DL\ PRATICA E DO DISCURSO ESCOLAR
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DA PRÁTICA E DO DISCURSO ESCOLAR
.
Eu.'It,(:c.e Ma,Jtilt' God.inho MOJta.ndo
Dissertação subDetida
à
apreciação do Departamento de Psicologia como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Educação.Orientadora:
Maria Lucia do Eirado Silva
Rio de Janeiro Fundação Getúlio Vargas
Instituto de Estudos Avançados em Educação Departamento de Psicologia da Educação
~ 411rr.., ... . . . - - ... ' - _ •• ~ .•• -~, ... - , .. - .
Ma~~ que o4~entado4a, ma~~ que am~ga;
po~~~b~l~dade conc4et~zada de ~e4 o
p406e~~o4 um apo~o, um gu~a, ~ma
aju-da na con~t4u~ão do conhecimento,~em,
ja.ma..i~, ~e ~mpo4, ~ubmete4 ou meno~ p4eza.4 o aluno; con6~4ma~ão de no~~a. c4en~a na viab~lidade de uma educa.~ão ~ em ~uj ei~ão.
Gostaríamos de agradecer a todas as pessoas que foram nossas interlocutoras e partícipes na realização des te trabalho:
• Professores, supervisores, diretores e alunos da Escola Municipal Cecília Meireles e da Escola Municipal Cosette de Alencar, com quem dividimos o questionamento das prá-ticas escolares cotidianas;
• Maria Lucia do Eirado Silva qu~ com uma orientação
segu-ra, calma e amiga, tornou este trabalho de dissertação
um grande e curtido prazer;
• Jos& Maria Pereira Guerra, Maria das Graças Oliveira (es pecialmente), Maria de Fátima Godinho Morando e Neide Te
rezinha Dias CoimbT~, colegas professores do Col&gio de
Aplicação João XXIII, da UFJF, que, assumindo mais aulas, possibilitaram nosso afastamento das atividades docentes
para cursar este mestrado. E, ainda, a Juc&lia Ramos Fl~
riano Peixoto (professora), Maria Rinaldi Carvalho Mira~
da (diretora), Sérgio Marcos de Ávila Negri
(vice-dire-tor) , cujo apoio foi importante na' consecução deste afas tamento;
• Vania Lúcia Souza Sampaio, que nos deu prestimosa colabo
raçao na traduçio do texto "Subjec~ and Powe~" de Michel
Foucault;
• Professores, alunos e funcionários do IESAE com quem par tilhamos estudos e experiências, anseios e dúvidas;
• Eunice Godinho Morando e Humberto de Azevedo Morando, ami gosjpais, os responsáveis pelo nosso olhar de amor e ale gria para com a vi~ai
APRESENTAÇÃO CAPrTULO 1
..
.
.. .. .. .. ...
.. ...
.. , ...
.
...
DISCUTINDO A ESCOLA - O TRÂNSITO DO PESSOAL AO TECRICO E A VIA INVERSA - A TEORIA COMO ALIADA NO QUESTIONAMENTO DA PRÀTICA EDUCACIONAL
COTI-pág.
2
DIANA. .. .. .. .. .. • . .... .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 24
CAPrTULO 2
O PODER SEGUNDO A CTICA FOUCAULDIANA .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. ..
..
2.1. O poder disciplinar e a sociedade ociden-t a 1 eu rope ~. 1 a ... ... ..
2.2. A necessidade de docilizar e adestrar os corpos ou o papel da disciplina na manu
-82
82
tenção do poder... .•.•••.•••.•.•.•.••••. 99 2.2.1. Os corpos dóceis... 99 2.2.2. Os recursos para o bom adestramento... 119
CAPrTULO 3
ESTUDOS EM CAMPO... 139
3.1. A execução . . . , ... 139
3.2. Caracterização das escolas... 144 3.2.1. Localização da escola e tipo de clientela. 148 3.2.2. O espaço físico... 148 3.2.3. A forma administrativa... ... ••• ••••• 152 3.2.4. A formação do professor e o tempo de
ser-viço . . . , . • . . . 156
3.3. As práticas escolares disciplinares e sua
continuidade na sala de aula... 160
3.3.1. O 3.3.2. O 3.3.3. O 3.3.4. A
que as observações mostraram •••••••••••• que as entrevistas revelaram ••.•...••••• que podemos en ten de r . . . , .. , . . .
dificuldade da mudança . . .
160 181 263 271 CONSIDERAÇOES FINAIS... 282
BIBLIOGRAFIA •.••.•.•...•••••.•...• , . . . . . • • . • . • . • . 292
AN EXO •••••••••• t • • • • • • • • • • • • • • • , • • • • , , • • • • • • • • • , , • • • 296
Procurou-se desenvolver uma reflexão sobre a
esco-la brasileira atual, suas dificuldades e seus problemas, bem
como investigar a idéia de cisão entre saber e poder
presen-te nos postulados de neutralidade e objetividade'da ciência
moderna e dominante na concepçao de conhecimento que
dire-ciona a instituição educativa.
Nossa análise partiu de uma perspectiva foucaul
Üiana de poder para entender o processo disciplinar da
esco-la e seus mecanismos de vigilãncia e controle que perpassam
o cotidiano da mesma e que conduzem
ã
sujeição e aoadestra-mento do corpo físico, materia4 para se atingir a submissão
cognitiva e política.
A acumulação de capital precisou de uma minuciosa
e calculada tecnologia da sujeição para produzir a acumula ~
çao de homens o que sustenta e expande um aparelho de
produ-çao que, por sua vez, mantém e utiliza os homens. A econo
-mia capitalista apóia-se no poder disciplinar cuja "anato-mia
política" funciona através de regimes políticos, aparelhos e
instituições diversas, entre as quais encontra-se a escola.
Um trabalho em campo buscou detectar, tanto as tec
nologias de poder vigentes e suas práticas, quanto as mani
-festações de resistência atuantes e seus modos de expressão.
Tentou-se, ainda, analisar a dificuldade de mudar
estas práticas, tendo como orientação as conceituações de
O pensamento de Nietzsche conduziu a crítica e a
discussão desta escola que temos, bem como a proposição de
novos valores para a educação, com o consequente
questiona-mento e suspeição do valor dos valores que norteiam esta
e-ducação.
We have intended to realize a reflection about
present brazilian school, its difficulties and its problems,
as well as to investigate the idea of split between know
ledge and power, that is implied in the postulates of neu
-trality and objectivity of modern and dominant science, as
it appears in the conception of knowledge that directs the
educational institution.
Our analysis begins with Foucault's point of view
about power to understand the school's disciplinary process
and its mechanisms. of vigilance and control, pervading the
daily routine and leading to subjection and training of the
physical, material body, in view of reaching the cognitive
and political submission.
The capi tal' s accumula tion have required a detailed·
and calculated technology of subjection to produce an
accu-mulation of men, which sustains and spreads out a production
apparatus which, by its turn, maintains and uses the men.
The capitalist economy rest on the disciplinary power,uhose
"political anatomy" operates by means of political regimes,
apparatus and various instituions, including the school.
In an empirical research, we try to identify both
the standing power technologies with its practices, and the
resistance manifestations in action, with its ways of
Guattari's conceptions about the "word of order".
Nietzsche's thinking led the critic and the dis
-cussion concerning this school which is ours, as well as the
proposition of new values for education, with the consequent
questioning and suspicion about the value of values that
guide this type of education.
