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E N T R E V I S TA
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m 25 de abril de 1974 a revo-lução dos cravos, em Portugal derrubava o governo de Marce-lo Caetano e com ele os resídu-os da longa ditadura salazarista. Pedro Rebelo de Sousa, recém-formado em direito, trabalhava como assistente na Universidade Clássica de Lisboa, atuando na área de Direito Constitu-cional. “O que não era fácil, pois não havia constituição, era a chamada ‘ca-deira sem objeto’ ou com objeto, mas parcial”, conta, rindo. O Brasil sempre fora uma realidade próxima, desde cedo convivera com o círculo de seu pai (Baltazar Rebelo de Sousa, médi-co, professor e político – foi deputado e penúltimo governador-geral de Mo-çambique): João Havelange, Carlos Lacerda, Negrão de Lima, Juscelino Kubitschek. Quando Pedro desembar-cou no país, em 1976, o Brasil vivia um processo de crescimento, com muita oportunidade de trabalho, sobretudo para um jovem advogado que intencio-nava fazer carreira na área empresarial. Pensou trabalhar com Pinheiro Neto, “quando fui conversar com ele o achei muito conservador e arrogante. Depois nos tornamos amigos”, mas finalmente fez carreira no Citibank. Iniciou como advogado júnior, chegando à vice-presi-dência, chefiando o Departamento Ju-rídico de Operações e Contratos Inter-nacionais. Depois, já vivendo em Nova York, liderou a Divisão Internacional de Mercados Financeiros e oDepar-tamento de Empréstimos e Reestrutu-rações. Em 1990, quando a economia portuguesa voltava a ser de mercado, retornou a Lisboa a convite do então primeiro-ministro Cavaco e Silva, com a incumbência de reprivatizar o Banco Fonsecas & Burnay.
Defensor do Acordo Ortográfico por acreditar que “a língua é um denomina-dor comum e elemento facilitadenomina-dor para a realização de negócios internacionais”, acaba de assumir a direção do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG), após criar a Portugal Legal, de olho na internacionalização da advoca-cia e nas oportunidades que se abrem na Europa. “A advocacia precisa ser profundamente internacional, sobretu-do quansobretu-do se está no espaço europeu”. Prova disso é que o seu escritório, SRS-Sociedade Rebelo de Sousa, abre frente em vários países. Viciado em blackber-ry, que permite ficar sempre em tempo real, durante uma hora não o consultou. “Policiei-me, mas durante a nossa con-versa deixei de ler 52 e-mails”, disse, ao verificar o aparelho após a entrevista. A seguir trechos da conversa realizada na sede do seu escritório em Lisboa.
Por que a decisão de se mudar para o Brasil?
Pedro Rebelo de Sousa Foi
resulta-do decerta desilusão pessoal com a re-volução de 25 de abril. Para nós, jovens que havíamos sonhado com a liberda-de e a liberda-democracia, o que víamos era
um país cada dia mais distante desses ideais. Tivemos sim uma ditadura de esquerda, marxista, completamente caótica [risos]. O país estava um caos:
militares no poder, descolonização, retorno das colônias, a Faculdade de Direito sempre em greve e a economia estatizada, sintoma de falta de eficiên-cia. Olhava aquilo e via um país para-do no tempo. Foi quanpara-do pensei que poderia começar em outro continente, já que Portugal estava parado, e muitos de meus clientes, como minha família, estavam no Brasil.
Mas o Brasil vivia um regime ditatorial.
Rebelo de Sousa Naquele
momen-to já estava claro que seria inevitável o movimento de volta à democracia. Também havia outro fator: a econo-mia brasileira crescia e proporcionava oportunidades. O Brasil começava o seu endividamento externo com gran-des projetos, criara-se há pouco a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e se introduziam novos instrumentos, como o leasing e o factory. Do ponto de vista
jurídico era um mundo em explosão, e estava se firmando a primeira gera-ção dos escritórios de advocacia, como o Pinheiro Neto e o Demarest. Uma coisa importante a comentar sobre a ex-periência no Brasil é que nunca senti discriminação como profissional estran-geiro. O sotaque até podia atrapalhar um pouco, e eles se divertiam muito, sobretudo porque fazia fórum na área
Por Carlos Costa Fotos José Geraldo Oliveira
PLATAFORMA PARA O MuNDO
Num momento em que o Brasil internacionaliza suas empresas e assume a liderança na
comunidade de língua portuguesa, a antiga metrópole pode ser boa porta de entrada
ENTREVISTA
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trabalhista e o juiz muitas vezes não en-tendia bem o que eu falava, olhava para mim, tentava fazer leitura labial [risos]
e com isso já ganhava a simpatia. A mi-nha situação era dura, pois estava na posição de defender multinacional na Justiça do Trabalho [risos], como
advo-gado do Citibank. Uma causa perdida...
