EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ... VARA CÍVEL DA COMARCA DE NILÓPOLIS (OU MACAÉ?) NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
(Espaço de aproximadamente 10 linhas)
TALKPAR LTDA, pessoa jurídica de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº ..., sediada à ..., em Nilópolis/RJ, vem, respeitosamente, a Vossa Excelência, por meio de seu advogado subscritor, propor
AÇÃO DECLARATÓRIA CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS
em face de GESUNDHEIT BRASIL S/A, pessoa jurídica de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº ..., sediada à ..., em Macaé/RJ, pelas razões a seguir aduzidas.
I - DOS FATOS
Em 2001, a autora e a ré celebraram contrato verbal de distribuição de produtos químicos (ácido sulfúrico, cromo e sulfato de sódio) produzidos pela empresa ré para serem distribuídos pela autora.
Em 2003 e 2008, foram celebrados aditivos deste contrato. Pelo primeiro aditivo, a autora passou também a distribuir sulfato de sódio contaminado por cromo. Pelo segundo aditivo mencionado, a autora passou a distribuir sulfato de sódio, desta vez produzido pela filial argentina da empresa ré.
Em vista da importância dos contratos, a autora investiu altos valores para atender a demanda que lhe era imposta, construindo inclusive um Complexo Industrial para armazenamento dos produtos (documento nº ...).
Contudo, em agosto de 2012, a ré, sem aviso prévio ou justificativa, rescindiu o contrato de distribuição, cessando imediatamente todo o fluxo de mercadorias para a autora e, dois meses depois, também a filial argentina rescindiu seu contrato, negando-se a vender novos produtos para a autora comercializar no Brasil por sua própria conta e risco.
Estas rescisões geraram diversos prejuízos à empresa autora, que se sucederam em ordem cada vez mais gravosa. Inicialmente, as rescisões ocasionaram demissões em massa e o endividamento da autora no mercado, porquanto não mais podia arcar com as dívidas anteriormente assumidas para construção de seu Complexo Industrial. Como as demissões e o endividamento da autora lhe trouxeram uma péssima reputação no mercado, posteriormente, outros clientes também rescindiram seu contrato com a empresa autora.
Entretanto, a autora tomou conhecimento de que a empresa ré, após a rescisão, passou a distribuir os mesmos produtos objetos do contrato rescindido, diretamente aos antigos compradores da autora, auferindo enormes lucros.
Assim, em janeiro de 2013, a autora notificou a ré solicitando o pagamento de indenização pelo (I) encerramento do contrato de distribuição; (II) desenvolvimento do mercado para tais produtos; e (III) uso de sua carteira de clientes. Tal solicitação foi negada pela ré, que contranotificou a autora alegando: (I) que a empresa autora nunca foi sua distribuidora, apenas sua cliente; (II) que passou a distribuir diretamente os produtos por conta de uma ordem da matriz alemã; (III) que cessou as atividades de seu Complexo Industrial em Macaé - também por ordem da matriz alemã -, sendo desnecessário o uso de intermediadores em razão deste fato; (IV) que não devia arcar com qualquer indenização, uma vez que o contrato foi apenas objeto de distrato, seguindo expressamente a previsão legal.
II - DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS
A) DO CONTRATO DE DISTRIBUIÇÃO: SEU INÍCIO E SUA DISSOLUÇÃO INDEVIDA
Apesar da negativa da empresa ré em sua contranotificação, existiu contrato de distribuição verbal entre as partes.
Conforme o art. 107 do Código Civil, a validade da declaração de vontade não depende de forma especial, exceto quanto a lei expressamente a exige, mas este não é o caso dos contratos de distribuição. Portanto, não havendo exigência legal de formalidade, o contrato de distribuição pode ser realizado verbalmente, como foi no presente caso.
Importante notar ainda que, na contranotificação, apesar de a ré ter inicialmente negado a existência de contrato com a autora, no mesmo documento, ao final
reconheceu a existência do contrato, pois ao tentar se esquivar do dever de indenizar, afirmou que “o contrato foi apenas objeto de distrato”.
A existência do contrato de distribuição entre as partes deu-se nos termos do art. 710 do Código Civil, pela assunção da obrigação, pela autora, de promover a distribuição dos produtos da ré, em caráter não eventual e sem vínculos de dependência, tendo à sua disposição os objetos do negócio, razão pela qual construiu um Complexo Industrial para armazenamento de tais produtos. Tal fato pode ser demonstrado por meio dos documentos comerciais anexados (duplicatas, notas fiscais de entrada de mercadorias etc.), bem como por posteriores demonstrações na fase instrutória, conforme posteriormente se requererá.
Quanto ao rompimento do contrato, conforme o artigo 715 do Código Civil, a autora, como distribuidora, tem direito à indenização caso a ré, proponente, sem justa causa cessa o negócio. Igualmente, sendo o contrato por prazo indeterminado (por ser um contrato verbal), deve submeter-se à regra do artigo 720 do Código Civil, de acordo com o qual, para que fosse rompido, o contrato deveria respeitar aviso prévio de 90 (noventa) dias, “desde que transcorrido prazo compatível com a natureza e o vulto do investimento exigido do agente”.
Ademais, também é cabível a regra do artigo 473 do Código Civil, segundo a qual a resilição unilateral de um contrato deve operar-se mediante denúncia notificada à outra parte, havendo a necessidade de observância de prazo, se “uma das partes houver feito investimentos consideráveis para a sua execução”, que seja “compatível com a natureza e o vulto dos investimentos”.
