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Hematoma epidural espinal espontâneo: registro de dois casos.

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Academic year: 2017

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HEMATOMA EPIDURAL ESPINAL ESPONTANEO

R E G I S T R O DE DOIS CASOS

RODRIGO O. M. F, FERREIRA* FRANCISCO JOSÉ ROCHA** JOSÉ DE ARAUJO ΒARROS * AUGUSTO V. B. FONSECA*

PAULO ROBERTO DE PAIVA ***

O s hematomas epidurals espontâneos são raros. Desde o primeiro relato

de Jackson em 1869, citado por H a r r i s5

, até a presente data, temos conhecimento

de pouco mais de 100 c a s o s « . A localização mais freqüente desses hematomas

é na região toráxica, seguida pelas regiões cervical e lombar. Quanto à idade

são mais comuns na 5* d é c a d a8

; entretanto podem ocorrer em qualquer idade.

O s hematomas que se formam em conseqüência de traumatismos, de

malfor-mações vasculares, de discrasias sangüíneas ou em decorrência de terapêutica

anticoagulante não são classificados como e s p o n t â n e o s7

.

Registramos dois casos que se apresentaram com distúrbios neurológicos

agudos e que obtiveram melhora sensível com a remoção do hematoma mediante

laminectomia.

OBSERVAÇÕES

Caso 1 — J.B.C., sexo masculino, preto, 54 anos de idade, internado em 14-09-78

(Registro η ν 1968), apresentou de forma srúbita ao acordar, dor intensa na região lombar e face anterior da coxa esquerda, acompanhada, no espaço de poucas horas, de  diminuiçγo da força muscular no membro inferior esquerdo. Ulteriormente, notou  dificuldade para urinar e impotκncia sexual. O início da sintomatologia ocorreu 6  dias antes da internaçγo. Ao exame clínico, apresentava pressγo arterial de 210­ 140mmHg e esitertores pulmonares de finas bolhas e crepitantes no terço inferior de  ambos os lados. Diante de provαvel quadro de edema pulmonar incipiente, o paciente  foi submetido a tratamento cardiolσgico. Exame neurológico — Paciente consciente,  l٥cido, sem alteraçυes de nervos cranianos. A fundoscopia mostrou sinais de retino­ patia hipertensiva. O exame dos membros; inferiores evidenciou monoparesia crural  esquerda, acometendo principalmente a extensγo da perna e inversγo do pι, com  arreflexia patelar e aquílea. Pequena αrea de hipoestesia tαctil e dolorosa na regiγo  anterior da coxa esquerda. A marcha estava impossibilitada e o sinal de Lasθgue  evidente a 40o no membro inferior esquerdo. Diante do quadro que sugeria uma  síndrome de cauda equina lateralizada, foram feitas radiografias de coluna torαxica e  lombo­sacra que resultaram normais e raquemanometria que evidenciou bloqueio com­ pleto do canal vertebral. O liquido cefalorraqueano apresentou­se xantocrτmico e 

(2)

314 ARQ. NEURO-PSIQUIATRIA (SÃO PAULO) VOL. J8, N» SETEMBRO, 1980 seu exame revelou 20 cιlulas mm3 (100% de mononucleares), glicose 40mg%, proteínas  154Cmg% e cloretos 720mg%.  N o momento da punçγo lombar, foram injetados 5 ml de  Duroliopaquc e realizada mielografia, que mostrou bloqueio ao nível de L2. 

N o dia seguinte, com o quadro cardiolσgico mais estαvel, o paciente foi submetido  a laminectomia de T12 a LA, sendo encontrado hematoma epidural organizado, esten­ dendo­se de T12 a LA, localizado mais na porçγo lateral e posterior do es to j o durai.  O pσs­operatσrio transcorreu sem complicaçγo e o paciente recebeu alta, com encami­ nhamento para tratamento fisαoterαpico. Trκs meses apσs a cirurgia o paciente estava  bem, sem deficit neurolσgico e com marcha normal. 

Caio 2 —  M . L . R . , 36 anos de idade, sexo feminino, preta, no nono mκs de 

gestaçγo, internada em 18­09­78 (Registro nv 1977). apresentou dor s٥bita, com irradiaçγo  para os membros inferiores. Nos dias seguintes, notou diminuiçγo gradativa da força  muscular nos membros inferiores e, ulteriormente, retençγo urinaria.  N o 3v dia, a  contar do inicio dos sintomas, sofreu parto a termo (feto morto). O exame clínico  revelou paciente afebril, pressγo arterial de 230­150mmHg, pulso 80p/m rítmico, mucosas  coradas e anictιricas. O exame cardiolσgico evidenciou cardiopatia hipertensiva com­ pensada. Exame neurológico — Paciente consciente, bem orientada e sem alteraçυes  dos pares cranianos. O exame dos membros inferiores revelou paraparesia flαcida  com arreflexia patelar e aqui lea bilateral e hipoeatesia tαctil, tιrmica e dolorosa com  nível em  L I . Δ  raquemanometria mostrou bloqueio completo do canal vertebral e  o exame líquido cefalorraqueano mostrou aspecto xantocrτmico, glicose­. 54mg%, proteina  500mg% e cloretos 731mg%. A mielografia foi realizada por via lombar com injeçγo  de 3 ml de Duroliopaque, mostrando parada do contraste em L2. O nível superior do  bloqueio foi delimitado em T12, com injeçγo de contraste por via cisternal. 

