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Níveis de TSH sérica associados a fatores de risco cardiovascular em adolescentes acima do peso e obesos.

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ARTIGO

ORIGINAL

Serum

TSH

levels

are

associated

with

cardiovascular

risk

factors

in

overweight

and

obese

adolescents

Luciana

Lopes

de

Souza

a,∗

,

Erika

Paniago

Guedes

a

,

Patrícia

Fátima

dos

Santos

Teixeira

b

,

Rodrigo

Oliveira

Moreira

a

,

Amelio

Fernando

Godoy-Matos

a

e

Mario

Vaisman

b

aInstitutoEstadualdeDiabeteseEndocrinologia(IEDE),DivisãodeMetabologia,RiodeJaneiro,RJ,Brasil bUniversidadeFederaldoRiodeJaneiro(UFRJ),DivisãodeEndocrinologia,RiodeJaneiro,RJ,Brasil

Recebidoem30deagostode2015;aceitoem14dejaneirode2016

KEYWORDS

Subclinical hypothyroidism; Adolescents; Obesity; Overweight; Cardiovascularrisk factors

Abstract

Objective: Toinvestigatetherelationshipbetweenserumthyrotropin(TSH),insulinresistance

(IR),andcardiovascularriskfactors(CRF)inasampleofoverweightandobeseBrazilian

ado-lescents.

Methods: Aretrospective,longitudinalanalysisof199overweightandobesepubescent

ado-lescentswasperformed.TheTSHandfreeT4(fT4)levels,anthropometricmeasurements,and

laboratorytestresultsofthesepatientswereanalyzed.

Results: 27individuals(13.56%)presentedwithTSHlevelsabovethenormallevel(subclinical

hypothyroidism[SCH]).Theirwaistcircumference(WC)wassignificantlyhigherthanthoseof

euthyroidindividuals.SerumTSHwaspositivelycorrelatedwiththehomeostasismodel

asses-smentofinsulinresistance(HOMA-IR) index,triglycerides (TG)andhigh-densitylipoprotein

cholesterol(HDL-C).UsingTSHandBMIasindependent variables,TSHlevelswereshownto

be independently related toHOMA-IR (p=0.001) andTG (p=0.007). Among euthyroid

sub-jects,individualswithTSHvalues<2.5mIU/mLexhibitedstatisticallysignificantdecreasesin

waist-to-hipratio,HDL-Clevels,andHOMA-IRscoresandatendencytowardslowerWCvalues.

Conclusion: SCHinoverweight andobeseadolescentsappears tobeassociated withexcess

weight,especiallyvisceralweight.Ineuthyroidadolescents,thereappearstobeadirect

rela-tionshipbetweenTSHandsome CRF.Inconclusion,inthepresentsampleofoverweightand

obeseadolescents,TSHlevelsappeartobeassociatedwithIRandCRF.

©2016PublishedbyElsevierEditoraLtda.onbehalfofSociedadeBrasileiradePediatria.Thisis

anopenaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/

by-nc-nd/4.0/).

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2016.01.011

Comocitaresteartigo:SouzaLL,GuedesEP,TeixeiraPF,MoreiraRO,Godoy-MatosAF,VaismanM.SerumTSHlevelsareassociatedwith

cardiovascularriskfactorsinoverweightandobeseadolescents.JPediatr(RioJ).2016;92:532---8.

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](L.L.Souza).

(2)

PALAVRAS-CHAVE

Hipotireoidismo subclínico; Adolescentes; Obesidade; Sobrepeso; Fatoresderisco cardiovascular

NíveisdeTSHséricaassociadosafatoresderiscocardiovascularemadolescentes acimadopesoeobesos

Resumo

Objetivo: Investigararelac¸ãoentretireotrofinasérica(TSH),resistênciaàinsulina(RI)efatores

de riscocardiovascular(FRC) em umaamostrade adolescentesbrasileirosacimadopesoe

obesos.

Métodos: Foirealizada uma análiselongitudinal retrospectivade190 adolescentespúberes

acimadopesoeobesos.ForamanalisadososníveisdeTSHeT4livre(T4l),asmedidas

antro-pométricaseosresultadosdeexameslaboratoriaisdessespacientes.