[pensativo] Olhando para trás, acho que
era uma forma de a sociedade corrigir um pouco determinados desvios. Mas o fato é que adorei São Paulo e lá nas-ceram meus dois filhos, dois paulistas orgulhosos da nacionalidade brasileira: são bilíngues [risos].
Bilíngues em português?
Rebelo de Sousa Há uma
tendên-cia de o português falado aqui conver-gir para o do Brasil, e por várias razões. Uma é a imigração brasileira, muito ativa agora em Portugal, outra são as novelas da Globo. A migração brasileira é transversal, começa com o presidente da TAP e termina no moço da lancho-nete da esquina. Mas no momento em que fui ao Brasil, muitos acadêmicos portugueses que enfrentaram proble-mas com a revolução foram lecionar Direito no Brasil: José de Oliveira As-censão foi para o Recife, João de Matos Antunes Varela foi para a Bahia, traba-lhar com Orlando Gomes. Para o Rio de Janeiro foram o Almeida e Costa, o Diogo de Campos e Inocêncio Mon-telos, além do Marcelo Caetano; para São Paulo, Alberto Xavier, Miguel Pin-to Correia e AugusPin-to Ataíde.
O senhor estudou na FGV.
Rebelo de Sousa Primeiro fiz uma
pós-graduação em Direito Empresarial na PUC, curso liderado por Eduardo Bottallo. Depois fiz o MBA na FGV de São Paulo. Fiquei fã incondicional da Fundação Getulio Vargas, tanto que tentei trazer o GVlaw para Lisboa. Es-tou tentando há anos e tenho a esperan-ça de conseguir um dia.
Mas o senhor falava da experiência no Citibank...
Rebelo de Sousa Lá fiz carreira
como se fazia antigamente: comecei como advogado júnior, depois gerente adjunto, gerente, diretor, vice-presiden-te. Fiz a escadinha até montar em São Paulo a Unidade de Contrato
Interna-cional do banco, que era o principal credor do Brasil. Naquele período pre-sidi a Câmara Portuguesa de Comércio. Mas foi no departamento jurídico do Citibank onde desenvolvi minha traje-tória, estruturando operações financei-ras, fusões e aquisições de bancos de investimentos, como o Crefisul.
Quando foi para Nova York, o Brasil vivia um momento de crises financeiras, a cha-mada década perdida.
Rebelo de Sousa No período das
renegociações da dívida, o Citibank presidia o comitê dos bancos credores, com a interlocução do Banco Mun-dial e do Fundo Monetário em Wa-shington, além do Clube de Paris. O responsável por essa área era William R. “Bill” Rhodes, com quem eu traba-lhava.Foi uma oportunidade fantástica ir trabalhar em Nova York e, quando se recebe um convite assim, com 30 anos, ele é irrecusável. Era a oportu-nidade de ter experiência na área de business e fora do universo do direito, embora trabalhasse com muitos advo-gados e coordenasse as atividades deles. Fiquei três anos em Nova York. Ainda que estivesse um pouco em desacordo com a orientação do banco, participei de algumas negociações com o Brasil. As negociações começaram com o An-tônio Carlos Lemgruber, mas a grande negociação foi realizada com o Dílson Funaro e o Bresser-Pereira. Sempre fui muito favorável ao Brasil, o que às ve-zes tornava até difícil participar dessas rodadas. Quando era com os represen-tantes do México ou da Argentina, era mais fácil [risos].
Porque no caso torcia pelo devedor?
