Universidade de São Paulo
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
LILIAN RIED MILLER BARROS
A cor inesperada
Uma reflexão sobre os usos criativos da cor
Universidade de São Paulo
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
LILIAN RIED MILLER BARROS
A cor inesperada
Uma reflexão sobre os usos criativos da cor
Tese apresentada como exigência parcial para a obtenção do título de Doutor pelo programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Área de concentração: Design e Arquitetura
Orientação: Prof. Dr. Silvio Melcer Dworecki
AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO,
POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E
PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.
E-MAIL: [email protected]
BARROS, Lilian Ried Miller. A cor inesperada: uma reflexão sobre os usos criativos da cor. Tese (Doutorado / Área de concentração: Design e Arquitetura) FAUUSP. Orientador: Silvio Melcer Dworecki. São Paulo, 2012.
Palavras-chave: cor, percepção visual, semiótica discursiva,
Para meus sobrinhos Marina e Vitor,
com suas expressões deliciosamente inesperadas.
agradecimentos
Muitos são os relatos que ouvimos de amigos e conhecidos sobre a árdua tarefa de
empreender uma pesquisa de doutorado e concluí-la dentro do prazo estipulado. Este caso
não foi diferente, mas posso acrescentar com satisfação que a experiência foi também
repleta de emocionantes descobertas e de um significativo aprendizado que ultrapassa o
assunto da tese, estendendo-se às situações da vida. Somam-se, dessa forma, à sensação
de tarefa cumprida as lições e reflexões apreendidas nas obras dos autores estudados,
como Greimas, Deleuse, Morin, Lipovetsky, Batchelor, Luria, Baudrillard, Barthes, entre
outros.
Assim, primeiramente, quero agradecer ao orientador desta pesquisa, Prof. Dr. Silvio
Melcer Dworecki, que me instruiu, logo de início, com sabedoria e precisão, a ampliar as
referências bibliográficas, indicando autores e obras fundamentais para os rumos que
foram tomados. A este querido amigo e grande incentivador de descobertas, o meu mais
profundo agradecimento e minha admiração.
Devo também ao professor Silvio Dworecki a oportunidade de ter conhecido a especialista
em optometria e educação visual, Fernanda Leite Ribeiro, com quem pude conversar e
esclarecer muitas dúvidas sobre a neurobiologia dos sistemas visuais e a quem também sou
imensamente grata pela indicação do livro Vision and art: the biology of seeing, de
Margaret Livingstone.
Outro passo essencial para este estudo foi o contato com o COS, Programa de Estudos
Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, por meio do qual pude participar
como aluna especial do curso sobre a teoria semiótica discursiva ministrado pela Prof. Dra.
Ana Claudia de Oliveira. Agradeço muitíssimo à professora Ana Claudia por ter me recebido
em suas instigantes aulas, que tanto contribuíram para esta reflexão sobre os usos criativos
da cor.
Estendo este sincero agradecimento ao apoio carinhoso recebido dos colegas de classe e
amigos da PUC, que me ajudaram a elucidar dúvidas, colaboraram com valiosas indicações
bibliográficas e ainda me convidaram para participar de diversos eventos sobre o assunto,
especialmente Pedro dos Santos Silva, Rafael Lenzi, Carolina Fernandes da Silva, Silvia
Foram muitos os amigos que, de alguma maneira, cooperaram e me incentivaram durante
o desenvolvimento deste trabalho, tornando-o menos solitário. Agradeço a todos eles com
carinho, em especial ao apoio de Luciana Bechara Sanchez, Luciana Garcia, Carlos Nobre
Camargo, Margarida De Biase, Carla Aranha, Juliana Hirayama, Fábio Hirayama, Marçal
Aimoré, Carlos Laurino, Walkiria Sunagawa, Rosana Martinez, Renata Figueiredo, Lina Ka,
Silvia Mitie Shikibu, Rubens de La Corte, Fernanda Carvalho, Eduardo Yeh, José Maria Dias
da Cruz, James R. Hunter e à amiga Isabella Masano, também pela acertada indicação de Maria Helena Amaral Muniz de Carvalho que realizou uma cuidadosa revisão do texto.
Com muita admiração e afeto agradeço à primeira pessoa a quem mostrei a versão
preliminar do capítulo “entre as cores”: minha mãe, Roxania Ried Miller. Com sua energia e
determinação características, esta mulher excepcional sempre me estimula e encoraja.
À Karen, minha irmã querida, que foi mais do que compreensiva e companheira nos
momentos árduos desses quatro anos de pesquisa, e à minha estimada família – Hilno
Duarte de Barros, Marcelo e Terezinha Fiusa – também agradeço pelo apoio, atenção e
amizade.
Ao Marcelo Barros Pitta, meu querido namorado, minha profunda gratidão, não só pelo
companheirismo e dedicação, mas também pelo valioso auxílio na etapa final de impressão
resumo
Este trabalho se resume ao estudo dos usos criativos da cor presentes nos discursos visuais
contemporâneos, à luz da neurobiologia visual e da semiótica discursiva proposta por A. J.
Greimas e seus colaboradores, com o propósito de compreender a diversidade das suas
articulações expressivas e significações.
Os discursos visuais e sincréticos selecionados nesta pesquisa como corpus de investigação
das ocorrências dos usos criativos da cor correspondem a produções cinematográficas,
animações, campanhas publicitárias e objetos de design, produzidos entre 1980 e 2012.