O quadro neurolσgico mantinha­se inalterado e 48 horas apσs a mielografia, foi  realizada a laminectomia de T12 a L2, tendo­se evidenciado hematoma epidural em  fase de organizaçγo, cobrindo toda a porçγo posterior do estojo durai. Onze dias apσs  a cirurgia, a paciente recebeu alta ,com melhora acentuada do quadro, jα mantendo­se 

de p£ quando auxiliada. 

C O M E N T Á R I O S 

Em ambos os casos o diagnóstico só foi possível após a laminectomia,

tendo-se suspeitado apenas da possibilidade de hérnia discai lombar alta.

A presença de hipertensão arterial nos dois casos parece ter pouca

impor-tância na gênese do hematoma, uma vez que a hipótese mais aceita é que o

sangramento seja de origem venosa decorrente de diferença da pressão entre

os sistemas cava e vertebral, presente em certas s i t u a ç õ e se

. N o caso 2 a

gravidez pode ter sido fator importante na produção do hematoma, devido à

pressão intra-abdominal aumentada, às vezes com inversão do fluxo do sistema

cava p a r a o vertebral, cujas veias não possuem v a l v a s4

.

A s características do quadro clinico s ã o o início a g u d o , sempre com dor,

geralmente de irradiação radicular, acompanhada por deficit neurológico grave

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A l g u n s autores chamam a atenção p a r a a presença de um intervalo livre \

com acalmia dos sintomas, entre o início da dor e o aparecimento dos sinais

motores.

O s hematomas de localização cervical acarretam prognóstico g r a v e e só

evoluem satisfatoriamente quando o tratamento cirúrgico é realizado nas

pri-meiras 6 horas após o início do quadro Q u a n d o presentes na região lombar,

evoluem de forma mais benigna, pois as raizes espinais toleram melhor a

com-pressão do que a m e d u l a2

.

A presença de sangue ou a xantocrômia do líquido cefalorraqueano são

fatores importantes p a r a o diagnóstico e a mielografia sempre mostra um

blo-queio epidural completo 1

.

A p e s a r da pequena freqüência e da dificuldade de diagnóstico clínico dos

hematomas epidurals, é importante ter em mente a possibilidade dessa patologia,

considerando-se a necessidade do tratamento cirúrgico urgente e a possível

recuperação do paciente.

RESUMO

S γ o discutidos  o s aspectos clínicos  r e l a t i v o s  a o  d i a g n σ s t i c o e tratamento  d o s  h e m a t o m a s epidurals espinais espontβneos.  O s  d a d o s  o b t i d o s em  d o i s  casos  s γ o apresentados, sendo salientada a  l o c a l i z a ç γ o  l o m b a r destes hematomas,  os dist٥rbios  n e u r o l σ g i c o s  a g u d o s ,  g e r a l m e n t e  d e .  i r r a d i a ç γ o radicular,  a c o m ­ p a n h a d o s  p o r dιficit  n e u r o l σ g i c o de carαter  p r o g r e s s i v o . 

A  p r o b l e m α t i c a desses  h e m a t o m a s epidurals espinais, principalmente a sua  pequena frequκncia, a  d e m o n s t r a ç γ o  r a d i o l σ g i c a  p o r  m i e l o g r a f i a  c o n t r a s t a d a e  o seu  t r a t a m e n t o  c i r ٥ r g i c o  p o r laminectomia,  s γ o ressaltados. O tratamento  de escolha ι o  c i r ٥ r g i c o , laminectomia  c o m dissecçγo e  r e m o ç γ o  d o hematoma  que possibilita a  r e c u p e r a ç γ o  d o paciente. 

SUMMARY

Spontaneous epidural hematoma of the lumbar region: report of two cases.

T w o cases  o f spontaneous epidural hematoma of the lumbar  r e g i o n are  r e p o r t e d .  S o m e considerations  a r e  d r a w n about the  v a l u e s  o f the  e a r l y  d i a g n o s i s  b e f o r e the incidence  o f  n e u r o l o g i c a l sequela.  T h e clinical and  r a d i o l o g i c a l  findings and the treatment of these  h e m a t o m a s era discussed.  L u m b a r puncture  and  m y e l o g r a p h y  a r e the best  m e t h o d  f o r the  d i a g n o s i s .  T r e a t m e n t should  be surgical, consisting of  l a m i n e c t o m y  w i t h total excision  o f the hematoma. 

R E F E R E N C I A S

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2.  B O Y D ,  H .  R . &  P E A R , Β .  L . — Chronic spontaneous spinal epidural hematoma:  report of two cases. J. Neurosurg. 36:239, 1972. 

3. CORREA, Α . V . & B E A S L E Y , B. A . L . — Spontaneous cervical epidural hematoma with complete recovery. Surg. Neurol. (Boston) 10:227, 1978.

4. D E V A D I G A , Κ . V . & GASS  Η .  H . — Cronic lumbar extradural hematoma simu­ lating disc syndrome. J. Neurol. Neurosurg. Psychiat. (London) 36:255, 1973. 

5.  H A R R I S  Μ . E. — Espontaneous epidural spinal hemorrhage. Amer. J. Roentgenol.  105:383, 1969. 

6.  L O N D O N , G.  W . ; Mc  K E E V E R ,  P . E. &  W I E D E R H O L T ,  W . C. — Spontaneous  spinal epidural hematoma in alcoholism. Ann Intern. Med 81:266, 1974. 

7. POSNEKOFF, J. — Spontaneous spinal epidural hematoma of childhood. J. Pediat.  73:178, 1968. 

Clinica Neurocirúrgica — Hospital Santa Mônica — Av. Antonio Carlos 1694 — 30000 Belo Horizonte, MG — Brasil.

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