:tudo o que. ~e. Jte..e.a.c~on.a. com
o~ ~e.u~ d~~cZpu.e.o~1 - ~n.c.e.u ~n.do a. ~~ pJtô p~o" •
Nietzsche*
Pensamos que a perspectiva foucauldiana pôde ser
aplicada
à
pesquisa que realizamos por se tratar de ummo-do de olhar e não de uma metomo-dologia com seus passos e
re-gras a serem observados. Foi este modo de olhar que
orien-tou a pesquisa. Foucault coloca a liberdade como a capaci
dade das pessoas se revoltarem dentro da rede de poder em
que suas vidas estão inseridas e da qual fazem parte.
Se-gundo John Rafchman, Foucaul t vê a
"( ••• ) liberdade não como fim da dominação
mas como revolta dentro de suas praticas e
dominação não como
ção ideologica mas
de ação possível,
trola".l
-repressao ou
mistifica-como formações dispersas
que ninguem dirige ou con
.
Foi sob. este ponto de vista que a pesquis.a esteve
ancol'ada, ou seja, pensamos que seria interessante e
váli-do verificar se na escola existem pontos de revolta, gost~
ríamos de saber como as forças em jogo na escola estão ou
nao se reunindo no sentido da autonomia.
Acreditamos estar em acorde com a teoria foucaul
diana ao termos tido como objetivo, neste trabalho,
procu-ramos saída para a escola brasileira, unirmos forças para
a emergência de uma alternativa singular e própria a esta
lP...ajchrnan, John.Fouc.a.ui..:t: a liberdade de Filosofia. Rio de Janeiro,
escola concreta que temos e, principalmente, ao
fornecer-mos subsidios, atrav~s da pesquis~.para fomentar a revolta
no inierior mesmo da dominação - a ievolta dentro da pro-
-pria escola. Cumpr·e-nos esclarecer que a palavra revolta na
concepção foucauldiana não tem a conotação de destrutivid~
de, de aniquilaçã~ mas, sim, uma positividade, no sentido
de erupção de uma força ou melhor de um somatório de
for-ças que se conjugam de uma certa maneira e que, nesta con
jugação, fabricam, produzem algo novo, inusitado.
A distinção entre revolta e revolução ~ de
cru-cial importância no pensamento de Foucault. Ele propoe
uma P?litica pós-revolucioniria, uma história nominalista,
na qual a liberdade
é
uma contingência do presente (não apromessa de um novo regime) e não existe um grupo respons~
vel pela mudança da configuração de poder (arautos da
li-berdade e da consciência, tão comuns nos discursos e
pro-postas revolucionárias). A liberdade em Foucault não
esta-ria na consciênci~mas na capacidade de rebelião contra
quaisquer tipo de definição, classificação, categorização
pretensamente naturais ou cientificas, impostos por uma de
terminada configuração de poder.2
Em História da Sexualidade I - A vontade de
sa-ber, Foucault nos fala da possibilidade de resistência den
tro da sua concepção de poder. Para ele, os pontos de
re-2para maiores esclarecimen~úOs sobre'esta questão ver Rajchman, J. Fou
sistência "representam. nas relações de poder, o papel de
adversário, de alvo, de apoio, de saliência que permite a
preens.ão".3 Desta forma, o que exis te sao
"( .•. ) resistências, no plural, que sao ca-
-sos únicos, possíveis, necessárias, improv~
veis, espontâneas, selvagens, solitárias,
arrastadas, -~i~lerttas, irreconciliáveis,
prontas as compromisso, interessadas ou
fa-dadas ao sacrifício"."
com exi~tência tão somente "no campo estratégico das
rela-ções de poder". Tais resistências, no entanto, não sao
ape-nas um subproduto do poder, um outro lado passivo que está
continua e inexoravelmente destinado i derrota. As
resis-tênci'as são definidas por Poucault como "o outro termo nas
relações de poder".
"o
in terlocutor irredutível", tendo seuspontos disseminados irregularmente no tempo e no espaço,
sendo, tais pontos, mais comumente móveis e transitórios~
provocando disrupções que se deslocam e provocam o
surgi-mento de novas unidades e reagrupasurgi-mentos sociais, bem como
recortes e remodelagens nos corpos e almas dos individuos.
"Da mesma forma que a rede das relações de
poder acaba formando um tecido espesso que
atravessa os aparelhos e as instituições,
sem se localizar exatamente neles, também a
pulverização dos pontos de resistência atr~
vessa as estratificaç~es sociais e aS'unida
des individuais".s
3Poucault., M. H-L6-tõJti..a. da ·,M2.x.u.a..Li:cktde 1. A vontade de .6a.beJt. Rio de Janeiro, Graal, 4.ed., 1982. p. 91.
4 Ibidem, p. 91.
A concepçao foucauldiana de poder bas tan te
di-versa da concepçao masxista, para a qual o poder seria
exercido e mantido pelos aparelhos repressivos de Estado
(polícia, exército, administração, magistratura) e pelos
aparelhos ideológido de Estado (escola, família, igreja)
--engloba virias proposições:
· "o
poder se exerce a partir de inúmeros pontose em meio a relações desiguais e móveis";
· as relações de poder "são os efeito:;
imedia-tos das partilhas, desigualdade e desequilibriosque se
produzem nas mesmas (re lações sociais, sexuais, econômicas)
e, reciprocamente, são as condições internas destas
dife-renciações; ( ... ) possuem, li onde atuam, um papel
direta-men te produtor";
· "o pode r vem de baixo, ( .•. ) as corre lações de
força múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de pr~
dução, nas famílias, nos grupos restritcs e instituições,
servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atraves
sam o conjunto do corpo social";
· "as relações de poder sao, ao mesmo tempo,
in-tencionais e não subjetivas. Se de fato, são inteligíveis.
não é porque sej am efeito, em termos de causalidade" de uma
outra instância que as explique, mas porque atravessadas
de fora por um cilculo; não hi poder que se exerça sem uma
série de miras e objetivos";
· "li onde hi poder hi resis tência e, no en tan to
(ou melhor, por isso mesmo), esta nunca se encontra em
tos de resist~ncia estão presentes 'em toda a rede de
po-d~r".6
Para John Rajchman, "Foucault introduziu uma con
cepçao de poder como uma profunda configuração estratégica
em que classes ou grupos nunca são agentes controladores". 7
Deste modo, a mudança advém não pela tomada do poder ou p~
la destruição das instituições, mas pela luta que 1~está em
curso o tempo todo em todas as coisas corpos, costumes,
leis, linguagens, moral, artes etc."s e pela revolta
por-que ela faz parte do próprio poder, porpor-que "em todos os
ep!.
sódios e redes existe sempre revolta e rebelião, atual e
potencial".'
Para sermos fiéis
à
perspectiva foucauldiana,nósa tomamos do modo como ele a entendia, ou seJa, enquanto
prática. Gilles Deleuze usando o nos, referindo-se
-
a sipróprio e a Foucault, diz que estão vivendo as relações
teoria-prática de um modo diferente, divergindo tanto da
concepçao da prática ser uma aplicação da teoria quanto da
concepçao da prática ser a fonte de inspiração da teoria.