Resultados: 27indivíduos(13,56%)apresentaramníveisdeTSHacimadonormal

(hipotireoi-dismosubclínico(HSC)).Elesapresentaramcircunferênciadacintura(CC)significativamente

maiorqueosindivíduoseutireoideos.ATSHséricafoipositivamentecorrelacionadaaoíndice

domodelodeavaliac¸ãodahomeostasederesistênciaàinsulina(HOMA-IR),triglicerídeos(TG)

elipoproteínadealtadensidade-colesterol(HDL-C).UsandoTSHeIMCcomovariáveis

indepen-dentes,osníveisdeTSHestavamrelacionadosaoHOMA-IR(p=0.001)eaTG(p=0.007)deforma

independente. Entreospacienteseutireoideos, indivíduoscomvalores de TSH<2.5mIU/mL

apresentaramreduc¸õesestatisticamentesignificativasnarazãocintura/quadril,nosníveisde

HDL-CenosescoresdeHOMA-IRetendênciaamenoresvaloresdeCC.

Conclusão: OHSCemadolescentesacimadopesoeobesospareceestarassociadoaoexcesso

de peso,principalmente depeso visceral.Em adolescenteseutireoideos, parecehaveruma

relac¸ãodiretaentreTSHealgunsFRC.Concluindo,emnossaamostradeadolescentesacima

dopesoeobesos,osníveisdeTSHparecemestarassociadosaRIeFRC.

©2016PublicadoporElsevierEditoraLtda.emnomedeSociedadeBrasileiradePediatria.Este

´

eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/

by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

A incidência de obesidade na infância e adolescên-cia está aumentando em países em desenvolvimento e desenvolvidos.1 No Brasil, país em desenvolvimento, os

dadosdaPesquisadeOrc¸amentosFamiliares(POF)

mostra-ramqueopercentualdeindivíduosacimadopesoentre10e

19anospassoude3,7%(1974-1975)para21,7%(2008-2009)

emmeninosede7,6%para19,4%emmeninas.2

A associac¸ãobem estabelecida entre a obesidadee as

disfunc¸õesdometabolismolipídico/daglicose,hipertensão

e aumentodos riscos cardiovasculares(RCV)é

frequente-mente mencionada como síndrome metabólica (SM).3 Os

indivíduosna faixaetáriapediátricatambémpodem

apre-sentarmaiormorbidezrelacionadaàSM.3---5

Oshormôniosdatireoide(HT)têmumpapelfundamental

naregulac¸ãodometabolismopormeiodamodulac¸ãoda

ter-mogêneseedogastoenergético.Asrelac¸õesputativasentre

osHT, o peso corporal e a homeostase dotecido adiposo

têmsidoofocodediversosestudosnosúltimosanos,porém

asrelac¸õescausaisentreessesparâmetrosnãoforambem

estabelecidas.6---12 Uma análise8 destacou diversosestudos

debasepopulacionalquerevelaramumacorrelac¸ãoentreo

aumentonosníveisdetireotrofinasérica(TSH)eoaumento

doIMC.

As doenc¸as da tireoide têm sido associadas com a

doenc¸a cardiovascular aterosclerótica.13---16 Embora essa

associac¸ão tenha sido documentada conclusivamente com

relac¸ão ao hipotireoidismo clínico, continua a ser

con-troverso seela tambémestá presente no hipotireoidismo

subclínico (HSC).17,18 A associac¸ão dedoenc¸as datireoide

com a doenc¸a cardiovascular aterosclerótica pode ser

parcialmente explicada pelos papéis do HT na regulac¸ão

dometabolismolipídicoedapressãoarterial(PA).Defato,

diversosestudosrecentesdebase populacionalrevelaram

correlac¸õespositivas entreosparâmetrosTSH elipídios e

entreaTSHeaPA,mesmoempopulac¸õeseutireoideas.6---18

Nossoobjetivo foi investigar a relac¸ão entrea func¸ão da

tireoide,a obesidade, oslipídios, a resistência à insulina

e os componentes da SM em uma amostra de

adoles-centes acima do peso. Também visamos a investigar as

diferenc¸as metabólicas e antropométricas de pacientes

eutireoideos com TSH no limite superior da normalidade

(≥ 2,5␮IU/mL) em comparac¸ão compacientescom níveis

maisbaixos.

Pacientes

e

métodos

Indivíduos

Esteestudoavaliou199adolescentespúberesacimadopeso e obesos de ambos os sexos com 11 a 17 anos (estágio II

de Tanner ou estágio pós-puberal) que buscaram trata-mento para a obesidade no Ambulatório de Metabolismo do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione(IEDE),RiodeJaneiro,Brasil,sequencialmente de marc¸o de 2011 a fevereiro de 2013. O protocolo foi aprovadopelo ComitêdeÉticaem PesquisadoIEDE e um consentimentoinformadoporescritofoiobtidodos partici-pantes,bemcomodeseusrepresentanteslegais.

