• Nenhum resultado encontrado

Posturas e imposturas: o estilo de Lacan e sua utilização da matemática.

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Posturas e imposturas: o estilo de Lacan e sua utilização da matemática."

Copied!
20
0
0

Texto

(1)

RES UMO Visa-se analisar as críticas dirigidas por A. Sokal e J. Bricm ont, na obra Im posturas intelectuais, ao estilo de J. Lacan e à u tilização qu e este faz das ciên cias m atem áticas. Su sten ta-se qu e o descon h eci-m en to de con ceitos psican alíticos faz coeci-m qu e tais críticas n ão atin jam seu alvo. São discu tidas qu estões de estilo, com base n a posição de J. Lacan , avesso ao estilo pedagógico por razões in trín secas à própria psican álise. No qu e con cern e às qu estões de con -teú do, defen de-se a idéia de qu e os críticos apoiam -se em u m a con cepção de m atem ática qu e, além de n ão ser ú n ica, difere da-qu ela adotada pelo psican alista. Con sidera-se da-qu e h ou ve, por parte dos críticos, n egligên cia in telectu al em relação ao program a de pesqu isas de J. Lacan . Con clu i-se qu e a popu laridade da obra Im

-posturas intelectuais, n o qu e diz respeito exclu sivam en te às críticas

endereçadas a J. Lacan,não decorre da aplicação de critérios acadê-m icos e intelectuais. Sugere-se, segundo uacadê-m a hipótese lacaniana, que a fonte do sucesso de Sokal e J. Bricm ont reside na satisfação com a zom baria.

Palavras - chave : estilo de Lacan, uso da m atem ática em Lacan, críti-cas de Sokal e Bricm ont.

ABSTRACT Postures and im postures: Lacan’s style and the use of m athem atical science. The purpose of the present work is to exam -ine the criticism to J. Lacan’s style and his use of m athem atical sciences m ade by A.Sokal and J.Bricm ont in Intelectual im postures. It argu es th at th e lack of kn ow ledge con cern in g psych oan alytical concepts is the m ain pitfall of the criticism attem pted at and that J.Lacan’s position against a pedagogical approach is due to psychoana-lytical reasons. The article dem onstrates also that Sokal and Bricm ont rely on a conception of m athem atics that, not being the only one available, does differ from th at of th e psych oan alyst. Th e paper goes on to point at intellectual negligence on the part of the critics regarding Lacan’s program of research. It concludes by stating that the popularity of Intelectual im postures, in w hat respects exclusively th e criticism to Lacan , does n ot stem from th e in tellectu al an d

Conferencista no Departmento de Governo da Universidade de Essex.

Pesquisador na School of Politics da Universidade de Nottingham .

Tradução de Flávia Maria Sam uda

(2)

academ ic criteria. Follow ing a Lacanian hypothesis, it suggests that the source of Sokal and Bricmont’s popularity resides rather in the satisfaction obtained through mockery. Ke y w o rds : Lacan’s style, Lacan’s use of Mathem atics , Sokal and Bricm ont’s criticism .

INTRODUÇÃO

Lacan é difícil de ler, sem dúvida nenhum a. Sobre isso, pelo m enos, sim patizan-tes e detratores de Lacan estão de acordo. Evidentem ente, dizer que com as ciências m atem áticas acrescentadas à equação as coisas não se tornam m ais fáceis, é querer atenu ar o s fato s. A m aio r ia d as p esso as se sen te in segu ra dian te da m ais sim ples dem on stração m atem ática, qu an to m ais ao se tratar de referên cias a su bdivisões com nom es que parecem esotéricos com o topologia e teoria nodal...

Quando pesquisam os a com posição do universo, das galáxias e supernovas distantes, até as células, sinapses e quarks, não nos surpreendem os ao nos depa-rarm os com um discurso estranho para nós. O discurso científico é, em geral, opaco e cheio de um jargão im penetrável que só se consegue dom inar à custa de m uito tem po e força de vontade.

As pessoas não esperam com preender m ecânica quântica e adm item tran-qüilam ente sua ignorância. Por outro lado, quando pesquisam os a natureza hum ana, processos psíquicos, identidades e em oções, e as atividades m entais, esperam os que os m odelos e discursos correspondentes sejam facilm ente com -preensíveis. Isso porque eles deveriam estar nos dizendo algo sobre nós m es-m os — e sobre esse algo, ees-m outras palavras, julgaes-m os ter direitos e conheci-m entos. Trata-se de uconheci-m a suposição natural profundaconheci-m ente arraigada. Tanto é assim que até m esm o os cientistas expressam frustração diante da relutância da m ente em revelar os seus segredos. Portanto, quando a psicanálise lacaniana — que se propõe a ser esse tipo de discurso sobre nós m esm os — dá a im pressão de fazer todos os esforços possíveis para im pedir um a com preensão clara, quando Lacan não hesita nem um instante em recrutar a m atem ática para a sua causa, isso chega a parecer ofensivo.

Ninguém gosta de se sentir pouco inteligente. São raríssim as as pessoas que, tendo lutado para entender os Écrits de Lacan, não tenham se sentido vulneráveis intelectualm ente. Essa vulnerabilidade torna-se exacerbada quando um sem iná-rio ou ensaio lacaniano é recom endado com o m aterial de leitura por um am igo ou professor respeitado. Vulnerabilidade que pode se transform ar rapidam ente em frustração, intim idação e até m esm o cólera.

(3)

progra-m as de rádio seriaprogra-m de repente invadidos pela descoberta de que “o iprogra-m perador está nu”; de que o discurso difícil, até m esm o tortuoso de Lacan nada m ais é do que um exercício de obscurantism o em nível de Joyce; de que as incursões m atem áticas de Lacan não têm nada a ver com psicanálise. Im agine o alívio e a satisfação! Em um a sociedade dom inada pela necessidade de com unicação re-sum ida e de im pacto, pode-se agora, com a consciência tranqüila, deixar de lado esse livro pesado.

Esta história não é só um a história. É um a história que até certo ponto explica a popularidade de um best- seller escrito recentem ente por Alan Sokal e Jean Bricm ont ( de agora em diante cham ados S&B) , intitulado Imposturas

intelec-tuais ( S&B, 1998) . Nesse livro os autores, am bos cientistas, criticam a m aneira com o a m atem ática é invocada nas obras de um grande núm ero de intelectuais franceses: Kristeva, Irigaray, Latour, Baudrillard, Deleuze & Gattari, Virilio e Lacan. Alan Sokal, professor de física da Universidade de Nova York ( NYU) , tom ou para si a tarefa de defender um a concepção ortodoxa do discurso científico contra um aparente ataque vindo do cenário intelectual francês — ataque esse que adquiriu status hegem ônico em certos círculos acadêm icos do Ocidente. Iniciou seu contra-ataque escrevendo um artigo propositadam ente espúrio so-bre os herm enêuticos da gravidade quântica, o qual ofereceu para publicação. Um a vez aceito e publicado o artigo no jornal Social Text ( SOKAL, 1996a) , ele im ediatam ente revelou que se tratava de em buste — o cham ado ‘em buste de Sokal’ ( SOKAL, 1996b) — acendendo assim um interessante e proveitoso deba-te indeba-ternacional sobre os padrões indeba-telectuais dos setores acadêm icos pós-m o-dernos.1Imposturas intelectuais, no entanto, tenta levar a questão ainda m ais longe,

sendo portanto o ponto alto do projeto inicial de seu autor.

