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Artigo
original
Análise
das
características
dos
pacientes
com
fratura
exposta
de
tíbia
grau
III
de
Gustilo
e
Anderson
夽
Frederico
Carlos
Ja ˜na
Neto
a,b,∗,
Marina
de
Paula
Canal
b,
Bernardo
Aurélio
Fonseca
Alves
a,
Pablício
Martins
Ferreira
a,
Jefferson
Castro
Ayres
ae
Robson
Alves
caDepartamentodeOrtopediaeTraumatologia,ConjuntoHospitalardoMandaqui,SãoPaulo,SP,Brasil bUniversidadeNovedeJulho,SãoPaulo,SP,Brasil
cServic¸odeTraumatologiaeOrtopedia,InstitutoDr.JoséFrota,Fortaleza,CE,Brasil
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem26demarçode2015 Aceitoem1dejunhode2015 On-lineem14deoutubrode2015
Palavras-chave: Fraturasdatíbia
Amputac¸ão/epidemiologia Amputac¸ão/métodos
r
e
s
u
m
o
Objetivo:AnalisarascaracterísticasdosindivíduoscomfraturaexpostadetíbiatipoIIIde GustilloeAnderson,tratadosemumhospitaldenívelterciárioemSãoPaulo,entrejaneiro de2013eagostode2014.
Métodos:Estudo transversal retrospectivo. Foramcoletados dos prontuários eletrônicos: idade, gênero, diagnóstico, mecanismo de trauma, comorbidades, fraturas associadas, classificac¸õesdeacordocomGustilloeAnderson,TscherneeAO,tratamento(iniciale defi-nitivo),presenc¸adesíndromecompartimental,amputac¸õesprimáriasesecundárias,índice deMESS,índicesdemortalidadeeinfec¸ão.
Resultados: Foramincluídos116pacientes,81%comfraturatipoIIIA,12%IIIBe7%IIIC,85% dogêneromasculino,médiade32,3anose57%vítimasdeacidentedemotocicleta.Afratura dadiáfisedatíbiafoisignificativamentemaisprevalente(67%).Oitopacientesforam subme-tidosàamputac¸ão,umaprimáriaesetesecundárias.HouvepredomíniodostiposIIIC(75%)e IIIB(25%)entreospacientescomamputac¸ãosecundária.OíndicedeMESSobtevepontuac¸ão maiordoque7em88%dosamputadoseem5%dospacientescomomembrosalvo. Conclusão:OperfildospacientescomfraturaexpostadetíbiadetíbiatipoIIIdeGustilo eAndersonenvolveuprincipalmenteindivíduosjovensdogêneromasculino,vítimasde acidentesdemotocicleta.Adiáfisedatíbiafoiosegmentomaisacometido.Apenas7%dos pacientesforamsubmetidosàamputac¸ão.Diantedacontrovérsiaexistentenaliteratura sobreaamputac¸ãoouosalvamentodomembroinferiorgravementelesionado,tornam-se necessáriosmaisestudosprospectivosparaapoiaraescolhaclínica.
©2015SociedadeBrasileiradeOrtopediaeTraumatologia.PublicadoporElsevierEditora Ltda.Todososdireitosreservados.
夽
TrabalhodesenvolvidonoComplexoHospitalardoMandaqui,SãoPaulo,SP,Brasil.
∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](F.C.Ja ˜naNeto).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbo.2015.06.002
Analysis
of
the
characteristics
of
patients
with
open
tibial
fractures
of
Gustilo
and
Anderson
type
III
Keywords: Tibialfractures
Amputation/epidemiology Amputation/methods
a
b
s
t
r
a
c
t
Objective: ToanalyzethecharacteristicsofpatientswithGustilo-AndersonTypeIIIopen tibialfracturestreatedatatertiarycarehospitalinSãoPaulobetweenJanuary2013and August2014.