Sem perder de vista o estado da arte dos sistemas cromáticos e das tecnologias química e
digital, esta tese objetiva ampliar as conexões usualmente associadas aos efeitos sensíveis
das composições cromáticas, integrando outros campos de investigação aos costumeiros
estudos simbólicos e psicológicos da cor – a neurobiologia dos sistemas visuais e a
semiótica plástica –, que complexificam a experiência estética, possibilitando uma análise
qualitativa que colabora com os processos criativos. Sendo nossa hipótese a de que a
restrição às teorias do simbolismo cromático leva designers, artistas, publicitários e todos
aqueles que utilizam a cor em seus ofícios a possibilidades limitadas e muito previsíveis do
uso das cores.
A conclusão das análises comparativas, mostrando a diversidade de significados assumidos
pela cor no corpus estudado, nos leva a confirmar que os usos criativos da cor vão além das
associações simbólicas, e se articulam semissimbolicamente às tramas dos discursos,
construindo significações particulares e inesperadas que cooperam com as mensagens e
seus efeitos comunicativos.
O presente trabalho se propõe a refletir sobre o papel da cor na construção do mundo
visível contemporâneo, buscando diversificar e ampliar a discussão sobre os seus
significados e as redes de relações que os mesmos estabelecem com os contextos visuais e
discursivos, constituindo-se como uma alternativa para considerar os efeitos de sentido da
cor e indicando caminhos para a sua exploração ampla e não dogmática, útil aos processos
criativos.
Palavras-chave:
cor, percepção visual, neurociência, semiótica discursiva,
abstract
The unexpected color
a reflection on the creative uses of color
This assignment involves the study of the creative uses of color present in contemporary visual
discourses in light of the visual neurobiology and the discursive semiotics proposed by A. J.
Greimas and his collaborators, in order to understand the diversity of its expressive relations
and meanings.
The visual and syncretic discourses selected in this research as the corpus to investigate the
occurrences of creative uses of color are cinematographic productions, animations, advertising
campaigns and design objects produced between 1980 and 2012.
Without losing sight of state-of-the-art color systems and chemical and digital technologies,
this thesis seeks to expand the connections usually associated with the sensitive effects of
chromatic compositions, integrating other fields of investigation to the customary symbolic
and psychological studies of color: the neurobiology of visual systems and plastic semiotic.
These increase the complexity of the aesthetic experience, allowing a qualitative analysis that
aligns with the creative processes. Since our hypothesis is that the restriction to theories of
color symbolism leads designers, artists, advertisers and all those who use color in their
professions to limited and very predictable possibilities of the use of colors.
The conclusion of the comparative analyzes, showing the diversity of meanings carried by color
in the studied corpus, leads us to confirm that the creative uses of color go beyond the
symbolic associations, and are semi-symbolically related to the flow of discourses, constructing
special and unexpected meanings that cooperate with the messages and their communicative
effects.
The present work intends to reflect on the role of color in the construction of the
contemporary visible world, seeking to diversify and broaden the discussion about its
meanings and the networks of relationships that it creates with the visual and discursive
contexts, as well as establishing itself as an alternative to the thinking on the color sense
effects and pointing the way to a wider extensive and non dogmatic exploration, which can be
useful to the creative processes.
sumário
Introdução
... 13Um olhar contemporâneo para a cor ... 14
Capítulo 1:
entre as cores
... 21A busca por descontinuidades: a produção das sensações cromáticas segundo a neurobiologia dos sistemas visuais ... 23
O olho e o espectrofotômetro... 31
Espaço de cor: copresença das dimensões física e sensível ... 34
Contraste cor oponente ... 38
Constância cromática ... 42
Preto e branco: cores sem matiz ... 45
Cor e profundidade: vibração da cor e bordas instáveis ... 59
Sobre a complexidade da visão: diversos sistemas se conectam para formar a imagem ... 63
As limitações impostas pela língua: da sensação visual à denominação verbal das cores (e vice-versa) ... 68
Capítulo 2:
o semissimbolismo cromático
... 73O formante cromático: a cor como constituinte das formas e co-operante dos efeitos de sentido ... 74
O semissimbolismo cromático: as articulações da cor nos discursos visuais ... 80
Pleasantville (A vida em preto e branco) ... 88
Edward Scissorhands (Edward mãos de tesoura) ... 99
Relações extraobra e conclusões – Interpretação ... 113
Capítulo 3:
mundos em preto-e-branco,
monocromáticos e coloridos
... 130As atmosferas dos lugares e dos estados psicológicos... 131
The purple rose of Cairo (A Rosa Púrpura do Cairo) ... 131
Mary & Max ... 136
A Very Long Engagement (Eterno amor) ... 142
Slumdog Millionaire (Quem Quer Ser Um Milionário?) ... 148
Capítulo 4:
a cor como indicador de mudança
... 155Sazonalidade, efemeridade e obsolescência ... 155
A passagem do tempo ... 157
Preto-e-branco: do passado à imaginação ... 162
A alteração de estados ... 172
Capítulo 5:
percursos da cor
... 179Primeiro percurso do VERMELHO: Lola Rennt (Corra Lola, corra) ... 180
As cores do personagem: um vermelho conectado a outros elementos ... 182
O vermelho da urgência, do reinício e da cumplicidade ... 184
Segundo percurso do VERMELHO: The sixth sense (O sexto sentido) ... 192
Um palco para o vermelho: a atmosfera de uma suave neblina azulada ... 193
O frio, o medo, o tremor e o arrepio ... 194
A construção de um vermelho insólito ... 196
O verde como contraponto ... 202
A barraca vermelha: frágil abrigo ... 204
Primeiro percurso do AZUL: Corpse Bride (Noiva Cadáver) ... 207
Entre dois e muitos azuis:
Azuloscurocasinegro (Azul Escuro Quase Preto) ... 214
A valorização das microdiferenças: a sociedade-moda e o culto às diferenças ... 217
A singularidade e a pluralidade da cor: duas perspectivas ... 222
Capítulo 6:
desdobramentos
... 225Conclusão ... 247