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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
ORIGINAL
Educac
¸ão
física
escolar
e
relac
¸ões
de
gênero:
diferentes
modos
de
participar
e
arriscar-se
nos
conteúdos
de
aula
Liane
Aparecida
Roveran
Uchoga
a,be
Helena
Altmann
c,∗aProgramadePós-Graduac¸ãoemEducac¸ãoFísica,DepartamentodeEducac¸ãoFísicaeHumanidades,FaculdadedeEducac¸ão
Física,UniversidadeEstadualdeCampinas(Unicamp),Campinas,SP,Brasil
bRedeMunicipaldeEnsino,PrefeituraMunicipaldeAmericana,Americana,SP,Brasil
cDepartamentodeEducac¸ãoFísicaeHumanidades,FaculdadedeEducac¸ãoFísica,UniversidadeEstadualdeCampinas(Unicamp),
Campinas,SP,Brasil
Recebidoem17dejaneirode2013;aceitoem15dejunhode2013 DisponívelnaInternetem8dedezembrode2015
PALAVRAS-CHAVE
Gênero; Educac¸ãofísica; Conteúdos; Escola
Resumo Esteartigo apresentapartedos resultadosde umapesquisaquebuscou entender comosedãoasrelac¸õesdegêneronosdiferentesconteúdosdaeducac¸ãofísicaescolarecomo adiversificac¸ãodesses interferenasrelac¸õesde gêneroduranteasaulas.Por meiodeuma pesquisadotipoetnográficaemduasescolaspertencentesàregiãodeCampinas(SP),foram observadasaulasdeeducac¸ãofísicaemtrêsdiferentesséries.Asanálisesfeitasindicamque meninosemeninaslidavamdemaneirasdistintascomaaprendizagemdenovosmovimentose conteúdos,arriscavam-semaisnasaprendizagensedemonstravammaisconfianc¸anaspróprias capacidadesehabilidadescorporais.
©2015Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
KEYWORDS
Gender;
Physicaleducation; Subjects;
School
Scholar physical education and gender relationships: different ways to participate andtoriskconcerningclassessubjects
Abstract Thispapersummarizes theresultsfromamaster’sdegreedissertation.Here,we sought to understandhow thegender relationshipsinside differentphysical education sub-jects,andifthissubjectdiversificationinterferesingenderrelationshipsandboysandgirls
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](H.Altmann). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2015.11.006
engagementduringclasses.Throughanethnographicresearchattwoschoolslocatedin Cam-pinas cityregion, itwasobservedscholarphysicaleducation classes.Theanalysis indicates thatboysandgirlsdealinadifferentwayinlearningnewmovementsandpractices.Also,we concludethatboysusedtoriskmoreandseemedmoreselfconfidentduringactivities. ©2015Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Allrights reserved.
PALABRASCLAVE
Género;
Educaciónfísica; Contenidos; Colegio
La educación física y las relaciones de género en el colegio: diferentes maneras departiciparyasumirriesgosenelcontenidodelaclase
Resumen Esteartículopresentaalgunosresultadosdeunestudioconquesetratóde com-prendercómo son lasrelacionesde géneroen loscontenidosde la educaciónfísicay si la diversificacióndeloscontenidosinterfiereenlasrelacionesdegénerodurantelaclase. Me-dianteunestudioetnográficoendosescuelasdelaregiónmetropolitanadeCampinas-SPse observaronlasclasesdeeducaciónfísicaentresseriesdiferentes.Estosanálisisindicanquelos ni˜nosylasni˜nastienendiferentesformasdeaprendizajedenuevosmovimientosycontenidos, yquelosni˜nossearriesgaronmásenelaprendizajeymostraronmásconfianzaensuspropias capacidadesyhabilidadescorporales.
©2015Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todoslos derechosreservados.
Introduc
¸ão
e
objetivo
Atualmente as aulas de educac¸ão física não mais são legalmente separadas por sexo, processo que, longe de ser pacífico e linear, deu-se no início dos anos 1990. No entanto, tal qual analisado por Dornelles e Fraga (2009), a atual inexistência de legislac¸ões no Brasil que propo-nham a separac¸ão de meninos e meninas não significa que essa prática tenha sido completamente abolida das escolas. A separac¸ão ocorre e se justifica em nome de determinadasconcepc¸õesdaspossibilidadesdocorpodiante o movimento, percebidas como distintas para homens e mulheres.
Foiapartirdocontextodeaulasmistaseseusimpactos, noque diz respeito ao processo deensino-aprendizagem, quenodecorrerdadécadade1990aparecemnaárea pes-quisas que adotam a categoria gênero em suas análises (Goellner,2003,Devideetal.,2011).