Rebelo de Sousa Para a maioria dos
portugueses que como eu que viveu no Brasil, o país torna-se uma segun-da pátria. Quando escreverem sobre a história da dívida externa, será preciso dar muito destaque à atuação do Dílson Funaro. Ele foi um grande negociador e virou uma página dessa história, pois foi quem disse que não iria pagar em dólares. “Vou pagar em moeda local em uma conta no Banco Central”. Houve um episódio muito interessante. O Bill
[William R. Rhodes] queria promover
um jantar reunindo os presidentes dos bancos centrais de diversos países. O encontro aconteceu no restaurante Le Cygne, e quando começamos o jantar, o presidente do Citibank falou para o Dílson: “Percebemos que o Brasil tem problemas e nós queremos ajudar”. E o Funaro respondeu, em um inglês muito elegante: “Você está enganado, não tenho problema algum. Quem tem problema são vocês e quem está disponível para ajudar sou eu” [risos].
Funaro estava certo, pois se eu devo mil euros o problema é meu, mas se devo milhões, o problema passa a ser do credor [risos]. Foi aquele silêncio, todos
os outros presidentes de bancos centrais olhando para o Funaro. Deviam estar pensado: “Esse homem é louco e isso será um grande problema”. Foram três anos difíceis de negociações, mas o pro-blema maior foi a mudança no time de negociadores. Houve o Funaro, o Bres-ser-Pereira, o Fernando Milliet, o Fer-não Bracher, o Sérgio Amaral e depois o Maílson da Nóbrega. Mas foram três anos em que adquiri muita experiên-cia em negoexperiên-ciação e aprendi muito, do ponto de vista jurídico ou negocial, e sobre o mundo financeiro.
Por que disse que estava em desacordo com a posição do Citibank?
Rebelo de Sousa O Citibank, como
a maioria dos bancos, acreditava que a crise brasileira era conjuntural. Sempre defendi que era estrutural. Enquanto o Brasil não conseguisse ter uma estrutu-ra de classe média assentada, com uma inversão do ciclo de concentração de riqueza, a crise não seria resolvida. O fato de hoje existir uma classe média afluente em parte se deve ao Governo Fernando Henrique e à mudança de
paradigma introduzida por ele quanto à abertura da economia. O Fernando Collor deu o pontapé inicial e o FHC deu sequência, quebrando e mudando o paradigma para a abertura da econo-mia. Indiscutivelmente FHC é o maior estadista das democracias de língua por-tuguesa do século XX.
E depois desse período no Citibank?
Rebelo de Sousa Saí da área de
negociações de dívida e fui para a de compras e falências, com estrutura-ções de operaestrutura-ções na área de fusões e aquisições para as chamadas economias em vias de desenvolvimento. Em 1990, com a entrada de Portugal na União Europeia, a economia voltou a ser de mercado. E o primeiro-ministro Cava-co e Silva fez o Cava-convite para trabalhar na reprivatização do Banco Fonsecas & Burnay, foi o primeiro banco 100% privatizado, comprado pelo BBI (Ban-co Borges e Irmão), hoje parte do BPI (Banco Português de Investimento). A privatização deveria ser estruturante do sistema, tanto que uma das condi-ções era que fosse comprado por outra instituição financeira. Passei dois anos nesse trabalho e creio que fiz bem, por-que ninguem se por-queixou ainda [risos]. Aquele momento que Portugal vivia, de reprivatização de empresas e do setor financeiro, foi muito interessante pois surgiam novos produtos, mais ou me-nos o que eu vivera quando fora para o Brasil. E eu estava em posição relativa-mente de vantagem competitiva, pois tinha experiência internacional, estu-dara no Brasil com o Waldir Bulgarelli na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, sem contar a experiência como advogado militante no Brasil em uma época da inflação e isso exigira muita criatividade.
Foi uma escola de gestão.
Rebelo de Sousa Claro. O advogado
é o braço direito do gestor e tem de pro-por soluções criativas, que sejam legais, para contornar os problemas.
Como se iniciou a internacionalização da SRS?