(3)

(uso de levotiroxina [LT4] ou tionamidas), níveis de cre-atinina e ureia acima dos valores normais, aspartato aminotransferase (AST) e/ou aspartato aminotransferase (AST)trêsvezesacimadolimitesuperior danormalidade, usodeálcooloudrogas,usosimultâneocrônicooudedose constantedebetabloqueadores,beta-agonistas,diuréticos, antidepressivos,neurolépticos,bromocriptina, ergotamina ederivados,atropina,esteroides sistêmicos,inibidoresde apetiteoumedicamentosqueinterfiramcomaatividadedas aminasousejamusadosparatratartranstornos psiquiátri-cosnosúltimostrêsmeses,meninasgrávidaselactantesou históricodeneoplasianosúltimoscincoanos.

Exameantropométrico

Todos os participantes foram submetidos a anamnese e examefísicocompleto.Osparentese/ouresponsáveis aju-daramafornecerinformac¸õesapósassinaroconsentimento informado.Foramavaliadososseguintesparâmetros:peso (kg),estatura (m),IMC(kg/m2), circunferênciadacintura

(CC), razão cintura/quadril (RCQ), PA (mmHg) e fatores demográficos (sexo e idade). O peso foi medido por uma balanc¸a digital Filizola® (Filizola®, SP, Brasil), com cada

paciente descalc¸o e com roupas leves. A estatura de cadapacientefoimedidacomumestadiômetroHarpenden®

(Harpenden®,ReinoUnido),comoindivíduodescalc¸o.ACC

foimedidanopontomédioentreacristailíacaeoarco cos-tal.Acircunferênciadoquadril(CQ)foiobtidacomamedida domaiordiâmetrosobreostrocânteresmaiores. Para cal-cular aRCQ determinou-se a razãoentrea CC e aCQ. O IMCfoicalculadopeladivisãodopeso(kg)pelaestaturaao quadrado(m2).

As tabelas americanas do Centro de Controle e Prevenc¸ão de Doenc¸as do Centro Nacional de Estatísti-cas de Saúde (CDC-NCHS) foram usadas para avaliar o IMC (http://apps.nccd.cdc.gov/dnpabmi/) de acordo com

osexoeaidade.IndivíduoscomIMCparaaidadeentreo85◦

eo95◦

percentisforamclassificadoscomo‘‘acimadopeso’’

eaquelescom IMCparaaidade apartirdo95◦ percentil,

como‘‘obesos’’.APAfoiobtidacomopacienteemposic¸ão

supinaapóscincominutosdedescanso.Todasasmedic¸ões

dePAforamobtidaspelomesmoexaminadorcomomesmo

equipamento.Paraasmedic¸õesdePA,foiusadoum

esfigmo-manômetrodecolunademercúriopadronizadoecalibrado

comomanguitoajustadoàsdimensõescorporais.Todasas

medidasantropométricasforamavaliadaspelomesmo

exa-minadore oestágio dematurac¸ãosexualfoideterminado

comaclassificac¸ãodedesenvolvimentopuberaldeTanner.

Avaliac¸õeslaboratoriais

As amostras de sangue foram coletadas após jejum de 12horas eosresultadosdosexamesdesangueforam ava-liados: glicemia de jejum, glicemia de duas horas após sobrecarga de glicose com 75gde Dextrosol, hemograma completo, ureia, creatinina, sódio, potássio, colesterol total,colesteroldelipoproteínadealtadensidade(HDL-C), colesteroldelipoproteínadebaixadensidade(LDL-C), trigli-cerídeos,alaninaaminotransferase(ALT),aspartato amino-transferase(AST),TSH,T4livre(T4l)einsulinabasal.Comos resultadosdeglicemiadejejumeinsulinabasal,oíndicedo

modelodeavaliac¸ãodahomeostasederesistênciaàinsulina (HOMA-IR)decadapacientefoicalculadopelaseguinte fór-mula: HOMA-IR=[glicose(mMol)xinsulina(␮U/mL)]/22,5. O Estudo Brasileiro de Síndrome Metabólica (BRAMS) ava-liouumapopulac¸ãodeaproximadamente2.000pacientes, incluindoadultosobesosecomdiabetestipo2,edefiniua resistênciaàinsulina(RI)comoumvalordeHOMA-IRmaior doque2,71emindivíduoscomIMCnormal.19Essepontode

corte do HOMA-IR provavelmente representa a populac¸ão

brasileira,considerandoonúmerodepacientesavaliados.