Partindo da intersecc¸ão entre os estudos de gênero e aulasmistasna educac¸ãofísicaescolar,estapesquisa bus-couentendercomosedãoasrelac¸õesdemeninosemeninos emaulas mistasdurante aaprendizagem dediversos con-teúdospropostos paraa educac¸ão físicaescolar, demodo a entender como a diversificac¸ão de conteúdos interfere nas relac¸ões de gênero e seus impactos no processo de ensino/aprendizagemnasaulas.
Asperguntasquelevamosacampoforam:Diferentes con-teúdospropiciamrelac¸õesdegênerosdistintasdurante as aulas?Estariam osconteúdos esportivos maisatrelados às desigualdadesdegênero?
Tais questõesforamrespondidas apartir deumestudo etnográficofeito em duas escolas estaduais do Estadode SãoPaulo.
Material
e
métodos
Oobjetivodestetrabalhofoientenderasrelac¸õesdegênero estabelecidasemaulascomdiferentesconteúdos.Paraisso usamosascontribuic¸õesdaetnografia aplicadasaocampo daeducac¸ão.
Diantedanecessidadedeobservaraulasemquevários conteúdosfossemabordados,aestratégiausadafoi obser-varaulasdeeducac¸ãofísicacujosprofessoresseguissemo currículodoEstadodeSãoPaulo,emvigordesde2008,uma vezqueessepropõeumadiversificac¸ãodosconteúdosa par-tirdecincoeixos:ginástica,esporte,lutas,jogoeatividade rítmica(SãoPaulo,2008).
Tendocomo foco observarasrelac¸õesde gênero esta-belecidas a partir de aulas com diferentes conteúdos, a pesquisanãoseconstituiunoestudodosconteúdos,esim nosconteúdos.Outrossim,tambémnãofoiobjetodeanálise ocurrículoemsi,essefoiapenasummeiodeviabilizaras observac¸ões.
Adelimitac¸ão da escolana qual seria feitaa pesquisa foifeitaapartirdeumrol deprofessores formadosnuma instituic¸ãopúblicaequeatuavamnaredeestaduale tam-bémdeprofessoresque,naépoca,participavamdeumcurso deespecializac¸ãoemeducac¸ãofísicaescolarnainstituic¸ão. Aescolhadosprofessoresdeu-seapartirdedoiscritérios: que o/a professor/a estivesse seguindo os conteúdos do currículoeducac¸ãofísicaadotadospelaredeestadual;que fossemprofessores/asefetivos1dasturmas.Dos45
profes-sorescomquementramosemcontato,trêsencaixavam-se
1Professorefetivoéaquelequeestánaescolapormeiode
nessescritérioseaceitaramparticipardapesquisa.2A
par-tir deles,entramos em contato comasescolas, dasquais foramselecionadasduasparaapesquisa.3Taisinstituic¸ões
atendem estudantes do 6◦ ano doensino fundamental ao
3◦anodoensinomédioeestãolocalizadasemduascidades
daregiãodeCampinas.
Nas escolas Sônia4 e Hortênciaforam observadas aulas
de educac¸ão física de uma turma da 5a, 6a e 7a série,5
salvoaescolaHortência,naqualnãoforamobservadasas aulasda7a série, pornãoterprofessorefetivona época. Foramobservadastrêsséries,paraquepudéssemos abran-gerumamaiorgamadeconteúdos,jáque,deacordocom o currículo, esses são sistematizados ao longodos bimes-tres e séries e alguns não se repetem entre elas. Ainda assim,oconteúdo‘‘manifestac¸õesrítmicas’’,quepelo cur-rículodeveriatersidoabordadonoperíododeobservac¸ão, não o foi, o que limitou os conteúdos aos quais tivemos acesso para a investigac¸ão. As análises aqui apresenta-das referem-se à ginástica rítmica e artística, a esportes coletivos e individuais (basquete, futebol e atletismo) e jogos.
A coletadedadosocorreu demaioe outubrode2010, totalizando média de 26 aulas de observac¸ão em cada turma. Apesquisadora estava presenteem todas asaulas deeducac¸ãofísica,apenasnacondic¸ãodeobservadora,as anotac¸õesforamfeitasemumdiáriodecampo.
Resultados
e
discussão
Meninosemeninasnaaprendizagemdosconteúdos
Umaaula deeducac¸ão físicanoambienteescolar estabe-leceumcontextodiferentedeumaauladedanc¸a,esporte ou mesmo de uma brincadeira feita fora da escola. Um dosaspectosaissorelacionadoé dequeforadesituac¸ões escolaresdisciplinaresascrianc¸astendemanãoreproduzir fronteirasdegênerotãodemarcadasquantonassituac¸ões deaula.TalquestãofoiobservadaporThorne(1993)e tam-bémempesquisafeitaporFernandes(2008).
