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As construções causativas em português

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Academic year: 2017

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Alfa,

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

S ã o P a u l o 29:41-58, 1985.

AS C O N S T R U Ç Õ E S C A U S A T I V A S EM P O R T U G U Ê S

T e l m o C o r r e i a A R R A I S *

RESUMO: Fenômeno comum às diversas línguas do mundo, a expressão da causatividade varia de uma para outra, Em lermos semânticos, pode-se definir uma ''situação causativa'' como a relação entre um evento-causa e um evento-efeito, de tal forma que a ocorrência do segundo é inteiramente

depen-dente do primeiro. Este trabalho se limita a uma análise do problema na língua portuguesa, buscando: (i) descrever os padrões morfológicos e sintáticos que o português utiliza para representar a causativida-de; fiij estabelecer parâmetros sintáticos e/ou semânticos que definem a relação entre elementos em construção causativa; (iii) examinar aspectos semântico-pragmáticos da causatividade.

UNITERMOS: Causatividade; proposição-causa; proposição-efeito; agente; causa; instrumento; derivação; lexicalização; verbos causativos; verbos transitivos; verbos auxiliares; verbos ergativos; construções perifrásticas.

1. A P R E S E N T A Ç Ã O E C A R A C T E R I Z A Ç Ã O D A C A U S A T I V I D A D E

A expr es s ão d a c a u s a t i v i d a d e nas diversas línguas constitui um d o s t e m a s d o m i n a n -tes, entre os lingüistas n o r t e - a m e r i c a n o s , na s e g u n d a m e t a d e da década de 60 e em t o d a a década de 70. N ã o seria m e s m o e x a g e r o af ir mar - s e q u e a teoria d a semântica gerativa se desenvolveu b a s i c a m e n t e n o p r o c e s s o d e análise d a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a . Desde a tese de Lakoff, de 1965, p u b l i c a d a em 1970, e o a r t i g o de M c C a w l e y de 1968, as e s t r u t u -ras causativas se t o r n a r a m u m e s t i m u l a n t e c a m p o de investigação e n t r e lingüistas dessa c o r r e n t e , m u l t i p l i c a n d o - s e os t r a b a l h o s p u b l i c a d o s em revistas e o b r a s especializadas; n a d a m e n o s de d e z e n o v e a r t i g o s , a b r a n g e n d o desde f u n d a m e n t o s teóricos até e s t u d o s particulares d e línguas c o m o o inglês, o h i n d i , o b a n t o , ò húngaro, o t u r c o , o chinês-m a n d a r i chinês-m , a p a r e c e chinês-m n u chinês-m a o b r a e s p e c i a l chinês-m e n t e d e d i c a d a a tal p r o b l e chinês-m a lingüístico, editada p o r M a s a y o s h i S h i b a t a n i (13), h o j e u m d o s m a i o r e s especialistas n o a s s u n t o . Nossa c o n t r i b u i ç ã o p a r a o c o n h e c i m e n t o d a c a u s a t i v i d a d e se limita a u m a análise d o p r o b l e m a n a língua p o r t u g u e s a , b u s c a n d o : (i) descrever os p a d r õ e s morfológicos e sin-táticos q u e o p o r t u g u ê s utiliza p a r a r e p r e s e n t a r a c a u s a t i v i d a d e ; (ii) estabelecer parâmetros sintáticos e / o u semânticos q u e definem a r e l a ç ã o e n t r e e l e m e n t o s em c o n s t r u -ções c a u s a t i v a s ; (iii) e x a m i n a r a s p e c t o s semântico-pragmáticos d a c a u s a t i v i d a d e .

Antes de mais n a d a , c o n t u d o , i m p o r t a definir a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a , o q u e n ã o é n a d a fácil. É q u e , s e n d o a c a u s a t i v i d a d e u m fenômeno c o m u m às diversas línguas d o m u n d o , varia de u m a p a r a o u t r a o m o d o c o m o a p a r e c e superficialmente expressa: u m a s utilizam p r o c e d i m e n t o s morfológicos, o u t r a s sintáticos e um terceiro g r u p o c o m -preende a q u e l a s q u e a p r e s e n t a m p r o c e d i m e n t o s t a n t o morfológicos c o m o sintáticos.

* Departamento de Linguistica — Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação — UNESP — 14800 — Araraquara — SP.

(2)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A l f a , Sâo P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

Daí sugerir MasayOshi S h i b a t a n i (12, p.239) q u e u m a definição geral d a e x p r e s s ã o c a u -sativa deve ser d a d a em t e r m o s semânticos. De a c o r d o c o m S h i b a t a n i (12, p.239-40) e Givón ( 3 , p . 6 0 - 1 ) , p o d e m o s definir u m a " s i t u a ç ã o c a u s a t i v a " c o m o u m a r e l a ç ã o e n t r e dois e v e n t o s , u m e v e n t o - c a u s a e u m e v e n to - e f e ito , d e tal f o r m a q u e a o c o r r ê n c i a d o evento-efeito é i n t e i r a m e n t e d e p e n d e n t e d o e v e n t o - c a u s a . E m t e r m o s lingüísticos, trata-se d e d u a s p r o p o s i ç õ e s n a e s t r u t u r a semântica s u b j a c e n t e , u m a p r o p o s i ç ã o - c a u s a e o u t r a p r o p o s i ç ã o - e f e i t o , c o m u m e n t e c o n d e n s a d a s n u m a única p r o p o s i ç ã o c o m u m simples v e r b o n a e s t r u t u r a d e superfície. T a l c a r a c t e r i z a ç ã o p e r m i t e a p o n t a r c o m o cau-sativas frase d o t i p o :

(1) E u fiz J o ã o sair. (2) E u forcei J o ã o a sair. (3) Eu causei a saída d e J o ã o . (4) O b a r u l h o a c o r d o u o g a r o t o . (5) J o ã o a b r i u a p o r t a .

Que o eventoefeito o c o r r e d e p e n d e n t e m e n t e d o e v e n t o c a u s a p r o v a m n o as c o n t r a d i -ções a c a r r e t a d a s pelo acréscimo d a a d v e r s a t i v a n e g a n d o o efeito:

(6) *Eu fiz J o ã o sair, m a s ele n ã o saiu.

(7) * J o ã o a b r i u a p o r t a , m a s ela n ã o a b r i u .

P o r o u t r o l a d o , n ã o p o d e m ser c o n s i d e r a d a s c a u s a t i v a s frases c o m o :

(8) E u pedi a J o ã o q u e saísse.

(9) Eu l a m e n t o q u e J o ã o t e n h a saído.

Já q u e n a p r i m e i r a o e v e n t o d a saída d e J o ã o n ã o o c o r r e n e c e s s a r i a m e n t e em d e c o r r ê n -cia d o m e u p e d i d o (daí a n ã o - c o n t r a d i ç â o em " E u pedi a J o ã o q u e saísse, m a s ele n ã o s a i u " ) , e n a s e g u n d a o e v e n t o d a saída d e J o ã o , de fato o c o r r i d o , n ã o d e p e n d e d e m e u l a m e n t o .

T a l m y Givón, e n t r e t a n t o , avança n a c a r a c t e r i z a ç ã o d a e s t r u t u r a c a u s a t i v a , identifi-c a n d o nela u m sujeito-agente d a p r o p o s i ç ã o - identifi-c a u s a , d e v e n d o ser identifi-c o n s i d e r a d o sujeito d e t o d a a expr es s ão c a u s a t i v a , e u m sujeitopaciente d a p r o p o s i ç ã o e f e i t o , q u e é c o n s i d e -r a d o o o b j e t o d a causaçâo.* E n f i m , " a o s dois mais P R I V I L E G I A D O S n o m i n a i s envolvidos, isto é, u m c o n s i d e r a d o i n i c i a d o r a g e n t e e o u t r o s o f r e n d o a significativa m u dança de e s t a d o / p o s i ç ã o , é d a d a p r o e m i n ê n c i a c o m o sujeito e o b j e t o d o v e r b o c a u s a t i -vo, r e s p e c t i v a m e n t e " (Givón, 3, p . 60). T r a t a - s e , a n o s s o ver, de u m a g e n e r a l i z a ç ã o d a característica " a g e n t i v o " p a r a o sujeito d a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a , o q u e n ã o c o r r e s p o n -de -de fato à r e a l i d a d e . C o m efeito, c o n s i d e r e m - s e as seguintes c o n s t r u ç õ e s d e (5) e (10):

(5) a. J o ã o a b r i u a p o r t a .

b . J o ã o a b r i u a p o r t a c o m a c h a v e . c. A c h a v e a b r i u a p o r t a .

d. A p o r t a a b r i u .

(10) a. J o ã o m a t o u o c a c h o r r o .

b . J o ã o m a t o u o c a c h o r r o c o m u m v e n e n o .

* C e r t a m e n t e , deve-se e n t e n d e r q u e Givón se refere a sujeito a g e n t e n a e s t r u t u r a p r o f u n d a , d e s o r t e q u e frases t o m o a a b a i x o n ã o p o s s a m ser a p o n t a d a s c o m o u m c o n t r a - e x e m p l o :

a. O c a c h o r r o foi m o r t o p o r J o ã o .

(3)

A R R A I S , T . C .

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— A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , Sâo P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

c. U m v e n e n o m a t o u o c a c h o r r o .

d. O c a c h o r r o m o r r e u .