As relàções teoria-prática são vistas de forma diferente
porque são tomada? como "parciais e fragmentárias" e nao
como um processo de totalização. "A prática é um conjunto
6 Foucault, M. Op. cit., p.89-91.
1Rajchman, J. Fouca.uU: a. UbeJLdade da 6Uollo6ia.. Cp. cit., p. 59. sIbidem. Op. cit., p. 59-6~.
mento de uma prática a outra",lO: Citando como exemplo o
GIP (G.rupo de Informação Prisões), organizado por Foucaul t
para dar voz aos prisioneiros, Deleuze diz que este nao
passou da teoria ã prática, que não havia aplicação, refor
ma ou pesquisa tomadas na sua concepção tradicional, mas,
sim, "um sistema de revezamentos em um conjunto, em uma
multiplicidade de componentes ao mesmo tempo teóricos e
práticos".ll
Foucault, em resposta, diz que
" c... .• }
a t e o r i anã o e xp r e s s a r a, não t r a d u z ira, não aplicara uma pratica: ela ê uma p~~
:t-<.ca. Mas local e regional. (. •• 1- nao
tota-lizadora. Luta contra o poder, luta para fa
zi-lo aparecer e feri~lo onde ele ~ mais 1n
visível e insidioso, Luta não para uma
'to-mada de consciência' (há muito tempo que a
consciincia como saber esta adquirida pelas
massas e que a consciincia como sujeito
es-ta adquirida, eses-ta ocupada pela burguesia},
mas para a destruição progressiva e a
toma-da do poder ao lado de todos aqueles que l~
tam por ela, e não na retaguarda, para
es-clareci-los. Uma ':teo~-<.a' ê o sistema regi~
nal desta luta",12
o
educador, o professoré
um intelectual. Nesteponto compartilhamos do pensamento de Henry Giroux, ~mbora
não tenhamos como apoio para nossa pesquisa e análise da es
1 o..Poucault , M, Mi~o6Z6.Lc.a.. dQ pod~~ Rio de Janeiro, Graal, 19.88, p. 62-7U.
1.lIbidem, p. 7U.
cola primária a teoria marxista que
é
basilar na sua análi se e interpretação da escola, na sua pedagogia radical. 13Partindo desta premisssa - o professor
é
um intelectual - fica claro que a ele cabe um papel nesta luta, um
papel que inclui a recusa de ser tomado como representante
de seus alunos, de ser a consciência deles, de dizer e
sa-ber o que é melhor para eles, de se postar contra as formas
de poder que o tomam tanto como objeto quanto como
instru-mento de poder, ao centralizar nele a verdade, o saber, a
posse do discurso e da consciência.
Segundo Poucault, o intelectual universal
carac-terístico do séc. XIX e início do séc. XX, que "era por ex
celência o escritor: consciência universal, sujeito livre,
opunha-se àqueles que eram apenas eompetêneia~ a serviço
do Estado ou do Capital (engçnheiros, magistrados,
profes-sores),"14 cedeu lugar ao intelectual específico em
virtu-de virtu-de a politização passar a ter seu ponto virtu-de partida na
atividade específica de cada um.
E
daí que evola aimpor-tância do professor e também da universidade como "permut!
dores, pontos de cruzamentos privilegiados". 15 A transposi
ção de um tipo de .in telectual a outro se deveu ao
"desen-volvimento das estruturas técnico-científicas na sociedade
contemporânea."16 a partir de 1920 mais acentuadamente.
Ho-1 3Gi roux, H. E6 eola. CIr1ii.c.ae Po.e.1:tic.a Cui.twr.a.i. 2~ ed. são Paulo, Cortez, 198~,
p.
21 aS?14poucault, M. Op. cito p .. 9. SobT~'o papel do intelectual ver UiCllO
nl.6ic.a do podeJr., p. 8-14 e'· 70-71.. 15Ibidem, p. 9.
específico, reconhecendo a sua importância cada vez maior
como assumptor de responsabilidades pOlíticas que a cada
dia se tornam mais essenciais e ~ue envolvem questões de
vida ou morte. Para ratificar esta afirmação basta lembrar
o papel dos bi6logos, z06logos~ físicos e astr6nomos na de
fesa da ecologia ou dos médicos psiquiatras na luta da
an-tipsiquiatria. As vit6rias·obtidas nestas lutas
específi-cas, locais demonstram que elas são profícuas, que elas
produzem resultados.
A importância do intelectual nao se deve mais ao
fato dele ser "o portador de valores universais" mas, sim,
ao fato dele ocupar "uma posição específica, mas cuja esp~
cificidade está ligada às funções gerais C~ dispositivo de
verdade em nossa sociedade".l7 Ou seja, o intelectual
pos-sui uma especificidade que
é
tripla: a de sua posição declasse, a de suas condições de trabalho e a da política da
verdade nos dias atuais. Devido a isto é que sua situação
pode ganhar sentido mais amplo e extrapolar os limites de
sua· luta local, gerando implicações e carreando efeitos ex
tra-setoriais. O intelectual "funciona ou luta ao nível
geral deste regime de verõade, que é tão essencial para as
estruturas e para o funcionamento de nossa sociedade".l!
Existe um combate pela verdade e o professor, e~
quanto intelectual, tem que "combater o bom combate" isto
é.
devido a sua referida tripla especificidade, nao tem como se furtar a este combate, já está nele, queira ou nao,
nao há como se isolar ou se postar de modo ambíguo, de
fi-"neutro" • ~ mister esclarecer que
-
-
"decar nao e o caso com
bate 'em favor' da verdade, mas em torno do estatuto da ver
dade e do papeiL econ6micó~polítiao que ela deseIl1penha". 1 ,
Foucault elabora algumas proposições a respeito
do que seja verdade:
."( •.• ) um conjunto de procedimentos
regula-dos para a produção, a lei, a repartição, a
circulação e o funcionamento dos emmciados";
• "( ••• ) está circularmente ligada a sistemas
de poder, que a produzem e a apóiam e a efe!:
tos de poder que ela induz e que a
reprodu-zem. 'Regime' da verdade";
• "Esse regime não é simplesmente ideológico
ou super-estrutural; foi uma condição de
formação e desenvolvimento do capitalismo". 20
Para o intelectual, o principal problema
políti-co nao é denunciar a ideologia acoplada à prática científ!.
ca e substituí-la por outra mais just~mas compor uma
no-va política de verdade. A questão não
é
conscientizar aspessoas, mas elaborar outro regime político. econômico e
institucional de produção da verdade.
"Não se trata de libertar a verdade de todo
sistema de poder - o que ser1a quimérico na
. 1' Foucaul t, M. Op. ci t., p. 13 (aspas do autor).
20 Ibidem. p. 14.
mas de desvincular o poder da verdade das
formas de hegemonia (sociais, econômicas, cul·
turais) no interior das quais ela funciona
tlO momento.
Em suma, a que~tão potlt~ea não é o erro, a
--ilusão, a consciência alienada ou a
ideolo-gia;
ê
a pJtõpJt~a veJtdade".21Este trabalho visou primordialmente participar
desta luta seja pela ampliação e aprofundamento das
ques-tões e questionamentos_ pessoais da nossa prática de ensino,
seja pela intervenção, através da pesquisa, em escolas da
rede municipal de ensino de Juiz de Pora, seja pela
produ-ção de conhecimento sobre a realidade escolar primária
mi-neira, seja pela tentativa de derrubada das verdades tradi
cionais e ossificHJas da nossa escola prim~rja, seja pela
necessidade de ser uma voz que expõe e desnuda ("O
discur-so da luta nao se opoe ao inconsciente: ele se opoe ao
se-greào")22, seja pelo imperativo da denúncia, pois "dar
no-mes aos bois", falar dos problemas concretos da escola pri
mária
é
um meio de luta, "é uma primeira inversão de poder,é um primeiro passo para outras lutas contra o poder".23
Posto isto, percebe-se a importância do discurso
na escola primária, sobre a escola primária,justificando o
fracasso da escola, reconhecendo a necessidade da escola
primária, feito por professores, diretores e especialistas.