Durante a pesquisa de campo,nos dois contextos pes-quisados, chama atenc¸ão a reincidência de situac¸ões nas quaismeninasemeninosseenvolviamnosjogos,nas brin-cadeiras,ginásticasedemaispráticascorporaisdemaneiras distintas.Essasdiferenc¸asnosmodosdeparticipar,interagir epraticaraslic¸õesdaeducac¸ão físicaforampercebidas a partirdoestudodecampoe serãoagrupadasnotextoem dois eixosdeanálise: como sedava a práticaefetiva das atividades de aula? Como meninos e meninas arriscavam--sena aprendizagem de novosmovimentosnos diferentes conteúdos?
2EstapesquisafoisubmetidaaoeaceitapeloComitêdeÉtica
(no.930/2009).
3Ocritérioparaexclusãodeumaescolafoiafacilidadedeacesso. 4Pormotivoséticoseparapreservaraidentidadedos
participan-tes,todososnomesusadosnestapesquisasãofictícios,incluindoos nomesescolas.
5Naépocaemqueasobservac¸õesforamfeitas,asescolasainda
adotavamanomenclaturasérie.
Participac¸ãoeprática(não)efetivanasatividades
O significado de ‘‘prática efetiva’’, aqui, quer dizer de quemaneiraos/asestudantesparticipavameenvolviam-se ativamentecomasatividadesdeacordocomoobjetivo esta-belecidoparaaquelaaula.Porexemplo,emumaaulacujo objetivoeravivenciardiferentesmaneirasdesaltar,como defatomeninosemeninasseenvolviamcorporalmentecom aatividade.
Aolongodasobservac¸ões,nasduasescolaspesquisadas, percebemosque haviaduas situac¸ões depráticanão efe-tivanasatividades:pormeiodanãoparticipac¸ãototalnas ‘‘lic¸ões’’deaula---quandoosestudantesdeixavamde parti-cipardaaula,faziamoutrasatividadesquenãoaspropostas pelosprofessores;oupormeiodeumaparticipac¸ãomenos ativa, ou seja, eles/as permaneciam na atividade, mas nãoseenvolviamcomela,o quegeravaumaparticipac¸ão ‘‘mascarada’’.
Durante a pesquisa de campo na escola Hortência, a participac¸ãonãoefetivaocorreuduranteodesenvolvimento deváriosconteúdos.Emumaaulacoma6asérie,durantea aprendizagemdoconteúdodebasquetebol,oprofessorfez ojogode‘‘bola-pegadora’’.6 Oobjetivodessaatividadeé
trabalharamovimentac¸ão emdirec¸ão aumalvoe passes debola,amaiorpartedasmeninasnãooatingiu.Durante ojogoaqueles/asquesemovimentavamrecebiamabola, porémamaiorpartedasmeninasficavaparada,emalguns casosapenaspediamapossedebola,posic¸ãoquenãofazia comquearecebessem.Osmeninos,porsuavez,eramosque maissemovimentavamnojogoe,consequentemente, rece-biamabola commaisfrequência, participavamde forma maisefetivaedesenvolviamhabilidadesdeposicionamento nocampodejogo.
Outro exemplo de participac¸ão não efetiva foram as situac¸õesdeaula em queseusaram jogoscomoobjetivo detrabalharprincípiosdosesportescoletivos.
Na escola Sônia, a professora, ao iniciar o conteúdo basquetebolcoma6asérie,fezumjogodequeimada,7
adi-cionouregrasquelimitavamumnúmeromínimodepasses feitospelosintegrantesdamesmaequipe,antesqueabola fossearremessadaparaocampoadversário,comoobjetivo demelhoraropasseeaprecisãodoarremessodosdiscentes. Essaturmaeracompostaporoitomeninose26meninas.No diadojogo,22delasestavampresentes.Asequipesforam divididas pelaprofessora, que deixou quatro meninos em cadaumadelas.
Duranteaexecuc¸ãodojogo,comeceiacontaronúmero devezesemquemeninosemeninasarremessavamabola, jáque,duranteadinâmica,percebiqueosmeninosdecada equipeeramosqueficavamàfrentedocampodejogo, usa-vamasmãosparasedefendereobterapossedebola.Ao obtê-la,passavam-naparaalgumasmeninasque,após faze-remo númeromínimo de passes estabelecidos, voltavam paraeles,paraqueassimfossearremessada.
6Nessejogo,umapessoaéofugitivoeosdemaistêmdeencostar
abolaparapegá-la.Quemdetémapossedebolanãopodeandar.
7Osparticipantessãodivididosemdoisgruposdeigualnúmero,
Dessaforma,os meninosarremessaramtentando quei-maralguém60vezeseasmeninas28vezes.Destacamoso númerodearremessosfeitospelosmeninosepelasmeninas emrelac¸ãoàrespectivaquantidadedeambos nojogo.Se dividirmoso númerode arremessospelo númerode joga-dores,percebe-seque,emmédia,cadameninoarremessou setevezes,enquantoasmeninasmenosdoqueduasvezes ofizeram.