Em a m b a s as séries, a s três p r i m e i r a s frases s ã o expressões c a u s a t i v a s típicas, e n q u a n t o as frases em

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

d e x p r e s s a m a p e n a s a p r o p o s i ç ã o r e s u l t a d o , c o m um só a r g u m e n t o , p o r -t a n -t o sem carac-terís-tica c a u s a -t i v a , m a s s u b e n -t e n d i d a s c o m o c o n s e q ü ê n c i a implíci-ta d a s respectivas c o n s t r u ç õ e s prévias. Observese q u e as c o n s t r u ç õ e s em (5b) e (10b) se a p r e -sentam c o m três a r g u m e n t o s , o p r i m e i r o d o s q u a i s é a g e n t e , o s e g u n d o é a f e t a d o e o terceiro é i n s t r u m e n t o , a p a r e c e n d o este último n a função d e sujeito n a s c o n s t r u ç õ e s d e

c. P o r t a n t o , também u m sujeito i n s t r u m e n t o poderá a p a r e c e r n a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a , q u a n d o u m a g e n t e n ã o estiver e x p r e s s o .

C o m p a r e m - s e a g o r a as c o n s t r u ç õ e s (5a) e (11):

(5a) J o ã o a b r i u a p o r t a .

(11) O v e n t o a b r i u a p o r t a .

C e r t a m e n t e (11) n ã o é similar às c o n s t r u ç õ e s d a alínea c de (5) e (10). N ã o se p o d e pensá-la c o m o u m a frase d e r i v a d a d e u m a c o n s t r u ç ã o c o m três a r g u m e n t o s , em q u e

vento seria i n s t r u m e n t o . Teríamos, sem dúvida, u m a frase anômala c o m o em (12):

(12) * J o ã o a b r i u a p o r t a c o m o v e n t o . *

A língua a p r e s e n t a , p o i s , e s q u e m a s semânticos b e m definidos p a r a estabelecer rela-ções causativas e n t r e os a r g u m e n t o s d e u m a frase, os q u a i s p o d e m o s c a r a c t e r i z a r c o m o segue:

(I) P c ». P e (II) A a ( c a u s a - V e ) Af

(III) A a ( c a u s a - V e) Af c o m - A i (IV) Ai (causa-Ve) Af

(V) A c (causa-Ve) Af

A q u i , P c e P e s ã o as p r o p o s i ç õ e s c a u s a e efeito, r e s p e c t i v a m e n t e ; A a é o a r g u m e n t o agente d e P c ; Af é o a r g u m e n t o a f e t a d o d e P e ; Ai é o i n s t r u m e n t o d e P c ; Ac é o a r g u -m e n t o c a u s a t i v o d e P c ; e Ve é o v e r b o d e P e .

2. M O R F O L O G I A E S I N T A X E D A C A U S A T I V I D A D E

2 . 1 . E n t r e os gerativistas, o e s t u d o d a c a u s a t i v i d a d e se desenvolveu a partir de análises de d e c o m p o s i ç ã o lexical d e v e r b o s (cf. M c C a w l e y , 10; Lakof f , 8), n a t e n t a t i v a d e m o s -trar a existência d e t r a n s f o r m a ç õ e s pré-lexicais, o u seja, a n t e r i o r e s à in s e r ç ã o d o léxico c o m o c o m p o n e n t e d a gramática. Nesse m e s m o t e m p o , lingüistas britânicos ( L y o n s , 9; Halliday, 4 , 5, 6; A n d e r s o n , 1) começavam a analisar a c a u s a t i v i d a d e n o nível d a frase inteira, a o invés d e se r e s t r i n g i r e m especificamente a v e r b o s .

C o m o a d e f i n i ç ã o q u e a p r e s e n t a m o s n o tópico a n t e r i o r a p o n t a p a r a u m t r a t a m e n t o da c a u s a ç ã o c o m o u m a r e l a ç ã o e n t r e p r o p o s i ç õ e s , p a r e c e e s t r a n h o i n d i c a r m o s a l g u m

* Os vários tipos de causa podem ser alçados, em certas c o n d i ç õ e s à posição de sujeito. Confrontem-se as frases:

a. O aluno chegou atrasado

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por causa da chuva

b. A chuva fez o aluno chegar atrasado.

No caso da frase 0 2 ) , a simples topicalização d o argumento com o vento torna-a gramatical, pois passa a expressar clara-mente o valor causativo. Cf.

(4)

A R R A I S , T . C .

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A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

caráter e s t r i t a m e n t e morfológico d a c a u s a t i v i d a d e neste tópico. C o n t u d o , d a d a a exis-tência de m o r f e m a s c a u s a t i v o s próprios — s o b r e t u d o prefixais e sufixais — ligados à forma verbal, em línguas c o m o o t u r c o , o b a s c o , o g u a r a n i , o j a p o n ê s , o K h m e r , o c o -reano e m u i t a s o u t r a s , c a b e a q u i e x a m i n a r se existem também m o r f e m a s c a u s a t i v o s em p o r t u g u ê s . C e r t a m e n t e , c o m o os m o r f e m a s c a u s a t i v o s , n a q u e l a s línguas, têm a facul-dade de c o n v e r t e r um t e m a verbal i n t r a n s i t i v o em u m t e m a t r a n s i t i v o c a u s a t i v o , logo se evidencia q u e a explicação desse a s p e c t o mórfico n ã o p o d e ser d i s s o c i a d o de suas c o n -seqüências sintáticas.

Nas línguas indo-européias, n ã o são c o m u n s p r o c e d i m e n t o s morfológicos na for-m a ç ã o de v e r b o s c a u s a t i v o s . Nelas for-mais c o for-m u for-m e n t e se verificafor-m p r o c e d i for-m e n t o s sintá-ticos ou léxico-sintásintá-ticos na f o r m a ç ã o de c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s , s e n d o esporádicas e n a d a sistemáticas as f o r m a ç õ e s de v e r b o s c a u s a t i v o s c o m m o r f e m a s sufixais, p o r

exem-p l o . A s s i m , em exem-p o r t u g u ê s s ã o c o m u m e n t e a exem-p o n t a d o s os sufixos

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-izar e -ficar c o m o for-m a d o r e s de v e r b o s c a u s a t i v o s (hufor-manizar, esterilizar, atefor-morizar, danificar, purificar,

e t c ) , c o m o m o s t r a m os e x e m p l o s de (13) a (16):

(13) a. O prefeito h u m a n i z a a c i d a d e .

b . ( O prefeito faz a c i d a d e t o r n a r - s e h u m a n a . ) (14) a. O m a r g i n a l a t e m o r i z a as crianças.

b . ( O m a r g i n a l c a u s a t e m o r às crianças.) 15. a. O s s a n i t a r i s t a s p u r i f i c a r a m a água.

b . (Os s a n i t a r i s t a s fizeram a água t o r n a r - s e p u r a . ) 16. a. A água d a n i f i c o u os livros.

b . (A água c a u s o u d a n o a o s livros.)

N ã o se t r a t a , porém, de q u a l q u e r p r o c e s s o sistemático na língua, Já q u e nem t o d o s os adjetivos e s u b s t a n t i v o s p o d e m ser assim d e r i v a d o s . Além d o m a i s , o u t r o s m o r f e m a s p o d e m também f o r m a r c a u s a t i v o s , c o m o se dá em afugentar, a b a i x o i l u s t r a d o :

(17) a. O l a v r a d o r a f u g e n t a os p a r d a i s .

b . ( O l a v r a d o r faz os p a r d a i s fugirem.)

E, o q u e é mais significativo, aqueles sufixos n ã o f o r m a m v e r b o s transitivos a p a r t i r de c o r r e s p o n d e n t e s i n t r a n s i t i v o s , c o m o se dá em afugentar/fugir, o q u e é p r o c e d i m e n t o c o m u m nas línguas a c i m a a p o n t a d a s .

Poder-se-ia a r g u m e n t a r q u e as frases de (13) a (16) p o d e m ser c o r r e l a c i o n a d a s a fra-ses de p r o c e s s o (mudança d e e s t a d o ) c o r r e s p o n d e n t e s , com o o b j e t o d i r e t o na p o s i ç ã o de sujeito. Cf.:

(18) A c i d a d e se h u m a n i z a . (19) A s crianças se a t e m o r i z a m . (20) A água p u r i f i c o u - s e . (21) O s livros se d a n i f i c a r a m .

C o n t u d o , estas p a r e c e m ser frases d e r i v a d a s d a q u e l a s , e n ã o o i n v e r s o , pela d e r i v a ç ã o decaus ativa. É c e r t o q u e estas últimas p o d e r i a m ser também a p r o x i m a d a s d a s c o r r e s -p o n d e n t e s e s t a t i v a s . Cf.:

(22) A c i d a d e é h u m a n a . (23) A s crianças têm t e m o r . (24) A água é p u r a .

(5)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

Seriam estas, p o i s , as frases básicas d e q u e d e r i v a r i a m as de (18) a (21)? A s evidências sintáticas a p o n t a m p a r a u m a r e s p o s t a n e g a t i v a . E a evidência m a i o r está n o fato d e o verbo se c o n s t r u i r n a f o r m a p r o n o m i n a l , s e n d o a pronominalizaçâo u m d o s pr oces s os de recessividade. A s frases d e (18) a (21) é q u e s ã o , p o r t a n t o , d e r i v a d a s d a s c o r r e s p o n -dentes c a u s a t i v a s d e (13) a (16).

