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“Peaks-over-Threshold” na estimac ¸ ˜ ao de risco; uma exposic ¸˜ ao abragente,

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(1)

Emprego do m´ etodo

“Peaks-over-Threshold” na estimac ¸ ˜ ao de risco; uma exposic ¸˜ ao abragente,

detalhada mas simples

A thorough yet simple exposition of the Peaks-over-threshold method and its

employment for risk estimation.

Vladimir Belitsky Francisco Martins Moreira

Instituto de Matem´atica e Estat´ıstica Universidade de S˜ao Paulo

ABSTRACT

We introduce the statistical procedure calledPeaks-over-threshold method at an intermediate level of comprehensiveness that provides the understanding of principal method’s features and warns about the principal possible fallacies and misinterpretations in the method implementation.

(2)

Conte´ udo

1 Introdu¸c˜ao . . . 1

2 O problema para o qual o m´etodo POT foi desenvolvido . . . 2

2.1 O formato gen´erico: problema de estima¸c˜ao de cauda de uma distribui¸c˜ao probabil´ıstica com base na sua amostra . 2 2.2 Um caso particular mas muito freq¨uˆente: o problema da estima¸c˜ao de risco . . . 3

2.3 Sobre as particularidades do problema que exigem elabora¸c˜ao de m´etodos espec´ıficos para sua solu¸c˜ao . . . 7

3 O que ´e m´etodo POT, o que pretendemos expor sobre ele e porque . . . 14

4 O primeiro pilar do embasamento te´orico do m´etodo POT: a fam´ılia de distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas . . . 17

4.1 Distribui¸c˜oes padr˜ao de Pareto generalizadas . . . 17

4.2 Distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas (GPD’s) . . . 23

4.3 Caudas finitas e infinitas e sua rela¸c˜ao com a exposi¸c˜ao . . . 26

4.4 Influˆencia dos parˆamteros de uma GPD no seu formato e suas consequˆencias na estima¸c˜ao de risco por GPD’s . . . 33

5 O segundo pilar do embasamento te´orico do m´etodo POT: a Teoria de Valores Extremos . . . 40

5.1 Um exemplo motivador: o problema de reserva renov´avel . . . . 40

5.2 O problema da distribui¸c˜ao assint´otica de extremos . . . 43

5.3 Mais exemplos . . . 49

5.4 A solu¸c˜ao do problema de distribui¸c˜ao assint´otica de extremos. . . 56

5.5 Uso da Teoria de Valores Extremos para solu¸c˜ao do prob- lema de reserva renov´avel formulado na Sub-se¸c˜ao 5.1 . . . 65

(3)

6 A id´eia do m´etodo POT . . . 68

6.1 Preliminares . . . 68

6.2 Resultado de Pickands . . . 69

6.3 Como o Resultado de Pickands implica a id´eia do m´etodo POT . . . 70

6.4 Coment´arios . . . 75

6.5 Sobre a rela¸c˜ao entre GPD’s e as Distribui¸c˜oes de Valores Extremos (EVD’s) . . . 80

7 Procedimentos estat´ısticos empregados para execu¸c˜ao da id´eia do m´etodo POT. . . 85

7.1 Uma estrat´egia de execu¸c˜ao . . . 85

7.2 O primeiro passo da estrat´egia: como encontrar o valor ´otimo do limiar . . . 87

7.3 A segunda parte da estrat´egia: como construir a GPD a qual se aderem os excessos acima do limiar ´otimo . . . 96

7.4 A ´ultima parte da estrat´egia: da GPD que aproxima os excessos `a fun¸c˜ao que aproxima a cauda . . . 99

7.5 Coment´arios . . . 100

7.6 Justificativas at´e agora n˜ao fornecidas . . . 103

8 Exemplo de aplica¸c˜ao do m´etodo POT . . . 109

8.1 Aplica¸c˜ao do m´etodo POT para amostras geradas das fun¸c˜oes cujas caudas s˜ao do tipo de Pareto . . . 109

8.2 Aplica¸c˜ao do m´etodo POT para amostra gerada da fun¸c˜ao cuja cauda ´e mais fina que a exponencial . . . 129

8.3 Aplica¸c˜ao do m´etodo POT a uma amostra de dados reais . 142 9 Coment´arios finais gerais . . . 155

10 Exerc´ıcios . . . 160

11 Apˆendice . . . 172

12 Bibliografia. . . 176

(4)

1 Introdu¸ c˜ ao

O m´etodo denominado Peaks Over Threshold (abreviado por POT em todo o texto) ´e um m´etodo estat´ıstico que surgiu na ´area de hidrologia nos anos

’80, e que hoje se constitui em uma das principais ferramentas estat´ısticas em- pregadas na estimativa da probabilidade de eventos raros e, em particular, na estimativa de risco de mercado, risco de cr´edito e risco operacional. No futuro sua importˆancia promete ser ainda maior, dado seu potencial de servir, junta- mente com o m´etodo de c´opulas, para a realiza¸c˜ao de an´alises de integra¸c˜ao de riscos.

O presente trabalho procura apresentar o m´etodo POT em um n´ıvel que seja compreens´ıvel aos leitores graduados em ciˆencias exatas. Devido a isso o trabalho ´e repleto de exemplos destinados `a ilustra¸c˜ao de fenˆomenos rela- cionados com o m´etodo. H´a tamb´em uma aten¸c˜ao especial em desvendar erros e equ´ıvocos comuns na aplica¸c˜ao e nos coment´arios a respeito do m´etodo POT, que apareceram desde o choque de populariza¸c˜ao do m´etodo ocorrido em meados dos anos 90 (Ebrechts, Kl´uppelberg, Mikosch (1997), Thomas e Reiss (1998), Coles (2001), sem falar nos in´umeros congressos sobre o tema e da avalanche de artigos de divulga¸c˜ao).