Isso não quer dizer que eles arremessavam melhor do queo restante de todasasmeninas decada equipe, mas simqueasmeninasdeixavamque elesarremessassempor acreditarqueelesseriammelhoresdoqueelas.Alémdisso, elestambémacreditavamnisso e porisso pediame, con-sequentemente, dominavam a posse de bola durante o jogo.
O desenrolar dessa situac¸ão é que durante o jogo foramelesquetiveramoportunidadesdeaprimorar/treinar os arremessos fato que revela como a aquisic¸ão e o desenvolvimento das habilidades corporais, nesse con-texto,eramprimeiramentemarcadospelasexpectativasde gênero.
Outropontodedestaquedessacenaforamosarremessos feitospelasmeninas.Entreesses,grandepartefoideJoana, umameninaquetinhamuitaforc¸anoarremesso,fatoque aoserevidenciadopelosdemaisintegrantesdojogo,quando elaqueimouumdosmeninosdaequipeadversária,fezcom quepassassearecebermaisaboladuranteapartida,tanto dos meninosquanto das próprias meninas de sua equipe. Percebe-sequeodestaquedessameninaemtermosde habi-lidadeduranteojogoampliousuaspossibilidadesdeprática eefetivainserc¸ãonojogomisto.
Pesquisasinternacionaisnaáreadesociologiadoesporte, comrecortedeteoriasfeministas,têmdemonstradocomo osesporteseasatividadesfísicaspodemserelementosde ‘‘empoderamento’’(doinglêsempowerment)8tantofísico
quanto social para as mulheres em diversas faixas etá-rias(Gilroy, 1989;Whitson, 1994;Mcdermott, 1996;2000; Garret,2004;Hills,2007).
AautoraGarret(2004),emsuapesquisa,abordaa impor-tância e o efeito da aquisic¸ão de uma fisicalidade (do
inglês physicality) por parte das meninas, que se dá por
meiodepráticascorporais eesportivas. Aautoradefende a ideia de que um estilo de vida fisicamente ativo pode desenvolver nas meninas esse senso de fisicalidade, que, porsuavez, pode‘‘empoderá-las’’ noaspectocorporal e social.
O termo physicality é uma ferramenta conceitual pro-posta inicialmente por McDermott (1996) para ajudar a entender os caminhos das experiências de mulheres com o próprio corpo por meio de atividades corporais diversas.
Deacordo com a autora,esse conceitocomec¸ou a ser usado na literatura da sociologia do esporte a partir da
8O termo empowerment, ou o verbo empowering, como tem
sido usado na literatura internacional relacionadoao campo da educac¸ãofísica,énosentidodeumempoderamentopossibilitado pelaaquisic¸ãodehabilidadescorporais,autoconfianc¸aeum autos-sensopositivodesimesma.Dessaforma,elenãoéadquiridodefora paradentro,maspormeiodessesprocessos.Paramaisdetalhes, consultarGilroy(1989).
décadade1980.Aprincípio,relacionava-seauma masculi-nidaderepresentadapelocorpoe pelaimagemdeatletas homens. Para a autora, seu uso denotava uma forma de masculinidade hegemônicarepresentadapelaforc¸afísica, agressividadeepelopodercorporal,desenvolvidospormeio deesportesdeconfronto.Assim,paraMcdermott(1996),ao ligarotermofisicalidadediretamenteaumarepresentac¸ão masculina de forc¸a física e agressividade, mulheres que participavam desses esportes, consequentemente, tinham sua identidade e sexualidade questionadas no campo esportivo.
Partindo desse pressuposto,a autora argumenta que a fisicalidadenãoéumacondic¸ãovividaapenaspeloshomens esportistas, nem está, necessariamente, ligada apenasàs característicasdeforc¸afísicaeagressividade.Elapropõeo usodotermoprincipalmentenoestudodemulheres prati-cantedeesportese atividadesfísicasdiversas econsidera que eleé a combinac¸ão de três características: agencia-mento,autocontrolecorporalepresenc¸afísica(McDermott, 1996).
Ao voltarmos ao contexto do campo depesquisa, per-cebemos que a situac¸ão de jogo em que Joana disputava e recebia a posse de bola mostra como que a habili-dade corporal dessagarota,mastambéma autoconfianc¸a na capacidade de arremessar e obter êxito nas jogadas, fez com que participasse ativamente do jogo e ganhasse legitimidade para receber a bola dos integrantes de sua equipe.