Methods: Thiswasacross-sectionalretrospectivestudy.Thefollowingdataweregathered fromtheelectronicmedicalrecords:age;gender;diagnosis;traumamechanism; comorbidi-ties;associatedfractures;GustiloandAnderson,TscherneandAOclassifications;treatment (initialanddefinitive);presenceofcompartmentsyndrome;primaryandsecondary ampu-tations;MESS(MangledExtremitySeverityScore)index;mortalityrate;andinfectionrate. Results: 116patientswereincluded:81%withfracturetypeIIIA,12%IIIBand7%IIIC;85% males;meanage32.3years;and57%victimsofmotorcycleaccidents.Tibialshaft fractu-resweresignificantlymoreprevalent(67%).Eightpatientsweresubjectedtoamputation: oneprimarycaseandsevensecondarycases.TypesIIIC(75%)andIIIB(25%)predominated amongthepatientssubjectedtosecondaryamputation.TheMESSindexwasgreaterthan 7in88%oftheamputeesandin5%ofthelimbsalvagegroup.
Conclusion: The profile of patients with open tibial fracture of Gustilo and Anderson TypeIIImainlyinvolvedyoungmaleindividualswhowerevictimsofmotorcycleaccidents. Thetibialshaftwasthesegmentmostaffected.Only7%ofthepatientsunderwent amputa-tion.Giventhecurrentcontroversyintheliteratureaboutamputationorsalvageofseverely injuredlowerlimbs,itbecomesnecessarytocarryoutprospectivestudiestosupportclinical decisions.
©2015SociedadeBrasileiradeOrtopediaeTraumatologia.PublishedbyElsevierEditora Ltda.Allrightsreserved.
Introduc¸ão
As fraturas expostas correspondem a qualquer padrão de lesão queprovocaum rompimentonoenvelopede tecidos moleseresultaemcomunicac¸ãodiretaentreoossoeomeio ambiente.1,2 DadosepidemiológicosdaEuropademonstram
umataxaaproximadade4%defraturasexpostasaoano, simi-laràstaxasdeoutrospaísesdesenvolvidos.Acredita-seque esse valorequivaleacerca de 250.000fraturas ao anonos EstadosUnidos.1
Ograude severidadedasfraturas expostasé frequente-mente classificado de acordo com o sistema de Gustillo e Anderson,2,3 que considerao tamanho da ferida, opadrão
da fratura e o grau de contaminac¸ão dos tecidos moles. Aclassificac¸ãoTipoIIIcorrespondeàsfraturasportraumade altaenergia,comlesãoextensadetecidosmoles,eédividida emtrêssubtipos:tipoIIIA,IIIBeIIIC,deacordocomagravidade dalesão.1-3
OsextensosdanoscausadospelostiposIIIBeIIICpodem serum verdadeiro desafiomesmo para os cirurgiões mais experienteseenvolveadecisãoclínicaentreatentativade salvamentodomembroeaamputac¸ão.Osavanc¸osclínicos emcirurgiaortopédica,plásticaevascular fornecemmeios parareconstruirosferimentosdomembroque,hácercade 20 anos, seria primariamente amputado. Contudo, alguns estudosrelatamqueosalvamentodomembronemsempre éamelhorsoluc¸ãoeaamputac¸ãoprecoce,comtratamento protético,deveserrecomendadaemalgunscasos.4-7
Algunsescoressãousadosparacomplementaraavaliac¸ão clínicacriteriosadomembroacometidoeauxiliarnatomada de decisão clínica.8,9 Helfet et al.7 estabeleceramo usodo
MESS (Mangled Extremity Severity Score), o qual graduaa lesão baseadonosachadosclínicoselevaemconsiderac¸ão ascaracterísticasdalesão,otempodeisquemia,ochoquee aidade.Umapontuac¸ãomaiorouigualasetetemumvalor preditivodeamputac¸ãodomembro.4DeacordocomTufescu,6
osescoresdeavaliac¸ãopredizemosalvamentodomembro,e nãoaamputac¸ãoouafunc¸ãodomembrosalvo,porissonão podemserusadoscomoferramentaúnicaparaescolhado tra-tamento,esimemconjuntocomaavaliac¸ãoclínicaeograu decomprometimentodomembroinferior.