21poucault. M. Cp. cit., p~ 14 (g~i~os nossos). 22Ibidem,p. 76.
Para se analisar a escola primária e seus problemas
deve-se porém dar voz a outros deve-segmentos que nunca são ouvidos
como alunos, serventes, cantineiras, etc., o que não foi
possível realizar neste trabalho, em virtude do pouco tempo
de que dispúnhamos e da premência em concluir a pesquisa
para podermos fazer a dissertação no prazo que nos foi con
cedido.
A desqualificação do saber da vida, do saber
ex-tra-escolar tem por finalidade destituit os alunos de
po-der, despossuí-los de voz - tarefa soberba e soberanamente
desempenhada pela escola -, despossuí-los de vez e voto. A
exclusão e a expulsão escolar representam o destino ao sub
emprego,
à
subvidà,à
subcidadania.A separaçao entre saber e poder nao existia nas
sociedades indo-européias do leste mediterrâneo, no final
do segundo e início do primeiro milênios, afirma Foucault,
na 11 Conferência de "A verdade e as formas jurídicas". "Sa
ber.epoder eram exatamente correspondentes, correlativos,
superpostos. Não podia haver saber sem poder. E não podia
haver poder político sem a detenção de um certo saber espe
cial".~"
A unidade entre saber e poder político foi sendo
derribada durante os cinco ou seis séculos da época
arcai-ca da Grécia e, na Grécia clássiarcai-ca, esta união desaparece
completamente, sendo que ":Edipo vai funcionar como o homem
do poder, cego, que não sabia e nao sabia porque podia
de-
mais" .
A intenção de Foucault, ao fazer a análise do mi
to de Edipo é demonstrar que havia uma correlação,urna
cor-respondência entre saber e poder nas sociedades indo-euro
pédias do leste mediterrâneo no primeiro e segundo milênios;
que um não existia sem o outro; eJ finalmente, que a
fun-çao política guardava em seu ventre, na sua mais profunda
intimidade,um cariter rnigico~religioso. Poder político e
saber migico-religioso eram tão inextricavelmente ligados
que constituíam uma só e única coisa. Isto é, a função p~
lítica era, ao mesmo tempo, política, mágica e religiosa,
um todo indissociado, no qual estes tr€s elementos combina
vam-se e fundiam-se, formando uma unidade.
Os sofistas e os tiranos, influenciados pela
ci-vilizaç.ão oriental, são os representan tes, na Grécia dos
séculos V e VI, desta união entre saber e poder,c~racterí~
tica dos impérios assírios. Eles pretendiam um
ressurgi-mento da unidade saber-poder que havia sido
nos primórdios do século V.
desman telada
Foucault pretende mostrar o papel da tragédia de
Edipo nesta decomposição, pretende mostrar que a obra de
Sófocles representou o ponto de emergência da cisão entre
saber e poder. A partir de Edip~- que, por saber demais,
nada sabia, isto é, que por reunir saber'e poàer em si mes
mo acaba por encontrar o testemunho dos h0mens e se torna
inútil - o homem do poder vai funcionar como o homem do
não-saber, do esquecimento, da escuridão. Com a retirada
-um deslocamento desta função para duas direções: -uma, a dos
fi16sofos e advinhos que, em contato com os deuses, detim
a verdade, o conhecimento, o saber." A outra, o povo, sem
poder, porém, com a capacidade de dar testemunho da verdade
pela lembrança em si do contato primevo com os deuses.
E
este mito que vai dominar as civilizaçõesoci-dentais, ou seja, o poder político é cego e nunca está em
contato com a verdade. Esta só é apreendida pelo contato
com os deuses, pela memória do passado. Assim saber e
po-der são excludentes. Um não convive com o outro. A antino
mia é total entre ambos. O saber, a ciincia, em sua verda
de pura, não podem coabitar com o poder político. As idéias
de neutralidade e objetividade da ciincia moderna do
sécu-lo XIX tim sua paternidade filos6ficanest~ mito iniciado
por Platão.
A proposta foucauldiana é a da derr~bada deste
mito. Toda sua instigante e muito bem articulada análise
da história de Edipo tem como finalidade expor, desnudar a
falácia deste mito: revelar que a unidade saber/poder do
império assírio nunca morreu, ao contrário, sempre esteve
e está bem viva; demonstrar que por trás de todo e
qual-quer conhecimento Qxiste uma luta de poder; desfiar a
tra-ma do político para nela ver entretecidos os fios do
sa-ber.
Colocada a perspectiva metodológica sob a qual a
pe~quisa se apoiou, cumpre-nos notificar o campo de pesqui
sa. Este foi a rede municipal da cidade de Juiz de Fora-M~
lha se deveu ao fato de ter a rede municipal adotado
algu-mas práticas de delJlocratização da escola, a nosso ver bastan
te inte.ressantes, como eleição direta para diretor com a
participação da comunidade e antecedida por campanha e
a-presentação do projeto de gestão da escola pelos
candida-tos.
A eleição direta para o cargo de direção tem
am-plas van tagens como a de possibilitar a maior participação
dos pais e também a cobrança do cumprimento das metas e
propostas feitas na campanha eleitoral; também propicia o
efetivo exercício da prática democrática tanto por pais
quanto por alunos, prática tão pouco vivida por nós
brasi-leiros durante tantos anos de um regime de exceçao.
O processo eleitoral permite que os alunos
te-nham a aprendizagem da cidadania: permite que a palavra ci
dadão passe a ser usada no seu sentido maior, de uso dos
direitos e cumprimento dos deveres civis e políticos e que
os significados simples, destituídos de conotação polític~
percam força de uso na linguagem cotidiana.
A escolha pelas quatro primeiras séries do 19
grau se deveu a dois fatores: o primeiro e mais importante
é por considerar o ensino nestas séries como fundamental
(e não é por acaso que tempos atrás recebia esta
denomina-ção) tanto para a vida da criança enquanto pessoa (de que
modo vai se relacionar com as outras pessoas), como para
sua vida enquanto cidadão (co~o vai se situar
pOliticamen-te, se alienado ou participante), como para sua vida
.
um todo único, do qual
ê
in:possível recortar as partes ediferencii-las isoladamente, porque estas partes guardam
entre si conex6es que se intcrpenetram e que mutuamente se
influenciam. Estando esta educação fundamental passando
por grave crise em todo o país - hoje a escola ~úhlica peE
deu toda credibilidade pelas suas elevadíssimas taxas de
evasao e repetência; não cumpre a sua função de ingressar
a criança no universo letrado e de instrumentá-la para o
desempenho de suas tarefas sociais e profissionais, civis e
políticas; os professores são infamemente remunerados e wal
preparados, o que se pode constatar pelos contra-cheques
dos professores, pela crise das escolas normais e ainda p~
la carência de cursos de atualização e aperfeiçoamento - é
factível e necessário que conheçamos a escola que temos,
que nela mergulhemos para dela retirarmos a sua cura. b ven
do, ouvindo, pesquisando es ta es cola que encontrareIOOS o ca.