Situac¸ão similar na dinâmica do jogo de queimada da escola Sônia ocorreu também na escola Hortência, com a turma da 5a série. Após a execuc¸ão da atividade cen-tral da aula, as crianc¸as dessa sala, principalmente as meninas, insistiramparaqueoprofessorasdeixassejogar queimada nos20 minutos restantes.Ao contrário do jogo da escola Hortência, o qual tinha um objetivo especí-fico no conteúdo de aula, na escolaSônia ele aconteceu de maneira mais ‘‘livre’’, sem muitas intervenc¸ões do professor.
Apesardocontextodiferenteemqueojogodequeimada foi feito, a mesma situac¸ão de desigualdade em relac¸ão às ‘‘oportunidades de arremessar’’ ocorreu: os meninos arremessaram 30 vezes e as meninas apenas oito vezes. Considerandoqueasalaestavacompostapor14meninose 15meninas,secadaarremessofossefeitoporumamenina diferente,apenasoitodelasteriamarremessado.
Nessemesmodia,aatividadecentraldaaula,cujo con-teúdo era o futsal, foi o jogo ‘‘base 4’’.9 Nesse jogo, as
rebatidasdeboladaequipequeatacavaeramfeitascomos pés,poisoobjetivoeraprincipalmentevivenciarhabilidades dechute.
Jánoinício daatividade,o professordelimitouqueos chutesdeveriamseralternadosentremeninosemeninasda mesma equipe.Aregradoprofessordemonstraque havia
9São divididas duas equipes, uma ataca e a outra defende.
preocupac¸ãodegarantirquetodosdessemochute,jáque esseeraoobjetivocentraldaatividade.Porém,tal regra nãoeliminouapossibilidadedealgumasmeninasresistirem àatividade:
Na primeira ‘‘rodada’’, quando a equipe que estava defendendopassaaatacar,duasmeninassaemdojogoe sóvoltamquandoaequipedelaspassaadefender.Assim, elasfazemdurantetodoojogo,deixandodeparticipar nosmomentosemqueaequipedelastinhaquechutara bola.(DC:02/06/2010)
Nessejogo,afunc¸ãodaequipeduranteosmomentosde defesaeraficarespalhadaportodooespac¸odejogopara tentarpegarabolaqueerachutadapelaequipeatacante. Assim,asduas garotas, ao participarapenas domomento da defesa, tiveram uma participac¸ão ‘‘mascarada’’, pois de fato elas não se envolveram com a atividade pro-posta.
PesquisafeitaporJaco(2012)comjovensdamesmafaixa etáriaexpõequeasparticipac¸õesdemeninosemeninasnas aulas de educac¸ão física nãoestão centradas no binômio ‘‘participac¸ão/nãoparticipac¸ão’’, pois asmeninas que, a princípio,pareciamparticipardaaulaenvolviam-secomas atividadesdemaneira‘‘mascarada’’(Jaco,2012).
Também aqui nesta pesquisa, estar presente na ativi-dade de aula não foi sinônimo de envolvimento, nem de participac¸ãoigualitária.Assituac¸õesdemenosarremessos nojogodequeimada,autoexclusãonassituac¸õesdeataque, posicionamentosquenãogarantiamorecebimentodabola, mostramqueamaneiracomoasmeninasparticipavamdas atividadesdeaulatambémeramsecundárias,coadjuvantes enãoefetivas,nãopermitiaquemuitasdelasatingissemos objetivospropostos.
Mas por que há situac¸ões em que asmeninas se colo-camemposic¸õessecundárias,coadjuvantesemenosativas duranteosjogos?
Uma possívelexplicac¸ão é quediante dasexpectativas corporais parameninose meninas,o sucessona obtenc¸ão deumpontodentrodojogo,sedestacareexercerpapéis decisivosnasjogadas,estámaisatreladoaogênero mascu-linodoqueaofeminino.Emboraessapercepc¸ãonemsempre seconfirme,poismuitasmeninastambémsedestacamnas atividades edisputam relac¸õesdepodernasdiversas prá-ticascorporais, acrenc¸adequeeles, quandocomparados a elas, são mais habilidosos já interfere de antemão nas maneirasdeparticipardojogo.Entretanto,mesmoquetais construc¸õesdegêneroquecolocamosmeninoscomomais habilidososnãosejamverdadesabsolutas---e acreditamos quenãosejam---asmeninasesquivam-sedecertosjogose esportespornãosesentircapazes.