Atentativadesalvamentodeummembropodeapresentar altosíndicesdecomplicac¸õesefalhasemlongoprazoepode requerermúltiplosprocedimentosdealtocustosemgarantia desucesso.Contudo,nomomentodadecisão92%dos paci-entesoptampelatentativadesalvamentoereconstruc¸ãodo membroacometido.Oimpactoeconômicotambémdeverser consideradoantesdadefinic¸ãodotratamento,ealgunsfatores sociodemográficosdopaciente predizemo desfechoclínico desfavorável tanto paraa amputac¸ãoquanto parao salva-mentodomembro:indivíduosidosos,baixoníveleducacional, pobreza,tabagismoebaixamotivac¸ão.6
da randomizac¸ão dos pacientes para esses dois procedi-mentos.10-13 Assim, muitas das recomendac¸ões que estão
incorporadasnarotinadetratamentodospacientescom fra-tura exposta de tíbia e fíbula são baseadas na opinião de especialistas.Sendoassim,sãonecessáriosmaisestudos cien-tíficospara darapoio científicoàescolhadocirurgiãoedo pacienteantesdacirurgia.Oobjetivodesteestudofoi anali-sarascaracterísticasdosindivíduoscomfraturaexpostade tíbia,tipoIIIdeGustilloeAnderson,tratadosemumhospital denívelterciárioemSãoPaulo,dejaneirode2013aagostode 2014.
Materiais
e
métodos
Este estudo transversal retrospectivo foi feito no Con-junto Hospitalar do Mandaqui, emSão Paulo, Brasil. Após aprovac¸ão do Comitê de Ética em Pesquisa da instituic¸ão (n◦ 745.737), os prontuários eletrônicos dos pacientes com diagnóstico de fratura exposta da tíbia, tipo III de Gustillo e Anderson, tratados nesse servic¸o de janeiro de 2013 a agosto de 2014, foram identificados. Os dados foram cole-tados por meio do programa HospGestor (disponível em
https://www.hgresidencia.com.br),oqualédiariamente
atu-alizado pela equipe de traumatologia deste hospital. As característicasanalisadasforam:númerodeamputac¸ões (pri-máriasesecundárias)esalvamentosdomembroacometido, grau de severidade das fraturas expostas classificado de acordocomGustillo eAnderson,2,3 classificac¸ãodeOestern
eTscherne13 paraavaliac¸ãodacondic¸ãodostecidosmoles,
índicedeMESS,(x)idade,gênero,diagnóstico(tipodefraturae
classificac¸ãodeacordocomAO/OTA),14mecanismodelesão,
politrauma(maisdeumórgãoacometido),fraturas associa-das,presenc¸adecomplicac¸ões(síndromecompartimentale infecc¸ão)etaxademortalidade.
Osdadosforamanalisadosestatisticamenteecalculou-sea média(comvaloresmínimoemáximo)paraosdesfechos con-tínuos;frequênciaeporcentagemparaosdadosdicotômicos (intervalodeconfianc¸ade95%).
Foramexcluídosospacientescomprontuários incomple-tose/ouausênciadeexamesradiográficoseostransferidos paraoutroservic¸o.Aanálise estatísticadosdadosfoi feita comaanálisedescritivadedadoscontínuos,comcálculode média,desvio-padrãoeintervalodeconfianc¸ade95%,oteste tdeStudenteaanálisedafrequênciarelativacomintervalo deconfianc¸ade95%paraosdadosdicotômicos.