Paraavaliarosníveis deTSH, foiusadoummétodode

eletroquimioluminescência. A eletroquimioluminescência

consiste em umimunoensaio que determina

quantitativa-menteosníveisdeTSHapartirdeamostrasdesoroeplasma

humanos.Afaixanormaldevaloresrelatadacomessekité

de0,5-5,0␮IU/mL.OsníveisdeT4livre(T4l)dospacientes

tambémforamavaliados poreletroquimioluminescênciae

osvaloresdereferênciavariaramentre0,8e1,9ng/mL.Os

valoresdeT4lforamusadosparaexcluirpacientesapenas

casofossemobtidosvaloresforadafaixanormal.

ParadiagnosticarHSCemadolescentes,serianecessário

usarvaloresespecíficosdeacordocomosexo,aidadeeo

estágiodeTanner.Contudo,essesdadosnãoestão

disponí-veisparaapopulac¸ãobrasileira.Portanto,odiagnósticode

HSC teve como base a Recomendac¸ão 14.1 das Diretrizes

de Prática Clínica com Relac¸ão a Hipotireoidismo em

Adultos,patrocinadasconjuntamentepelaAssociac¸ão

Ame-ricana de Endocrinologistas Clínicos e pela Associac¸ão

Americana de Tireoide.20 A faixa de referência de

deter-minado laboratório deve determinar o limite superior da

normalidade em um ensaio de TSH da terceira gerac¸ão.

Portanto,odiagnósticodehipotireoidismosubclínico(HSC)

foi definido como T4l normal associado a TSH acima de

5,0␮IU/mL.

Ospacientes eutireoideos tambémforam divididos em

dois grupos, de acordo comos níveis de TSH. Existeuma

discussão sobre reduzir o limite superior de TSH para

2,5␮IU/mL.Essadiscussãotemcomobasealgunsdadosque

indicamquepacientescomTSH≥2,5podemterperfis

dife-rentesdaquelescomTSH<2,5␮IU/mL.21,22

Análiseestatística

OsdadosforamanalisadoscomosoftwareGraphPad®InStat

3.00(GraphPad®Software,EUA).Ascomparac¸õesentre

gru-posdiferentesforamfeitascomotestetdeStudentpara asvariáveis paramétricase como testedeMann-Whitney para asnãoparamétricas. Com relac¸ão àsvariáveis para-métricas, osdadossãoapresentadoscomo média±desvio padrão. Com relac¸ão às variáveis não paramétricas, os dadossãoapresentadoscomoamedianadosvaloresmáximo emínimo.Foramfeitasanálisesdecorrelac¸ãocomoteste dePearsonparaasvariáveisparamétricasecomotestede Spearmanparaasnãoparamétricas.Todosostestesforam bicaudaiseonívelderelevânciafoiestabelecidoemp=0,05 paratodasasanálises.

Resultados

(4)

Tabela1 Dadosantropométricosemetabólicosdaamostra estudada

Dados

antropométricos

elaboratoriais

Mediana Variac¸ão (mínimo amáximo)

Idade 14 11a17

IMC(kg/m2) 34,5 23,4a52,6

Sexofeminino(n,%)a 130(65,3)

CC(cm) 102 81a147

RCQb 0,90± 0,07

PAS(mmHg) 120 60a150

PAD(mmHg) 70 50a100

HDL-C(mg/dL) 41 20a79

TG(mg/dL) 130 93,5a334,0

Glicose(mg/dL) 86,5 68,0a323,0 Glicemiade2h

(mg/dL)

100 42a252

HOMA-IR 3,4 0,3a30,6

CC,circunferênciadacintura;IMC,índice demassacorporal; PAD,pressãoarterialdiastólica;PAS,pressãoarterialsistólica; HDL-C, colesterol HDL-C; HOMA-IR, modelo de avaliac¸ão da homeostase;RCQ,razãocintura/quadril;TG,triglicerídeos.

a Osdadosdosexofemininosãoapresentadoscomonúmero

deindivíduosepercentual.

b OsdadosdaRCQsãoexpressoscomamédia±desviopadrão

porqueaamostratemdistribuic¸ãoparamétrica.

II de Tanner dedesenvolvimentopúbere. A frequênciade sobrepesofoi6,97% deacordocomatabela doCDC-NCHS eaobesidadeestavapresenteem93,03%dospacientes.A

tabela1apresentaosdadosantropométricosemetabólicos

dapopulac¸ãoestudada.