Nessecaso,asmeninas,aoassumirduranteassituac¸ões desses jogoso que se esperadelas, ouseja, participac¸ão secundáriaprincipalmentequandoaac¸ãonojogoenvolviaa capacidadefísicaforc¸a(como,porexemplo,oarremessono jogodequeimadaeochutenojogo‘‘base4’’),não desen-volviam as mesmas habilidades corporais e capacidades físicasqueosmeninos,oquefazcomqueessasdiferenc¸as dehabilidadesecapacidadescorporais,aoserevidenciadas, sejamequivocadamentenaturalizadas,poisoportunidades diferentesnos jogos e esportes geramo desenvolvimento de diferenteshabilidades entreos gêneros. Expectativas,
bemcomoreforc¸odecomportamentoseatitudesdistintas entremeninose meninas, sãodirecionadas aoscorpos de ambosdesdecedo,sejanafamília,entrebrincadeirascom seuspares,seja---éclaro---naescola.
ViannaeFinco(2009)destacamquedesdesuas primei-rasexperiênciascomo discentes ascrianc¸as experienciam no ambiente escolar estratégias de controle voltadas para a normalizac¸ão das expressões corporais. Assim, as demarcac¸ões de fronteiras estão direcionadas principal-mente para o controle dos corpos das crianc¸as, em seus gestos, reforc¸o de características físicas e comportamen-tais. No entanto, concluem as autoras que ‘‘frente às opressõesque crianc¸as vêm sofrendo, meninos e meninas aindaexercitam habilidades mais amplas, experimentam, inventam e criam’’ (Vianna e Finco, 2009, p. 281), fato que pode ser evidenciado, segundo elas, por aquelas crianc¸as que resistem às normas de gênero atribuídas a elas.
Desse modo, destacamos como a habilidade corporal podeserumfatordeparticipac¸ãoeinserc¸ãoefetivanuma atividade, bem como fator de desestabilizac¸ão de uma ordemdegênerovigenteduranteassituac¸õesdejogos mis-tos.Reiteramosessaafirmac¸ãocomocaso deJoana,que, aotersuahabilidadeevidenciadaperanteogrupo,passou aexercerfunc¸ãomaisativanojogodequeimada.
Oarriscar-seemnovasaprendizagenscorporais
Além dasituac¸ão deuma participac¸ão diferenciada entre meninose meninas nasaulas, outro ponto encontrado no estudode campoé aquestão do‘‘arriscar-se’’ em expe-riênciasesituac¸õesdeaprendizagensnovas,possibilitadas principalmenteporaquelesconteúdoseatividadesquenão eramcomunsnodiaadiadosestudantesdasduasescolas pesquisadas, como as ginásticas e modalidades do atle-tismo.
Na 6a série da escola Hortência, durante uma aula sobreostipos desaltos presentes no atletismo,o profes-sororganizounocampodeareiadaescola,estac¸õespara que a turma vivenciasse as diferentes formas de saltar (altura e distância). O objetivo era apenas fazer a ac¸ão, oprofessor nãoascolocou em formade competic¸ãonem tampouco explicou, a priori, uma maneira ‘‘correta’’ de saltar. Para essa atividade,o professor também estabele-ceuumtempo,noqualosmeninosemeninas,separadosem duasfilas,poderiamsaltarquantasvezesquisessem.Mesmo assim:
Osmeninosqueparticiparamdosaltoemdistância salta-vam,entravamnafila,saltavamoutravez,tantasvezes quantofossepossível.Jáasmeninasfaziamapenasuma ou duas tentativas. A maneira de saltar também foi distinta:enquantoosmeninossejogavamnochão, con-seguindo,assim,saltarmaislonge,asmeninassaltavam ecaíamempé,apenasumadelastentouamaneirados meninos,mas emseguida desencorajouascolegas ale-gando que a sua [aponta para asnádegas] tinha doído muito.(DC:04/05/2010)
aatividadepermitiaqueelasfizessemmaisvezesdoquede fatotentaram,aindatemosanãotentativadelasdesaltar demaneiradiferentedaquelaquejáconseguiam.
Ressalta-se que não houve, pelo menos naquele momento,uma percepc¸ão do professorGustavo quanto a essasituac¸ãodasmeninasquesaltavamumnúmeromínimo devezes,nemnenhumestímuloporpartedeleparaqueelas saltassemdeoutrasmaneiras.
A única tentativa de uma delas, e o desencoraja-mento das demais diante da queixa de dor causada pelo movimento, fezcom que elas saltassem distâncias meno-resem relac¸ão aos meninos,que tentavam jogar-se cada vezmais,afimdeobtermelhores‘‘resultados’’.
Deacordo coma situac¸ãoexposta,podemos dizer que emníveisdeaprendizagensdenovasexperiênciascorporais desaltarasmeninasnãoexperimentaramo‘‘novo’’,ficoua aprendizagemnonívelsódoqueelasjásabiame/ou esta-vamacostumadasaexecutar.Alémdisso,o‘‘desconforto’’ corporalcausadoporcairsentadonaareiaeraomesmopara meninose meninas.Destaca-se queeles estavamfazendo a atividade no campo de areia da escola, o qual tinha condic¸õesmateriaisparaessetipodesalto.Logo,sehavia algumdesconforto em cairsentado naareia, tal condic¸ão paraelesnãofoiumimpedimentoparaarriscar-see execu-taraatividade.
