MENINGIOMAS MÜLTIPLOS E NEUROFIBROMATOSE
RELATO DE TRÊS CASOS
M A U R O A . O L I V E I R A *, JOÃO F . M . A R A U J O *, R O Q U E J. B A L B O . * *
R E S U M O — Meningiomas múltiplos «verdadeiros" geralmente não constituem entidade pa-tológica específica. Eím geral, associam-se a neurofibromatose. A s clássicas lesões externas, descritas por von Recklinghausen, associadas à neurofibromatose, podem não estar presen-tes. Isto poderia ser possível devido à penetrância variável de aberrações cromossômicas liga-das ao cromossomo 22. Estudos moleculares desses tumores confirmam esta hipótese. E m nossa série de 108 pacientes com diagnóstico de meningioma intarcraniano, apenas três eram múl-tiplos. Apenas em um caso, estigmas externos de neurofibromatose foram encontrados. Os dois casos que não apresentavam qualquer estigma foram considerados como meningiomas múltiplos «verdadeiros". N a ausência de manifestações cutâneas habitualmente associadas à neurofibromatose, é extremamente difícil distinguir meningiomas múltiplos associados a neurofibromatose dos assim chamados meningiomas múltiplos verdadeiros. E m nossa opinião não há justificativa para se considerar meningiomas múltiplos como entidade patológica in-dependente.
P A L A V R A S - C H A V E : meningioma, meningiomas múltiplos, neurofibromatose.
Multiple meningiomas and neurofibromatosis: report of three cases.
S U M M A R Y — Multiple intracranial meningiomas ( M I M ) may be a specific pathological en-tity. In general these lesions are associated with neurofibromatosis. The classical clinical picture of neurofibromatosis, as described b y von Recklinghausen, may not necessarily be associated with M I M . This possibility is a direct result of the variable penetrability of chromosomic aberrations connected with the chromosome 22. Molecular studies of these tu-mors confirmed this finding. I n our series of 108 patients with intracranial meningiomas only three cases were multiple. I n only one of them external stigmata of von Recklinghau-sen's disease were detected. In the absence of skin manifestations of neurofibromatosis in patients with M I M it is very difficult to diagnosis von Recklinghausen's disease, and the so called «true multiple meningiomas". T h e authors believe that there are no justificative findings to consider M I M as an independent pathological entity.
K E Y W O R D ' S : meningioma, multiple meningiomas, neurofibromatosis.
Em 1882 Frederich von Recklinghausen 6 descreveu a neurofibromatose,
cujos achados clássicos são os neurofibromas múltiplos, manchas café-com-leite
e os nódulos de Lish. Embora as manifestações possam variar, o critério clínico
mais adotado para se firmar o diagnóstico é a presença de seis ou mais
man-chas oafé-com-leite com no mínimo 1,5 centímetros de diâmetro
6. Outros
acha-Departainento de Neuro-Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas ( P U C C A M P ) , Departamento d e Neurocirurgia do Hospi-tal Vera Cruz ( H V C ) e HospiHospi-tal Municipal «Dr. Mário Gatti», Campinas: * Professor Assis-tente e Neurocirurgião do H V C / H M M G ; ** Professor A d j u n t o e Diretor do Departamento de Neurocirurgia do H V C / H M M G . Aceite: 29-outubro-1992.
dos como macrocefalia, hipertrofia segmentar, pseudo-artrose, cifoescoliose, baixa
estatura, puberdade precoce e processos expansivos no sistema nervoso central
fazem parte da síndrome. A associação de neurofibromatose com neurinomas
bilaterais do acústico, gliomas e meningiomas está bem estabelecida. A
associa-ção entre meningiomas múltiplos e neurofibromatose também é
reconhe-cida
12,18,21,22.Em nossa série de 108 pacientes em que o diagnóstico de meningioma
intracraniano foi confirmado após o tratamento cirúrgico, três eram
meningio-mas múltiplos. Destes, em um caso estigmeningio-mas externos de neurofibromatose
foram encontrados e, em nenhum, história familiar para meningioma foi relatada.
Apresentamos esses três casos.