Em contraste direto com a obra de Jacques Lacan, Imposturas intelectuais é um livro fácil de ler e até divertido. Os capítulos, cada um dedicado a um intelec-tual francês, contêm trechos interligados com com entários sucintos, m uitas vezes na form a de interjeições irônicas.

Concentrarem os, aqui, nossa atenção especialm ente no capítulo sobre Lacan. Colocarem os em questão as observações críticas de S&B, as quais visam solapar a legitim idade do estilo de Lacan e sua utilização da m atem ática. Mas o nosso objetivo é m eticulosam ente delim itado. N ão afirmamos que Lacan é fácil ou diver-tido de ler. N ão oferecem os explicações detalhadas de conceitos lacanianos. N ão

demonstramos ( exceto indiretam ente) que novas percepções e m aneiras de pensar ele usa para lidar com questões de processos m entais. Também não dam os razões para acreditar que vale a pena fazer m uito esforço para entendê-lo. Nosso argu-m ento eargu-m grande parte se restringe a argu-m ostrar por que as acusações de S&aargu-mp;B não

(4)

são válidas, tom ando-se com o base não só os padrões de integridade intelectual em geral aceitos, m as tam bém os padrões que eles m esm os escolheram .

ARMANDO O PALCO

No prefácio da edição inglesa de Imposturas intelectuais, Sokal e Bricm ont, 1998, visam dois alvos distintos:

1. Intelectuais que, alegam eles, abusam dos conceitos científicos e m atem áticos. O fato de que se valem do verbo “abusar” sem dúvida assinala a seriedade da acusação; e afirm am que essa injúria tom a pelo m enos duas form as não neces-sariam ente não relacionadas. Ou esses conceitos são invocados “sem a m enor justificativa” ( p. IX) no tocante à questão que está sendo discutida, ou então são jogados de qualquer m aneira a fim de corroborar suas afirm ações (vis- à- vis seu público predom inantem ente não científico) sem “qualquer consideração pela relevância ou sequer pelo significado.” ( p. IX-X)

2. O relativism o epistem ológico da “ciência pós-m oderna, a noção de que a ciência m oderna não passa de um ‘m ito’, um a ‘narração’ ou um a ‘construção social’ entre m uitos outros.” ( p. X)

Naturalm ente os dois alvos não podem ser sem pre encontrados na obra de cada um dos autores que eles escrutinam . O segundo alvo, por exem plo, não é encontrado n a obra de Lacan . Podem os en tão com eçar por estabelecer u m pon to de convergência entre o status da ciência no enten der de S&B e a ciên -cia n o en ten der de Lacan. Slavoj Zizek trata justam ente desse ponto no seguin-te parágrafo:

“Qual é essencialm ente a diferença entre os narrativistas pós-m odernos e Lacan? Talvez a m elhor m aneira de abordar a questão seja através da brecha que separa o universo m oderno da ciência do conhecim ento tradicional: para Lacan, a ciência m oderna não é sim plesm ente um a outra narrativa local enraizada em suas condições pragm áticas específicas, um a vez que tem relação com o Real ( m atem ático) que se encontra sob o universo sim bólico.” ( ZIZEK, 1997, p. 159)

Se é verdade que diante disso seria possível interpretar a posição de Lacan com o de apoio ao ataque de S&B contra o relativism o epistem ológico,2 já en-contram os nesse m esm o parágrafo o indício sutil de um a divergência de opi-nião m ais explícita, isto é, o recurso a um Real m atem ático. Afinal de contas, Lacan é bem explícito ao declarar, em nom e da psicanálise, que “a form alização [ m ] atem ática é nossa m eta, nosso ideal” ( LACAN, 1988, p. 119) — o que, talvez

2 Naturalm ente não estam os sugerindo que existam razões em com um que levem a essa

(5)

deva ser ressaltado, não é a m esm a coisa que dizer que é o único ou m esm o o principal ideal da psicanálise. De qualquer form a, isso evidencia o papel central que Lacan dá à form alização m atem ática em sua tentativa de estabelecer um cam inho pelo qual a psicanálise possa ser considerada científica.3 Com o S&B

tam bém observaram , “A predileção de Lacan pela m atem ática não é de m aneira algum a m arginal em sua obra.” ( S&B, 1998, p. 23)

Contudo, assim que excluím os Lacan da segunda classe de alvos de S&B, estam os dando a entender o porquê de ser ele a sua principal bête noire. Porque é justam ente esse recurso à m atem ática que, segundo Im posturas intelectuais, traz Lacan para o rol dos alvos de prim eira classe: Lacan abusa dos conceitos cientí-ficos e m atem áticos.

Porém de que m odo, exatam ente, Lacan abusa das noções m atem ática? A fim de determ inar de que espécie de abuso Lacan parece ser culpado, S&B fazem o favor de com pilar um a lista de quatro significados do term o “abusar” na introdução a Imposturas intelectuais:

1. Expor longas teorias científicas sobre as quais o autor tem , na m elhor das hipóteses, noções m uito vagas. A tática m ais com um é o uso de term inologia científica ( ou pseudocientífica) sem m uita preocupação com o verdadeiro

signi-ficado das palavras.

2. Introduzir conceitos das ciências naturais nas ciências sociais ou hum anas sem oferecer a menor justificativa conceptual ou em pírica. Se um a bióloga dese-jasse usar em sua pesquisa noções elem entares de topologia m atem ática, teoria de conjunto ou geom etria diferencial, ela seria convidada a dar algum a explica-ção. Um a analogia vaga não seria levada a sério por seus colegas. Aqui, pelo contrário, ficam os sabendo através de Lacan que a estrutura do neurótico é exatam ente toro ( nada m enos do que a própria realidade) ...

3. Revelar um a erudição superficial jogando descaradam ente term os técnicos em um contexto em que são absolutam ente irrelevantes. O objetivo sem dúvida é im pressionar a todos e, acim a de tudo, intim idar o leitor não cientista...

4. Manipular locuções e frases sem sentido. Alguns dos autores revelam um a verdadeira intoxicação com palavras, com binada com um a suprem a indiferen-ça por seu significado. ( Idem , p. 4)

Por fim , no com eço do capítulo dedicado a Lacan, S&B afirm am que ele “ilustra perfeitam ente, em diferentes partes de sua obra, os abusos da lista...”

(6)

( p. 17) . E na conclusão do m esm o capítulo, S&B declaram que Lacan “se sobres-sai... no segundo tipo de abuso da lista [ acim a] .” ( p. 34)

O propósito de nosso pequeno com entário será levantar dúvidas quanto à crítica feita a Lacan por S&B, dem onstrando de que form a estes últim os erram o alvo; e isso devido em grande parte à ignorância ( reconhecida) de S&B em relação aos conhecim entos psicanalíticos. Organizam os nossos com entários em torno de questões de estilo e conteúdo.