Rebelo de Sousa Fizemos uma
associação com o Escritório Pinheiro Neto e com o Garrigues, da Espanha, e com o Simmons & Simmons de
Lon-dres. E tudo correu bem até o Antonio Garrigues resolver se fundir com Arthur Andersen. A maioria dos advogados do consórcio achava essa união impraticá-vel. Afinal, uma empresa de auditoria com outra de advogados não pode dar certo, pois existe conflito de interesses. Como posso aceitar auditar as contas de alguém se estou auditando em be-nefício de terceiro e não do cliente? A auditoria se faz em benefício dos credo-res e acionistas, não do cliente. A ver-dade é que fui contra e a certa altura o Pinheiro Neto resolveu se aliar com o escritório espanhol Gómez-Acebo & Pombo, e também não estávamos de acordo, pois esse escritório já tinha outro parceiro aqui em Portugal. Com muita amizade nos separamos. O Pi-nheiro saiu e ficou o Simmons.
Esse foi o grande momento de crescimen-to de seu escritório?
Rebelo de Sousa Começamos com
três advogados na década de 1990 e para crescer realizei muitos projetos no les-te europeu, em uma época em que a economia de lá estava se abrindo, na pós-Perestroica.
Havia grande aposta no leste europeu, até pela qualidade da educação. Por que ela não se concretizou?
Rebelo de Sousa Isso tem muito
a ver com a crise interna e a forma como as economias daqueles países evoluíram. A mudança para o regime democrático não deve ter sido coisa fá-cil. Trabalhei na Rússia e na Ucrânia, coordenando a equipe que propôs o Código de Investimentos Estrangeiros,
espécie de lei do Banco Central. Mas quando montei o escritório havia pou-cos advogados especializados em Di-reito Bancário e Financeiro e na época escrevi quais deveriam ser os princípios de nosso escritório. O primeiro foi a ins-titucionalização, quer dizer que nesse modelo não há família, pois o escritó-rio é uma instituição. Aqui, como tam-bém no Brasil na década de 1960, os escritórios eram dos doutores A, B ou C. A instituição deve sobreviver a seus criadores, se institucionalizar, com um plano sucessório e de desenvolvimento. Chamamos de Grupo Legal Português, para não aparecer o nome de nenhum dos sócios. Depois a Ordem dos Advo-gados exigiu que constassem os nomes dos advogados e tivemos de mudar para SRS (Sociedade Rebelo de Sousa).
Por que não seu nome?
Rebelo de Sousa Queremos que as
pessoas identifiquem o símbolo, a mar-ca. Outro ponto de nossos princípios é a especialização. A Ordem não reconhe-cia a espereconhe-cialização, fomos os primeiros a defendê-la, pois todo mundo sai ga-nhando: o cliente, que é atendido por um profissional especializado, o advo-gado, que desenvolve uma habilidade em área específica. O terceiro ponto é a profissionalização. Em 1993, como também no Brasil da década de 70, o advogado ia para a empresa, trabalhava duas horas, corria para a universidade, voltava para o escritório para acompa-nhar processos em andamento. Quere-mos que o escritório seja o centro da vida profissional do advogado. É até possível dar algumas aulas para manter elos com a academia, mas não dá para fazer carreira acadêmica, senão fica a sensação de que nem todos puxam o barco com a mesma intensidade. E o ponto final é a internacionalização.
A internacionalização é agora sua meta?
Rebelo de Sousa Veja, Portugal é um
país pequeno e só conseguiu sobreviver quando fez sua expansão internacional pelo mar. Ele não é um país de destino, é um Estado que tem como sua prin-cipal característica ser uma plataforma. A advocacia precisa ser profundamente internacional, sobretudo quando se está no espaço europeu. Crescemos e conse-guimos chegar em 1997 como um dos
Funaro respondeu
ao presidente do
Citibank: “Você
está enganado, não
tenho problema.
Quem tem problema
são vocês e quem
está disponível para
ajudar sou eu”
A advocacia precisa
ser profundamente
internacional,
sobretudo quando
se está no espaço
europeu. Nesse
sentido, Portugal
passa a ser uma
plataforma
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10 maiores escritórios, pois havia uma estratégia clara: ser referência na área de direito. Hoje temos mais de 100 advo-gados com presença na Ilha da Madei-ra e Porto, uma aliança com a VeiMadei-rano Advogados, o que nos dá presença em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Ribeirão Preto e Brasília, além da nos-sa associação com a Simmons & Sim-mons, que cobre o leste europeu, Japão, China, Oriente Médio. E há seis meses fizemos acordos em Angola, Cabo Ver-de e Moçambique.