É de ressaltar, a s s im, u m a p a r e n t e p a r a d o x o lingüístico: verbos m o r f o l o g i c a m e n t e derivados vêm a f o r m a r frases c a u s a t i v a s básicas. M a s n ã o se t r a t a de p a r a d o x o real, pois n ã o s ã o v e r b o s d e r i v a d o s d e v e r b o s in tr a n s itiv o s c o r r e s p o n d e n t e s . De q u a l q u e r forma, o i m p o r t a n t e a a s s i n a l a r é q u e as frases de (13) a (16) incluem as c o r r e s p o n d e n -tes frases de p r o c e s s o de (18) a (21), e isso é o b a s t a n t e p a r a q u e se assinale u m a r e l a ç ã o causativa e n t r e d u a s p r o p o s i ç õ e s n a q u e l a s frases.

É interessante q u e , c o m esses v e r b o s , q u a n d o c o n s i d e r a d o s i s o l a d a m e n t e sem c o n -texto frásico, há u m a t e n d ê n c i a a interpretá-los em dois diferentes sentidos c o n f o r m e se originem d e a d j e t i v o o u de s u b s t a n t i v o : n o p r i m e i r o c a s o , são b a s i c a m e n t e in te r p r e tados c o m o s e n t i d o de 'mudança de e s t a d o ' ( p r o c e s s o ) , n o s e g u n d o , n o s e n t i d o c a u s a -tivo p r o p r i a m e n t e . Cf.:

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humanizar " t o r n a r h u m a n o " ; purificar " t o r n a r p u r o " ;

atemorizar " c a u s a r t e m o r " ; danificar " c a u s a r d a n o " . E é c o m tais s e n tid o s básicos que são d i c i o n a r i z a d o s . N o s c o n t e x t o s frásicos, e n t r e t a n t o , é o s e n t i d o c a u s a t i v o q u e p r e p o n d e r a c o m t o d o s esses v e r b o s , pois a s c o n t r u ç õ e s intransitivas típicas de p r o c e s s o não se realizam c o m eles. Cf.:

(26) * A c i d a d e h u m a n i z a . (27) * A s crianças a t e m o r i z a m . (28) * A água p u r i f i c o u . (29) * O s livros d a n i f i c a r a m .

Esse tipo de d e r i v a ç ã o é, p o r t a n t o , diferente d a q u e l a em q u e e n t r a m u m prefixo e um sufixo s i m u l t a n e a m e n t e ( d e r i v a ç ã o parassintética), c o m o é o caso de endurecer,

en-tristecer, engordar, entortar, endireitar, esfriar, esquentar etc. Nestes, de f a t o , a deri-v a ç ã o traz i n i c i a l m e n t e à f o r m a básica d o a d j e t i deri-v o o s e n t i d o d e mudança d e e s t a d o (incoativo) e s o b r e esse s e n t i d o é q u e se d e r i v a a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a . Cf. as frases:

(30) a. A m e n i n a e n t r i s t e c e u .

b . A c h u v a entristeceu a m e n i n a . (31) a. A colher e n t o r t o u .

b . O g a r o t o e n t o r t o u a c o l h e r . (32) a. A s o p a já e s q u e n t o u .

b . A e m p r e g a d a já e s q u e n t o u a s o p a .

Assim, d o p o n t o d e vista e s t r i t a m e n t e morfológico, estas últimas derivações n ã o levam d i r e t a m e n t e à f o r m a ç ã o d e v e r b o s c a u s a t i v o s , q u e só p o d e m ser assim c o n s i d e r a d o s e x a t a m e n t e em frases d e r i v a d a s d a s de p r o c e s s o .

2.2. Neste p o n t o , u m a q u e s t ã o deve ser l e v a n t a d a . Corresponderá a c o n s t r u ç ã o causa-tiva a q u a l q u e r frase t r a n s i t i v a ? E m o u t r o s t e r m o s : c o n s t i t u i r ã o a c a u s a t i v i d a d e e a transitividade o m e s m o fenômeno lingüístico? Sem dúvida, t o d a frase c a u s a t i v a é t a m bém transitiva, m a s o reverso n ã o é v e r d a d e i r o . Há b a s i c a m e n t e dois tipos de c o n s t r u -ções transitivas: as q u e e n v o l v e m v e r b o s ' i n e r e n t e m e n t e t r a n s i t i v o s ' , t a i s . c o m o ler,

co-mer, cortar, chutar, cruzar, atravessar, sentir, ouvir, recordar * e as q u e envolvem u m a

(6)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

relação c a u s a t i v a . N a s p r i m e i r a s o c o r r e u m t e r m o a f e t a d o (objetivo) e o b r i g a t o r i a m e n -te um A g e n t e ou E x p e r i e n c i a d o r c o m p r e e n d e n d o u m a única p r o p o s i ç ã o . N a s segun-das, o a r g u m e n t o c a u s a t i v o ( A g e n t e , I n s t r u m e n t o , ou C a u s a ) só o c o r r e e x a t a m e n t e na c o n s t r u ç ã o transitiva c a u s a t i v a , q u e c o m p r e e n d e assim d u a s p r o p o s i ç õ e s ; se n ã o for expressa a p r o p o s i ç ã o - c a u s a , a p r o p o s i ç ã o - e f e i t o n ã o conterá esse tipo de a r g u m e n t o .

Cotejem-se as c o n s t r u ç õ e s de (33) a (36) c o m as de (37) a (39):

(33) O s a l u n o s leram dois r o m a n c e s .

(34) O c e n t r o a v a n t e c h u t o u a b o l a p a r a f o r a . (35) O g a r o t o sentiu u m a d o r n o pé.

(36) A velhinha r e c o r d a v a os dias de m o c i d a d e . (37) a. O m e n i n o fechou a p o r t a .

b . O m e n i n o fez a p o r t a fechar. c. A p o r t a f e c h o u .

(38) a. O m o t o r i s t a p a r o u o c a r r o . b . O m o t o r i s t a fez o c a r r o p a r a r . c. O c a r r o p a r o u .

(39) a. O l e n h a d o r d e r r u b o u a árvore. b . O l e n h a d o r fez a árvore cair. c. A árvore c a i u .

C o m efeito, as c o n t r u ç õ e s de (33) a (36) n ã o imp lic a m frases d o tipo

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b e c presentes nas construções de (37) a (39). M e s m o q u e t e n h a m o s u m a t r a n s f o r m a ç ã o passiva, sem q u e

se expresse o A g e n t e o u E x p e r i e n c i a d o r , eles e s t a r ã o s u b e n t e n d i d o s . Cf.:

(40) F o r a m lidos dois r o m a n c e s ( P O R ALGUÉM)

(41) E r a m r e c o r d a d o s os dias de m o c i d a d e ( P O R ALGUÉM)

Já nos c o n j u n t o s de (37) a (39), as frases d a alínea b evidenciam a existência de d u a s proposições d a s c o n s t r u ç õ e s d a alínea a, e n q u a n t o as frases de c a p o n t a m p a r a a possi-bilidade de c o n s t r u ç ã o (intransitiva) sem a r g u m e n t o c a u s a t i v o . As c o n s t r u ç õ e s em (39) m o s t r a m um t i p o peculiar de r e l a ç ã o c a u s a t i v a e n t r e verbos léxica e s i n t a t i c a m e n t e dis-tintos, q u e será e x p o s t a n o próximo item.

2 . 3 . Tesnière ( 1 5 , p . 1 0 ; 14, p . 259 e segs.) e L y o n s (9, p . 352 e segs.), e n t r e o u t r o s , m o s t r a r a m m u i t o b e m c o m o frases m o n o v a l e n t e s p o d e m t o r n a r - s e bivalentes, as biva-lentes, trivalentes e as trivabiva-lentes, t e t r a v a l e n t e s , através de u m p r o c e d i m e n t o q u e envol-ve a n o ç ã o de c a u s a t i v i d a d e . Essas derivações s ã o o b t i d a s , em p o r t u g u ê s , t a n t o através do e m p r e g o de u m v e r b o c o m o fazer ou causar, c o m o através de u m a ' l e x i c a l i z a ç ã o ' , ou seja.Jo e m p r e g o d e u m lexema) verbal específico q u e t e n h a o traço / + c a u s a t i v o / . O b s e r v e m as frases de (42) e (44):

(42) a. O livro c a i u .

b . O a l u n o fez o livro cair.

c. O a l u n o causou a q u e d a d o livro. d. O a l u n o derrubou o livro.

(43) a. O s e s t u d a n t e s a p r e n d e m Lingüística.

b . O p r o f e s s o r faz os e s t u d a n t e s a p r e n d e r e m Lingüística. c. O p r o f e s s o r ensina Lingüística a o s e s t u d a n t e s .

(44) a. O a l u n o deu o livro a o colega.

(7)

A R R A I S , T . C .

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A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

N o e x e m p l o (42), a frase m o n o v a l e n t e t o r n a - s e bivalente em (42b) e (42c), respecti-vamente c o m o auxílio de

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fazer e causar, e em (42d) pela t r a n s f o r m a ç ã o de cair no cau-sativo derrubar, com a especificação d o a g e n t e aluno. Em (43), a c o n s t r u ç ã o bivalente é t r a n s f o r m a d a n u m a frase trivatente em (43b) também c o m o auxílio de fazer, e em (43c) c o m a " l e x i c a l i z a ç ã o " d e fazer aprender em ensinar. F i n a l m e n t e , em (44) só a t r a n s f o r m a ç ã o p o r a u x i l i a r i z a ç ã o é possível, já q u e em p o r t u g u ê s n ã o há verbos causa-tivos t e t r a v a l e n t e s .