R E L A T O D O S CASOS
Caso 1. I D T M , paciente com 69 anos de idade, do sexo feminino. Admitida em nosso Serviço em 18-janeiro-1983 relatando crises convulsivas focais motoras no hemicorpo direi-to ( D ) sem generalização secundária há seis meses, com piora há 30 dias. H á 15 dias nodirei-tou diminuição dia força muscular do hemicorpo D . A o exame, mostrava-se alerta, com hemi-paresia D de predomínio crural, sinais de liberação piramidal e edema de papila. Estudo tomográfico ( T C ) e angiográfico d o encéfalo evidenciaram duas lesões parietais hiperdensas no hemisfério cerebral esquerdo ( E ) , próximas ao seio sagital superior. Submetida a cranio-tomia com retirada de ambas as lesões. O estudo histopatológico revelou tratarem-se de meningiomas do tipo transicional. A paciente teve alta hospitalar em boas condições clínico--neurológicas.
Caso 2. R G , paciente com 60 anos de idade, do sexo masculino. Admitido em 2-feve-reiro-1983 apresentando quadro confusional, com períodos de intensa apatia alternados com períodos de agitação psicomotora; dificuldade à marcha nos últimos três meses. A o exame o paciente encontrava-se apático, não colaborante, com marcha instável e edema de papila bilateral. A T C mostrou duas massas hipercaptantes intraventriculares à E, com hidrocefalia assimétrica. O paciente foi submetido a craniotomia com remoção de ambas as massas. O exame histopatológico confirmou o diagnóstico de meningiomas meningoteliais. O paciente apresentou boa evolução clínica, recebendo alta 13 dias após a internação.
Caso 3. A S P , paciente com 57 lanos de idade, do sexo feminino. Admitida em 1-março--1990 relatando progressiva diminuição de força muscular no hemicorpo E e cefaléia frontal há três meses. Relatava também ter sido operada de um "tumor cerebral» em outro hospital há sete anos; não foi possível obter outras informações ia respeito deste procedimento. A o exame clínico, mostrava numerosas manchas café-com-leite na pele e múltiplos tumores lo-calizados no tecido subcutâneo, além de hemiparesia E de predomínio braquial, com sinais de liberação piramidal e edema de papila. A T C mostrou duas lesões hiperdensas parietais à D e sinais de craniotomia na mesma região. Submetida a craniotomia com remoção de ambas as lesões. O estudo histopatológico mostrou tratarem-se de meningiomas transicio-nais. Retirou-se também um dos tumores subcutâneos, cujo resultado do estudo histopa-tológico foi compatível a neurofibroma. A l t a hospitalar 16 dias após internação, em boas condições clínicas.
C O M E N T Á R I O S
O primeiro relato registrado na literatura de meningiomas múltiplos foi
feito por Anfimow e Blumenau \ em 1889. Coube a Cushing e Eisenhart 3 definir
como de meningioma múltiplo «verdadeiro» aqueles casos em que o paciente
apresentava mais que um tumor, sem sinais de disseminação meningiomatosa
e na ausência de estigmas da doença de von Recklinghausen.
A associação entre meningiomas e tumores de origem neuroectodérmica
tais como neurinomas do acústico, astrocitoma pilocítico, glioma do nervo óptico
ou neurofibroma, na presença de história familiar de neurofibromatose, é critério
clínico suficiente para se firmar diagnóstico de neurofibromatose
8.
1 5.
Atual-mente, alguns autores 5 .
8consideram arbitrária a definição de Cushing e
Eise-nhart 3 pois, na maioria das vezes, é difícil distinguir essas duas patologias.
entre 1% e 8,9% 8,io,i4,i8. nossa série, a incidência foi de 1,8%. Em
autóp-sias realizadas em 100 casos com diagnóstico de meningiomas, a incidência de
tumores múltiplos foi de 16%
2 3. O maior número de lesões encontradas em um
mesmo caso foi 5 9
8. O diagnóstico da maioria dos meningiomas múltiplos foi
firmado na mesma ocasião. M e n o n
1 6relata que o tempo máximo decorrido
entre o diagnóstico do primeiro meningioma e subsequente foi de 22 anos.