Angola teve picos de crescimento de até 20% ao ano e ninguém falou sobre isso.
Rebelo de Sousa A guerra em
Ango-la afugentava investidores. Quem achou que valia a pena investir foi a Odebrecht, a Petrobras e alguma empresa portugue-sa. Hoje as maiores construtoras presen-tes em Angola são brasileiras, portuguesas e chinesas. A China é caso especial, pois eles nem usam mão de obra local, tra-zem presidiários para trabalhar e quando termina vão embora. Em Angola como em Moçambique há muito a fazer e isso significa potencial de investimento, sem contar que têm riquezas naturais como petróleo, diamantes e a agricultura. An-gola era o segundo maior produtor de café do mundo, grande exportador de al-godão; Moçambique produz soja e caju, e o agrobusiness é a bola da vez. Temos quatro coisas em comum: língua, direito, história-cultura e, finalmente, economia. A presença da língua é mais forte do que se pensa. Qual a comunidade que tem um terço, com quase 40% da população ativa de Luxemburgo? É a aportuguesa. Temos a maior comunidade branca na África do Sul e forte presença no Cana-dá, na Venezûela, na Austrália. É o poder de uma comunidade que está espalhada e que, devidamente estruturada, aprovei-tada e alavancada, pode ter interesse em investimentos.
A estratégia de internacionalização da SRS passa por esses países?
Rebelo de Sousa Refiro-me ao
mun-do de língua portuguesa. Por mais que haja diferenças, a língua é um denomi-nador comum e elemento facilitador, tanto que lutei por trinta anos pelo acordo ortográfico. Fui criador junta-mente com Mario Soares e Fernando Henrique Cardoso da Fundação Luso
Brasileira, que presidi por dez anos. Há outro ponto importante, temos um di-reito muito parecido. E nos últimos 15 anos vem ocorrendo um movimento de investimento cruzado que cria uma rede de interesses muito significativa. Veja, dos sete maiores grupos constru-tores de Portugual, dois são brasileiros: Odebrecht e Andrade Gutierrez. A Odebrecht tem boa parte da sua plata-forma de internacionalização a partir de Portugal. A antiga estrutura das empre-sas que tratavam do armamento portu-guês, a Oficina Gerais de Manutenção, é hoje da Embraer, e está situada em Évora. Vamos refletir sobre isso: parce-la significativa dos lucros da Odebrecht vem de Portugal e de Angola. O maior projeto siderúrgico de Moçambique é da Vale do Rio Doce; o maior acionista
do Millenium BCP (Banco Comercial Português) é a Sonangol, Sociedade Na-cional de Petróleos de Angola, que com outros grupos angolanos são acionista da GALP, a empresa portuguesa de pe-tróleo e energia; no Brasil, 50% da Vivo é do grupo Portugal Telecom; a maior empresa de embalagem de plástico no Brasil é a portuguesa Logoplaste. As empresas brasileiras e angolanas vivem uma vertigem de internacionalização de suas economias e o Brasil tem vinte empresas que serão grandes atores no cenário internacional. Só para ter uma ideia, três dos vinte dos maiores ban-cos do mundo são brasileiros: o Banco do Brasil, o Itaú e o Bradesco. Essa era uma conversa impossível e impensável há cinco anos. Recentemente, a cimen-teira portuguesa Cimpor, que opera em 13 países de quatro continentes
(Euro-pa, Ásia, América do Sul e África), com forte presença no Egito, China, África do Sul e Índia, foi avidamente disputa-da por empresas brasileiras, a CNS, Vo-torantim e Camargo Corrêa. Portugal poderá servir de base para grupos bra-sileiros que querem entrar na Europa.
A internacionalização do Brasil precisa passar por Portugal?