No saltoem altura,que aconteceu nessa mesma aula, tambémnãofoidiferente.Enquantoosmeninos arriscavam--seepediamsempreparaqueoprofessorerguesseacorda, asmeninas, ao contrário,diziam:‘‘Nãoprofessor,abaixa, eunãoconsigo!’’(DC:04/05/2010)
Asmaneirasdesaltardemeninosemeninasforam,a pri-ori,saltarcomocorpoposicionadodefrenteparaacorda. Apósalgumastentativasdosalunos/as,oprofessorensinou o‘‘saltotesoura’’,cujomovimentoéfeitocomocorpo posi-cionadoaoladodacorda,passando-sesobreelaumaperna edepoisaoutra.
Apósademonstrac¸ãodoprofessor,osmeninospassaram atentaramaneiraensinada,jámuitasmeninascontinuaram saltandodefrentedurantetodoorestantedaaula. Destaca--sequediante dessasituac¸ão nãohouveumaintervenc¸ão dodocentequeincentivasseasmeninasafazeremo‘‘salto tesoura’’,nemmesmoficouperceptívelnaquelemomento seelehaviapercebidoquemuitasmeninascontinuavam sal-tandodeoutramaneira.
Aindanessamesmasérie,noconteúdoginástico,houve situac¸ões em que as meninas eximiram-se de executar algunsmovimentos,osquaisforamconsideradosmais difí-ceispelosestudantes.
Emumadessasaulas,oprofessorlevoualgumasfiguras deginásticaacrobáticaparaqueaturmatentasse reproduzi--las. Nesse dia, ao apresentar as figuras,todos pareciam bastanteempolgadoselogocomec¸aramaorganizar-separa aatividade:
Na aula, meninos e meninas interagiram para compor as figuras acrobáticas. Porém, na medida em que as formac¸õesficavammaiscomplexas,exigindodiferentes tipos de equilíbrio e forc¸a, elas iam sendo formadas apenas pelos meninos. Já as meninas ajudavam na organizac¸ão, solicitando que os meninos as fizessem: ‘‘Rafaelvocêficaembaixo,oLucasfazaparadademão, quem vai subir?’’ E vários meninos menores brigavam
paraqueeles fossemo topodapirâmide,embora hou-vesse muitas meninas menores e mais leves, elas não entravamnadisputa.(DC:28/09/2010)
O trecho acima nos revela as diferenc¸as nas experi-ências de meninos e meninas frente a uma situac¸ão de aula. Enquanto eles arriscavam-se mais nos movimentos maiscomplexos,aprimorandohabilidadescorporaisligadas à forc¸a, ao equilíbrio etc., elasdesenvolviam habilidades delideranc¸aeorganizac¸ão.Tambémnaatividadedescrita, embora o peso corporal fosse um critério adotado pelos alunos/asparaverquemsubianoaltodapirâmide,o crité-riogênerosobrepunha-seaele,mesmosemserexplicitado pelosestudantes.
Na5a série daescolaSônia, tambémna aprendizagem doconteúdoginástico,a professorapriorizouque aturma aprendessealguns movimentos derolamentos, rotac¸õese equilíbrios.Aaprendizagem deu-seaolongodetrês sema-nas,nasquaiserammontadas‘‘estac¸ões’’,comdiferentes graus de dificuldade, porém a professora não exigia que todos treinassemtodos ostipos de movimento, a escolha sobreatéondeiriamtentareradecadaum.
Mesmo sendo a ginástica artística uma prática espor-tiva representadasocialmente maiscomo feminina, essas aulasnoambienteescolarafastaram,apriori,muitas meni-nas,quealegavamtermedodeexecutarosmovimentosou quenãosabiamfazê-lo.Masnãoseriaaauladeeducac¸ão física justamente o espac¸o para elas (e eles) aprende-rem?
Ofatoéque tambémosmeninosnãoosabiame, mui-tas vezes, as tentativas eram sem êxito, porém isso não os afastava dapossibilidade de tentar aprender umnovo movimento.
Nofim de umadessas aulas, aprofessora colocou col-chõesepermitiuqueaturmatentassefazero movimento demortalparafrentecomsuaajuda.Todosficarambastante animados,inclusiveasmeninasparticipantesdaaula.Mas, apesardetodosentraremnafila,nenhumameninaquehavia participadodasaulaspráticasdeginásticaarriscou-sea exe-cutartalmovimento,permitindoqueosmeninospassassem àfrentedelasduranteastentativas.