°minho para a resolução de seus problemas, as alternativas
possíveis dentro desta escola e não alternativas que
su-põem lugares paradisíacos com tudo do bom e do melhor, com
todas as condições favoráveis o que
é
uma transferênciapara o futuro, terra de ~e e do quando, no qual estas
con-dições e es tes lugares exis ti rão um dia, o que pode ser
mui-to boni mui-to e embalar sonhos, mas, sem dúvida, também é~ estéril
e imobilizante.Ora, para falarmos sobre alguma coisa, e
..
mister que a conheçaIOOs. A experiência própria, sendo de cru
cial importância, em qualquer situa~ão ou circunstância de
ovida, é condição necessária, mas não suficiente para uma aná
de campo se impôs como condição ~~ne qua non para
elabora-çao de nosso trabalho.
Nietzsch~ em suas Considerações Extemporânea~ a~
sim s~ exprime em relação às pessoas que pensam e agem (ou
deixam de agir) na base do ~e e do quando:
"( ••• ) o olhar ao passado os impele ao futu
ro, inflama seu ânimo a ainda por mais
tem-po concorrer com a vida, acende a esperança
de que a justiça ainda vem, de que a felici
dade está atrás da montanha em cuja direção
eles caminham. Esses homens históricos acre
ditam que o sentido da existência, no decor
rer de seu pno~e~~o, virá cada vez mais
-
aluz; eles só olham para trás para, na consi
deração do processo ate agora, entenderem o
p~~~~nte e aprendere~ a des~jar aom mais veemência o futuro. Não sabem quão
a-histo-ricamente,a d~speito de toda a sua históri~
eles pensam e agem, e como ate mesmo sua ocu
pação com a história não está a serviço do
conhecimento puro, mas da vida".25
Sintetizando, poderíamos dizer que a escolha
pe-las quatro primeiras séries do 19 grau se deu em virtude
de a considerarmos mais importante, dela se encontrar em
crise aparentemente insolúvel e à crença de que é possível
encontrar uma alternativa viável para a escola do Brasil
de hoje.
o
outro fator está em ser este o segmento nao 502SNietzsche, F. Considerações extemporâneas. In: O~ Pen6adon~, 3.ed.
mente da presente como também de nossa malS longa atuação
profissional em educação. Isto nos levou a querer
conhe-cer melhor as práticas educativas existentes e os
discur-sos que a sustentam e dela retiram confirmação, para
ten-tar influir de algum modo nos mesmos, descobrindo e inten-tando construir outras práticas e outros discursos que sir vam melhor a educaçao brasileira.
Os instrumentos que foram utilizados na pesquisa
foram: a observação, por um período de deis meses em duas
escolas, sendo uma de reconhecida tradição conservadora e outra que perfilha-se a uma orientação mais democrática de gestão e de ensino. Utilizamos ainda de uma entrevista
se-mi-dirigida feita nos seguintes segmentos da escola:
pro-fessores, diretores, supervisores, secretárias e
auxilia-res de secretaria. Estes foram os elementos que nos
forne-ceram material para uma análise on~e procuramos verificar:
· quais as técnicas de disciplinarização em
vi-gor na escola nos dias atuais;
· como o professor vê as técnicas de
disciplina-rização escolar, isto
é,
em que medida existe aceitação ou.rejeição;
· qual
é
o papel do professor dentro daconfigu-ração de poder existente na escola. Ele percebe isto no
seu cotidiano ou não? O que pensa a respeito?
quais de resistência
-
disciplinari-·
os pon tos a
,-sujeição. Em que segmento ele tem mais força,
zaçao e a
ele e
..
mais vis lve 1. Que tipos de aliança são fei tas entreestes pontos de resistência.
Em "A Gaia Ciência", Nietzsche diz: "A vida nao é argumento, entre as condições da vida poderia estar o er ro". 2 6 Ele sustenta is to, demons trando como os homens
çam planos, discutem id&ias e ideais, arquitetam
polfti-tas de administração escolar, de saGde, financeira,
econS-mica etc., baseados em quimeras, em ilusões, em
postula-dos, premissas e princípios que nâo passam de invenções,
que por obra e graça do esquecimento, passam a ser
verda-de, a ter valor de verdade e transformam-se em regras
in-violáveis, quando não, sagrados dogmas. 27
g a respeito destas verdades tradicionais e rfgi
das da educação que temos, nós educadores, que nos rebela~
que temos que fazer algo para que a escola possa
ressusci-tar e cumprir seu papel. Precisamos abandonar velhas
posi-ções, falsas posturas, cômodas verdades, tranquilizadores
argumentos e encararm9s de frente os proble~as da escola
na qual atuamos. Precisamos divergir, precisamos deitar
por terra a praxe, abandonar os pequenos e os grandes
pre-conceitos, desligarmo-nos do velho irracional conhecido pa
ra podermos mudar alguma coisa na nossa escola. Para que
possamos ter efetivamente a escola que almejamos e precis~
mos & preciso nos lembrarmos de que Hpe.qu.e.na..6 a.ç.ôe..6
d'<'voe.-ge.n~e..6 .6io ne.ee..6.6a~.<.a..6", que ~pe.qu.e.na..6 a.ç.ôe..6 divergentes
valem mais".28 Que a escola está cheia de erros, isto já foi
demonstrado por muitas pesquisas e as estatísticas dão dis
to um quadro amedrontádor, muitas teorias procuraram expli
27Sobre este ponto ver, Livro III de A gaia clencia; Sobre a Verdade e a mentira no sentido extra roral. p. 45; e § 19 do item lI, p.199,
de Considerações Extempo~~eas.·"
seguirem dar conta do fenômeno. Ficar inventando
argumen-tos para o fracasso escolar, colocando a culpa na criança,
na família, no professor, nos regulamentos escolares, na
pobreza, não adianta; o que jmporta
é
buscar uma alternat~va viável,
é
produzir uma outra escola,é
inovar, pois nosalerta Pedro Demo liA educação que não "inov~ apenas domesti
ca". 2 '
Sob que formas esta domesticação
é
feita hoje nasnossas escolas, quais as formas de resistência a ela no in
terior da própria escola e como os professores,
superviso-res e diretosuperviso-res veem estas questões é o que a pesquisa pr~
curou apontar.
A escola, enquanto disciplinador~.enquanto obre!
ra na manutenção do sub-poder, tem que ser questionada
pa-ra evadir-se desta situação. Para ajudar-nos no question~
mento desta escola, também foram utilizadas as
contribui-ções teóricas de Félix Guattari e Gilles Deleuze. Por fim,
procuramos empregar a filosofia dos valores de Nietzsche
como orientadora de nossos estudos e de nossa crítica a
respeito da escola primária brasileira.
Merquior diz o seguinte com relação às
proposi-çoes de Foucault:
"Ao procurar uma genealogia do sujeito
mo-derno, Foucault estava automaticamente defi
nindo um ingulo em que o saber esti ~ntrela
çado com o poder. Assim,"soa-investigação
do sujeito moderno, Dor meio das formas de
saber, bem como de praticas e discursos, ti
nha de se concentrar no 9ue ele chama de
Pq
de~-4abe~ (pOUvo~~-4avo~~) uma perspectiva
nietzschiana que toda a vontade de' verdade
já constitui uma vontade de poder: E quanto
mais se aprofundava em esferas do saber pr~
tico sobre o sujeito, mais ele encontrava,
i espera de ~nálise, ticnolog~a4 do eu".30
Esta pesquisa tencionou detectar quais
tecnolo-gias do eu estão em vigor na escola, no momento atual, e
de que maneira estão se processando as resistências a tais
tecnologias.