Arespeitodometabolismodaglicose,13,56%da

amos-tra(27de199)apresentaramníveisanormaisdeglicemiade

jejum(ouseja,entre100e125mg/dL).Alémdisso,6,03%

(12de199)apresentaramumníveldeglicemiadeduashoras

apósumacargade75gdeDextrosolentre140e200mg/dL

e,assim,foramclassificadoscomotendotolerânciaàglicose

prejudicada.Porfim, quatropacientes(2,02%)receberam

umdiagnóstico de DMT2.Usando o ponto de corte da RI

obtidodoestudobrasileiromencionado(valordeHOMA-IR

acimade2,7),61,19%(122de199)dospacientes

apresen-taramRI.Nãofoiobservadaalterac¸ãonaglicemiadejejum

ounotesteoraldetolerânciaàglicose(TOTG)empacientes

acimadopeso.

Afunc¸ãodatireoidefoi avaliadapor meiodamedic¸ão

dos níveis de TSH (faixa normal: 0,5-5,0␮IU/mL). Dois

(1,0%)indivíduosapresentaramníveisdeTSHabaixodafaixa

normal(hipertireoidismosubclínico)e27(13,56%)

apresen-taramníveisdeTSHacimadonívelnormal(HSC).Todosesses

pacientes apresentaram T4l dentro dos limites normais.

Nenhumpacientefoidiagnosticadocomhipotireoidismo

clí-nico(T4lbaixoe TSHacimade5,0␮IU/mL). Ospacientes

comhipertireoidismosubclínico(n=2)nãoforamincluídos

naanálise.

A tabela 2apresenta umacomparac¸ão dos parâmetros

antropométricos e metabólicos de adolescentes

diagnos-ticados com HSC e eutireoideos. Os pacientes com HSC

apresentaramCC significativamentemaiordo que

pacien-tescomfunc¸ão datireoidenormal.Nãoforamobservadas

diferenc¸assignificativasentreessesgruposemqualquerdos

parâmetrosmetabólicosexaminados.

Após excluir os pacientes com HSC, os 170 pacientes

restantes(níveisdeTSHacimadafaixanormal)foram

ana-lisados separadamente. A tabela 3 mostra as correlac¸ões

entreosníveisdeTSHeosdiversosparâmetros

antropomé-tricosemetabólicosemindivíduoscomfunc¸ãodatireoide

normal.

Aanálisederegressãolinearmúltiplafoiusadapara

ava-liararelac¸ãoentreTSHeosparâmetrosmetabólicos.Nesse

Tabela2 Comparac¸ãodeparâmetrosmetabólicoseantropométricosentreadolescentescomHSCecomfunc¸ãodatireoide normal

Normal

(n=170)

HSC

(n=29)

p

Idade(anos) 14(11-17) 14(12-18) 0,33

IMC(kg/m2) 34,2(23,4-52,6) 37,2(25,8-51,9) 0,046

CC(cm) 102(72-148) 111(81-134) 0,0027

RCQ 0,91±0,08 0,93±0,05 0,22

PAS(mmHg) 120(80-160) 120(90-160) 0,48

PAD(mmHg) 70(50-100) 80(50-100) 0,34

Glicose(mg/dL) 87(68-323) 91(75-268) 0,087

Glicemiade2horas(mg/dL) 102(42-252) 107(72-200) 0,38

HOMA-IR 3,4(0,2-50,7) 3,7(1-30,5) 0,19

AST(mg/dL) 19(7-67) 21(13-39) 0,18

ALT(mg/dL) 16(6-80) 20(9-54) 0,09

TG(mg/dL) 95(30-356) 100(30-210) 0,26

HDL-C(mg/dL) 41,5(20-74) 40(26-79) 0,11

LDL-C(mg/dL) 94,1±25,3 99,8±24,8 0,26

ALT,alaninaaminotransferase;AST,aspartatoaminotransferase;CC,circunferênciadacintura;HOMA-IR,modelodeavaliac¸ãoda home-ostase;HDL-C,colesterolHDL-C;IMC,índicedemassacorporal;LDL-C,colesterolLDL-C;PAD,pressãoarterialdiastólica;PAS,pressão arterialsistólica;RCQ,razãocintura/quadril;TG,triglicerídeos;

(5)