Assim,embora as meninas tivessem demonstrado von-tade defazeromovimentodemortal, elasesquivaram-se da tentativa de aprendê-lo. Já os meninos, embora tam-bémdemonstrassemreceioperanteomovimentonovo,não deixaramdetentarfazê-lo.
Outrofato quemarcou asaulasde ginástica daescola Sôniafoiarepercussãonegativaqueessasaulastiverampara asmãesdealgumasalunas(enãoalunos).Duranteumaaula, aprofessoraLaurarelatou-mequeemumadas5a
sériesuma garotahaviaestiradoomúsculodopescoc¸oenquantodava umacambalhota.Devidoàreclamac¸ãodamãedessagarota edealgumasoutras,adiretora‘‘pediu’’àprofessoraque nãoobrigasseosalunos/asafazerasaulaspráticase lhes dessemopc¸ões,comotrabalhoserelatórios.
Tal fato, ocorrido em outra sala, repercutiu na participac¸ão dasmeninas da5a
Dessaforma,apenasoitodas18meninasdasala participa-ramdasaulaspráticasnasseisaulasseguintesao ocorrido naoutraturma.
Ocuriosoéqueofatonãointerferiunaparticipac¸ãodos meninos.Seareclamac¸ãodasmãeseasolicitac¸ãoda dire-toraforamemfunc¸ãodapossibilidadedeosestudantesse machucarem,esseriscotambémnãoestavapostoparaos meninos?
Nas aulas observadas, os meninos não tinham êxito na execuc¸ão de todos os movimentos, principalmente naqueles não vivenciados em outros espac¸os, como o rodante.10Adificuldadedeexecutá-loserarealtantopara
as meninas que participaram das aulas práticas quanto paraosmeninos.
No fim das quatro semanas de aprendizagem, durante a prova prática, quando os alunos/as deveriam mostrar aomenoscincomovimentosdiferentesaprendidos,percebi quetodosqueparticiparamdasaulaspráticasconseguiram aprendermovimentosnovos,atéomovimento derodante foiapresentadoapenasporumamenina.
Talfatoindicaqueseasoutrasmeninastambémtivessem participadodasaulaspráticas,provavelmenteteriam ampli-adoasaprendizagens,assimcomoosmeninos,quetambém sabiampoucosmovimentose,nofim,oshaviamampliado.
Porém,asreclamac¸õesdasmãeseaconivênciada dire-tora só legitimaram um discurso de que as meninas não sabem epor nãosaberem corremorisco desemachucar, oquedescaracterizaoespac¸odasaulasdeeducac¸ãofísica comoummomentodeaprendizagem.
Conclusão
O questionamento que conduziu esta pesquisa era como osdiferentesconteúdosdaeducac¸ãofísicainterferiamnas relac¸õesdegêneroproduzidasemaula.Porém,apartirdo estudodecampo,entendemosque nãoexclusivamente os conteúdos,mastambémoutrascategoriasqueatuamjunto a esses,interferem na relac¸ão demeninos e meninasnas aulas.
Fatorescomo‘‘confianc¸anasprópriashabilidades’’e a capacidadede‘‘arriscar-seemnovasaprendizagens corpo-rais’’mediavamcomomeninosemeninasserelacionavam comoconteúdodasaulas,independentementeseesseera ummovimentoginástico,umposicionamentonumasituac¸ão de jogo etc. O gênero masculino parecia ter uma visão positiva desses fatores, o que permitia que elese envol-vessemaiscomasaulasearriscassemaisnasaprendizagens quandocomparadocomo feminino.Essesfatorestambém influenciavamnapráticaefetivadaatividadeproposta,nas quais em muitos momentos as meninas permaneciam na aula, porém nãoseenvolviamde maneiraefetiva, desen-volvendopapéissecundáriosnasatividades.
Esses diferentes envolvimentos com as atividades de aula---independentementedoconteúdo---faziamcomque meninos e meninas desenvolvessem habilidades corporais distintas, como na situac¸ão dos jogos de queimada, nos quaiselesdominavam osarremessosouna composic¸ãode figuras acrobáticas, em que eles arriscavam-se mais nos
10 Movimentoginástico.
movimentosmaiscomplexos,aprimorandohabilidades cor-porais ligadasà forc¸a, ao equilíbrio, e elas desenvolviam habilidadesdelideranc¸aeorganizac¸ão.
Apartirdaanálisedaparticipac¸ão demeninose meni-nas em diversas práticas corporais no ambiente escolar, notamosqueadesigualdadedeparticipac¸ãonasdiferentes práticasainda nãoestá superada. Embora nãoamparadas porlei,elasocorremapartirdeconcepc¸õesgeneralizadas decorpoe habilidades físicas,que colocam econsideram discursivamente as meninas como menos hábeis quando comparadascomosmeninos.
Financiamento
Fundac¸ão de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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