Resultados
A selec¸ão inicial incluiu 126 pacientes que cumpriram os critériosdeinclusão,porém10foramexcluídosdevidoà trans-ferênciadotratamentoparaoutroservic¸o.Assim,aamostra foicomposta por116 pacientescom diagnóstico defratura expostadetíbia dotipoIIIde GustilloeAnderson, 81% do tipoIIIA(IC95%,73%a87%),12%IIIB(IC95%,7%a19%)e 7%IIIC(IC 95%,3%a13%). Houvepredomínio significativo dogêneromasculino(85%,IC95%,78%a91%)eamédiade idadedaamostrafoide32,3anos(±15,70).Oladoesquerdo foiomaisacometido,porémnãohouvediferenc¸a significa-tiva(56%,IC95%,46,95%a64,73%).Osacidentesdetrânsito
Tabela1–Característicasdaamostra
Características n(%) IC95%
Gênero
Masculino 99(85%)a 77,68%a90,74%a
Feminino 17(15%) 9,26%a22,32%
Ladoacometido
Direito 51(44%) 35,27%a53,05% Esquerdo 65(56%) 46,95%a64,73%
Localizac¸ãodafratura
Fraturadiafisáriadatíbia 78(67%)a 58,25%a75,13%a
Fraturadoplanaltotibial 13(11%) 6,54%a18,36% Fratura-luxac¸ãodo
tornozelo
10(9%) 4,59%a15,31%
Fraturadopilãotibial 5(4%) 1,60%a9,95% Fraturadotornozelo 5(4%) 1,60%a9,95% Fraturadistaldatíbia
(extra-articular)
3(3%) 0,5%a7,66%
Fraturaproximaldatíbia (extra-articular)
2(2%) 0%a6,46%
Mecanismodetrauma
Acidentedemotocicleta 66(57%)a 47,80%a65,55%a
Atropelamentoporcarro 20(17%) 11,37%a25,21% Quedadealtura 8(7%) 3,34%a13,21% Atropelamento
pormotocicleta
4(3%) 1,06%a8,82%
Ferimentoporarma defogo
4(3%) 1,06%a8,82%
Acidentedetrabalho 4(3%) 1,06%a8,82% Acidentedebicicleta 4(3%) 1,06%a8,82% Queda 3(3%) 0,5%a7,66% Acidenteautomobilístico 2(2%) 0%a6,46% Ferimentoporarma
branca
1(1%) 0%a5,20%
Total 116(100%)
a Diferenc¸aestatisticamentesignificativa.
corresponderam a 84% dos mecanismos de lesão, com
diferenc¸asignificativaemrelac¸ãoaosacidentesque envolve-rammotocicleta,57%(IC95%,47,80%a65,55%).Afraturada diáfisedatíbiafoisignificativamentemaisprevalente,foi diag-nosticadaem78pacientes(67%dototaldaamostra,IC95% 58,25%a75,13%),seguidade13pacientescomfraturado pla-naltotibial(11%,IC95%6,54%a18,36%)(tabela1).Emrelac¸ão àclassificac¸ãoAO/OTA,20%detodasasfraturasforamdotipo 42-A3e13%42-B3(fig.1).
20%
1% 1%2% 5%
3%
1% 6%
3% 8%
13%
9% 8%
2% 2%3%2% 2% 2%
1% 1% 5%
3%
41-A1 41-A2 41-B1 41-C1 41-C2 41-C3 42-A2 42-A3 42-B1 42-B2 42-B3 42-C1 42-C2 42-C3 43-A3 43-C1 43-C2 44-A1 44-A2 44-A3 44-B1 44-B3 44-C2
Tabela2–Característicasdospacientessubmetidosàamputac¸ãosecundária
Idade/Gênero Mecanismo detrauma
Tipodefratura/ Classificac¸ão
AO
Gustillo Tscherne MESS Tratamento
inicial
Mortalidade Infecc¸ão
32M Acidentede
motocicleta
Planaltotibial (41-C3)
3C III 10 Fixadorexterno
linear
-
-21M FAF Planaltotibial
(41-B1)
3C III 10 Fixadorexterno
transarticular, anastomoseda artériapoplítea efasciotomia
-
-54M Acidentede
motocicleta
Planaltotibial (41-C1)
3B III 10 Fixadorexterno
transarticular
-
-39M Acidentede
motocicleta
Tíbiadistal extra-articular (43-A3)
3C III 10 Fixadorexterno
lineare fasciotomia
-
-47M Atropelamento
porcarro
Diáfisedatíbia (42-C2)
3C III 10 Limpeza
cirúrgicaetala
Sim
-84F Atropelamento
por motocicleta
Diáfisedatíbia (42-C2)
3C III 11 Fixadorexterno
lineare fasciotomia
- Sim
42M Acidentede
motocicleta
Tíbiadistal extra-articular (43-A3)
3B III 5 Fixadorexterno
linear
- Sim
M,masculino,F,feminino,FAF,ferimentoporarmadefogo.