Tabela3 Correlac¸õesentreosníveisdeTSHeosdiversos

parâmetrosantropométricosemetabólicosem 170

adoles-centescomfunc¸ãodatireoidenormal

Correlac¸ão valordep

Idade(anos) −0,11 0,13

IMC(kg/m2) 0,14 0,068

CC(cm) 0,11 0,13

RCQ 0,05 0,49

Glicose(mg/dL) 0,13 0,077

Glicemiade2horas(mg/dL) 0,06 0,44

HOMA-IR 0,16 0,03

TG(mg/dL) 0,16 0,028

HDL-C(mg/dL) −0,14 0,055

LDL-C(mg/dL) 0,03 0,64

CC, circunferência da cintura; HDL-C, colesterol HDL-C; HOMA-IR, modelo de avaliac¸ão da homeostase; IMC, índice de massa corporal;LDL-C, colesterol LDL-C; RCQ,razão cin-tura/quadril;TG,triglicerídeos.

primeiromodelo,aTSHeo IMCforamusadoscomo variá-veis independentes e cada parâmetro metabólico, como dependente.Apósaregressão,osníveisdeTSHcontinuaram associadosdeformaindependenteaoHOMA-IR(p=00001), aoHDL(p=0,046)eaosníveisdeTG(p=0,007).Amesma análisetambémfoiusadaparainvestigarsearelac¸ãoentre TSH e os parâmetros metabólicos continuaria estatistica-mentesignificativaindependentementedaidadeedosexo. Nessesegundomodelo,aidade,osexoeosníveisdeTSH foramusadoscomovariáveisindependentesecada parâme-trometabólico,comodependente.Apósaregressão,aTSH continuourelacionadadeformaindependenteaoHOMA-IR (p=0,0015)e aostriglicerídeos (p=0,0092).Uma relevân-cia de tendência foi encontrada ainda para o colesterol HDL(p=0,0508)eaglicemiadejejum(p=0,0706).

A tabela 4 apresenta uma comparac¸ão de parâmetros

antropométricosemetabólicosdeindivíduoscomfunc¸ãoda

tireoidenormalcombaseemumvalordecortedeTSHde

2,5␮IU/mL. Indivíduos comníveis de TSH>2,5

apresenta-rammaiorRCQeHOMA-IRetendênciaamaiorCC.

Discussão

Nestaamostradeadolescentesobesoseacimadopeso,85% dos pacientes apresentaram func¸ão da tireoide normal e 13,63%apresentaramHSC.AfrequênciadeHSCobservada nestaamostraparecemaiordoquearelatadanaliteratura, mesmocomumvalordecortede5,0␮IU/mL.Napopulac¸ão pediátricaem geral,aprevalênciadeHSC éinferiora2%, poréméimportanteobservarqueosestudos epidemiológi-cosnessafaixaetáriasãoescassos.

Diversosestudosrevelaramumacorrelac¸ãopositivaentre opesoeosníveisdeTSHemcrianc¸as.Essesestudostambém demonstraramque10-23%dascrianc¸asobesasapresentam níveismoderadamenteelevadosdeTSH(4-10␮IU/mL), asso-ciadosaníveisnormaisdeT4louníveislevementeelevados de T4l e/ou T3l. Osníveis de TSH em crianc¸as e adultos obesostêmsidosistematicamenterelatadoscomoelevados em comparac¸ão comindivíduos compesonormal.8,9,12,23,24

Umapesquisaanteriorrevelounãoapenasumacorrelac¸ão

positivaentreoIMCeaTSH,comotambémentreumganho

depesodecincoanoseumaumentogradualnosníveisde

TSH sérica.8 Este é o primeiro estudo a avaliar os níveis

deTSHemumapopulac¸ãosul-americana decrianc¸as

obe-sas.ConsiderandoqueoRiodeJaneiroéumaáreaurbana

doBrasil,semdeficiênciadeiodo,nãopodemosencontrar

umaexplicac¸ãorazoávelparaaprevalênciaelevadadeHSC

encontradaemnossoestudo.Sãonecessáriosmaisestudos

para investigarsea prevalênciade HSC émaior noBrasil

e/ouemoutrospaísesdaAméricadoSul.