QUESTÕES DE ESTILO

Um a das críticas m ais com uns a Lacan, m uito antes do aparecim ento de S&B no cenário das “guerras da ciência”, é dirigida ao seu estilo ( ver, por exem plo, ROUSTANG, 1982, 1990) . S&B adotam essa linha e apresentam um a versão específica dela. A certa altura, por exem plo, S&B afirm am que o relato de Lacan não é “pedagógico do ponto de vista m atem ático” ( p. 29) . Apesar desse com en-tário ter sido feito em relação a “Da estrutura com o o am álgam a de um pré-requisito do Outro a qualquer sujeito que seja” ( LACAN, 1970) , S&B dão a entender que a afirm ação pode ser aplicada ao estilo de Lacan em geral. Isso fica claro quando S&B perguntam , por exem plo, com o poderá o não-cientista ( ou não-m atem ático) saber se o relato de Lacan e su a u tilização da m atem á-tica são claros ou m esm o co rretos ( p. 11) ; ou quando S&B sugerem que inte-lectuais em geral “deveriam explicar as n oções técn icas n ecessár ias tão cla-ram en te qu an to possível, em term os acessíveis ao leitor-alvo ( que se presu-m e não seja cientista) ” ( p. 8) ; ou quando S&apresu-mp;B dizepresu-m que “[ n] ão é dele que o aluno vai aprender o que é um núm ero natural ou um conjunto com pacto”; ( p. 34) ou m esm o quando S&B se perguntam se Lacan está “tentando im pressionar seu público com um a erudição superficial” ( p. 29) .

Com o já dissem os, m uitas pessoas, na verdade lacanianos, gostariam de concordar com a afirm ação de que grande parte do que Lacan disse e escreveu é m uito difícil de entender. Isso é verdade não só em relação à sua concepção e utilização de idéias científicas e m atem áticas, com o tam bém em relação às suas análises da literatura de outras disciplinas ( psicanálise, ciências hum anas, ciên-cias sociais, etc.) . Seria possível, portanto, chegar-se à conclusão de que S&B fizeram um ponto com a m aior facilidade: Lacan é um pedagogo ruim !

Mas isso é m esm o verdade? Faria algum a diferença à acusação de S&B se Lacan nu n ca tivesse d eclarad o seu s o b jetivo s p ed agó gico s? Provavelm en te n ão. Em bora ele às vezes facilitasse as coisas,4 dava a enten der claram en te qu e

o seu pú blico ( vin do de diversos setores disciplin ares) , se assim o

desejas-4 Em topologia de superfície ver, por exem plo, Lacan em geral ( 1961-2) . Para um a discussão

(7)

se, devia tom ar a in iciativa e fazer investigações n as direções de pesqu isa recom en dadas por ele.

Faria algum a diferença se Lacan por princípio se posicionasse contra o discur-so de estilo pedagógico? Seria então certo acusá-lo de não ser bastante pedagógi-co? Se parece que Lacan tom a deliberadam ente um a posição, então esperar-se-ia que S&B no m ínim o apresentassem razões para considerar a pedagogia um ideal digno de ser alm ejado em certos casos, em vez de partir da prem issa de que tais razões são conhecidas.

Na verdade, acontece que Lacan tinha um a opinião extrem am ente crítica do discurso de estilo pedagógico,5 sem pre aconselhando o seu público a rejeitar um a com preensão rápida dem ais. Isso não quer dizer que Lacan acreditasse que a pedagogia não tem lugar em nossa sociedade, um ponto de vista obviam ente absurdo; apenas se abstin h a deliberadam en te de u sá-la em seu s sem in ários e escr itos. Con siderem os, por exem plo, a segu in te citação: “ Não fico su r pre-so com o fato de qu e m eu discurpre-so possa causar um a certa m argem de equívo-co”, m as isso é feito “com um a intenção expressa, absolutam ente deliberada, pois eu adoto esse discu rso de u m a form a qu e oferece a vocês a oportu n ida-de ida-de n ão com preen dê-lo com pletam ente” ( Com o citado em Sam uels, 1993, p. 16) . Ou: “ vocês não são obrigados a com preender os m eus textos. Se não os com preendem , m elhor — isso lhes dará a oportunidade de explicá-los” ( LACAN, 1998, p. 34) .

A estratégia em pregada por S&B depende da reação instintiva do público a citações com o essas, freqüentem ente usadas fora de contexto. Essas afirm ações parecem obviam ente absurdas apenas quando se esquece com o o estilo de Lacan é estreitam ente ligado às suas preocupações teóricas e clínicas. É sem pre bom lem brarm o-nos disso. Em um a sociedade estruturada pela repressão exercida pelo fator tem po e pela necessidade de eficiência, é natural que se exijam ex-planações fáceis de digerir com rapidez. Tornou-se segunda natureza esperar instruções ou roteiros claros sobre com o realizar tarefas ou ser m ais feliz. En-tretanto, Lacan está preocupado antes de tudo com o que acontece na clínica, os sem inários e escritos são dirigidos principalm ente aos analistas. São essas pre-ocupações que dão origem às suas afirm ações sobre equívocos.

Por que deveria ele se dar ao trabalho de aconselhar seu público a rejeitar um a com preensão rápida dem ais? Exatam ente porque tem e que os analistas sejam tentados a com preender seus pacientes depressa dem ais. E o que significa “com preender”? Com preender algum a coisa significa traduzir um term o para outros term os já nossos conhecidos. Isso quer dizer, para Lacan, que ao com pre-ender o discurso de um paciente os analistas só com preendem o que

(8)

cem . Em vez de avaliar o paciente em sua singularidade, em vez de estarem abertos para algo novo e diferente, os analistas efetivam ente reforçam seu pró-prio autoconhecim ento.

Sem dúvida é inquietante ser confrontado com algo que não se pode com -preender de im ediato. Sem dú vida é con fortador acreditar qu e n os com pre-en dem os u n s aos ou tros e qu e todos com partilham os certas aspirações e pa-drões de m oralidade. Porém , Lacan declara, isso tem u m preço. O p reço qu e pagam os por con fiar in devidam en te n a com preen são im ediata é um a aceita-ção irrefletida de prem issas das qu ais n os h abitu am os a depen der e qu e já n ão n ecessitam de ju stificativa. Pen sem os, por exem plo, n o ideal da peda-gogia. Esse ideal é m u itas vezes aceito com o indiscutível, sem necessidade de ju stificativa.

No fim das contas, o argum ento de Lacan é de natureza ética, para ser usado não unicam ente na clínica, m as no trabalho teórico e na vida quotidiana tam -bém . Tem a ver com cada um sendo responsável por sua própria com preensão, em vez de depender de um consenso. E a estratégia que ele decidiu adotar nesse sentido envolvia a criação sistem ática de certa m argem de não-com preensão. Ele reconheceu nessa estratégia um potencial de produtividade — produtivo em term os de gerador de um desejo de com preensão responsável e em term os de gerador de pesquisa. Resum indo, Lacan não está celebrando equívocos. O que ele está é apresentando um argum ento a favor de com preensão responsável. Com o diz Fisk, Lacan

“ procura obter certos efeitos no leitor que não sejam efeitos de significado: ele procura nos despertar, nos provocar, nos perturbar — não nos em balar e sim nos sacudir para fora de nossas rotinas conceptuais. Consequentem ente, sua intenção é nos fazer trabalhar, nos lem brar que não com preendem os o que pensam os que com preendem os ( sejam os textos de Freud que dão a ilusão de serem fáceis, ou os discursos de nosso analisando) , e que talvez tenham os que fazer várias tentativas para expressar ou conceituar algo, e m esm o assim nossa interpretação será apenas aproxim adam ente correta: ainda assim errarem os o alvo.” ( FISK, 1997, p. 220)

(9)

um discurso pedagógico. S&B estariam efetivam ente derrubando um a questão de estilo em cim a de um a questão de conteúdo.