"Para De1euze e Guattari, como o desejo e
-
umaprodução, toda a produção
é
confrontáve1 com a produção d~sej an te" 31 de tal forma que, não se 1 imi ta apenas ao
ço familiar. como o quer a Psicanálise, mas a todo o
espa-ço político e social.
Na trilha teórica de anu1amento da distinção
rí-gida en~re princípio do prazer e princípio da realidade eg
contramos Baudri11ard que, embora assemelhando-se a
De1eu-ze e Guattari quanto a radica1idade do ponto de vistapolí
tico, diverge deles totalmente na construção teórica, ao
se apoiar em Lacan. Para Baudri11ard, o inconsciente mode!
no, não passa de um fantoche do sistema capitalista, tDn se!
30Merquior, J.G. Michel Foucault ou o NWMmo de
cã...tedJr.a..
Rio de Ja-neiro, Nova Fronteira, 1985, p. 165-166.31Donze1ot, J. Uma antisocio1ogia. In: Capitalismo e esquizofrenia
dossier anti-Edipo. Cade~o~ Penin4ut~e4. Lisboa, Assírio Alvim,
vo dos signos, o que
é
possível pela refusão da equivalên-cia. Desta forma, o capitalismo absorve o inconsciente detal modo que substitui a verdadeira lógica do desejo, que
inclui a ambivalência absoluta, pelo princípio da
equiva-lência onde não se efetuam trocas verdadeiras,mas
pseudo--trocas. A manipulação dos signos destrói o prazer e o que
se consome são 0$ signos do prazer e nao o prazer mesmo.
Esta teoria, embora atraente, separa o desejo da economia
social e, de certo modo, mata a possibilidade de desejo, p~
la capacidade de recuperação generalizada de qualquer
ir-rupção do desejo. O que se pode verificar
é
que Baudril~lard acaba por cair em con~radicão ao afirmar aue 50
-
há
troca,mas que\ no en tan to, é necessária uma repressão obj~
tiva e que esta repreisão não se ap6ia no psiquismo, mas
é
resultante da separação entre o desejo e a vida social, da
conversão de um no outro poi uma ilusã~ que ele descreve
como a substituição da lógica da equivalência pela da ambi
valência.*
Deleuze e Guattari investigam os processos que
ligam a repressao
ã
auto-repressão.E
Jacques Donzelot que diz sobre os autores:liA ausência de distinção de natureza entre
produção social e produção desejante
permi-te-lhes inscrever a lógica do desejo no cer
ne do sistema capitalista, de ver aí uma for
ça cujo desenvolvimento ê simultâneo do co~
*Para maiores esclarecimentos ver Baudrillard, J. Para uma crítica da
junto das produções, imbricado nelas e amea
çando igualmente as relações sociais em que
esta produção generica está contida".32
Deleuze e Guattari vem a repressao inseparável
da auto-repressão, própria da lógica do capitalismo. Para
eJes "o problema não está em criticar nem em nomear o
po-der mas em ver os laços efectivos que mantêm aom
que é a sua negaçao: o desejo".33
aquilo
Assim como a teoria de Deleuze e Guattari vem
a-tender a uma dêbacle das ciências humanas, vem agitar o im
passe,a inércia a que chegaram, poderá também agitar a re
flexão sobre a escola primária, a mudar as questões coloca
das em relação a ela.
Nossos estudos e pesquisa visaram primacialmente
fazer essa tentativa de mud~nça nas questões até agora
co-locadas para e pela escola. Os aliados nesta tentativa fo
ram Foucault e sua análise de poder, Deleuze e Guattari e
sua nova teoria do desejo e,por fim, mas nao por último,
Nietzsche e sua filosofia dos valores.
DISCUTINDO A ESCOLA - O TRÂNSITO DO PESSOAL AO TEORICO E A VIA INVERSA - A TEORIA COMO ALIADA NO QUESTIONAMENTO DA PRÁTICA EDUCACIONAL COTI-DIANA
Poderíamos dizer que nosso interesse pelo estudo'
da função disciplinar da escola, com a conseqüente
sujei-ção do aluno
ã
normas e regulamentos como meio de fixá-loem um modelo típico-ideal de aluno, tem dupla origem: a pri
meira advinda da experiência enquanto aluno e a segunda
oriunda da experiência enquanto professor.
A experiência enquan to aluno remonta aos seis anos
e meio de idade, quando do ingresso na vida escolar, em uma
escola pública estadual, do qual se nao se poderia dizer
que foi' traumático, foi, no mínimo, assustador.
A admissão
ã
l~ série eã
classe para a qual seera destinado dependia de um exame feito pela di retora,
mulher famosa para sua autoridade e braveza, sendo os
be-liscges aplicados por suas longas e bem cuidadas unhas ver
melhas os principais responsáveis por esta sua última
qua-lidade. A sua notoriedade ultrapassava os portõ~s
escola-res tanto através dos pais de alunos, que lhe admiravam o
"pulso firme", quanto dos alunos, em cuj as orelhas e
bra-ços eram registradas as marcas desta firmeza.
"Foi diante de tão temível criatura que, sem
aviso prévio, me vi sozinha, afastada de mi
nha mãe, em uma grande sala vazia, onde
en-tramos ambas - eu, encolhida numa cadeira
de madeira escura - para prestar o . exame,
sem ter a mínima idéia do Que se tratav~ p~
-
-rem, com uma absoluta certeza interior: nao
podia 'fazer feio'. Leia-se: tinha que me
sair bem para poder ingressar.na escola e
ain da evi tar o vexame da s a la at ra sada, pois
embora não pudesse compreender c laramen te
as coisas, sabia que seria uma vergonha
pa-ra a família ir papa-ra a sala atpa-rasada, a
sa-la dos que nã·o aprendem, a sasa-la dos burros".*
Aquele momento deixou em nós uma forte impressão
para ser relembrado após vinte e oito anos com tamanha
ni-tidez e tal riqueza de detalhes. Ele voltou com
freqüên-cia a nossa lembrança ao longo dos dezessete anos de
exer-cício do magistério, quando via um rostinho assustado na
sala de aula por n~o saber fazer um exercfrio ou ao apoiar
a idéia de abolição de testes seletivos e classificatórios
para a admissão na primeira série, como também durante as
reuniões onde se discutia o fim da seleção e classificação
dos alunos em turmas fortes, médias e fracas na
institui-çao pm qm~ trabalho.
o
exame daquele dia visava uma seleção eclassi-.
ficação dos alanos e subseqüente loteamento dos mesmos em
classes An , An ,An etc., onde os índices I, 2·, 3 •• ~ eram
1 2 3
indicativos de uma gradação ~ue ia do ótimo para o bom,
*Este trecho foi escrito na primeira pessoa do singular por se tratar de uma narrativa de lembranças pessoais. Colocá-lo na primeira pes-soa do plural, em conformidade com todo o texto, torná-l o-ia impes-soal e frio, descaracterizando o fator emocional. Este é o motivo da
opção pela alternativa entre as duas formas pessoais. Toda vez que
se tratar de narrativa. repetir-se-á o uso da primeira pessoa do sin
guIar ~ as aspas serão utilizadas para marcar a passagem de uma
médio. fraco e fra<iuíssimo. O que mais nos causava pavor
ao ser classificada como ruim era a irreversibilidade de
tal classificação, o rótulo "burra" nos acompanharia ores
to da vida. Hoje, podemos compreender o porquê de tanto
temor daquela menina de seis anos - o estigma era muito
forte e terrivelmente paralisante,na medida em que fixava
um lugar do qual era quase que impossível escapar.