Alguns autores, atualmente, são de opinião que meningiomas múltiplos nada
mais são que forma clínica da neurofibromatose
5,8,9,13,14,19,22.Sendo a herança da doença de von Recklinghausen predominantemente
autossômica, com penetrância variável, o paciente pode não apresentar qualquer
manifestação externa
1 8. Esta teoria pode ser criticada, baseando-se no fato de
serem os meningiomas tumores de origem mesodérmica e a neurofibromatose,
de origem ectoüermica. Recentes estudos, baseados em genética molecular,
mos-traram que tanto tumores de origem mesodérmica como os de origem
ectodér-mica apresentam mecanismo patológico em comum, relacionado com aberrações
cromossômicas do cromossomo 22, determinando a perda de gene supressor
tumoral
2»
8. A ocorrência de meningiomas múltiplos em famílias com aberrações
do cromossomo 22 é bem documentada 5,11.
A disseminação via líquido cefalorraquidiano (LCR), a disseminação via
venosa e a perda do gene supressor tumoral decorrente de aberrações
cromossô-micas são as teorias mais aceitas para explicar a multiplicidade destes
tumo-res
2,8,14,18-20.Winkelman
2^ descreveu a presença de células de meningioma no
espaço subaracnóideo e sistema ventricular de pacientes previamente operados
de meningioma, aventando a disseminação via LCR, como sugerido. Outros
auto-res constataram achados como estes, mas não foram capazes de explicar lesões
múltiplas em pacientes não operados previamente
1 4. A disseminação via venosa
explica o aparecimento de metástases, embora raras, para o pulmão, fígado e
outros órgãos, mas não a questão da multiplicidade de lesões intracranianas. As
aberrações cromossômicas, determinando a perda de um gene supressor tumoral
ou ação genética aberrante, causando a multiplicidade de tumores, é a teoria
mais aceita
2,8,18,19.Em nossa casuística todos os tumores eram de localização supratentorial.
Em um caso a localização era intraventricular. Clinicamente, todos os pacientes
apresentavam a combinação de cefaléia, sinais deficitários, síndromes psíquicas
ou crises convulsivas.
Todos os nossos pacientes foram operados, com retirada das massas
tumo-rais no mesmo ato cirúrgico. Há relatos de pacientes submetidos a três
cirur-gias, retirando-se até 12 lesões
8.
Do ponto de vista histológico, Russell e Rubinstein acharam
predomi-nância do meningioma fibroblástico, quando associado a neurofibromatose. Em
nossa casuística, houve predominância do tipo transicional.
R E F E R Ê N C I A S
1. A n f i m o w J, B l u m e n a a u L . E i n F a l l m u l t i p l e r G e s c h w u l t e s in d e r s c h a d e l h o l e . N e u r o l Z e n t r a l b l 1889, 8:585.
2. B a t t r s b y R D E , I r i s i d e J W , M a l b t y E D . I n h e r i t e d m u l t i p l e m e n i n g i o m a s : a c l i n i c a l , p a t h o l o g i c a l a n d c y t o g e n e t i c s t u d y o f a n a f f e c t e d f a m i l y . J N e u r o l N e u r o s u r g P s y c h i a -t r y 1986, 49:632-638.
3. C u s h i n g H , E i s e n h a r d t L . M e n i n g i o m a s , t h e i r c l a s s i f i c a t i o n , r e g i o n a l b e h a v i o r , life h i s -t o r y a n d s u r g i c a l r e s u l -t s . S p r i n g f i e l d I l l i n o i s : T h o m a s , 1938, p 115-132.
4. D a v i d o f f L M , M a r t i n J. H e r e d i t a r y c o m b i n e d n e u r i n o m a s a n d m e n i n g i o m a . J N e u r o -s u r g 1955, 12:375-384.
5. D e l l e m a n J W , D e J o n g G Y , B l e k e e r G M . M e n i n g i o m a s i n f i v e m e m b e r s o f a f a m i l y o v e r t w o g e n e r a t i o n s , i n o n e m e m b e r s i m u l t a n e o u s l y w i t h a c u s t i c n e u r o m a s . N e u r o l o g y 1978, 28:567-570.