As c o n s i d e r a ç õ e s iniciais p e r m i t e m esclarecer u m a d a s relações q u e p o d e m ser esta-belecidas, pela n o ç ã o de c a u s a t i v i d a d e , e n t r e as frases transitivas e as i n t r a n s i t i v a s : em primeiro l u g a r , o mesmo v e r b o p o d e e n t r a r n o s dois tipos de frases; em s e g u n d o lugar, verbos diferentes p o d e m estar ligados pela m e s m a r e l a ç ã o semântica nas frases transiti-va e intransititransiti-va c o r r e s p o n d e n t e s . V a m o s insistir u m p o u c o mais neste último c a s o , c o n s i d e r a n d o as frases em (45):

(45) a. O m e n i n o m o r r e u .

b . O m a r g i n a l m a t o u o m e n i n o .

P o d e m o s dizer, neste c a s o , q u e a r e l a ç ã o d o t r a n s i t i v o a o i n t r a n s i t i v o é lexicalizada. É a e s t r u t u r a lexical d o p o r t u g u ê s q u e faz c o m q u e d i g a m o s O marginal matou o

menino e n ã o O marginal morreu o menino. A r e l a ç ã o sintática e semântica q u e existe entre matar e morrer está e n t r e a q u e l a s q u e o falante d o p o r t u g u ê s deve a p r e n d e r a re-conhecer, d a m e s m a f o r m a c o m o deve a p r e n d e r a r e c o n h e c e r a r e l a ç ã o q u e existe e n t r e os e m p r e g o s t r a n s i t i v o s e i n t r a n s i t i v o s d o s v e r b o s d a classe de entortar. P r o v i s o r i a m e n -te, p o d e m o s c o n s i d e r a r matar e morrer c o m o dois v e r b o s diferentes, m a s v e r e m o s mais a d i a n t e a p o s s i b i l i d a d e de considerá-los c o m o d u a s realizações fonológicas, sintatica-mente c o n d i c i o n a d a s , de u m m e s m o v e r b o .

D e s e n v o l v a m o s , a g o r a , u m p o u c o m a i s o p r i m e i r o c a s o , s e g u n d o o q u a l o m e s m o verbo p o d e e n t r a r t a n t o em c o n s t r u ç õ e s i n t r a n s i t i v a s c o m o t r a n s i t i v a s . O r a , o e x e m p l o (42) m o s t r o u - n o s a frase (42a) t o r n a d a t r a n s i t i v a através d o auxiliar fazer em (42b) e através de causar em (42c), neste último c a s o c o m a conseqüente n o m i n a l i z a ç ã o da fra-se c o m p l e m e n t o : " O m e n i n o c a u s o u a queda do livro". Obfra-serve-fra-se, e n t r e t a n t o , q u e n ã o t e m o s , com esse v e r b o (cair), a p o s s i b i l i d a d e de c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a sem auxiliar o u sem r e c u r s o a o u t r a f o r m a fonológica. A s s i m * O menino caiu o livro é a g r a m a t i c a l em p o r t u g u ê s . C o n s i d e r e m - s e , porém, as seguintes frases:

(46) a. A j a n e l a q u e b r o u .

b . O g a r o t o q u e b r o u a j a n e l a . c. O g a r o t o fez a j a n e l a q u e b r a r . (47) a. A p e d r a r o l o u .

b . J o ã o r o l o u a p e d r a . c. J o ã o fez a p e d r a r o l a r . (48) a. O leite e s q u e n t o u .

b . A e m p r e g a d a e s q u e n t o u o leite. c. A e m p r e g a d a fez o leite e s q u e n t a r .

(8)

(A-A R R (A-A I S , T . C .

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A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , Sâo P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985. }

gente, I n s t r u m e n t o ou C a u s a ) e u m

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auxiliar* ou através da lexicalização c a u s a t i v a d o verbo e o acréscimo de u m n o m e d o t i p o c a u s a t i v o . À s d o s e g u n d o t i p o , e n t r e t a n t o ,

basta o acréscimo de u m n o m e d o tipo c a u s a t i v o na função de sujeito e o conseqüente d e s l o c a m e n t o d o p r i m i t i v o sujeito d a intransitiva p a r a a função de o b j e t o . P o r isso, os verbos d o s e x e m p l o s de (46) a (48), alínea a e b, p o d e m ser c h a m a d o s ergativos, já q u e com sua t r a n s i t i v a ç ã o , um n o v o sujeito " e r g a t i v o " é i n t r o d u z i d o c o m o a g e n t e , instru-m e n t o ou c a u s a d o p r o c e s s o v e r b a l .

Há, pois, c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s :

(I) com v e r b o s t r a n s i t i v o s ou intransitivos (e m e s m o c o p u l a t i v o s ) , através d o acrés-cimo de um o u t r o n o m e sujeito, d o t i p o c a u s a t i v o , e de um v e r b o auxiliar, b a s i c a m e n t e

fazer ou causar, esta é, p o r t a n t o , a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a t i p i c a m e n t e perifrástica; (II) com v e r b o s c a u s a t i v o s implícitos, ou seja, f o r m a s verbais d e r i v a d a s de adjeti-vos ou s u b s t a n t i v o s (com sufixos d o t i p o -izare -ficar) e q u e n ã o a p r e s e n t a m c o r r e l a ç ã o com f or ma in tr a n s itiv a q u e lhes c o r r e s p o n d a ;

(III) com v e r b o s " e r g a t i v o s " , através d o acréscimo de u m n o m e d o tipo c a u s a t i v o na função de sujeito, p a s s a n d o o p r i m i t i v o sujeito à função de c o m p l e m e n t o ;

(IV) com t r a n s f o r m a ç õ e s de " l e x i c a l i z a ç ã o " , q u e levam à d e r i v a ç ã o de o u t r a f o r m a fonológica superficial d o v e r b o , q u e n a d a m a i s é q u e a f o r m a básica a c o m p a n h a d a d o traço / - ( - c a u s a t i v o / . * *

2 . 3 . 1 . C o m r e l a ç ã o às c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s de p r i m e i r o t i p o , observase q u e q u a l -quer verbo d a língua p o r t u g u e s a p o d e sujeitar-se a u m a d e r i v a ç ã o c a u s a t i v a c o m auxiliar. Em princípio, t o d o s os v e r b o s a c e i t a m o auxiliar fazer, mas só os v e r b o s q u e a p r e -sentam f o r m a n o m i n a l s u b s t a n t i v a c o r r e s p o n d e n t e é q u e são susceptíveis de c o n s t r u ç ã o com o auxiliar causar. A s s i m :

(49) a. O s g a r o t o s saíram.

b . O p r o f e s s o r fez os g a r o t o s saírem.

c. O p r o f e s s o r fez com q u e os g a r o t o s saíssem. d. O professor c a u s o u a saída d o s g a r o t o s . (50) a. A f a c u l d a d e c o n v o c o u os c a n d i d a t o s .

b . O reitor fez a f a c u l d a d e c o n v o c a r os c a n d i d a t o s .

c. O^reitor fez com q u e a f a c u l d a d e c o n v o c a s s e os c a n d i d a t o s . d. O reitor c a u s o u a c o n v o c a ç ã o d o s c a n d i d a t o s pela f a c u l d a d e .

Mas:

(51) a. A s visitas s e n t a r a m .

b . O pai fez as visitas s e n t a r e m .

c. O pai fez c o m q u e as visitas s e n t a s s e m . d. ? O pai c a u s o u d a s visitas. (52) a. O a j u d a n t e p e g o u o m a r t e l o .

b . O ferreiro fez o a j u d a n t e p e g a r o m a r t e l o .

* E s t a m o s c o n s i d e r a n d o o t e r m o ' a u x i l i a r ' n u m s e n t i d o b e m a m p l o , ou seja, c o m o o vocábulo q u e situa t o d a u m a c o n s -t r u ç ã o n u m a d a d a c a -t e g o r i a g r a m a -t i c a l , n o c a s o , a c a u s a -t i v i d a d e .

(9)

A R R A I S , T . C .

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A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

c. O ferreiro fez c o m q u e o a j u d a n t e pegasse o m a r t e l o .

d. ? O ferreiro c a u s o u ... d o m a r t e l o p e l o a j u d a n t e .

Observe-se q u e o p r o c e s s o de c a u s a t i v i d a d e p o r a u x i l i a r i z a ç ã o é t ã o genérico, q u e se estende até aos v e r b o s e r g a t i v o s e a o s c a u s a t i v o s lexicalizados. A s s i m :

(53) a. R o m a i n c e n d i o u . b . N e r o i n c e n d i o u R o m a . c. N e r o fez i n c e n d i a r R o m a .

d. N e r o c a u s o u o i n c ê n d i o de R o m a . (54) a. O filho m o r r e u .

b . O pai fez m o r r e r o filho. c. O pai m a t o u o filho. d. O pai fez m a t a r o filho *

Se bem q u e

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fazere causar sejam os c a u s a t i v o s básicos e gerais, perífrases c a u s a t i v a s p o d e m também ser a p o n t a d a s c o m v e r b o s c o m o forçar, obrigar, ordenar, q u e m a i s se prestam à e x p r e s s ã o d a c a u s a ç ã o coerciva ou m a n i p u l a t i v a . C o n s i d e r e m - s e , p o i s , os exemplos a b a i x o :

(55) a. J o ã o forçou/obrigou o funcionário a sair. b . J o ã o forçou/obrigou a saída d o funcionário. c. J o ã o o r d e n o u q u e o funcionário saísse. (56) a. J o ã o o r d e n o u a saída d o funcionário.

