GÊNEROS DISCURSIVOS E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: PONTOS DE REFLEXÃO
Cláudia Graziano PAES DE BARROS
1RESUMO
Nos últimos anos, tem se observado modificações nas concepções de ensino- aprendizagem de Língua Portuguesa, tais modificações partem, em grande parte, das exigências recentes pela leitura e pelo domínio da linguagem escrita em todas as áreas da vida social. Tais exigências partem de um contexto mundial que coloca o domínio das diversas capacidades de linguagem, como condição para acesso ao conhecimento, à participação social e o exercício efetivo da cidadania. Para responder a essas demandas, o sistema educacional brasileiro vem propondo várias instruções oficiais para o ensino.
Dentre essas ações, destacam-se a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para os diversos níveis de ensino e a reformulação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Tratando-se especificamente da língua Portuguesa, observamos as recomendações dos PCN no que tange à ascensão dos gêneros discursivos a objetos de ensino-aprendizagem de língua materna. Após pouco mais de uma década da publicação dos PCN, observamos, no âmbito das escolas brasileiras, um profundo descompasso entre o que preconizam os PCN e as ações docentes em sala de aula. Este artigo procura discutir aspectos desse descompasso.
PALAVRAS-CHAVE:
Ensino-aprendizagem; gêneros discursivos; gramática
INTRODUÇÃO
Este artigo traz alguns resultados do projeto de pesquisa “Os Gêneros Discursivos em diferentes esferas da atividade humana: estudos teóricos e aplicados”, desenvolvido pelos pesquisadores do Grupo de Pesquisa Estudos Lingüísticos e de Letramento em Mato Grosso e pretende levantar alguns pontos de reflexão sobre o ensino-aprendizagem de língua portuguesa à luz das mudanças paradigmáticas no currículo brasileiro.
Nas últimas décadas, no Brasil, tem se observado profundas modificações nas concepções de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, tais modificações partem, em
1 Universidade Federal de Mato Grosso. Instituto de Linguagens. Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem Av. Fernando Correa da Costa, nº2367, Bairro Boa Esperança, Cuiabá, Mato Grosso, Brasil- CEP 78.060-900 e-mail: [email protected];[email protected]
grande parte, das exigências recentes pela leitura e pelo domínio da linguagem escrita em todas áreas da vida social. Tal demanda não se restringe ao contexto brasileiro, mas diz respeito a um contexto mundial, que hoje coloca o domínio das diversas capacidades de linguagem, em especial das capacidades de leitura e produção escrita, como condição para acesso ao conhecimento, à participação social e o exercício efetivo da cidadania. O domínio de tais capacidades diz respeito tipos e níveis de letramento que vão além da decodificação da escrita, concernentes às diversas capacidades letradas necessárias em diferentes práticas sociais.
Para responder a essas demandas, o sistema educacional brasileiro vem propondo várias instruções oficiais para o ensino. Dentre essas ações, destacam-se a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para os diversos níveis de ensino e a reformulação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).
A partir dessas políticas públicas adotadas, também se implantaram programas nacionais de avaliação – SAEB e ENEM – do rendimento dos alunos nos níveis fundamental e médio. Esses exames têm demonstrado um baixo rendimento do alunado, cuja principal causa é, sobretudo, o nível de leitura dos avaliados.
O SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) é realizado a cada dois anos e consiste em uma avaliação do desempenho de alunos da quarta e oitava séries do ensino fundamental e terceira série do ensino médio. De acordo com o INEP
2, os resultados dos anos de 2001 e 2003 apresentam uma pequena diminuição nos índices de desempenho dos estudantes brasileiros de 8ª série relativos à leitura, o que, de acordo com o Instituto, não representa uma mudança significativa na média nacional, que passou de 235,2 para 232 pontos. Segundo o Instituto, nesse patamar, os alunos conseguem identificar a descrição de um lugar em textos publicitários e tema de texto poético de baixa complexidade (MEC/INEP, 2004: 9). Para esse nível de escolarização,
2 Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – órgão autárquico vinculado ao Ministério da Educação (MEC) – que tem como objetivos, entre outros: organizar e manter o sistema de informações e estatísticas educacionais; planejar, orientar e coordenar o desenvolvimento de sistemas e projetos de avaliação educacional, visando o estabelecimento de indicadores de desempenho das atividades de ensino no País (INEP, 2009a: s/p, disponível em www.inep.gov.br/ institucional/ finalidades. htm, acesso em 09/08/09)
a média que representaria um padrão mínimo satisfatório, considerando oito anos de escolarização, é de 300 pontos (MEC/INEP, 2004: 10).
O ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio) é uma avaliação que se realiza anualmente com os alunos do terceiro ano e egressos do Ensino Médio que objetiva ajudar o estudante a conhecer melhor suas possibilidades individuais para enfrentar os desafios do dia-a-dia, por meio da verificação dos conhecimentos adquiridos na escola (MEC/INEP, 2005c: s/p).
De acordo com o INEP, o ENEM objetiva avaliar os alunos em relação ao domínio de linguagens, a compreensão de fenômenos, o enfrentamento de situações- problema, a construção de argumentações e a elaboração de propostas de intervenção na realidade. Os resultados do ENEM tem demonstrado que, na parte objetiva do exame, os participantes tiveram mais dificuldades quanto às capacidades de relacionar informações, representadas de diferentes formas e de usar os conhecimentos disponíveis em situações concretas.
Além desses programas, o Brasil tem participado, desde o ano de 2000, do PISA
3(Project for Internacional Student Assessment, ou, como vem sendo denominado no Brasil, Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Este programa tem como objetivo produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais de cada país, avaliando o desempenho dos alunos na faixa etária dos 15 anos, idade que pressupõe o término da educação básica.
Essa avaliação ocorre a cada três anos com provas que trazem ênfases distintas em três áreas: Leitura, Matemática e Ciências. Em cada edição, o foco recai principalmente sobre uma dessas áreas. No ano de 2000, o desempenho dos alunos brasileiros foi considerado sofrível, segundo o relatório do INEP, tendo alcançado o último lugar na colocação dentre os países participantes da avaliação. Já no ano de 2003, o Brasil saiu da última colocação, melhorando o seu desempenho geral, no entanto, essa melhora não se verificou no que trata da leitura: Na geral de Leitura, o
3 O Pisa é um programa da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico –, uma organização global que declara ter como objetivo auxiliar os países envolvidos no desenvolvimento de melhores políticas nas áreas econômicas e sociais.