Rebelo de Sousa Não precisa, mas
é obvio que é interesse nosso que passe. Fora a língua, existem outras facilida-des. Estamos a hora e pouco de voo para qualquer país europeu. Temos um porto com o Atlântico no meio. Esse potencial ainda não foi 100% ex-plorado. Houve o problema do caos da revolução do 25 de abril, depois a en-trada do país na União Europeia e no Euro, então tudo ficou muito europeu. E também, é bem verdade, andávamos às avessas com a história da indepen-dência do Brasil [risos]. Hoje a história
tem sido mais justa em relação à loucu-ra que foi o êxodo de 30.000 pessoas en-fiadas em uns barcos precários, saindo daqui para lá, carregando até os livros da biblioteca, que era uma das maiores da Europa, e que ficou lá.
Mas o Brasil pagou por ela, fez parte da indenização pela independência. E a se-paração ocorreu pela provocação da elite portuguesa.
Rebelo de Sousa A elite
portugue-sa foi muito tacanha, acabou depau-perada. O grande problema das elites portuguesas é a falta da internaciona-lização, o fato de ficar confinada na síndrome da pequenez. Mesmo com as indefinições e incertezas, a decisão de Dom João de fugir para o Brasil foi revolucionária e só por isso o Brasil tem uma música maravilhosa, a arqui-tetura barroca. Na história dos séculos XIX e XX houve poucos momentos de convergência. O primeiro, quando Portugal declarou a República mas os dois países estavam de tanga, com problemas internos e sem capacidade de resolvê-los. Depois, quando Salazar e Vargas fizeram os primeiros acordos houve certa simpatia até pela forte migração portuguesa que havia para o Brasil. No período de Juscelino Ku-bitschek houve aproximação em mui-tos aspecmui-tos e pela primeira vez
eco-nômica, quando Walter Moreira Sales fez os primeiros projetos no Algarves. Outro momento foi quando Marcelo Caetano e o Governo Geisel assinaram o Estatuto de Igualdade, que permite que qualquer brasileiro chegue aqui e se inscreva no dia seguinte como jor-nalista e vice-versa. Isso nenhum outro país europeu tem. Só ocorreu outro ponto de encontro quando o Brasil se estabilizou após o governo FHC e aqui havia grupos privatizados com capaci-dade de se internacionalizar. E agora o momento atual, de uma confluência num período muito bom. Hoje é con-senso que o Brasil é naturalmente líder da comunidade de língua portuguesa.
Em que isso se traduz?
Rebelo de Sousa Que o Brasil tem
um protagonismo forte, a ponto de fa-zer com que a língua portuguesa seja língua oficial da ONU, daí a
importân-cia do acordo ortográfico, para que não haja diferentes escritas de português.
A Alzira foi muito importante em sua vida profissional?
Rebelo de Sousa [risos] Quando
estava no departamento jurídico do Ci-tibank, recebi um telefonema do vice-presidente da Mendes Jr., que estava se internacionalizando e entrando no Ira-que e buscava alguém para a área inter-nacional. Ofereceram um salário quatro vezes maior do que eu ganhava. Antes de conversar com o presidente, procurei a Alzira, cartomante que a minha mãe sempre consultava. Apesar de muito católica e ir à missa, mamãe também se aconselhava com ela e depois tirava a média [risos]. Por via das dúvidas fui
à consulta. Alzira tirou as cartas. “Você irá fazer uma pequena viagem, terá uma proposta de trabalho muito boa que irá recusar. Vejo um hospital, isso quer
di-zer que acontecerá um acidente. Você se mudará três vezes de continente. Bem, sofri um acidente sério em Gua-rulhos e mudei três vezes de continente.
E a proposta profissional?
Rebelo de Sousa No dia seguinte
fui a Belo Horizonte conversar com o presidente, Murilo Mendes, e levei minha esposa, pois queria que ela fos-se fos-se acostumando. Visitamos Ouro Preto, Mariana. Adoramos a cidade e até andamos procurando casa para morar. Fui para a conversa com o pre-sidente, levei um chá-de-cadeira de 6 horas. Com aquele ar de quem tem 30 anos, disse a ele: só esperei para falar ao senhor que não trabalho para uma pessoa que me faz esperar seis horas. Se a mim, que não sou seu funcionário, o senhor me faz esperar esse tempo, ima-gino quando eu trabalhar aqui. Terei que esperar dias [risos].