E m b o r a tais v e r b o s p o s s a m c o n s t r u i r - s e t a n t o c o m frases c o m p l e m e n t o c o m o c o m n o m i n a l i z a ç õ e s c o r r e s p o n d e n t e s , e s t ã o sujeitos, p o r o u t r o l a d o , a fortes restrições q u a n t o à n a t u r e z a q u e r d o p r e d i c a d o / n o m i n a l i z a ç ã o c o m p l e m e n t o , q u e r d o sujeito desse p r e d i c a d o , c o m o m o s t r a m as frases a g r a m a t i c a i s a b a i x o :

(57) a. * J o ã o forçou/obrigou M a r i a a sentir-se b e m . b . * J o ã o forçou/obrigou M a r i a a ser feliz. c. * J o ã o o r d e n o u q u e M a r i a a d o e c e s s e .

d. * J o ã o forçou/obrigou/ordenou a felicidade de M a r i a . (58) a. * J o ã o forçou/obrigou a p e d r a a q u e b r a r o v a s o .

b . * J o ã o o r d e n o u q u e a p o r t a a b r i s s e * *

C o m efeito, as frases em (57) e v i d e n c i a m q u e tais v e r b o s s ã o incompatíveis c o m e v e n t o s c a u s a d o s r e p r e s e n t a d o s p o r p r e d i c a d o s estativos e c o r r e s p o n d e n t e s n o m i n a l i -zações, e n q u a n t o as frases em (58) m o s t r a m i n c o m p a t i b i l i d a d e c o m o e v e n t o c a u s a d o p o r ser i n a n i m a d o — t a n t o i n s t r u m e n t o c o m o o b j e t i v o — o sujeito d a frase e n c a i x a d a q u e r e p r e s e n t a esse e v e n t o . C o n t u d o , haverá exceções p a r a a i n c o m p a t i b i l i d a d e c o m p r e d i c a d o s e s t a t i v o s , d e p e n d e n d o d o próprio s e n t i d o d a frase estativa o u de certas p e -c u l i a r i d a d e s d a r e l a ç ã o e n t r e o sujeito e o v e r b o e s t a t i v o . Cf. a frase (59):

(59) A polícia forçou/obrigou J o ã o a p e r m a n e c e r c a l a d o .

* -^Poderíamos ter também a c a u s a t i v a : e. O pai c a u s o u a m o r t e d o filho.

C o n t u d o , c o m o o s u b s t a n t i v o morte está r e l a c i o n a d o t a n t o a morrer c o m o a malar, essa frase é ambígua. Se r e l a c i o n a d a a

morrer, n ã o se dá d u p l a c a u s a ç ã o .

** E s t a m o s c o n s i d e r a n d o a q u i a p e n a s a l i n g u a g e m d e n o t a t i v a .

(10)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

2.3.2. C o m r e l a ç ã o às c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s d o t i p o e r g a t i v o , c a b e inicialmente distingui-las d o s casos de o p o s i ç ã o e n t r e transitiva e intransitiva p o r simples recessivid a recessivid e recessivide um a r g u m e n t o . N e s t e , há o simples a p a g a m e n t o ou s u p r e s s ã o recessivid o t e r m o c o m -p l e m e n t o , com conseqüente a m -p l i a ç ã o d a significação d o v e r b o . O sujeito, c o n t u d o , é g u m e n t o a f e t a d o ( O b j e t i v o ) é q u e a p a r e c e n a p o s i ç ã o d e sujeito. Cf.:

(60) a. Meu filho está c o m e n d o b e m . b . M e u filho está c o m e n d o l e g u m e s . (61) a. E u n ã o b e b o .

b . Eu n ã o b e b o c e r v e j a .

Já a p o s i ç ã o funcional d o s t e r m o s n a s c o n s t r u ç õ e s ergativas m u d a r a d i c a l m e n t e d a frase transitiva p a r a a in tr a n s itiv a ( n ã o i m p o r t a q u a l seja a básica): a c o n s t r u ç ã o t r a n s i -tiva erga-tiva c o r r e s p o n d e à presença de u m a r g u m e n t o c a u s a t i v o ( A g e n t e , I n s t r u m e n t o ou C a u s a ) na p o s i ç ã o de sujeito e de um a r g u m e n t o a f e t a d o (Objetivo) na p o s i ç ã o de objeto d i r e t o , e n q u a n t o n a c o n s t r u ç ã o in tr a n s itiv a n ã o há a r g u m e n t o c a u s a t i v o e o ar-g u m e n t o a f e t a d o ( O b j e t i v o ) é q u e a p a r e c e n a p o s i ç ã o de sujeito. Cf.:

(62) a. M e u vestido r a s g o u .

b . U m p r e g o r a s g o u m e u v e s t i d o . c. Eu rasguei meu v e s t i d o . (63) a. O n a v i o a f u n d o u .

b . O f u r a c ã o a f u n d o u o n a v i o . c. O s p i r a t a s a f u n d a r a m o n a v i o .

Assim, só os v e r b o s q u e p r o p i c i a m este último tipo de relação t r a n s i t i v a / i n t r a n s i t i va é q u e p o d e m ser c o n s i d e r a d o s e r g a t i v o s , ou seja, d ã o origem a c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i -vas ergati-vas.

C a r a c t e r i s t i c a m e n t e , tais v e r b o s envolvem a n o ç ã o de 'mudança de e s t a d o ' , c o m o

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

abrir, esquentar, esfriar, incendiar, quebrar, começar, deitar, acordar, endurecer,

ra-char, rasgar o u a d e ' m o v i m e n t o ' ('mudança de l o c a l i z a ç ã o ' ) , c o m o rolar, mudar,

afundar, virar, parar, etc. C o m o d is s e mo s a n t e r i o r m e n t e , a c o n s t r u ç ã o t r a n s i t i v a des-tes v e r b o s , q u e já é c a u s a t i v a , p o d e r e c u r s i v a m e n t e receber n o v a d e r i v a ç ã o c a u s a t i v a através de auxiliar.

2 . 3 . 3 . E n f i m , c o m r e s p e ito a o último t i p o d e c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a , t o d a u m a lista de formas verbais c a u s a t i v a s , r e s u l t a n t e s de t r a n s f o r m a ç õ e s p o r lexicalização, p o d e ser es-tabelecida em p o r t u g u ê s . A t e n t e - s e p a r a estes p o u c o s e x e m p l o s :

cair — (fazer cair) — derrubar

entrar — (fazer e n t r a r ) — introduzir

sair — (fazer sair) — expulsar

morrer — (fazer m o r r e r ) — matar

ver — (fazer ver) — mostrar

crer — (fazer crer) — persuadir

saber — (fazer s a b e r ) — anunciar

aprender — (fazer a p r e n d e r ) — ensinar

Se p e n s a r m o s n u m a s p o u c a s p o s s ib ilid a d e s d a língua de f o r m a r derivações c a u s a t i -vas negati-vas (cf. K a s t o v s k y , 7, p . 271), p o d e r e m o s a i n d a acr es centar :

ver — (fazer n ã o ver) — esconder

(11)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

Dessa f o r m a , v e r b o s c o m o

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derrubar, matar, mostrar, persuadir e anunciar, b e m c o -m o esconder e dissuadir, s ã o f o r -m a s d e " e s t r u t u r a d e superfície", q u e a p r e s e n t a -m o traço / + c a u s a t i v o / , c o m p o r t a n d o n a s u a r e a l i z a ç ã o sintática u m a r g u m e n t o a m a i s em relação a o v e r b o b a s e . E x e m p l i f i c a n d o :

(64) a. Pedro viu as cartas.

b . O Jogador m o s t r o u as cartas a Pedro. (65) a. O p o v o crê que ela seja eleita.

b . O orador p e r s u a d i u o povo de que ela seria eleita. (66) a. O povo já s a b e os últimos acontecimentos.

b . O jornalista já a n u n c i o u os ú/timos acontecimentos ao povo.

C e r t a m e n t e , deve existir u m a r e l a ç ã o similar e n t r e fazer ver, mostrar e esconder. As-sim,

(67) O J o g a d o r e s c o n d e u d e P e d r o as c a r t a s , é o o p o s t o d e (64b), n a m e d i d a e m q u e a frase e n c a i x a d a é n e g a t i v a : " O j o g a d o r fez P e d r o n ã o ver as c a r t a s " . É interessante m o s t r a r a relação e n t r e essa frase e as c o r r e s p o n d e n t e s n e g a tiv a s :

(68) O j o g a d o r n ã o m o s t r o u as c a r t a s a P e d r o .

(69) O j o g a d o r n ã o e s c o n d e u de P e d r o as c a r t a s .

E n q u a n t o em (67) o a l c a n c e d a negativa afeta a p e n a s a frase e n c a i x a d a ( = p r o p o s i ç ã o c a u s a d a ) , em (68)—(69) ela a f e ta a p r o p o s i ç ã o c a u s a d o r a . A s s i m , (68) é r e p r e s e n t a d a c o m o ' O j o g a d o r n ã o fez P e d r o ver as c a r t a s ' , e n q u a n t o (69) é r e p r e s e n t a d a c o m o ' O j o g a d o r n ã o fez P e d r o n ã o ver as c a r t a s ' . Deve-se a c r e s c e n t a r q u e (67) e (69) p e r m i t e m diferentes realizações d e superfície, c o m o segue:

(70) O j o g a d o r i m p e d i u P e d r o d e ver as c a r t a s .

