Rotura Gástrica por Barotrauma
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Saad-Hossne et al. Rev. Col. Bras. Cir.
Relato de Caso ISSN 0100-6991
ROTURA GÁSTRICA POR BAROTRAUMA
BAROGENIC RUPTURE OF THE STOMACH
Rogerio Saad-Hossne, TCBC-SP1; Renê Gaberini Prado,TCBC-SP1; Alexandre Bakoniy Neto1;
Rodrigo Severo de Camargo Pereira2; Roberta Thiery Godoy Arashiro2
1. Profeesor Doutor do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu.
2. Residente em Cirurgia do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP.
Recebido em 13/06/2005
Aceito para publicação em 15/08/2005
Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia e Ortopedia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP. INTRODUÇÃO
A rotura gástrica por barotrauma constitui uma cau-sa rara de abdome agudo perfurativo, tendo sido encontra-dos poucos relatos na literatura1-,4. É geralmente tratada por
laparotomia exploradora e rafia primária da lesão, porém, se-gundo Yeung et al1, em alguns casos é possível adotar-se
conduta conservadora. Descrevemos um caso de rotura trau-mática de estômago pós intubação oroesofágica.
RELATO DO CASO
S. C. P., 20 anos, sexo feminino, puerpera, em trata-mento de tuberculose pulmonar com isoniazida e rifampicina, apresentou no 5º dia de puerpério, piora do quadro pulmonar, intensificação da dispnéia, tosse produtiva e febre; o diag-nóstico clinico e radiológico foi compatível com broncopneumonia. Evoluiu com piora progressiva do qua-dro, mesmo em vigência de antibioticoterapia de amplo es-pectro (imipenem e clindamicina), progredindo para insufici-ência respiratória aguda, necessitando de intubação orotraqueal e ventilação mecânica. Após a entubação, evo-luiu com distensão abdominal importante, desaparecimento da macicez hepática (sinal de Jobert) e dificuldade de ventila-ção, sendo então constatada canulação iatrogênica do esôfago. Realizado exame radiográfico simples do abdome, que demonstrou pneumoperitônio extenso (Figura 1). Indicada
laparotomia exploradora para tratamento do pneumoperitonio, durante a qual foi constatada rotura em pequena curvatura gástrica de aproximadamente 7 cm de extensão; a conduta adotada foi rafia da lesão em dois planos e drenagem da cavi-dade. A paciente recebeu alta hospitalar no 14° pós-operató-rio após término da antibióticoterapia e recuperação da insu-ficiência respiratória causada pela pneumonia.
DISCUSSÃO
As causas mais freqüentes de ruptura gástrica por barotrauma encontrados na literatura estão relacionadas a re-animação cardiopulmonar, oxigenoterapia com cateter nasal e acidentes com mergulhadores1,2,3.
A lesão gástrica por barotrauma pode apresentar-se sob diversas formas, desde lacerações parciais da mucosa até rotura completa da parede gástrica, devido à distensão cres-cente do órgão associada a espasmo do piloro e angulação do cárdia, o que impede a saída do ar, formando um mecanis-mo de válvula1.
A lesão gástrica ocorre na pequena curvatura em aproximadamente 73% dos casos1 e algumas séries de
autóp-sias já revelaram a ocorrência de lacerações gástricas parciais em 10% dos pacientes submetidos a reanimação cardiopulmonar, todas na pequena curvatura4.
A ocorrência preferencial da lesão gástrica por barotrauma na pequena curvatura já foi atribuída exclusiva-mente à Lei de Laplace, segundo a qual a pressão dentro de uma cavidade é diretamente proporcional à tensão exercida em sua parede e inversamente proporcional ao raio desta ca-vidade, conforme a fórmula: P=T(1/R1+1/R2).
Considerando que na pequena curvatura o raio na visão coronal está direcionado para fora e que na grande cur-vatura ambos direcionam-se para dentro, conclui-se que, na pequena curvatura, um dos raios tem sinal negativo. Portan-to, neste caso, a soma dos raios será significativamente me-nor que na grande curvatura, exigindo assim maior tensão para resultar em um mesmo valor de P4.(Figura 2)
No entanto, esta teoria não considera a heterogenicidade da parede gástrica. A pequena curvatura freqüentemente apresenta largas pregas longitudinais em sua extensão com variações de espessura, sendo que as porções mais delgadas apresentam maior suscetibilidade aos aumen-tos de tensão5.
Saad-Hossne et al. Rotura Gástrica por Barotrauma
139 Vol. 34 - Nº 2, Mar. / Abr. 2007
No presente caso optou-se pela intervenção cirúr-gica devido ao estado séptico da paciente, a incerteza diagnóstica e a extensão do pneumoperitonio. Apesar de haver relatos na literatura1 de sucesso com o tratamento
con-servador, baseado em antibioticoterapia de largo espectro e drenagem gástrica via sonda com aspiração contínua, das rupturas gástricas por barotrauma, optamos pelo tratamento operatório em virtude do quadro clinico da paciente. Duran-te o procedimento verificamos que a rotura ocorreu na pe-quena curvatura, que é o local freqüentemente acometido1,4.
Nossa opção pela ráfia em dois planos, decorreu das condi-ções locais e da extensão da lesão conforme já relatado ante-riormente. A causa provável da lesão gástrica desta paciente foi decorrente da ventilação com pressão positiva no esôfago.
Apesar da tuberculose e da pneumonia, a paciente apresentou boa evolução pós-operatória, não apresentando complicações.
Entendemos que todo procedimento realizado, como entubações e drenagens, deva ser seguido de checagem e cuidados imediatos para, assim, evitar compli-cações com esta.
Figura 2 – Local preferencial de rotura na pequena curvatura, se-gundo a lei de Lapalce.
ABSTRACT
Barogenic rupture of the stomach is a rare complication following cardiopulmonary resuscitation, administration of nasal oxygen by catheter and diving accidents. We report a case of gastric barotrauma following oroesophageal intubation. In most cases, the tears occur along the lesser curvature, what have been already attributed to Laplace´s formula and, more recently, to morphological features of the stomach (Rev. Col. Bras. Cir. 2007; 34(2): 138-139).
Key words: Stomach rupture; Intubation; Barotrauma
REFERÊNCIAS
1. Yeung P, Crowe P, Bennett M. Barogenic rupture of the stomach: a case for non-operative management. Aust N Z J Surg. 1998;68(1):76-7.
2. Cole DS, Burcher SK. Accidental pneumatic rupture of oesophagus and stomach. Lancet. 1961;1:24-5.
3. Darke SG, Bloomfield E. Case of complete gastric rupture complicating resuscitation. Br Med J. 1975;3(5980):414-5. 4. Barker SJ, Karagianes T. Gastric barotrauma: a case report and
theoretical considerations. Anesth Analg. 1985;64(10):1026-8. 5. Kempen PM. Static and dynamic considerations in gastric
barotrauma. Anesth Analg. 1986;65(5):540-1.
Como citar este artigo:
Saad-Hossne R, Prado RG,Bakoniy Neto A,Pereira RSC,Arashiro RTG. Rotura gástrica por barotrauma: relato de caso. Rev Col Bras Cir. [periódico na Internet] 2007; 34(2). Disponível em URL: http://www.scielo.br/rcbc
Endereço para correspondência: Rogério Saad-Hossne
R. Tenente Silvio Besteti, 366 - Vila Padovan Botucatu - SP