Dototaldaamostra(116pacientes),oito(7%)foram sub-metidosàamputac¸ãodomembroacometido:umaprimáriae setesecundárias.Opacientesubmetidoàamputac¸ãoprimária édogêneromasculino,17anos,vítimadeacidentede motoci-cleta,comdiagnósticodefraturadoplanaltotibial(AO41-A2), dotipo3CdeGustilloeAnderson,tipoIIIdeTscherne,índice deMESS11eapresentoulesãoirreversíveldaartériapoplítea. Dentreossetepacientesquenecessitaramdeamputac¸ão secundária,trêsapresentaramfraturadeplanaltotibial,dois dediáfisedatíbia,umdetíbiaproximalextra-articulareumde tíbiadistalextra-articular.Emrelac¸ãoàclassificac¸ãode Gus-tilloeAnderson,houvepredomíniodasfraturasdotipoIIIC (cincopacientes)etipoIIIB(doispacientes),eapontuac¸ãodo índicedeMESSfoisemelhanteentreospacientes(médiade 9,5).Otempomédioentreotratamentoinicialeaamputac¸ão secundáriafoide17,5dias(entrecincoe40)eosprincipais motivosparaessadecisãoforamproblemascomareperfusão (quatropacientes),infecc¸ãodostecidosmolescomsecrec¸ão purulentaeáreadenecroseextensa(trêspacientes).Dossete pacientes amputados no segundo momento, dois apresen-taraminfecc¸ãotratadaeumfaleceudevidoacomplicac¸ões relacionadas à reperfusão e falência múltipla de órgãos
(tabela2).
Os108pacientesquetiveramomembroacometidosalvo apresentaramcaracterísticasdiferentesquandocomparados com os amputados.A maioria significativa dos indivíduos (87%,IC95%,79%a92%)apresentouclassificac¸ãodeGustillo IIIAenquantonogrupodepacientesamputadoshouve ape-nasfraturasdostiposIIIB(25%,IC95%,6%a60%)eIIIC(75%,IC 95%,40%a94%)enãofoipossívelobservardiferenc¸a signifi-cativa.Amédiadeidadenogrupodepacientesamputadosfoi de42,62(±22,26)anosede31,57(±14,96)anosnooutrogrupo (P=0,0543).Houve diferenc¸a entre os amputados eos que
tiveramomembrosalvotambémquantoaoíndicedeMESS,no qual88%dospacientesamputadostiverampontuac¸ãoacima de7(IC95%,51%a99%)comparadoscom5%dooutrogrupo(IC 95%,2%a11%).Omesmoocorreucomonúmerodepacientes politraumatizados,comfrequênciade50%entreos amputa-dos(IC95%22%a78%)emcomparac¸ãocom9%entreosque tiveramomembrosalvo(IC95%4%a15%);comfraturas asso-ciadas,50% (IC95%,22% a78%)versus 19%(IC 95%,13%a 28%),respectivamente;ecomdiagnósticodesíndrome com-partimental,com38%entreosamputados(IC95%13%a70%) versus6%dossalvos(IC95%,3%a13%),respectivamente.O índicedeinfecc¸ãofoisignificativamentediferente,com62% entreospacientesamputados(IC95%,30%a87%)e17%entre osquetiveramomembrosalvo(IC95%,11%a25%)(tabela3).
Discussão
Esteestudotevecomoobjetivoanalisarascaracterísticasdos pacientescomdiagnósticodefraturaexpostadetíbiagrauIII, tratadosemumhospitaldenívelterciário,emSãoPaulo, Bra-sil.Houvepredomíniosignificativodogêneromasculino(85%), médiade32,3anosemaioracometimentonomembro infe-rioresquerdo.Fodoretal.15 relatamqueamodernizac¸ão,a
industrializac¸ãoeoaumentodataxadeviolênciana socie-dadetêmcontribuídoparaocrescimentodaincidênciadas lesõestraumáticasseverasdosmembrosinferiores.Amaior incidênciaemhomens,jovenseemidadeprodutiva, demons-tradano presenteestudo,relaciona-sediretamente aesses fatores,principalmentenoquedizrespeitoaomecanismode lesão.