(71) O j o g a d o r n ã o i m p e d i u P e d r o d e ver as c a r t a s .

Nestas d u a s últimas, a n e g a ç ã o d a frase e n c a i x a d a foi alçada e a d i c i o n a d a a fazer, for-m a n d o F A Z E R + N E G , q u e é e n t ã o r e a l i z a d o c o for-m o ifor-mpedir, e q u e n ã o é c e r t a for-m e n t e o m e s m o q u e N E G + F A Z E R . (70) ilustra a c a u s a ç ã o negativa, (71) a n e g a ç ã o d a rela-ção causa-efeito. A s s i m , e n q u a n t o (68) é a n e g a ç ã o de (64b), t a n t o (67) c o m o (70) s ã o seu o p o s t o e n ã o sua n e g a ç ã o , o q u e é c l a r a m e n t e i n d i c a d o pela origem d a negativa na frase e n c a i x a d a . *

3. PARÂMETROS SINTÁT1COSEMÂNTICOS D A S C O N S T R U Ç Õ E S C A U S A T I -VAS

3 . 1 . A f i r m a m o s , n o tópico a n t e r i o r , q u e frases de c o n s t r u ç ã o ergativa t i n h a m c o m o paráfrases as c o n s t r u ç õ e s perifrásticas c o m fazer. C a b e analisar a q u i se se t r a t a de p a -ráfrases e s t r i t a m e n t e sinônimas o u se p o d e m a p r e s e n t a r diferente c o m p o r t a m e n t o sin-tático e semântico. C o m o os diversos tipos d e c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s , e n t r e t a n t o , sem-pre a p r e s e n t a m p o s s i b i l i d a d e também d e c o n s t r u ç ã o perifrástica, v a m o s fazer u m a úni-ca o p o s i ç ã o e n t r e c o n s t r u ç õ e s perifrástiúni-cas e n ã o - p e r i f r á s t i c a s . * *

O b s e r v e m o s c o m o a m o d i f i c a ç ã o a d v e r b i a l se c o r r e l a c i o n a c o m as c a u s a t i v a s

peri-* Esta breve análise das causativas negativas seguiu de perto a proposta de Kastovsky (7. p. 271-3)

(12)

A R R A I S , T . C .

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A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

frásticas e as n ã o - p e r i f r á s t i c a s . S h i b a t a n i ( 1 1 , p . 17 e segs.; 12, p . 245) a p o n t o u p a r a o inglês e o j a p o n ê s q u e , com as c a u s a t i v a s perifrásticas ( p r o d u t i v a s , nos t e r m o s dele), os advérbios p o d e m ser i n t e r p r e t a d o s c o m o m o d i f i c a d o r e s t a n t o d o e v e n t o c a u s a d o r c o -m o d o evento c a u s a d o . C o n s i d e r e -m - s e os seguinte e x e -m p l o s e-m p o r t u g u ê s :

(72) Mário fez o i r m ã o e n t r a r n o q u a r t o s i l e n c i o s a m e n t e . (73) Mário fez o i r m ã o p a r a r de r e p e n t e .

(74) Mário fez o i r m ã o subir na árvore c o m as m ã o s . (75) Mário fez o i r m ã o a c o r d a r às seis h o r a s .

(76) Mário fez o i r m ã o vestir as r o u p a s n o q u a r t o .

Há diferenças de i n t e r p r e t a ç ã o e n t r e as três p r i m e i r a s frases e as d u a s últimas, com res-peito a o alcance d a m o d i f i c a ç ã o a d v e r b i a l . A s frases (72), (73) e (74) s ã o , sem dúvida,

ambíguas q u a n t o a o e v e n t o q u e o a d v e r b ia l m o d i f i c a . Assim,

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silenciosamente t a n t o pode modificar o e v e n t o c a u s a d o r ("Mário fez s i l e n c i o s a m e n t e " ) c o m o o e v e n t o

cau-sado ( " o i r m ã o e n t r o u s i l e n c i o s a m e n t e " . D o m e s m o m o d o : "Mário fez de repen-t e " / " o i r m ã o p a r o u de r e p e n repen-t e " , "Mário fez com as m ã o s " / " o i r m ã o subiu na árvore com as m ã o s " ) . C e r t a m e n t e , o advérbio p o d e modif icar a p e n a s o e v e n t o c a u s a d o r , e para evitar ambigüidade, nesse c a s o , b a s t a alterar a o r d e m a d v e r b ia l n a frase. C o n f i r a m - s e :

(77) Mário s i l e n c i o s a m e n t e fez o i r m ã o e n t r a r no q u a r t o . (78) De r e p e n t e Mário fez o i r m ã o p a r a r .

(79) C o m as m ã o s , Mário fez o i r m ã o subir na árvore.

Os adverbiais d e t e m p o e d e lugar, e n t r e t a n t o , n ã o p o d e m ser i n t e r p r e t a d o s c o m o m o d i f i c a n d o a p e n a s o e v e n t o c a u s a d o r . A s s i m , u m a i n t e r p r e t a ç ã o de (75) é similar a u m a das i n t e r p r e t a ç õ e s de (72), e diz q u e o i r m ã o levantou-se às seis h o r a s , c o m o ent e n d i m e n ent o de q u e a a ent u a ç ã o de Mário o c o r r e u anentes d a s seis h o r a s . A o u ent r a i n ent e r p r e ent a ção diz q u e t a n t o a a t u a ç ã o de Mário c o m o o a c o r d a r d o i r m ã o o c o r r e r a m às seis h o -ras. O q u e a frase (75) n ã o p e r m i t e é a i n t e r p r e t a ç ã o de que a p e n a s a a t u a ç ã o de Mário tenha o c o r r i d o às seis h o r a s , c o m o e n t e n d i m e n t o de q u e o a c o r d a r d o i r m ã o t e n h a sido depois dessa h o r a . É significativo verificar q u e , m e s m o c o m a mudança p o s i c i o n a i d o advérbio p a r a j u n t o d o e v e n t o c a u s a d o r , a m o d i f i c a ç ã o abrangerá t a n t o o e v e n t o -c a u s a d o r -c o m o o e v e n t o -c a u s a d o . Cf:

(80) Mário, às seis h o r a s , fez o i r m ã o a c o r d a r .

(81) N o q u a r t o , Mário fez o i r m ã o vestir as r o u p a s .

N o caso das c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s n ã o - p e r i f r á s t i c a s , a p e n a s u m a i n t e r p r e t a ç ã o d a extensão m o d i f i c a d o r a d o a d v e r b i a l é possível. Cf.:

(82) Mário i n t r o d u z i u o i r m ã o n o q u a r t o s i l e n c i o s a m e n t e . (83) Mário p a r o u o i r m ã o de r e p e n t e .

(84) Mário subiu o i r m ã o n a árvore com as m ã o s . (85) Mário a c o r d o u o i r m ã o às seis h o r a s .

(86) Mário vestiu o i r m ã o n o q u a r t o .

(13)

-A R R -A I S , T . C . — -A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s . -A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

do ser i n t e r p r e t a d o s c o m o m o d i f i c a n d o a p e n a s os e v e n t o s c a u s a d o s . A s s im, a única interpretação possível de (85) é q u e t a n t o a a ç ã o de Mário c o m o o a c o r d a r d o i r m ã o o c o r -reram às seis h o r a s .

As c a u s a t i v a s lexicalizadas são vistas p o r Fillmore c o m o um ' p r o c e s s o de amálga-m a ' (2, p . 50). E o aamálga-málgaamálga-ma de dois e v e n t o s só é possível se suas especificações de tempo e lugar são i d ê n t i c a s . Se forem diferentes, o amálgama n ã o é possível. Kas-tovsky (7, p . 265) ilustra esse f a t o , a d a p t a n d o o e x e m p l o de F i l l m o r e , c o m o segue. Su-p o n h a m o s q u e u m a s s a l t a n t e a t i r a n u m Su-policial e fere-o, a l o j a n d o - s e a bala Su-próximo dos p u l m õ e s , sem q u e o médico o p e r a d o r c o n s ig a tirá-la. Dois a n o s d e p o i s , a b a l a pe-netra nos p u l m õ e s , e o policial f i n a l m e n t e vem a m o r r e r . N ã o há dúvida de q u e o assal-tante em última instância c a u s o u a m o r t e d o policial, isto é, " e l e fez o policial m o r r e r

dois a n o s d e p o i s " . M a s , nesta frase, 'fazer m o r r e r ' n ã o p o d e ser substituído p o r

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matar, isto é, e n q u a n t o poderíamos dizer " a bala finalmente m a t o u o p o l i c i a l " , n ã o

poderíamos dizer " o a s s a l t a n t e f in a lme n te m a t o u o p o l i c i a l " , u m a vez q u e a c a u s a (o tiro d o assaltante) e o r e s u l t a d o (a m o r t e d o policial) têm d u a s diferentes especificações de t e m p o .

N ã o há, p o i s , c o m o a p o n t a r a b s o l u t a i d e n t i d a d e sinonímica e n t r e u m a c o n s t r u ç ã o perifrástica e a n ã o perifrástica c o r r e s p o n d e n t e .

