X) = X(f) = n X i=1 Pi ∂f ∂zi . (5.1)
Suponha queV é invariante porX. Assim
0 = df(X)|V = n X i=1 Pi ∂f ∂zi !
V. (5.2)
n
X
i=1
Pi
∂f ∂zi ∈ h
fi. (5.3)
Logo,
X(f) =hf ·f. Observe que se o grau def igual amentão
d+ (m−1) = grau(X(f)) = grau(hf ·f)
= grau(hf) +grau(f) = grau(hf) +m.
Segue quegrau(hf) = (d−1).
Definição 5.1.3 Seja R = P/Q ∈ C(z1, ..., zn) uma função racional. Considere o
pencil de hipersuperfícies induzido porRdado por{P −λQ = 0}λ∈C. Dizemos que
R é uma integral primeira racional paraX seVλ = {P −λQ = 0}é invariante por
X para todoλ∈C.
Corolário 5.1.4 SejaRuma função racional. EntãoRé uma integral primeira deX
se, e somente se,X(R)≡0.
S
T = X(R)
= X(R−λ)
= X
P Q−λ
= X
P −λQ Q
= QX(P −λQ)−(P −λQ)X(Q)
Q2
= (P −λQ)hλQ−X(Q)(P −λQ)
Q2
= (P −λQ)
Qhλ−X(Q)
Q2
. ∀λ∈C.
Logo, teremosS =T·(P−λQ)Qhλ−X(Q)
Q2
, para todoλ∈C. Como existem infinitos
λ’s, temos queSé o polinômio identicamente nulo. Segue então queX(R)≡0.
Reciprocamente seX(R)≡0temos
X(R)≡0 ⇒ X(R−λ) = 0
⇒ X
P Q −λ
= 0
⇒ X
P −λQ Q
= 0
⇒ QX(P −λQ)−(P −λQ)X(Q)
Q2 = 0
⇒ X(P −λQ) = (P −λQ)X(Q)
Q .
Logo, pela proposição 5.1.2Vλ é invariante porX, para todoλ∈C. Proposição 5.1.5 SejaX =
n X i=1 Pi ∂ ∂zi
e considere an-formaη1∧...∧ηn. Então
iX(η1∧...∧ηn) =
n
X
i=1
(−1)i−1P
Ondeηˆi significa a omissão do termoηi.
Demonstração: Faremos essa demonstração por indução. Sejam o campo X =
P1η1 +P2η2 e a 2-formaη1 ∧η2. Segue então pelas propriedades de produto interior
que
iX(η1∧η2) = (iX(η1))∧η2+ (−1)η1∧(iX(η2)) =P1η2−P2η1.
Suponha que o resultado seja válido paraX = k−1
X
i=1
Pi
∂ ∂zi
e para a(k−1)-forma
η1∧η2 ∧...∧ηk−1, comk ∈N, ou seja,
iX(η1∧...∧ηk−1) =
k−1
X
i=1
(−1)i−1Piη1∧...∧ηˆi∧...∧ηk−1.
Então, parak
iX(η1∧...∧ηk) = (iX(η1))∧(η2∧...∧ηk) + (−1)η1∧(iX(η2 ∧...∧ηk))
= (iX(η1))∧(η2∧...∧ηk) +η1∧
k
X
i=2
(−1)iPiη2∧...∧ηˆi∧...∧ηk
!
= P1η2∧...∧ηk+ (−1)η1∧
k−1
X
i=1
(−1)i−1Piη2∧...∧ηˆi∧...∧ηk
!
= k
X
i=1
(−1)i−1Piη1∧...∧ηˆi∧...∧ηk.
Portanto, pelo princípio de indução segue o resultado. Lema 5.1.6 Seja X um campo de vetores polinomiais em Cn e η1, ..., ηn 1-formas racionais tais que ηi(X) = 0 ∀i = 1, ..., n. Então η1, ..., ηn são C(z)-linearmente dependentes.
η1∧...∧ηn =Rdz1∧...∧dzn.
De fato, ηi =
X
Rijdzj, ondeRij ∈ C(z). Fazendo o produto exterior deη1, ..., ηn,
temos
η1∧...∧ηn=Rdz1∧...∧dzn, ondeR =det[Rij]. Contraindoη1∧...∧ηnna direção deX =
n
X
i=1
Pi
∂ ∂zi
resulta
iX(η1∧...∧ηn) =iX(η1)∧(ηb1∧η2∧...∧ηn)
| {z }
0
+(−1)1η1∧iX((ηb1∧η2∧...∧ηn))
| {z }
(∗)
.
Observe que (*) será igual a zero. Basta usar indução de forma semelhante ao que foi feito na proposição (5.1.5).
Utilizando a linearidade da contração,
(iXRdz1∧...∧dzn) = RiX(dz1∧...∧dzn).
Daí
RiX(dz1∧...∧dzn) = 0∀i= 1, ..., n.
ComoR 6= 0e utilizando a proposição 5.1.5 , temos (dz1∧...∧dzn)(X) = 0 ⇔
n
X
i=1⇒
(−1)i−1P
idz1∧...∧dzci∧...∧dzn= 0. Isto significa, que
P1 =...=Pn = 0.
5.2 Prova do Teorema 5.0.3
Relembrando o teorema:
Teorema 5.0.3: SejaX um campo de vetores polinomiais emRnouCnde graud. Se
X admite
d−1 +n n
+n
hipersuperfícies algébricas irredutíveis invariantes, entãoX admite uma integral pri-meira racional.
Demonstração: Denote porCd−1[z]o espaço vetorial dos polinômios de graud−1.
A dimensão deCd−1[z]é dada por
dimCCd−1[z] =N :=
d−1 +n n
.
Sejamf1, ..., fN+nequações definindo hipersuperfícies irredutíveis invariantes porX. Segue da proposição 5.1.2 que
dfj
fj
(X) =hfj ∈Cd−1[z], j = 1, ..., N +m.
ComoN =dimC(Cd−1[z])seguem as seguintes relações
N+i
X
j=i
λijhfj = 0, i= 1, ..., n, (5.4)
onde λij ∈ C. Além disso, podemos supor que λii 6= 0. Definamos as 1-formas racionais
ηi = N+i
X
j=i
λij
dfj
fj