QuandopacientescomHSCforamcomparadoscom

indi-víduos eutireoideos, observamos que apresentavam maior

CC. Esse achado é extremamente importante, pois a CC

fornece informac¸ões sobre a distribuic¸ão da gordura. A

prevalênciadeumadistribuic¸ãocentraldegorduraestá

cor-relacionada com maior RCV e a CC parece ser o melhor

método antropométrico para avaliar essa distribuic¸ão em

adolescentes e crianc¸as púberes, embora isso continue

aberto a debate.6,25 A obesidade central ou abdominal,

caracterizada pelo aumento da CC, tem sido

correlacio-nadaaPAS,PAD,colesteroltotal,TG,LDL-CeHDL-C.4---8Em

umartigopublicadoporBlüheretal.,o IMCeaCCforam

relatadoscomoosmelhorespreditoresantropométricosde

Tabela4 Comparac¸ãodeparâmetrosantropométricosemetabólicosemadolescentesdeacordocomoníveldecortedeTSH

TSH<2,5

(n=60)

TSH≥2,5

(n=110)

p

Idade(anos) 14,0(12-17) 14(11-17) 0,024

IMC(kg/m2) 34,1(23,4-50,2) 34,5(23,9-52,6) 0,11

Cintura(cm) 100,9±13,6 105,3±14,3 0,054

RCQ 0,89±0,08 0,92±0,07 0,04

Glicose(mg/dL) 87(72-323) 87,0(68-133) 0,55

Glicemiade2horas(mg/dL) 101(43-166) 102,5(42-252) 0,53

HOMA-IR 2,71(0,37-17,22) 3,51(0,20-50,70) 0,028

TG(mg/dL) 93(36-214) 95(30-356) 0,25

HDL-C(mg/dL) 45(27-74) 40(20-68) 0,023

LDL-C(mg/dL) 92,1±25,2 95,1±25,4 0,46

Dadosapresentadoscomomediana(mínimo-máximo),excetocintura,RCQeLDL-C,quesãoapresentadoscomomédia±DP.

(6)

comorbidadesemadolescentespúberesobesos.25 Assim,a

correlac¸ão da TSH com a CC contribui para sua possível

relac¸ãocomaRIemaiorRCV.Diversosestudoscomcrianc¸as

e adolescentes demonstrarama relac¸ãoentre TSHe IMC,

porémalgunsdelesrelataramumarelac¸ãoestatisticamente

significativacomaCC.26---28Curiosamente,emboratenhamos

encontradomudanc¸as emdiversosparâmetros

antropomé-tricosdeadolescentescomHSC,nãoencontramosanomalia

laboratorial.Talvezessesdadossugiramque,nesseperíodo

inicialdavida,oexcesso depeso egordura visceralpode

nãosersuficienteparacausarmudanc¸asmetabólicas.

Con-tudo,épossívelqueessasalterac¸õessejamidentificadasno

futuro.Sãonecessáriosestudosparaavaliaressahipótese.

Nos indivíduos eutireoideos, encontramos uma

correlac¸ão fraca, porém estatisticamente significativa,

da TSH com HOMA-IR, HDL e TG. Com TSH e IMC como

variáveis independentes, descobrimos que a TSH estava

relacionadacomoHOMA-IReaTGdeformaindependente.

Um estudo italiano que também fez essa comparac¸ão

em crianc¸as acima do peso mostrou que pacientes com

altosníveisdeTSHapresentavamníveis significativamente

maioresdeALT,gamaglutamiltransferase(GGT),colesterol

total,TG,insulina eHOMA-IR.26 Da mesmaforma,em um

estudo turco, a TSH foi correlacionada positivamente a

colesteroltotal,TGePAS.27Outroestudocomadolescentes

ecrianc¸asobesoseutireoideosquepassavamporperdade

peso rápida concluiu que a reduc¸ão na TSH resultou em

umareduc¸ãodemaisde50%dosníveisdeinsulinadejejum

e HOMA-IR,independentemente de alterac¸ões nopeso ou

nacomposic¸ãocorporal.Essamelhorianãofoiassociada a

perdadepeso, massim aumareduc¸ãonos níveisde TSH

sérica.Essesdadossugeremqueasalterac¸õesdafunc¸ãoda

tireoide na obesidade não são simplesmente mecanismos

adaptativos.28

Mesmo ao examinar apenas pacientes eutireoideos,

indivíduoscommaioresníveisdeTSH(>2,5␮IU/mL)