3.2 — Já a s s i n a l a m o s a n a t u r e z a c a u s a t i v a d o a r g u m e n t o r e l a c i o n a d o a o e v e n t o -c a u s a d o r . V i m o s q u e p o d e r i a ser A g e n t e , I n s t r u m e n t o ou C a u s a . A p r o f u n d e m o s u m p o u c o mais a v a r i e d a d e e c o m p l e x i d a d e (e às vezes ambigüidade) desse a r g u m e n t o , a n a l i s a n d o inicialmente a seguinte frase:

(87) O m a r i n h e i r o fez Olívia rir.

Pode-se i n d a g a r p o r q u e Olívia veio a rir, ou a i n d a , de q u e m o d o o m a r i n h e i r o está en-volvido em fazer Olívia rir. C e r t a m e n t e , ele p o d e p r o d u z i r essa r e a ç ã o em Olívia de vários m o d o s , t a n t o p a r e c e n d o ridículo, c o m o f a z e n d o g r a c i n h a s , ou m e s m o c o n t a n d o -lhe p i a d a s p ic a n te s o u f a z e n d o - l h e cócegas. A s s im, a c a u s a da r i s a d a de Olívia p o d e não ser o m a r i n h e i r o em si, m a s a l g u m e v e n t o de q u e ele p a r t i c i p a . A frase (87), p o i s , implica várias p o s s i b i l i d a d e s , q u e p o d e m ser e x p l i c i t a m e n t e expressas e m :

(87) a. A a p a r ê n c i a d o m a r i n h e i r o fez Olívia rir. b . A s g r a c i n h a s d o m a r i n h e i r o fizeram Olívia rir.

c. O m a r i n h e i r o fez Olívia rir c o n t a n d o - l h e p i a d a s p i c a n t e s , etc.

C o m o se p o d e o b s e r v a r , (87a) difere de (87b) e (87c) na m e d i d a em q u e , no p r i m e i r o caso, é o e s t a d o d o m a r i n h e i r o q u e c a u s a r i s a d a d e Olívia, e n q u a n t o nas d e m a i s é a ação desenvolvida p o r ele q u e c a u s a o m e s m o e v e n t o . E s t e último caso é mais evidente em (87c), em q u e o marinheiro é também o sujeito d a frase r e d u z i d a (causativa ou ins-t r u m e n ins-t a l ) . Daí p o d e r m o s ver o marinheiro c o m o u m SN alçado de u m a frase encaixa-da p a r a constituir-se n o sujeito d a p r i n c i p a l . E m (87), p o r t a n t o , o marinheiro deve ser c o n s i d e r a d o c o m o u m vestígio de u m a o r a ç ã o implícita, q u e c o m o u m t o d o ê a c a u s a ou o i n s t r u m e n t o d a r i s a d a de Olívia, d a q u a l p o d e m ter sido s u p r i m i d o s t o d o s os ter-mos, exceto o marinheiro. A s s i m , u m a d a s i n t e r p r e t a ç õ e s d a e s t r u t u r a s u b j a c e n t e a (87) p o d e ser a p r o x i m a d a às q u e têm sido a p r e s e n t a d a s pelos gerativistas p a r a as causa-tivas lexicalizadas: ' o m a r i n h e i r o F A Z A L G O q u e faz Olívia r i r ' .

Mas o q u e dizer de frases c o m o (88) ou (89)?

(88) A evidência fez o a d v o g a d o ter certeza de q u e g a n h a r i a a c a u s a .

(14)

A R R A I S , T . C .

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A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

(89) A evidência c o n v e n c e u o a d v o g a d o de q u e g a n h a r i a a c a u s a .

C e r t a m e n t e , a

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evidência n ã o p o d e e x e c u t a r u m a a ç ã o q u e c o n v e n c e o a d v o g a d o . M a s também n ã o é sua m e r a existência q u e tem esse efeito. A n t e s deve ser algo p a r t i c u l a r à evidência, c o m o a força d o s a r g u m e n t o s a p r e s e n t a d o s , a fragilidade d o s a r g u m e n t o s contrários, a presença de t e s t e m u n h a s i m p o r t a n t e s , a abundância de p r o v a s , q u e resul-ta na convicção expressa na frase r e s u l t a n t e . P o d e m o s a d m i t i r , p o r t a n t o , q u e o sujeito do evento c a u s a d o r de (88) e (89) é a p e n a s p a r t e ou síntese de u m a o r a ç ã o s u b j a c e n t e (ou várias), d o t i p o :

(89) a. A fragilidade d o s a r g u m e n t o s contrários convenceu o a d v o g a d o de q u e ele g a n h a r i a a c a u s a .

b . A presença de t e s t e m u n h a s i m p o r t a n t e s convenceu o a d v o g a d o de q u e ele g a n h a r i a a c a u s a .

c. A abundância d e p r o v a s decisivas c o n v e n c e u o a d v o g a d o de q u e ele g a n h a -ria a c a u s a .

De q u a l q u e r f o r m a , a r e l a ç ã o c a u s a t i v a e n t r e os eventos n ã o é d o m e s m o t i p o en-c o n t r a d o em (90):

(90) P a u l o c o n v e n c e u o a d v o g a d o de q u e ele, a d v o g a d o , g a n h a r i a a c a u s a .

em q u e P a u l o deve estar a t i v a m e n t e e n v o l v i d o n o p r o c e s s o c a u s a t i v o , p o r e x e m p l o , a p r e s e n t a n d o a r g u m e n t o s o u c a u s a s s e m e l h a n t e s e vitoriosas q u e re-sultam na c o n v i c ç ã o d o a d v o g a d o .

Há, pois, u m a i m p o r t a n t e d i s t i n ç ã o a fazer na r e l a ç ã o causativa e n t r e os e v e n t o s . Deve-se distinguir, de u m l a d o , a c a u s a ç ã o a t i v a , em q u e alguém está a t i v a m e n t e envol-vido em c a u s a r a l g o , c o m o em (90) e (87b-c); de o u t r o , a c a u s a ç ã o estativa, em q u e o fator c a u s a d o r é u m e s t a d o , c o m o em (87a), (88) e (89a-c). A esse r e s p e i t o , a frase (87) é ambígua.*

4. A S P E C T O S SEMÂNTICOS-PRAGMÁTICOS D A C A U S A T 1 V I D A D E

4 . 1 . A des cr ição d a s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s em p o r t u g u ê s , até a q u i d e s e n v o l v i d a , deixou em a b e r t o u m sem número de q u e s t õ e s semânticas e / o u pragmáticas e n v o l v i d a s em tais e s t r u t u r a s . V a m o s p r o c u r a r , a g o r a , e n c a m i n h a r t ã o s o m e n t e a l g u n s d o s aspectos q u e ficaram p e n d e n t e s n a própria análise, sem p r e t e n d e r a b r a n g ê l o s em p r o f u n d i -d a -d e .

A o e x a m i n a r m o s , n o tópico 3, os parâmetros sintático-semânticos d a s c o n s t r u ç õ e s causativas perifrásticas e n ã o - p e r i f r á s t i c a s , concluímos pela ausência de i d e n t i d a d e si-nonímica a b s o l u t a e n t r e elas. C o n s i d e r e m o s a g o r a p a r t i c u l a r m e n t e as c a u s a t i v a s lexi-calizadas às c o r r e s p o n d e n t e s perifrásticas p a r a d e p r e e n d e r m o s o c o m p o r t a m e n t o d o SN Agente em a m b a s . P a r a t a n t o , v o l t e m o s u m a vez mais às frases a, be c d e (54):

(54) a. O filho m o r r e u .

b . O pai fez o filho m o r r e r . c. O pai m a t o u o filho.

Já s a b e m o s q u e be c, e m b o r a t e n h a m a m e s m a r e l a ç ã o c a u s a t i v a c o m a, n ã o c o n s t i -tuem frases sinônimas e s tr ita s , já q u e è d i s t i n t o o c o m p o r t a m e n t o de q u a l q u e r

(15)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S 3 o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1 9 8 5 .

bial q u e se v e n h a a a c r e s c e n t a r n u m a e n o u t r a . P o d e m o s a c r e s c e n ta r também q u e elas não p o d e m ser e m p r e g a d a s i n d i f e r e n t e m e n t e q u a n d o se q u e r assinalar a c a u s a t i v i d a d e . Trata-se n ã o a p e n a s d e d u a s e s t r u t u r a s s u p e r f i c i a l m e n t e d i s t i n t a s , m a s também d e dife-rentes conteúdos semânticos t r a n s m i t i d o s . C o m efeito, e m (54b) t e m o s o SN sujeito (Agente)

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o pai c o m o " p a r t i c i p a n t e i n d i r e t o " d o p r o c e s s o v e r b a l ; diríamos q u e ele é a

causa d o p r o c e s s o , m a s n ã o o executor intencional. De f a t o , a m o r t e d o filho p o d e ter d e c o r r i d o d e u m c o n j u n t o d e e l e m e n t o s — d e s d e d e s a m p a r o até m a u s t r a t o s — n ã o por q u a l q u e r a g r e s s ã o d i r e t a d o p a i q u e c u l m i n a s s e n o a t o d e m a t a r . É, p o i s , u m sujei-to c a u s a t i v o , m a s n a d a se a s s i n a l a q u a n t o a u m a a ç ã o d i r e t a . Já em (54c), o m e s m o SN sujeito ( A g e n t e ) a p a r e c e c o m o " p a r t i c i p a n t e d i r e t o " d o p r o c e s s o verbal, s e n d o n ã o a p e n a s a c a u s a , m a s também o instigadora executor ativo d o p r o c e s s o . N o t a - s e , p o i s , u m a m a i o r p r o x i m i d a d e e n t r e o c a u s a d o r e o r e s u l t a d o em (54c) d o q u e em (54b).