Todos concordam os que quem se fam iliariza com cursos preparatórios rele-vantes é capaz de seguir m elhor um sem inário de física superior. Seria tão surpreendente saber que quem se fam iliariza com os sem inários de Lacan das décadas de 50 e 60 sente-se m ais à vontade com seus escritos e sem inários da década de 70? Seguindo esse raciocínio, cada um de seus 25 sem inários podem ser vistos com o que edificados sobre ( m esm o se às vezes no sentido de reação contra) m aterial produzido em sem inários anteriores, sem falar na literatura ( contem porânea ou não) com que Lacan constantem ente se envolvia. Na verda-de, com o se sabe, seus prim eiros trabalhos escritos sobre com plexos fam iliares e crim inologia, ou seus prim eiros sem inários, são m uito acessíveis, em estilo quase anglo-saxão ( ver por exem plo LACAN, 1996) . Desse ponto de vista, é perfeitam ente com preensível — em bora não inevitável — que com o passar dos anos o estilo de Lacan, em virtude da bagagem de conhecim entos antes adquiridos, e com a qual ele contava até certo ponto, parecia tornar-se progres-sivam ente m ais obscuro. Da m esm a form a que um sem inário ou um livro de nível superior sobre m ecânica quântica ou econom ia pode parecer, para al-guém ignorante do assunto, im pressionante e assustador ou um palavreado su-perficial e sem sentido, o m esm o acontece com m uitos dos últim os sem inários e textos psicanalíticos de Lacan. Apesar de Lacan ter sido freqüentem ente explí-cito em suas referências a sem inários passados, essas referências eram tam bém m uitas vezes im plícitas, óbvias apenas para os que conheciam seus ensinam entos anteriores. Sendo assim , não nos surpreende saber de escolas lacanianas de psicanálise que dedicam , com o coisa natural, um sem inário de ano inteiro à discussão, parágrafo por parágrafo, de até m esm o um texto curto de vinte pági-nas. Nesse contexto, talvez seja relevante citar a intervenção de Anthony Wilden na discussão que se seguiu a “Da estrutura com o o am álgam a ...” . Referindo-se à dificuldade em com preender a apresentação, ele se dirige a Lacan declarando “o senhor com eçou de cim a ( do ponto m ais difícil de sua obra) , e é m uito difícil para nós reconhecer as origens do seu pensam ento... Na m inha opinião... é absolutam ente necessário para nós ler os que o senhor escreveu antes de dizer um m onte de bobagens...” ( LACAN, 1970, p. 196) .

(10)

um a com preensão satisfatória ou convincente — a verdade é que a psicanálise pode ser abandonada por com pleto depois de vários anos de um a luta aparen-tem ente inútil. Acontece que a física m aaparen-tem ática tam bém pode ser abandonada após um a longa luta igualm ente árdua com a m atéria.

Chegam os à conclusão de que o estilo de Lacan é perfeitam ente com patível com os seus declarados objetivos e interesses. Não há dúvida de que se pode discordar das razões qu e o levam a adotar esse estilo específico, en tretan to, com o essas razões se origin am diretam en te de preocu pações teóricas, clín i-cas e étii-cas, S&B ter iam , an tes de m ais n ada, qu e trabalh ar u m pou co. Eles er igem com o ú n ico e in discu tível critério de avaliação um estilo pedagógico tradicional, cuja au sên cia u sam freqü en tem en te com o prova do abu so prati-cado por Lacan con tra im portan tes con h ecim en tos con sagrados. Pagam u m alto preço. Porqu e n ão sabem qu em Lacan é, além do h om em de palh a qu e eles apresen tam de m an eira m u ito divertida. Represen tam perfeitam en te a id éia lacan ian a d e q u e “ co m preen d er u m a p esso a d ep ressa d em ais é não com preendê-la.” O qu e n ão explicam é com o Lacan con segu iu , sem baixar o n ível de seu discu rso, n ão apen as ser, com o dizem S&B, extraordin ar iam en te in flu en te ( p. 1 9 4 ) , p elo m en o s n o m u n d o fr an co h isp ân ico, co m o tam -b ém , o q u e é m ais im p o r tan te, in iciar u m a cadeia de program as produ ti-vos de pesqu isa, n o cam po de an álise in fan til, em to p o lo gia lacan ian a, n a q u estão d o fim d a an álise, e assim p o r d ian te — algo q u e até m esm o a IPA, q u e “ exco m u n go u ” Lacan em 1 9 6 3 , é fo r çad a a ad m itir m ais ab er ta-m en te h o je eta-m d ia.6

QUESTÕES DE CONTEÚDO

Em bora seriam en te deficien te em pesqu isa e au to-reflexão, as objeções de S&B ao estilo de Lacan expressam um receio aparentem ente válido. Lacan é explícito ao dar-nos a oportunidade de não com preendê-lo por com pleto, e abre a possibilidade de que sejam os inteiram ente responsáveis tentando explicá-lo. O qu e en tão o im pediria de em pregar referên cias obscu ras às ciên cias m atem áticas a fim de se fortalecer com o Mestre? O que o im pediria de servir-se de servir-seu estilo com o de um conveniente álibi para o uso espúrio da m atem á-tica, n ão se sen tin do assim n em u m pou co obrigado a ju stificar a relação entre a m atem ática e a psicanálise? Não deviríam os nós, com o cientistas m a-tem áticos, desiludir esses coitados que insisa-tem em levar Lacan a sério? É este o raciocínio im plícito de S&B. Nós, portanto, vam os das questões de estilo às objeções m ais baseadas em questões de conteúdo, quer dizer, o conhecim ento

6 Um a indicação desse tipo de abertura dialogal pode ser encontrada na discussão recente entre

(11)

e utilização por Lacan das ciências m atem áticas de um lado, e, por outro lado, a alegada irrelevância da m atem ática de Lacan para a psicanálise.

Em sua introdução, S&B fazem a afirm ação generalizada de que “em casos de uso legítim o, o autor precisa ter um bom entendim ento da m atem ática que se propõe a usar — principalm ente não deve haver erros crassos...” ( p. 8) . Naturalm ente S&B dão a entender que Lacan não é tão propenso a esse tipo de abuso. Isso se torna evidente quando contrastam sua análise de Lacan com a de, digam os, Kristeva.7 Em sua análise de Lacan eles evitam claram ente fazer a

acusação de erros óbvios ou persistentes, o que não acontece na análise de Kristeva ( p. 39) . Trata-se m ais do fato de que a m atem ática de Lacan parece “bizarra” ( p. 34) , sem dúvida devido ao exegese que a acom panha e que o próprio Lacan adm ite ser difícil. Nesse particular, “ suas afirm ações, quando com preensíveis, não são sem pre falsas” ( p. 34) — na verdade, S&B às vezes declaram de m á vontade que as afirm ações de Lacan “não são de todo ruins” ( p. 26) . Os problem as surgem quando a ligação entre suas afirm ações m atem á-ticas e a teoria psicanalítica é pouco clara.