No presente caso, é possível observar claramente que a resilição do contrato foi indevida, pois se deu de modo unilateral pela ré e de forma imotivada, tampouco respeitando quaisquer prazos, o que contrariou princípios norteadores do direito contratual, tais como o princípio de probidade e boa-fé e o princípio da função social dos contratos, insculpidos nos artigos 421 e 422 do Código Civil.
Esta situação gerou enormes prejuízos à empresa autora, pois, com o rompimento inesperado, não pode se preparar para o impacto, o que resultou as demissões em massa, seu endividamento e seu descrédito perante seus demais clientes – que entenderam ser prudente também rescindir seus contratos –, bem como perante a própria sociedade.
Ao romper imotivadamente o vultuoso contrato firmado com a autora, sem respeitar prazo razoável, e posteriormente, assumir a atividade que por meio dele a autora realizava, a empresa ré praticou ato ilícito, porquanto violou o direito da autora concretizado em
tal relação jurídica, causando a ela danos de grande monta, não apenas materiais, como também morais (em virtude do descrédito por esta obtido no mercado e na sociedade).
Deste modo, patente o direito da autora em receber indenização da ré, com base nos artigos 186 e 927 do Código Civil, por danos materiais e morais, sendo estes últimos sabidamente reconhecidos às pessoas jurídicas, conforme a Súmula nº 227 do Superior Tribunal de Justiça.
B) DO DESENVOLVIMENTO DO MERCADO PARA A DISTRIBUIÇÃO DOS PRODUTOS DA EMPRESA RÉ
Também em razão do desenvolvimento do fundo de comércio, a autora faz jus à indenização da ré, que após romper indevidamente o contrato de distribuição com a autora firmado, passou a utilizar o mercado por ela já preparado para distribuir diretamente os seus produtos.
É cediço que para um determinado produto seja inserido no mercado, é preciso prepará-lo para isso, por meio de diversos procedimentos, tais como a construção da boa reputação do produto, para que ele seja desejado pelos consumidores; a elaboração de estratégias que propiciem condições para que os consumidores possam adquirir o produto; desenvolvimento de métodos de escoamento do produto; dentre outros.
Todos esses procedimentos demandam tempo, investimentos e planejamento, para que o mercado seja eficazmente consolidado para aceitar e se interessar pelo produto de forma duradoura.
Essas ações foram todas implementadas pela autora, por sua conta e risco. No entanto, após todo este trabalho, a empresa ré, imbuída de latente má-fé, simplesmente rompeu a relação jurídica entre elas estabelecida para aproveitar-se deste mercado já preparado e estabilizado pela autora.
Por tal razão a autora também deve ser indenizada, pelos danos materiais suportados.
C) DO USO INDEVIDO, PELA EMPRESA RÉ, DA CARTEIRA DE CLIENTES DA EMPRESA AUTORA
De modo correlato ao assunto anteriormente exposto, a autora também merece ser indenizada pelo uso indevido, pela ré, de sua carteira de clientes.
A carteira de clientes da autora, assim como seu fundo de comércio, deu-se através de trabalho árduo: foi conquistada com esforço, tempo, investimentos e planejamento e, a seguir, mantida mediante um histórico de bom relacionamento.
Ao distribuir diretamente a estes clientes os mesmos produtos, a ré, novamente de má-fé, aproveitou-se de todo o empenho já realizado pela autora, certamente de modo desleal, mas, acima disto, obtendo vantagem indevida ao valer-se de todo o trabalho da autora.
Em vista disso, a autora também faz jus à indenização, pelos danos materiais que sofreu.
III – DA JUSTIÇA GRATUITA
A autora tem direito à gratuidade da justiça por não possuir rendimentos suficientes para custear as despesas processuais e os honorários advocatícios, sem detrimento de seu próprio sustento, nos termos do artigo 2º, parágrafo único da Lei nº 1.060/50. As péssimas condições econômicas em que se encontra a autora se dão em razão do rompimento indevido do contrato, realizado pela ré, que gerou demissão em massa na empresa autora, endividamentos e abalos em sua reputação, em seu bom nome e em sua idoneidade, o que impediu a realização de novos negócios, além de prejudicar os já obtidos.
O cabimento do benefício às pessoas jurídicas se dá em virtude do direito de acesso à justiça, garantido constitucionalmente a todas as pessoas, indistintamente, em seu artigo 5º, inciso XXXV.
IV – DOS PEDIDOS
Ante o exposto, pede:
1) A declaração da existência do contrato verbal de distribuição;
2) A condenação da ré ao pagamento de indenização por danos materiais à autora pela rescisão abrupta e indevida, pelo uso do fundo de comércio e pelo uso de sua carteira de clientes;
3) A condenação da ré ao pagamento de indenização por danos morais à autora, pelos abalos sofridos em sua reputação, seu bom nome e sua idoneidade perante o mercado e a sociedade.
V – DOS REQUERIMENTOS
Diante do exposto, requer:
1) Provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente perícia contábil e provas testemunhais;
2) A citação da ré para, querendo, apresentar resposta e acompanhar o feito até a sua extinção;
3) A concessão dos benefícios da assistência judiciária gratuita;
4) A condenação da Ré ao pagamento das custas e honorários advocatícios, nos termos do artigo 20 do Código de Processo Civil, bem como juros de mora e correção monetária;
5) O recebimento de intimações no endereço profissional de seu advogado subscritor, situado em ..., em cumprimento do artigo 39, inciso I do Código de Processo Civil;
6) Por fim, a procedência do pedido. Dá à causa o valor de R$ ...
Termos em que, Pede deferimento. Local e data.
Nome e assinatura do advogado Número de inscrição na OAB