apre-sentarammaiorHOMA-IRe RCQ,menoresníveis deHDL-C

e tendência a menor CC. Existem relativamente poucos

estudosque investigamadolescentes obesos eutireoideos,

porém acorrelac¸ão deHOMA-IRcom TSH foirelatadaem

diversosestudos.26---28Ruhlaetal.13constataramque

indiví-duoseutireoideoscomTSHnafaixasuperiordanormalidade

(2,5-4,5)apresentamníveismaioresdeTGemaior

incidên-ciade SM.Roos et al.também relataram umaassociac¸ão

entrecomponentesdaSMeafunc¸ãodatireoideem

indiví-duoscomHSCeemindivíduoseutireoideos.Nesteestudo,

pacienteseutireoideoscomTSHnolimitesuperiorda

nor-malidadeapresentarammaiores níveisdecolesteroltotal,

glicose,insulinaeHOMA-IR.29

Asevidênciasmencionadas,alémdosresultadosatuais,

reforc¸am a relac¸ão entre a func¸ão da tireoide,

princi-palmente dos níveis de TSH, e a RI. Em pacientes com

hipotireoidismo,aRIfoibemdocumentadanotecido

muscu-lareadiposoeresultaemabsorc¸ãodaglicoseprejudicada

e reduc¸ão dagliconeogêneseem músculosesqueléticos.25

Essasmudanc¸asmetabólicasforamrevertidascomaterapia

de reposic¸ão de LT4. Diversos estudos tambémrelataram

a presenc¸a de RI em HSC.6,15 Ao avaliar os perfis

lipí-dicos de pacientes com HSC, a maioria dos estudos não

encontrou diferenc¸as significativas nos níveis médios de

colesterol total de pacientes com HSC em comparac¸ão

comindivíduoseutireoideos,emboraalgunsestudostenham

observado diferenc¸as na frequênciade dislipidemia entre

essesgrupos.30

Nossoestudo tem diversas limitac¸ões.Primeiro, o fato

deser transversal impedeo estabelecimento de relac¸ões

temporaisentreasvariáveisinvestigadas.Alémdisso,como

foifeitoretroativamente,nãoconseguimosanalisaroutros

parâmetros,incluindoosníveisdeT3l,T4leleptina.Mais

importante, osanticorpos da tireoidetambém não foram

avaliados. Portanto, não é possível determinar se essa

frequênciamaiordeHSCestavarelacionadaàtireoiditede

Hashimotoouaoutraetiologia.Umestudolongitudinalque

acompanhecadagrupoemumdeterminadoperíodoefac¸a

avaliac¸õeseobservac¸õesrepetidaspoderálevar a

conclu-sõesdiferentes;serãonecessáriosestudosparaavaliarisso.

Porfim,odiagnósticodeHSCdeveriatercomobasevalores

específicosdeTSHdeacordocomosexo,aidadeeoestágio

deTanner.Contudo,essesdadosnãoestãodisponíveisparaa

populac¸ãobrasileira.Portanto,odiagnósticotevecombase

apenasovalordecortedokit.

Em resumo, a frequência de HSC é de

aproximada-mente15%emumaamostradeadolescentesacimadopeso

e obesos. Esses indivíduos, embora apresentem condic¸ão

metabólica semelhante à de pacientes com a func¸ão da

tireoidenormal,apresentammaiorCC,sugeremqueoHSC

podeestarassociadoaoexcessodepesocorporal,

principal-mentedepeso visceral.Emadolescentescomafunc¸ãoda

tireoidenormal,tambémparecehaverumarelac¸ãodireta

entreTSHe algunsdos principais marcadoresdeRIe SM.

Essascorrelac¸ões,apesardeestatisticamentesignificativas,

foramfracas e devemser interpretadascomcuidado. Em

especial,ospacientescomTSHnolimitesuperiorda

norma-lidadeparecemapresentarpiorperfilmetabólico,sugerem

queafunc¸ãodatireoidepodeserumdosdeterminantesda

RIeSMnestaamostra.Contudo,arelevânciaclínicadesses

achadosprecisaserdeterminadaem estudosfuturos.Será

especialmenteimportantefazergrandesestudosque

exami-nemaspossíveisvantagensdetratarcrianc¸aseadolescentes

obesos,comvistasaumaTSHdecercade2,5paraatenuar

asrepercussõesmetabólicas.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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Imagem

Tabela 1 Dados antropométricos e metabólicos da amostra estudada
Tabela 4 Comparac ¸ão de parâmetros antropométricos e metabólicos em adolescentes de acordo com o nível de corte de TSH TSH &lt; 2,5 (n = 60) TSH ≥ 2,5(n=110) p Idade (anos) 14,0 (12-17) 14 (11-17) 0,024 IMC (kg/m 2 ) 34,1 (23,4-50,2) 34,5 (23,9-52,6) 0,11

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