Lacan sem dúvida confundia às vezes os term os em seu discurso, dando detalhes incorretos de definições m atem áticas e/ ou teorem as.8 No contexto de um a com unicação no estilo de sem inário isso talvez seja de se esperar. Levan-do-se em conta que ele recorreu com freqüência à m atem ática durante 25 anos, é surpreendente que, tendo em vista sua noção supostam ente “nebulosa” ( p. 4) ou “vaga” ( p. 13, 14) de m atem ática e ciência, ele tenha com etido tão poucos erros facilm ente identificáveis. Entretanto, não estam os afirm ando aqui que Lacan era um perfeito conhecedor da m atem ática. De qualquer m aneira, a principal acusação de S&B é que o uso que Lacan fazia da m atem ática era inadequado e irrelevante para a psicanálise.

Em relação a isso é interessante notar com o S&B, na introdução de Imposturas

intelectuais, defendem -se de um a possível acusação de que poderiam estar exam

i-nando as afirm ações m atem áticas de Lacan fora de contexto. O argum ento que usam em sua própria defesa é de que os conceitos m atem áticos têm significa-dos m uito exatos. Já vim os que Lacan sofre do suposto defeito de não ser bas-tante pedagógico. Em outras palavras, ele não explica de m odo claro e em separado conceitos m atem áticos com o tais, pelo m enos não detalhadam ente nos textos a que S&B se referem. Em vez disso, Lacan vai direto para a interpretação de sím bolos m atem áticos de um ponto de vista psicanalítico. Por isso é m uito difícil

7 Não tem os a pretensão de conhecer o trabalho de Kristeva o suficiente para poder julgar sua

utilização da m atem ática. Sim plesm ente relatam os a avaliação de S&B.

(12)

julgar seu conhecim ento de m atem ática ou o que ele pretende fazer com esse conhecim ento. Assim fica m uito fácil para alguém que não conheça o contexto psicanalítico no qual as afirm ações m atem áticas de Lacan aparecem , tirar a conclusão apressada de qu e Lacan “ violen ta a m atem ática” ( p. 2 5 ) , ou de qu e ele procu ra im pression ar seu pú blico com u m a term in ologia sofistica-da com o “ u n ião ( em lógica m atem ática) ” ( p. 33) , ou que seu recurso à dinâ-m ica edinâ-m ciência dinâ-m atedinâ-m ática ( teoredinâ-m a de Stoke) é “ especialdinâ-m en te despu do-rad o ” ( p. 3 ) , o u co n fro n tar u m a afir m ação co m o a gravitação sen d o “ o in con scien te da partícu la” com u m espanto m udo ( por m eio de um ponto de exclam ação) ( p. 33) .9

Com certeza a hostilidade de S&B ao uso que Lacan faz da m atem ática é tam bém um a conseqüência do m odo específico com o vêem a m atem ática. Par-tem do princípio, por exem plo, de que afirm ações m aPar-tem áticas têm significa-dos únicos. Porém , essa concepção só pode originar-se de um a única perspecti-va em relação à m atéria. É preciso reconhecer que, além de intuitiperspecti-vam ente atraente, essa perspectiva é capaz de aproveitar o m odo com que o senso co-m uco-m pensa as co-m ateco-m áticas. Contudo, baseia-se eco-m uco-m a analogia subdesenvol-vida com um a visão igualm ente subdesenvolsubdesenvol-vida de significados lingüísticos. É bom notar a esse respeito que Lacan dedicou m uito tem po e esforço à articu-lação de conceitos tais com o analogia e significado em rearticu-lação a m uita litera-tura sobre filosofia da ciência e m atem ática. De acordo com Lacan, a m atem á-tica ocupa um loco privilegiado nos lim ites da linguagem . Segundo esse ponto de vista, a m atem ática é essencialm ente desprovida de significado: “A form ali-zação m atem ática de significação é o oposto de significado... Em nosso tem po, filósofos da m atem ática dizem ‘não significa coisa nenhum a’ no tocante à m a-tem ática, m esm o qu an do são m aa-tem áticos com o Ru ssell.” ( LACAN, 1 9 9 8 , p. 93) .10 É por isso, afinal de contas, que rabiscos idênticos no papel podem

adquirir significados m uito diferentes dependendo do âm bito de sua aplicação

9 Nesse sentido S&B apenas reiteram , no cam po da ciência m atem ática, um a acusação estrutural

hom óloga segundo a qual “ Lacan está violentando a lingüística” ( um argum ento freqüente diante do fato de que Lacan se apropria dos conceitos de Jakobson relativos à m etáfora e à m etoním ia)ou “Lacan está violentando Freud”. Com relação a essas últim as questões ver Stavrakakis ( 1999, p. 21-2, 57-9)

10 A esse respeito talvez valha a pena lem brar m os o que Feynm an tinha a dizer no tocante à m ecânica quântica:

(13)

( e portanto interpretação) . O fato de que o físico Richard Feynm an tenha salien-tado que m ecânica quântica não pode ser com preendida tam bém é relevante neste contexto — ela sim plesm ente “funciona” ( FEYNMAN, 1995, p. 117) .

Recorrer à m atem ática e à física pode realm ente resultar em aceitação in-condicional por parte dos que não são versados nas ciências m atem áticas ( usando de vez em quando, por exem plo, citações e um vocabulário que pareça dar cobertura científica às afirm ações [ S&B, 1998, p. 13] ) . Isso, entretanto, aconte-cerá entre os que não tenham querido ou podido consultar textos introdutórios relevantes. Não adianta negar que esse tipo de coisa acontece m uito em sem i-nários acadêm icos sobre Lacan, nos quais o estudo de lingüística e m atem ática não é necessariam ente incentivado ou m esm o sugerido.

Nada disso, contudo, atinge a integridade do uso que Lacan faz da m atem áti-ca. Em seu prefácio, S&B expressam ( com certeza prendendo o riso) o seguinte desejo: “Não seria ótim o ( para nós m atem áticos e físicos, bem entendido) ... se a topologia tivesse algo a ver com a psique hum ana?” ( p. X) Mas nenhum a ironia pode explicar o sim ples fato de m atem áticos profissionais serem atraídos para o estudo da psicanálise lacaniana; ou explicar as m uitas elaborações de relevantes noções m atem áticas com o a topologia lacaniana. Inclusive, S&B fazem referência aos “discípulos de Lacan ( os quais) têm produzido relatos com -pletos de sua topologie psy chanaly tique.” ( p. 23) O estranho é que está faltando — estranho justam ente por sua ausência óbvia — qualquer com entário que diga se essas anotações expositoras dos discípulos chegam a esclarecer, tornando-a m ais explícita, a intuição matemática de Lacan em relação à psicanálise. Isso seria no mínimo um teste ideal para determinar se as incursões de Lacan na matemática podem ser tão facilmente descartadas como um desastroso, triste sonho quixotesco. As duas declarações seguintes dizem respeito à discussão acim a. Na prim ei-ra, S&B declaram que o relato m atem ático de Lacan “[ não] é original... do ponto

de vista matemático...” ( p. 29; frifo nosso) . Na segunda, afirm am que a m atem ática

de Lacan “ não pode desem penhar um papel produtivo em qualquer análise psicológica séria.” ( p. 34) Prima facie, é claro, essas declarações correm o risco de deixar o leitor perplexo. A quem cabe julgar a originalidade de trazer noções m atem áticas para a psicanálise: à com unidade psicanalítica ou à com unidade m atem ática?, o leitor, sem dúvida, perguntar-se-á. A resposta óbvia a essa

per-com portam da m esm a m aneira. Então tem os que aprender a respeito delas de um a form a m eio abstrata ou im aginativa em vez de usar a nossa experiência direta.