6. D e u t s h E C . v o n R e c k l i n g h a u s e n ' s n e u r o f i b r o m a t o s i s w i t h m u l t i p l e i n t r a c r a n i a l t u m o r s . E a r T h r o a t J 1984, 63:141-148.
8. Etljamel M S M , F o y P M . M u l t i p l e m e n i n g i o m a s a n d t h e i r r e l a t i o n t o n e u r o f i b r o m a t o s i s . S u r g N e u r o l 1989, 32:131-136.
9. G a i s t G, P i a z z a G. M e n i n g i o m a s i n t w o n u m b e r s o f t h e s a m e f a m i l y w i t h n o e v i d e n c e o f n e u r o f i b r o m a t o s i s . J N e u r o s u r g 1959, 16:110-113.
10. H o r r a x G . M e n i n g i o m a s o f t h e b r a i n . A c h N e u r o l P s y c h i a t r 1939, 41:140-157.
11. J o y n t R J , P e r r e t G E . M e n i n g i o m a s i n a m o t h e r a n d d a u g t h e r : c a s e s w i t h o u t e v i d e n c e o f n e u r o f i b r o m a t o s i s . N e u r o l o g y 1985, 11:164-165.
12. K u n f t H D , P r o t r o w s k i W . T i b e r g l e i c h z e i t i g e s V o r k o m m e n p r i m a r e r i n t r a k r a n i e l l e r G e - ¬ w a c h s e v e r s c h i e d e n e r K e i m b l a t t e r . Z N e u r o c h i r 1964, 24:189-198.
13. L i s t C F . M u l t i p l e m e n i n g i o m a s : r e m o v a l o f f o u r f r o m r e g i o n o f t h e f o r a m e m m a g n u m u p p e r c e r v i c a l r e g i o n o f t h e c o r d . A c h N e u r o l P s y c h i a t r 1943, 50:335-341.
14. L u s i n s J O , N a k a w a H . M u l t i p l e m e n i n g i o m a s e v a l u a t e d b y c o m p u t e d t o m o g r a p h y . N e u -r o s u -r g e -r y 1981, 9:137-141.
15. M a s h i m a y a m a S, M o r i T , S e k i H , S u z u k i J . M u l t i p l e b r a i n t u m o r s w i t h v o n R e k l i n g - ¬ h a u s e n ' s d i s e a s e . A c t a N e u r o c h i r ( W i e n ) 1987, 84:29-35.
16. M e n o n M Y . M u l t i p l e a n d f a m i l i a l m e n i n g i o m a s w i t h o u t e v i d e n c e o f n e u r o f i b r o m a t o s i s . N e u r o s u r g e r y 1980, 7:262-264.
17. R u s s e l l D S , R u b i n s t e i n L J . P a t h o l o g y o f t u m o u r s o f t h e n e r v o u s s y s t e m . E d 4, B a l -t i m o r e : W i l l i a n s a n d W i l k i n s , 1977, p p 50, 67, 70, 88, 311, 389.
18. S h e e h y J P , C r o c k a r d A . M u l t i p l e m e n i n g i o m a s : a l o n g t e r m r e v i e w . J N e u r o s u r g 1983, 59:1-5.
19. W a g a S, Miatsuda M , H a n d a H , M a t s u s h i m a M , A n d o K . M u l t i p l e m e n i n g i o m a s : r e p o r t o f f o u r c a s e s . J N e u r o s u r g 1972, 37:348-351.
20. W i n k e l m a n N W . P o s t - o p e r a t i v e s e e d i n g o f t h e s u b a r a c h n o i d s p a c e a n d v e n t r i c l e s f r o m a m e n i n g i o m a . J N e u r o p a t h E x p N e u r o l 1954, 13:260-266.
21. W i s h a r t J H . C a s e o f t u m o r s i n t h e s k u l l , d u r a m a t e r a n d b r a i n . E d i n b u r g M e d S u r g J 1922, 18:383-397.
22. W o r s t e r D r o u g h t C, D i c h s o n W E C , M c M e n e m e y W H . M u l t i p l e m e n i n g e a l a n d p e r i n e u -r a l t u m o -r s w i t h a n a l o g o u s c h a n g e s i n t h e g i l a a n d e p e n d y m a . B -r a i n 1937, 60:85-117.