Fica fácil de se perceber como o ingresso
ã
escola contribui para que a criança vá incorporando a classifi
cação, a seleção, a discriminação como natural, como uma
coisa comum que faz p~rte da vida como comer ou dormir. Is
to acontece de tal modo que ela não consegue perceber que
isto
é
um modo, uma maneira de ser da escola e nao o modo,a maneira de ser da escola. Entendendo-se aqui o artigo
definido na sua plena acepção de definição, ou seja, de di
zer o que
ê,
com toda a sua carga de imobilidade, de fixi7 dez, de imutabilidade, de exatidão, de não-transformação ede estratificação sócio-econômico-política e cultural. O
que isto vai levar, em última instância, é a uma
naturali-zação das práticas e dos procedimentos da escola, a um não
questionamento, a um sufocar das forças de revolta em
pre-sença. A disciplina escolar comporta uma rede de
procedi-mentos eficientes e práticos, com um caráter profundamente
normalizante e sujeitador e eficientemente hábil em
promo-ver a modelização da subjetividade.
Félix Guattari assim se exprime em relação a
"Me smo uma cri ança de doi s anos, quando te!!,.
ta organizar seu mundo, construir sua pro-
-pria maneira de perceberas relaç~es sociais,
apropriar-se das ~elaç~es com outras
crian-ças e com os adultos essa criança
parti-cipa,
-
a sua mane ira" da resistênciamolecu-lar. E o Que e l . encontra? Um~ funçio de
equipamento subjetivo da televisio. da famí
lia. dos sistemas escolares. Portanto. a mi
cropolítica dessa criança envolve as pessoas
que estao em posição de modelização em reIa
çao a ela.
E possível subverter essa posição. As
pes-~oas que experimentaram, com serieriade,
ou-tros métodos educacionais, sabem muito bem
que se pode desmontar essa mecânica
infer-nal. Com outro tipo de abordagem, toda essa
riqueza de sensibilidade e de expressão pró
pria da criança pode ~er relativamente
pre-servada".l
Sufocar, destruir esta "riqueza de sensibilidade
e de expressão própria da criança" a que se refere
Guatta-ri é a tarefa que a escola tem cumpGuatta-rido com invejável
com-petência. Apesar disto, sempre existe um aluno, um profes
sor ou um funcionário que não se encaixam bem no esquema
escolar e causam problemas na rotina da escola, que tiram
as coisas do lugar. Isto é, sempre existem pontos de
re-sistência, focos de revolta mais ativos ou mais
adormeci-dos, de acordo com as circunstâncias, com o encontro de
uma ou outra idéia ou pessoas, com a união ou falta de
forço de uma voz
ã
outra, de acordo com o agrupamento oudesemparelhamento de forças semelhantes ou que visem a um
objetivo comum.
John Rajchman, explicando a premissa da análise
nominalista do poder em Foucault, diz que
"( ••• ) historicamente, não existe um modo
essencial, natural ou inevitável de agrupar
ou classificar as pessoas, nada que possa
ser descrito por um estado de natureza. Não
nascemos livres; já estamos sempre lançados
no seio de uma configuração de poder. Por
conseguinte, o que devemos estudar na histõ
ria são as an~nimas e profundas
configura-ções que determinam os modos como somos clas
sificados e agrupados - a histõria profunda
da constituição de nossas comunidades
orga-nizadas. No nível profundo, o que constitui
as nossas comunidades e uma configuração e~
trategica anônima, cuja superfície e irredu
tívelmente dispersa. Nesse nível,nenhum gr~
po ou classe e soberano; nenhum grupo ou
classe e o agente de mudança. Assim a libe~
dade não reside basicamente em descobrir ou
estar apto a determinar quem somos, mas em
rebelarmo-nos contra aqueles metodos pelos
quàis ja estamos definidos, categorizados e
classificados".l
A premissa foucauldiana de poder nominalista
es-tá em franca oposição
ã
visão marxista de poder, para quemo poder
é
~ma questão de dominação de uma classe por outra,para quem existe a submissão da classe operária a
..
classeburguesa, para quem o poder é detido por uma classe -a bur
guesia - em detrimento de outra classe - a operária a
quem cabe a revolução e o estabelecimento de uma nova
or-dem, de um novo Estado. A liberdade, no marxismo, é uma que~
tão de consciência, e a libertação é de especial
responsa-bilidade de um grupo de intelectuais (para Gramsci) , que
irá comandar a luta. A libejdade s6 se dará pela luta de
classes. 3
Dentro da visão marxista, Roger Establet faz uma
análise da escola primária e de suas deficiências, afirman
do que "o ensino primário
é
o lugar principal onde seope-ra a divisão das duas redes de escolarização de classes e
onde sobretudo convem analisá-la"."
Isto porque este processo de divisão tem uma fun
çao de duplo aspecto no aparelho escolar (distribuição dos
indivíduos no aparelho escolar e inculcação da ideologia
burguesa), efetivadas por um mecanismo que é resultante de
práticas concretas.
A análise deste autor sobre a escola pri~ária e
seus defeitos revela que tais "'defeitos' ou ~fracassos'
são exatamente a realidade necessária de seu
funcionamen-to".S O autor vai ainda mais longe ao afirmar que lia.
.6e.pa.-3Gramsci, A. Conc.e.pç.ão cUa1.mc.a. da. hb.dôJri.a.. Rio de Janeiro, Civili-zação Brasileira, 1985.
"Establet, R. A escola. In: As instituições e os discursos. Rio de Ja neiro. Tempo Bna.6il~o, n. 35, 1974. p. 93. Rede secundária-supe~
rior: ss e primária-profissional: pp.
p~imã~ia, desde os primeiros dias de escolarização"; que
lia separação das duas redes não
é
so o ~e.6ul.tado ou o obj~tivo da escola primária,
é
ao mesmo tempo o meio e o prigcípio de seu funcionamento!'. 6
o
autor argun:enta que a divisão das redes de escolariza,'ção nao é "um caso de o~en.ta.ç4ã~ escolar e de orientação nas
instituições, tais como elas existem num momento dado da
história oficial"7 e que, por isto, o prolongamento da
es-colaridade obrigatória ou do tronco comum não resolvem o
problema. Trata-se, na verdade, da divisão mesma, do
pro-cesso de divisão que se encontra nao no fim, mas desde o
início da escolarização obrigatória.
liA generalização da escolarização e, em pa!.
ticular, da escolarização obrigatória
'úni-ca' ê apenas sempre, historicamente, a gene
. -..
~alizaç.ã.o do p~oc.e.6.óo de divi.6ã.o mesmo".!
Para ele, ao se analisar as práticas escolares e
ao se buscar as origens de classe das mesmas
as aparências institucionais.