(14)

gunta parece de certa form a em udecer as declarações citadas. Todavia, talvez estejam os nos apressando. Portanto, nos próxim os parágrafos considerarem os em detalhe a segunda afirm ação antes de nos voltarm os para um estudo m ais detalhado da prim eira.

Em relação à segunda afirm ação, é interessante notar com o S&B m ais um a vez antecipam , e procuram descartar, um a objeção que eles sentem que será feita de im ediato pelo leitor. Vale a pena fazer um a pausa para dar um a atenção m ais detalhada à m aneira, aparentem ente direta, pela qual procuram lidar com essa objeção. S&B adm item abertam ente, por exem plo, que “ nem é preciso dizer que não tem os a com petência necessária para julgar os aspectos não cien-tíficos da obra desses autores.” ( p. 6) Mas é justam ente por essa confissão parecer ao leitor óbvia e sem problem as que deveríam os exercer pressão neste exato ponto. Pois, certam ente, esse tipo de confissão desarm ante não pode jus-tificar a substituição de estudos sérios por condenações sum árias. Na verdade, o caráter desarm ante da afirm ação deveria ser um toque de alerta. Porque no nível estritam ente conceptual, essa afirm ação conta com um a tese não argu-m entada, qual seja, a de que é possível julgar os argu-m éritos científicos de uargu-m a disciplina sem referência ao tipo de questões concretas levantadas pela discipli-na. Em outras palavras, S&B sugerem que é possível julgar os m éritos científicos da psicanálise sem estar a par das questões e dos conhecim entos gerados pela experiência psicanalítica.

Não seria o m esm o julgar os m éritos científicos da física sem estar a par das questões e conhecim entos específicos à disciplina da física? Com o, por exem plo, pode alguém julgar a pertinência de noções m atem áticas ( com o teoria de con-junto ou topologia) para um a área particular da física ( com o a física das partícu-las elem entares) ou da psicanálise ( com o o processo de sexuação) se esse alguém não está a par das questões e debates que im pulsionam a área? Isso sem falar no progresso e significado dos conhecim entos relevantes da física e da psicanálise. A fim de decidir se um físico está interpretando corretam ente um área da m ate-m ática não se pode deixar de ter experiência e conheciate-m entos da disciplina. Por que não conferir um status sim ilar a um psicanalista? Com o é possível julgar a pertinência de certas noções m atem áticas na obra de um autor quando se adm ite abertam ente ao m esm o tem po não com preender o resto da obra do autor ( p. 8) ? Um a separação tão nítida entre a m atem ática de Lacan de um lado, e seu im pacto produtivo sobre a psicanálise de outro, é realm ente sim plista dem ais.11

(15)

Talvez possam os, no entanto, sugerir um m odo viável de fazer sentido da prim eira afirm ação de S&B segundo a qual é possível julgar a originalidade da utilização da m atem ática pela psicanálise “de um ponto de vista m atem ático.” Podem os fazer isso valendo-nos de novo de um a hom ologia estrutural com a física. Afinal de contas, todos nós sabem os que alguns dos aspectos m ais origi-nais da m atem ática foram inventados e aperfeiçoados a partir de conquistas no cam po da física. Há um a razão para isso: os físicos são levados a lidar com questões específicas que surgem em sua área de estudo — o uso que um físico faz da m atem ática é guiado por sua intuição, intuição essa baseada no conheci-m ento das questões e evidências específicas.

Isso traz à tona a antiga disputa entre m atem ática pura e aplicada, perm itin-do assim que considerem os sob um novo ângulo a utilização da m atem ática por Lacan. É de conhecim ento geral o fato de que do ponto de vista da m atem á-tica pura, o uso que os físicos fazem da m atem áá-tica é m uitas vezes considerado “desleixado”, a ponto de correr o risco de ser condenado com o um sim ples erro. Muitas vezes são os “puristas” os encarregados de pôr em ordem os deta-lhes m atem áticos. De form a hom óloga, é a intuição de Lacan ( baseada em um a extensa experiência psicanalítica e conhecim ento profundo da literatura rele-vante) que induz Lacan a usos específicos da m atem ática — algo que pode resultar na invenção de um a nova m atem ática adequada ao cam po da psicaná-lise. O essencial é que o forte de Lacan seja visto não tanto nas m inúcias de detalhes m atem áticos m as em sua vigorosa com preensão intuitiva da m ate-m ática e das ciências ate-m ateate-m áticas eate-m geral, o que oferece direções produtivas para novas pesquisas no cam po da psicanálise. Em bora seja verdade que não se pode dizer que Lacan tenha inventado um a ram ificação bem desenvolvida e claram ente definida de m atem ática lacaniana, m atem áticos em círculos lacanianos estão hoje concentrando seus esforços em pesquisas nesse sentido.12 Seria algo

que poderia m uito bem justificar o título “topologia lacaniana”, por exem plo, visto que a topologia da qual depende o psicanalista envolve um conjunto de axiom as específicos da área.

Deixem os de lado a crítica que tem os apresentado contra as acusações de S&B ao conhecim ento e à utilização de noções científicas e m atem áticas por parte de Lacan. Vam os partir do princípio hipotético de que para criticar o uso de m atem ática em um a disciplina específica não seja preciso ter um conheci-m ento profundo excessivaconheci-m ente detalhado dos probleconheci-m as e do conjunto de conhecim entos da disciplina. Isso nos leva ao que S&B declaram ser sua m aior objeção à utilização da m atem ática por Lacan ( p. 34) . Desse ponto de vista, a

(16)

única coisa necessária para julgar a pertinência do recurso de um autor à m ate-m ática é identificar uate-m a conceptual ou eate-m pírica ligação consciente e explícita com a disciplina em questão ( neste caso, a psicanálise) , sem precisar com pre-ender seus detalhes intrincados. Deve haver algum argum ento evidente que jus-tifique a relevância. Com o S&B salientam , sua objeção à utilização da m atem á-tica por parte de Lacan “não tem a ver principalm ente com erros, e sim com a m anifesta irrelevância da term inologia científica do sujeito supostam ente sob observação.” ( p. 11) Mais especificam ente, “as analogias ( de Lacan) entre psi-canálise e m atem ática são as m ais arbitrárias que se possa im aginar, para as qu ais ele n ão oferece qualquer justificativa em pírica ou conceptual (nem aqui nem em outras partes

de sua obra)” ( p. 34; grifos nossos) .