U m p o u c o diversa p a r e c e a r e l a ç ã o semântica existente e n t r e as d u a s c a u s a t i v a s d e (91):

(91) a. O s a l u n o s saíram.

b . J o ã o fez os a l u n o s saírem. c. J o ã o e x p u l s o u os a l u n o s .

A q u i também n ã o t e m o s , i n d e p e n d e n t e m e n t e de possíveis a d v e r b i a i s a d i c i o n a d o s às c a u s a t i v a s , a m e s m a significação t r a n s m i t i d a em b e c. E n q u a n t o a última e x p r i m e causa a s s o c i a d a à n o ç ã o d e c o e r ç ã o , (91b) n ã o assinala tal n o ç ã o , o u pelo m e n o s é neu-tra q u a n t o a este a s p e c t o . Daí a p a r e c e r em c o n t e x t o s c o m (91d):

(91) d. D a d o o p e r i g o d e i n c ê n d i o , J o ã o fez os a l u n o s saírem,

e n q u a n t o seria pelo m e n o s e s t r a n h o o e m p r e g o d e expulsarem tal c o n t e x t o .

Essas m e s m a s frases p e r m i t e m p a s s a r p a r a o u t r o s a s p e c t o s d a significação, de inte-resse p a r a a c o m p r e e n s ã o d a e s t r u t u r a c a u s a t i v a . U m a n o ç ã o q u e é f u n d a m e n t a l p a r a certas línguas, c o m c o n s e q ü ê n c i a s e s t r u t u r a i s i m p o r t a n t e s n a e x p r e s s ã o d a c a u s a t i v i d a de, é a de intencionalidade, n o ç ã o essa e s t r e i t a m e n t e r e l a c i o n a d a à de controle d a c a u s a ç ã o . * E m p o r t u g u ê s , o q u e p o d e m o s dizer ê q u e certas expressões a d v e r b i a i s i n t r o d u -zidas n a frase c a u s a t i v a s à o suficientes p a r a se assinalar a i n t e n c i o n a l i d a d e o u n ã o d o nominal c a u s a d o r .

O b s e r v e m - s e as seguintes frases:

(92) a. P e d r o d e r r u b o u P a u l o de propósito. b . P e d r o d e r r u b o u P a u l o sem querer.

(93) a. P e d r o deliberadamente m u d o u a mesa de lugar, b . O t o m b o d e P e d r o m u d o u a m e s a d e l u g a r . (94) a. A m u l h e r fez c o m q u e o m a r i d o c o m p r a s s e a c a s a .

b . A c h u v a fez c o m q u e a m u l h e r a d o e c e s s e . (95) a. O s m a r g i n a i s o b r i g a r a m o policial a e s c o n d e r - s e .

b . A c h u v a o b r i g o u o policial a e s c o n d e r - s e .

Em face d e tais e x e m p l o s , p o d e - s e dizer q u e as c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s em p o r t u g u ê s podem assinalar i n t e n ç ã o o u n ã o i n t e n ç ã o , d e p e n d e n d o de expressões q u e se lhes a s s o -ciem ou d o tipo d e sujeito c a u s a d o r , p o d e n d o a p r e s e n t a r a i n d a e s t r u t u r a s ambíguas.

(16)

A R R A I S , T . C . — A s c o n s t r u ç õ e s c a u s a t i v a s e m p o r t u g u ê s .

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A l f a , S ã o P a u l o , 2 9 : 4 1 - 5 8 , 1985.

Assim, t o d a s as c o n s t r u ç õ e s em

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b, nos e x e m p l o s de (92) a (95), ilus tr am o caso de sujei-to c a u s a d o r n ã o - i n t e n c i o n a l , e n q u a n t o as de a têm sujeisujei-to in te n c io n a l n o s três

primei-ros e x e m p l o s , s e n d o ambígua a esse r e s p e ito a d e (95a). Pelo m e n o s d u a s interpretações são aqui possíveis: p r i m e i r a , os m a r g i n a i s r e s o l u t a m e n t e forçaram o policial; segunda, a presença d o s m a r g i n a i s p e r c e b i d a pelo policial, sem q u e eles sequer soubessem, levou-o a e s c o n d e r - s e . D e v e m o s l e m b r a r , e n t r e t a n t o , c o m o deixam entrever os pró-prios e x e m p l o s , q u e o p r o b l e m a d a i n t e n c i o n a l i d a d e se c o r r e l a c i o n a aos tipos ativo e estativo d a p r o p o s i ç ã o - c a u s a , c o n f o r m e a n a l i s a m o s n o item 3.2. Nesse s e n t i d o , pode-se dizer q u e , pode-se a p r o p o s i ç ã o - c a u s a é e s t a t i v a , o sujeito d a c o n s t r u ç ã o c a u s a t i v a é pode- sem-pre n ã o - i n t e n c i o n a l , a o p a s s o q u e , se é a t i v a , o sujeito p o d e ser t a n t o i n t e n c i o n a l como n ã o - i n t e n c i o n a l , d e p e d e n d o d a i n t e r p r e t a ç ã o q u e se dá à c a u s a t i v a c o m o u m t o d o .

Já o traço controlador só se p o d e associar a n o m e s c o m a função semântica de; Agente; se o sujeito da p r o p o s i ç ã o - c a u s a for pois r e p r e s e n t a d o p o r n o m e de função I n s t r u m e n t o ou C a u s a , n ã o terá c e r t a m e n t e tal traço; n e m é este u m traço com presen-' ça exclusiva n o sujeito da p r o p o s i ç ã o - c a u s a . Além d i s s o , m e s m o se t r a t a n d o d e n o m e Agente, a presença ou n ã o d o c o n t r o l e d e p e n d e b a s t a n t e d o t i p o de frase c a u s a t i v a em que ele a p a r e c e c o m o sujeito, c o m o também d a o c o r r ê n c i a ou n ã o de o u t r o s e l e m e n t o s . Assim, nas c a u s a t i v a s d o t i p o e r g a tiv o e n a s lexicalizadas, o sujeito ê c o m u m e n t e 'a-gente' e ' c o n t r o l a d o r ' , m e s m o p o r q u e tais expressões c a u s a t i v a s , em sua m a i o r i a , en-volvem r e s u l t a d o s q u e s ã o estados, ou p r o c e s s o s , o u seja, r e s u l t a d o s em q u e o n o m i n a l

da p r o p o s i ç ã o - e f e i t o é um m e r o p a c i e n t e , c o m o m o s t r a m as frases (54c), (92a) e (93a),

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i

entre o u t r a s . A s c a u s a t i v a s perifrásticas, p o r o u t r o l a d o , mais freqüentemente envol-vem a m a n i p u l a ç ã o d e um a g e n t e h u m a n o p o r o u t r o , c r i a n d o situações em q u e confli-tos q u a n t o a o c o n t r o l e p o d e m surgir, c o m o n o s p a r e c e o c a s o de (94a), ou s ituações em

-que n ã o se m a n i f e s t a q u a l q u e r tipo de c o n t r o l e n a c a u s a t i v a , c o m o é o c a s o de (94b)., Mas nesta, c o m o também em (93b), e (94b), o sujeito d a c a u s a t i v a , s e n d o n ã o -agentivo, n ã o p o d e e f e t i v a m e n t e exercer c o n t r o l e , o q u a l p o d e , e n t r e t a n t o , estar pre-sente em o u t r o n o m e a n i m a d o d a p r o p o s i ç ã o - e f e i t o , desde q u e a g e n t e ; é o c a s o de (95b), mas n ã o de (94b), já q u e nesta última o n o m i n a l a mulher é n ã o - a g e n t i v o .

De q u a l q u e r m o d o , n ã o d e i x a d e ser i m p o r t a n t e a c o n s i d e r a ç ã o d o traço / + c o n -t r o l e / presen-te nes-te o u n a q u e l e a r g u m e n -t o da c o n s -t r u ç ã o c a u s a -t i v a . Se p e n s a r m o s , por e x e m p l o , nas restrições a p o n t a d a s a n t e r i o r m e n t e p a r a os auxiliares c a u s a t i v o s d o tipo forçar (coercivos), v e r e m o s q u e eles a p r e s e n t a m p l e n a c o m p a t i b i l i d a d e c o m p r e d i cados estativos q u a n d o estes a p a r e c e m c o m n o m e a n i m a d o q u e p o s s a exercer " c o n t r o -l e " d o e s t a d o e x p r e s s o , c o m o nas frases a b a i x o :

(96) a. A polícia forçou J o ã o a p e r m a n e c e r em c a s a . b . O p r o f e s s o r o b r i g o u J o ã o a ficar em pé n o c a n t o .

c. O p a t r ã o o r d e n o u q u e M a r i a estivesse lá às n o v e em p o n t o .

P o r o u t r o l a d o , é a " o r i e n t a ç ã o " d o c o n t r o l e q u e d e t e r m i n a a e s t r u t u r a sintática da p r o p o s i ç ã o - e f e i t o , q u a n d o esta a p r e s e n t a dois a r g u m e n t o s r e p r e s e n t a d o s p o r n o m e s com o traço / + a n i m a d o / . C o n s i d e r e m - s e , p o i s , as frases em (97):

(97) a. O m a r i d o fez os médicos e x a m i n a r e m a m u l h e r . b . O m a r i d o fez a m u l h e r ser e x a m i n a d a pelos médicos.

Referências

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