I
destroem-se
Nico Poulantzas, ainda dentro de uma linha de
análise m~rxista, sustenta que a escola e os demais
apare-lhos ideológicos de Estado nao criam a divisão de classes,
porém a perpetuam e favorecem a reprodução das relações 50
6Establet, R. A escola. Op. cit., p. 95 (grifos do autor) • . 7 Ibidem, p. 95 (grifos do autor).
ciais e das relações sociais de produção - dos meios de tra
balho e das forças de trabalho, porque
"( •.• ) são as Jtei..aç.õe.6 de pJtoduç.ã.o, na sua
relação constitutiva com as relações de
do-minação/subordinação política e ideológica,
que dominam o pJtoce.6.6o de tJtabai..hD no
inte-rior do processo de produção".'
Embora ele afirme que a escola não
é
o aparelhoideológico dominante do modo de produção capitalista, ela
propicia a reprodução das classes sociais que comporta dois
aspectos que se completam: a reprodução ampliada dos
luga-res e a reprodução ampliada dos agentes, sendo o primeiro
o que constitui o .aspecto principal.
Segundo. o autor, a escola nao exerce o mesmo
pa-pel quanto a estes dois aspectos da reprodução, sendo um
A.I.E., a escola intervém na reprodução das relações
polí-ticas e ideológicas, bem como na reprodução dos lugares
que caracterizam as classes sociais, .sendo que o seu papel
na reprodução só pode ser amplamente reconhecido
levando-se em conta o
" (
. . .
) seu papel na propr~a-
.
constituição deum modo de produção (e de suas relações de
produção) isto
-
e t pelo seu papel na-çao mesma das relações sociais". 1 o
'Poulantzas, N. Escola em questão. In: A.6 inótituiç.õe.ó e 0.6 .60.6. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, n. 35, 1974, p. 129
do autor). lOIbidem, p. 131.
produ-
Desta forma, enquanto AlE, a escola intervém fortemente na
reprodução dos lugares das classes sociais, embora as c1as
ses sociais e a luta de classes não sejam produto dos AlE,
pois a reprodução extrapo1a e escapa aos aparelhos
ideoló-gicos.
"Não se trata de uma auto-reprodução
econô-mica das classes face a uma reprodução ide~
lógica e política apenas pelo ângulo dos ap~
relhos. Trata-se sim de uma ~ep~oducão p~i
mei~a na e pela luta de classes em todos os
estágios da divisão social do trabalho".ll
Esta reprodução primeira depende de luta de c1a~
ses. A reproduçã? ampliada dos lugares das classes sociais
deve-se principalmente a área político-ideológica, mas nao
se limita a esta e vai abranger o próprio aparelho 'econôJílÍo
co.
"( •.• ) a reprodução das relações
ideológi-cas, que têm um papel capital, não é
unica-mente a tarefa dos aparelhos ideológicos, c~
mo se tudo o que se passasse na 'produção'
não concernisse apenas ao 'econômico'; os
aparelhos se reservam o monopólio de
repro-- - . - . - . -, 12
duçao das relaçoes. de dOIn1naçao ~deolog~.ca' ~.
o
aspecto complementar da reprodução, areprodu-çao dos agentes, vai fechar o processo e desmascara a
fal-sa questão da mobilidade social. A escola desempenha
im-portante função neste aspecto ao promover uma eficaz qua1i
ficação-suj"eição com prolongamentos até as relações
políti-cas e ideológipolíti-cas. Não se deve, no entanto, esquecer o p!
pel do aparelho econômico, pois se a escola cumpre a
fun-çao da qualificação-sujeição ela o faz no interior do
pró-prio aparelho econômico.
"I!; seria necessario não esquecer aqui que o
papel determinante quanto ã distribuição dos
agentes no conjunto da formação social
re-produz-se no mercado de trabalho, como
ex-pressão da reprodução ampliada das relaç~es
de produção, e isto ( . . . ) mesmo se o
merca-do de trabalho exerce sua demanda num campo
ja compartimentado, em razão, entre outras
coisas, da ação própria dos AIE".l3
Sendo o aspecto da distribuição dos agentes
su-bordinado ao aspecto da reprodução dos lugares
"( ... ) e
preciso circunscrever bem osefei-tos direefei-tos dos próprios lugares sobre
os--
-
-agentes, o que nao e senao encontrar aqui o
primado da luta de classes sobre os
apare-lhos".l"
o
autor reconhece que o modo de produçãocapita-lista e uma formação social capital~sta não constituem ca!
tas, porém, os efeitos de distribuição são claros - filhos
de burgueses permanecem burgueses, filhos de proletários
permanecem proletários. A escola não é nem a principal
nem a única responsável por esta forma de distribuição, a
qual tem sua razao de ser nos efeitos dos lugares sobre os
agentes. A escola não é causa destes efeitos de distribui
çao, que estaria numa série de relações entre aparelhos,
cuja base seria a luta de classes.
do:
Poucau1t critica estas análises marxistas, dizen
"( .•• ) existe uma tendência que poderíamos
chamar, um tanto ironicamente, de marxismo
acadêmico, que consiste em procurar de que
maneira as condiç~es econ;micas de
existên-cia podem encontrar na consciênexistên-cia dos
ho-mens o seu reflexo e expressão. Parece-me
que essa forma de analise, tradicional no
marxismo universitario da França e da
Euro-pa, apresenta um defeito muito grave: o de
s~por, no fundo, que o sujei~o humano, o su
jeito de conhecimento, as próprias formas
do conhecimento são de certo modo dados pré
via e definitivamente e que as condi ç~e s.
econ;micas, sociais e políticas da
existên-cia não fazem mais do. que depositar-se ou
imprimir-se neste sujeito
dado". 1 5
definitivamente
E ainda à página 20 do mesmo livro:
-"( ••• ) em uma certa concepçao do marxismo
que se imp;s ã universidade, ha sempre no
fundamento da analise a idéia de que as
re-laç~es de força, as condiç~es econ;micas,as relaç~es sociais são dadas previamente aos
1 sPoucau1 t, M. A verdade e as formas jurídicas. Cadernos da
puc/nJ.
indivíduos, mas, ao mesmo tempo, se impõem
a um sujeito de conhecimento que permanece
idêntico salvo em relação às ideologias
to-madas como erros".l6
Chegamos assim a uma noção muito importante e ao
mesmo tempo mui to embaraçosa de ideologia. Nas análises mar
xistas tradicionais, a ideologia é uma espécie de elemento
através do qual se traduz o fato de que a relação do sujei
to com a verdade ou simplesmente a relação de conhecimento
é perturbada, obscurecida, velada pelas condições de
exis-t~ncia, por relações sociais ou por formas políticas que
se impõem do exterior ao sujeito do conhecimento. A ideolo
gia é a marca, o ~stigma destas condições políticas ou eco
nBmicas de exist~ncia sobre um sujeito de conhecimento que,
de direito, deveria estar aberto i verdade. l7
Maria Helena Souza Patto, em seu livro
P~icolo-gia e Ideologia, ao fazer a crítica da Psicologia Escolar;
, adota esta postura ao separar ci~ncia de pseudoci~ncia, to
mando como base para a distinção, o fato delas conterem ou
não ideologia, delas se manterem puras ou veladas pela ideo
logia.
Para Poucault, as condições sociais, políticas e
econBmicas de exist~ncia nao constituem um véu que
pertur-ba e dificulta ao sujeito de conhecimento atingir o
conhe-cimento, mas se constituem precisamente naquilo do que
vão se formar os sujeitos de conhecimento e as relações de
. 16Poucault, M. Op. cit., p. 20.