Tabela3–Distribuic¸ãodascaracterísticasdospacientesamputadoscomparadoscomosquetiveramomembro acometidosalvo
Amputac¸ão%(IC95%) Membrosalvo%(IC95%) Total%(IC95%)
Masculino(%) 88%(51%a99%)a 85%(77%a91%)a 85%(78%a91%)a
GustilloeAnderson(%)
IIIA 0%(0%a37%) 87%(79%a92%)a 81%(73%a87%)a
IIIB 25%(6%a60%) 11%(6%a19%) 12%(7%a19%)
IIIC 75%(40%a94%) 2%(0%a7%) 7%(3%a13%)
Classificac¸ãodeTscherne(%)
I 0%(0%a37%) 2%(0%a8%) 3%(1%a8%)
II 0%(0%a37%) 80%(71%a86%)a 74%(65%a81%)a
III 100%(63%a100%)a 18%(11%a26%) 23%(16%a32%)
MESS(%)
<7 12%(0%a49%) 95%(89%a98%)a 90%(83%a94%)a
≥7 88%(51%a99%)a 5%(2%a11%) 10%(6%a17%)
Politrauma(%) 50%(22%a78%) 9%(4%a15%) 11%(6%a18%) Fraturasassociadas(%) 50%(22%a78%) 19%(13%a28%) 22%(15%a30%) Síndromecompartimental(%) 38%(13%a70%) 6%(3%a13%) 9%(5%a15%) Infecc¸ão(%) 62%(30%a87%) 17%(11%a25%) 20%(13%a28%) Mortalidade(%) 12%(0%a49%) 1%(0%a6%) 2%(0%a6%)
Total(n) 8 108 116
a Diferenc¸aestatisticamentesignificativa.
acidentes de trabalho eos graves ferimentos por armade fogo.15Aanálisedosdadoscoletadosnesteestudocorrobora
essadescric¸ão,84%dasfraturasexpostasforamcausadospor acidentesdetrânsito,principalmenteosqueenvolviam moto-cicletas(57%).
Vários sistemas de pontuac¸ão têm sido descritos para auxiliarnadecisãosobreaamputac¸ãoouosalvamentodo membroferido.5Oíndicedegravidadedaextremidade
esma-gada(MESS)étalvezo maisusado tantona práticaclínica quantonomeiocientífico,porém suasensibilidadee espe-cificidadesãoaindacontroversas.
NopresenteestudooíndicedeMESScomescoresuperior ouiguala7foiobservadoem88%doscasosdeamputac¸ão comparado com 5% doscasos de salvamentodo membro. Ainda,entreospacientessubmetidosàamputac¸ão,75% tive-ramsuasfraturasclassificadascomoIIICe25%IIIBdeGustillo eAnderson.Fagelmanet al.16 avaliaramacorrelac¸ão entre
asfraturasgrauIIIBeIIICdeGustilloeAndersomeoíndice de MESS para fraturas expostas de membros inferiores e encontraramresultadosignificativodeprevisãodotratamento em93%da amostra.Emcontrapartida,Sheean etal.17 não
encontraramdiferenc¸asignificativadovalordeMESS entre os pacientes amputados eos tratadoscom salvamento do membro. Ambos os autores destacaram a importância da lesãovascular como fatorpreditivo deamputac¸ão. Slauter-becketal.18relataramqueousoprecocedeumsistemade
pontuac¸ãocomooMESSpoderiareduziramorbidade associ-adaaumainternac¸ãoprolongadaeaosváriosprocedimentos cirúrgicosgeralmentefeitosnessescasos.
Duaet al.19fizeram umestudotransversal retrospectivo
e demonstraram que o controle de danos do paciente, a evoluc¸ãodastécnicascirúrgicaseostemposisquêmicosmais curtos são benefícios que contribuem para a reduc¸ão das taxas de mortalidade e morbidade, porém, mesmo com o avanc¸odessastécnicas,aindaécontroversaadecisãoentrea reconstruc¸ãoeosalvamentodomembroversusaamputac¸ão
noscasosdefraturasexpostascomplexascomlesãoassociada dostecidosadjacentes.
Sgarbietal.20destacamaimportânciadeospacientescom
fraturasexpostasdetíbiagrauIIIdeGustilloeAndersonserem tratados emservic¸osque disponhamde todos os recursos paragarantiropossívelsalvamentodomembroacometido. Porém,osalvamentodemembrosinferioresacometidospor esmagamentoeaextensalesãodepartesmolesemvítimas politraumatizadaspodemresultaremgravesalterac¸ões meta-bólicasenoriscodesepsepormeiodadisseminac¸ãosistêmica deinfecc¸ão. Assim,essaslesõesdevemsercriteriosamente avaliadaspelaequipe.