Um a das discussões de S&B acontece no contexto da afirm ação de Lacan ( 1970, p. 193) de que “[ s] e é possível sim bolizar o objeto por [ um ] corte fundam ental, da m esm a form a é possível dem onstrar que um corte no toro corresponde ao sujeito neurótico, e em um a superfície cortada transversalm en-te a ou tro tipo de doen ça m en tal.” S&B qu erem saber o qu e esses objetos topológicos têm a ver com a estrutura da doença m ental ( p. 18) . Em vista das afirm ações de grande alcance citados no parágrafo anterior, é surpreendente ficar sabendo que Lacan tratou da relação entre topologia ( inclusive o toro) e neurose em m uitos sem inários ( ver especialm ente, LACAN, 1961-2) .

Mas o que, o leitor é capaz de insistir, coisas com o a “ união” da lógica m atem ática ou o Teorem a de Stokes podem ter a ver com a psicanálise? O que, por caridade, pode justificar a relação entre gravidade e o inconsciente de um a partícula ou entre a raiz quadrada de -1 e o pênis? Mesm o se concordarm os que S&B procuraram ingenuam ente julgar a m atem ática de Lacan independente-m ente do contexto psicanalítico no qual ele se expressava, coindependente-m o é possível não declarar o óbvio: que esses conceitos m atem áticos são introduzidos da m aneira “m ais arbitrária que se possa im aginar” ( p. 34) ? O que faz a relação entre a m atem ática de Lacan e a psicanálise parecer tão ilusória, até m esm o não exis-tente, para S&B? É isso que exige um a explicação.

(17)

Som ente a ignorância dos conceitos m ais básicos da obra de Lacan torna essa pergunta possível. Um a vez que se tenha em m ente que um a enorm e por-ção de seus ensinam entos é resum ida na afirm apor-ção “o inconsciente é estruturado com o a linguagem ”, não só se estabelece um vínculo conceptual com a topologia, m as se identifica facilm ente um a conexão com a psicanálise. Em outras pala-vras, o estudo da estrutura — especialm ente no contexto da lingüística — é indispensável, segundo Lacan, quando se procura com preender o funcionam en-to do inconsciente, e portanen-to é igualm ente indispensável para com preender a disciplina da psicanálise. Então, sem negar o fato de que o com entário de Lacan é difícil de entender, sem ir além de um conhecim ento profundo das noções m ais elem entares de Lacan, a acusação de que a m atem ática de Lacan é irrelevante ou arbitrária no que diz respeito à psicanálise só pode soar falso. Um vínculo conceptual é facilm ente identificável com as noções de Lacan, sem que seja preciso m ergulhar m uito profundam ente nos detalhes de seus ensinam entos.

O problem a na questão de conteúdo é que S&B gostariam de obrigar Lacan a se dirigir a eles sob as condições deles, condições que eles consideram univer-sais. Do ponto de vista lacaniano, S&B fazem o papel do grande Outro, o Sujei-to-que-Supostam ente-Sabe da Ciência. Assum indo a posição de porta-vozes ofi-ciais da Ciência, eles encarregam -se de policiar as fronteiras de sua concepção pessoal ( e não com provada) de ciência m atem ática — o que é com preensível m as não desculpável — declarando tam bém que o conhecim ento específico da disciplina apropriadora não pode ter qualquer relevância em relação à sua acu-sação de equívoco.

CONCLUSÃO

Nosso veredicto é que S&B são culpados de negligência intelectual grave na m edida em que sistem aticam ente interpretam m al e distorcem o program a de pesquisa de Jacques Lacan e sua relação com a ciência m atem ática. Nenhum esforço verdadeiro é feito no sentido de dar a Lacan um a oportunidade de defesa ou de tom ar conhecim ento, de form a acadêm ica, da literatura relevante, adm i-tindo abertam ente um a ignorância quase com pleta da psicanálise. Não fosse a ligação de S&B com o estabelecim ento científico — cuja autoridade é norm al-m ente aceita seal-m discussão — Im posturas intelectuais não teria sido publicado.13 Evidentem ente, essa é um a posição bem rígida — não desprovida de dificul-dades. Pois se é verdade que estam os convencidos de que S&B — por m ais que tenham sido honestas e bem -intencionadas as suas intenções — distorceram

(18)

Lacan seriam ente, restou-nos o seguinte dilem a. Seria de bom alvitre tornar o debate respeitável, publicando um a resposta, um a espécie de “botar as coisas em pratos lim pos”? Por que não reagir sim plesm ente com o Jacques Derrida com seu apodo sardônico “Le pauvre Sokal” ( DERRIDA, 1997) ?

Sem dúvida essa resposta de Derrida fará efeito. Em nossa opinião, contudo, um tipo diferente de intervenção era igualm ente im portante. Im portante não porque prom etesse ser intelectualm ente gratificante em um sentido substanti-vo. Neste ensaio não contribuím os de form a algum a para a com preensão da psicanálise ou da filosofia da ciência. A intervenção era im portante porque o debate está vinculado a um sentim ento generalizado característico do espírito da época atual, cuja conseqüência é um a espécie de reação reacionária hostil à psicanálise e ao pós-estruturalism o em geral.

Essa reação se caracteriza por um a espécie de posição patológica contrária a Lacan e com panhia. Usam os o term o “patológica” aqui para significar sim ples-m ente sintoples-m ática do ponto de vista de uples-m a coples-m unidade que se iples-m agina gover-nada por princípios sensatos e pluralistas. Com patologia querem os nos referir som ente ao que resulta quando opiniões que repudiam a obra de alguém são levadas a sério m esm o se expressas por quem adm ite a sua ignorância com relação à disciplina daquele alguém , usando ironia sensacionalista no lugar de rigor in telectu al, e ap o ian d o - se — p o r sim p les asso ciação — n a au to r id ad e institucional do estabelecim ento científico. O pobre cidadão que habita essa “com unidade de sensatez” tem que ficar horrorizado, lutando para oferecer o que só pode parecer um a resposta im potente: “Um a coisa é alguém discordar de Lacan, ou chegar à conclusão de que Lacan é difícil dem ais para valer a pena, ou decidir que Lacan não faz o seu gênero; outra coisa é se dar ao trabalho de invocar a fé institucional para endossar e encorajar um divertim ento barato às custas de autores cujas obras não são exam inadas detalhadam ente.”

Está claro que o livro Imposturas intelectuais de S&B não deve sua popularidade a qualquer tipo de solidez acadêm ica, integridade intelectual ou erudição lite-rária. Com o então explicar o rebuliço que o cerca? O bom senso desconstrutivista sugere que sua popularidade decorre não tanto do conteúdo entre as capas com o do contexto cultural e acadêm ico em que apareceu. Term inam os com um a hipótese lacaniana, insinuando que esse sucesso é sustentado por um a satisfação ou prazer (juissance) que tem pelo m enos duas origens:

1. a zom baria dirigida a intelectuais franceses difíceis de entender; e 2. a zom baria dirigida aos que zom bam de intelectuais franceses.