DeacordocomSlauterbecketal.,18apreservac¸ãodeum
membrocomváriastentativasdesalvamentopodemostrar-se inviável,umavezqueomembrotorna-seinsensíveleincapaz derecuperac¸ãofuncional,alémdomaiorriscodemorbidadee mortalidadedevidoàhospitalizac¸ãoprolongadaeaosdiversos procedimentoscirúrgicos.
É importante ainda levar em considerac¸ão os elevados custos e as despesas financeiras, pessoais e sociais, que podem decorrerde amputac¸õesteoricamente “inevitáveis”, masquemuitasvezessãopostergadas.Asindicac¸ões abso-lutas para amputac¸ão primária de extremidades inferiores incluem a completa avulsão do membro, lesão da artéria poplítea, isquemia superior a seis horas, lesão neuroló-gica,gangrenagasosaeimpossibilidadederestaurarofluxo circulatório.20
Durhanetal.21 tiveramcomotaxadeamputac¸ão
tecidos moles, a presenc¸ade extensas áreas de necrose e complicac¸õesvascularesedereperfusão.
Dua et al.19 relataram que, historicamente, os
ele-vados índices de mortalidade frente à necessidade de revascularizac¸ãodemembrosgravementeferidostornoumais aceitáveladecisãopelaamputac¸ãodosegmentolesionado. Nesteestudo,foramregistradosdoiscasosdeóbito relaciona-dosaodéficitgrave deperfusão(2,4%dototaldaamostra): um paciente submetido à amputac¸ão secundária (homem, 47anos,vítimadeatropelamentocomfraturaexpostade diá-fisedatíbiadotipo3CeíndicedeMESSde10pontos)eooutro quetevecomoopc¸ãodetratamentoosalvamentodo mem-bro(mulher,88anos,vítimadequedadeescadacomfratura expostadepilãotibial,tipo3BeíndicedeMESSde7).
A decisão final do tratamento dos pacientes com diag-nóstico de fratura exposta de tíbia deve levar em conta a funcionalidade futura, a disponibilidade de recuperac¸ão, o perfildopacienteeaexpertisedocirurgião.Oscritériosde indicadorescomooescoredeMESSeaclassificac¸ãodafratura devemserminuciosamenteanalisadosparaqueosalvamento deummembrosefac¸ademaneiraefetivaeaamputac¸ãonos casosprecisamentebemselecionados.15,16
A coleta de dados de forma retrospectiva foi conside-rada uma limitac¸ão deste trabalho. Assim, a necessidade deumestudoprospectivoéevidente,principalmentediante da ausência de estudos de boa qualidade metodológica. Otermodeconsentimentoinformadoparaamputac¸ãousado nosservic¸osdeatendimentoaopacientetraumatizadodeve incluiraavaliac¸ãoortopédicaevascularcriteriosa,associada aosfatorespreditivos,comooíndicedeMESSeaclassificac¸ão deGustilloeAndersonedeTscherne,alémdeacompanharas evoluc¸õesdetratamentoeasevidênciascientíficasde quali-dadeparacolaborarcomomelhortratamentodospacientes vítimasdetraumasgravesdosmembrosinferiores.
Conclusão
De acordocom a amostra analisada neste estudo, o perfil dospacientescomfraturaexpostadetíbiadetíbiatipoIIIde GustilloeAndersonenvolveuprincipalmenteindivíduosdo gêneromasculino,jovenseemidadeprodutiva,vítimasde aci-dentesdetrânsito,especialmentedemotocicleta.Amaioria significativaapresentoufraturadadiáfisedatíbia,81%dotipo IIIA.Apenas7%dospacientesforamsubmetidosàamputac¸ão, 75%comfraturadotipoIIICe25%dotipoIIIBdeGustilloe Anderson.OíndicedeMESScomescoresuperiorouiguala setefoiobservadoem88%doscasosdeamputac¸ãocomparado com5%doscasosdesalvamentodomembro.Dianteda escas-sezdeestudosedacontrovérsiaexistentenaliteraturasobrea amputac¸ãoouosalvamentodomembroinferiorgravemente lesionado,tornam-se necessários estudosprospectivos que fornec¸amevidênciacientíficadequalidadesobreoscritérios paraaescolhadotratamentodasfraturasexpostas comple-xasdetíbia,comvistasaomelhorprognósticofuncionaleà reduc¸ãodastaxasdemorbidadeemortalidade.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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