(19)

BIBLIOGRAFIA

ARONOWITZ, S. “ Alan Sokal’s ‘transgression’” , Dissent, 44, 1, p. 107-110, 1997.

BURGOYNE, B. “The topology of autism ”, in BURGOYNE, B. ( ed.) , Drawing

the soul: m odeles and schem as in psychoanalysis, Londres, Rebus Press, 2000. DARMON, M. Essais su r la topoplotie lacan ien n e, Par is, Edition s de

l’Association Freudienne, 1990.

DERRIDA, J. “ Interview ” , Le Monde, 20 de novem bro de 1997.

DOR, J. ( 1 9 9 1 ) “ Th e epistem ological statu s of Lacan ’s m ath em atical paradigm s” , in PETTIGREW, D., e RAFFOUL, F. ( eds.) , Dissem inating Lacan, Albany, State University of New York, 1996.

FEYNMAN, R. ( 1963) Six easy pieces, Nova York, Helix Books, 1995. FINK, B. A clinical introduction to Lacanian psychoanalysis: theory and technique,

Cam brigde, Harvard University Press, 1997.

GOLINSKI, J. Making natural knowledge: Constructivism and the history of science,

Cam bridge, CUP, 1998.

GOSHGARIAN, G. M. “ Review of in tellectu al im postu res” , Rethinking Marxism, 11, 1, 1999, p. 120-131.

GRANON-LAFONT, J. La topologie ordinaire de Jacques Lacan, Par is, Point Hors Ligne, 1990.

KREYSZIG, E. Advanced engineering m athem atics, Nova York, John Wiley, 1993. LACAN, J. ( 1961-2) The Sem inar of Jacques Lacan, book IX: Identification, tradução

de Gallagher, C., inédito.

. ( 1964) “ Position of the unconscious” , in FELDSTEIN, R. FINK, B. e JAANUS, M. ( eds.) Reading Sem inar XI: Lacan’s four fundam ental concepts of psychoanalysis, Albany, State University of New York, 1995.

. ( 1969-70) The Sem inar of Jacques Lacan, book XVII: The other side of psychoanalysis, MILLER, J.-A. ( ed.) , tradução de Grigg, R., no prelo.

. “Of structure as an inm ixing of an otherness prerequisite to any subject w hatever” , in MACKSEY, R. e DONATO, E. ( eds.) , The languages of Criticism and the sciences of m an: The structuralist controversy, Baltim ore, Johns Hopkins Press, 1970.

. Ecrits: A selection, tradu ção de Sh er idan , A., Nova York, W. W. Norton, 1970.

. “Desire and the interpretation of desire in Ham let”, in FELMAN, S. ( ed.) Literature and psychoanalysis: The question of reading: Otherwise, Baltim ore e Londres: Johns Hopkins University, 1982.

. “Television” , October, 40, 1987, p. 7-50.

. “ Science and truth” , N ewsletter of the Freudian Field, 3, ½, 1989, p. 4. . ( 1 9 7 5 ) “ A th eo r etical in tr o d u ctio n o f th e fu n ctio n s o f psychoanalysis in crim inology” , JPCS, 1, 2, 1996, p. 13-25.

. The Sem inar of Jacques Lacan, book XX: Encore ( 1972-3) , Miller, J.-A., ( ed.) , tradução de Fink, B., Nova York, W. W. Norton, 1998. LEE, J. S. Jacques Lacan, Boston, G. K. Hall and Co., 1990.

(20)

-bro de 1997) , tradução da entrevista inicialm ente publicada na Revista Argentina de Psiquiatria, 7, 26, 1996, p. 260-274.

MOREL, G. ( 1993) “Fem inine conditions of jouissance” , JCFAR, 3, p. 4, 1994.

NASIO, J.-D. ( 1979) “ The concept of the subject of the unconscious” , in PETTIGREW, D. e RAFFOUL, F. ( eds.) , Dissem ination Lacan, Albany, State University of New York, 1996.

. Les yeux de Laure: Le concept d’object ‘a’ dans la theorie de J. Lacan: suivi d’une introduction a la topologie, Par is, Aubier, 1987.

ROBBINS, B. “ Anatomy of a hoax” , Tikkun, set/ out, p. 58-9, 1996. ROUDINESCO, E. ( 1994) Jacques Lacan, Cam bridge, Polity Press, 1997. ROUSTANG, F. Dire m astery: Discipleship from Freud to Lacan, Baltim ore, Johns

Hopkins University Press, 1982.

. The Lacanian delusion, Nova York, OUP, 1990.

SAMUELS, R. Between philosophy and psychoanalysis, Londres, Routledge, 1993. SCHWARTZ, J. Cassandra’s daughter: a history of psychoanalysis in Europe and Am erica,

Londres, Allen Lane, 1999.

SOKAL, A. “ Tran sgressin g th e b o u n d ar ies: tow ard s a tran sfo r m ative herm eneutics of quantum gravity” , Social Text, 46-7, 1996a, p. 217-252.

. “Transgressing the boundar ies: an afterword” , Dissent, 43, 4, 1996b, p. 93-9.

. e BRICMONT, J. ( 1997) Intellectual im postures, Londres, Profile Books, 1998.

STAVRAKAKIS, Y. Lacan & the political, Londres, Rougledge, 1999. VAPPEREAU, J. M., HAJLBLUM, S. e LEW, R.( 1998) “ Com m ents on the

Sokal affair ( em preparo) .

. Essaim : Le grou pe fon dam en tal du n oeu d. Psych an alyse et topologie du sujet, Paris, Point Hors Ligne, 1985.

ZIZEC, S. The plague of fantasies, Londres, Verso, 1997.

Jason Gly nos e Yannis Stavrakakis

Referências

Documentos relacionados

Para os sistemas de pastejo bovinos, ovinos e simultâneo, foram utilizados quatro piquetes e, no alternado, cinco, o que permitiu a rotação da pastagem com sete dias de ocupação e

São por demais conhecidas as dificuldades de se incorporar a Amazônia à dinâmica de desenvolvimento nacional, ora por culpa do modelo estabelecido, ora pela falta de tecnologia ou

“Ao lado das formas diversas de vida consagrada, acrescentam-se as sociedades de vida apostólica, cujos membros, sem os votos religiosos, buscam a finalidade apostólica própria da

Seja P a função que ao número de anos decorridos desde 2014, n, faz correspon- der o preço a pagar pelo bilhete de época do F.. Em que ano um bilhete de época no Estádio de

Medições contínuas de radiação fotossinteticamente ativa, temperatura e umidade do ar, e velocidade do vento foram realizadas: acima da cobertura; entre a cobertura e o dossel; sobre

• Uma alternativa para condições mutuamente exclusivas é mostrada a seguir.. 2) Elabore um algoritmo que dado um número inteiro qualquer, responda se ele é positivo, negativo

 Comprovação de experiência profissional, conforme disposto no item 6.7 deste edital  Currículo Lattes.. Somente o título de maior valor entre os listados do item 6.5,

sendo a admissão de sócios de mérito, de sócios beneméritos e de sócios honorários da competência da Assembleia Geral, sob proposta da Direcção. Artigo 10º- Os