O conte´udo, o teor e a forma do nosso trabalho fazem dele uma ponte entre os textos rigorosamente matem´aticos e os usu´arios que pretendem aplicar o m´etodo POT mas que n˜ao necessitam, pelo menos de in´ıcio, de uma justifi- cariva rigorosa de suas bases matem´aticas.

A apresenta¸c˜ao ´e acompanhada por uma s´erie de programas computa- cionais (nas linguagens scilab e R) que criamos para gerar alguns exemp- los. Tais programas podem ser usados para resolver problemas pr´aticos, como tamb´em podem ser ´uteis aqueles leitores que gostam de “sentir” a pr´atica da teoria que estudam.

Poss´ıveis futuros melhoramentos deste texto estar˜ao dispon´ıveis noweb-site do primeiro autor. Entre emhttp://www.ime.usp.br/˜belitsky/, prossiga

`a “Publication List” e encontre o t´ıtulo do presente texto. Neste ´ıtem estar˜ao o texto e suas vers˜oes posteriores.

(5)

2 O problema para o qual o m´ etodo POT foi desen- volvido

Repetindo o que j´a foi dito na Introdu¸c˜ao, o presente trabalho descreve e analisa um m´etodo espec´ıfico – denominado peaks over threshold, abreviado por POT – que foi desenvolvido para a solu¸c˜ao de um problema espec´ıfico.

A presente se¸c˜ao deste trabalho destina-se `a formula¸c˜ao deste problema. Na Sub-se¸c˜ao 2.1 essa formula¸c˜ao ´e feita no formato mais gen´erico poss´ıvel, for- mato em que o problema ´e chamado de problema de estima¸c˜ao da cauda de uma ditribui¸c˜ao probabil´ıstica com base na sua amostra, ou, abreviadamente, problema de estima¸c˜ao da cauda. Acontece por´em, que a generalidade deste formato dificulta a exposi¸c˜ao da motiva¸c˜ao da constru¸c˜ao de certas partes do m´etodo POT. Por isto nossa exposi¸c˜ao ser´a freq¨uentemente focada em um caso particular do problema de estima¸c˜ao da cauda chamadoproblema de estima¸c˜ao de risco. Ele est´a formulado na Sub-se¸c˜ao 2.2, e nossa escolha por este caso particular foi incentivada, em grande parte, pela sua abundante referˆencia na

´area de economia e finan¸cas. Por fim, na ´ultima sub-se¸c˜ao da presente se¸c˜ao, destacaremos as propriedades do problema de estima¸c˜ao da cauda que exigem m´etodos espec´ıficos para sua solu¸c˜ao. Isto servir´a de ponte para a pr´oxima se¸c˜ao, onde come¸caremos a apresentar o m´etodo POT.

2.1 O formato gen´erico: o problema de estima¸c˜ao da cauda de uma ditribui¸c˜ao probabil´ıstica com base na sua amostra Abaixo em(P1)formularemos o que se chamaproblema de estima¸c˜ao da cauda de uma ditribui¸c˜ao probabil´ıstica com base na sua amostra, ou, sucintamente, problema de estima¸c˜ao da cauda. ´E este o problema para o qual foi constru´ıdo o m´etodo POT. Concordamos que a formula¸c˜ao em(P1)pode parecer abstrata demais, contudo explicaremos melhor estes aspectos abstratos na pr´oxima sub- se¸c˜ao, onde eles ser˜ao concretizados.

(P1) A partir de uma amostra aleat´oria x1, . . . , xn de uma desconhecida fun¸c˜ao de distribui¸c˜aoF(·), reconstruir aproximadamente a cauda desta distribui¸c˜ao `a direita da abcissau, sendo que a escolha do valor deuest´a delegada a quem resolve o problema. As exigˆencias gen´ericas na escolha deste valor s˜ao: que ele permita boa precis˜ao na aproxima¸c˜ao e que seja adequado para a aplica¸c˜ao desta aproxima¸c˜ao.

(6)

u F¯¹(p) F(u)

p

Figura 1: Esta figura ilustra o termo “cauda de fun¸c˜ao de distribui¸c˜aoF(·) `a direita deu”, que ´e a parte do gr´afico deF(·) `a direita do ponto (u, F(u)). A figura tamb´em ajuda a entender porque a quest˜ao colocada no ´ıtem (D) da situa¸c˜ao (A)-(D) descrita na Sub-se¸c˜ao 2.2, ´e um caso paricular do probelam de estima¸c˜ao de cauda. Por ´ultimo, a figura ajuda interpretar o valor F1(p) como uma medida de risco no ˆambito da situa¸c˜ao (A)-(D): quando F1(p) ´e positivo, ent˜ao a regi˜ao hachurada `a direita de F1(p) corresponde aos valores negativos do retorno maiores por m´odulo queF1(p).

Lembramos que o termocauda de F(·) `a direita deu corresponde a parte do gr´afico da fun¸c˜aoF(·) onde as abcissas s˜ao maiores que u (veja Figura 1).

Notamos que o intuito da exigˆencia “ser adequado para aplica¸c˜ao” ser´a esclarecido no exemplo da Sub-se¸c˜ao 2.2.

2.2 Um caso particular mas muito freq¨uente: o problema da estimat¸c˜ao de risco

Em (A)-(D) abaixo formularemos a situa¸c˜ao a qual nos referiremos no decorrer do nosso trabalho pelo nomeproblema da estima¸c˜ao de risco. Logo em seguida justificaremos o nome dado a esta situa¸c˜ao, explicaremos porque ela ´e um

(7)

caso particular do problema de estima¸c˜ao da cauda, e tamb´em as raz˜oes de focarmos freq¨uentemente neste caso particular ao apresentar o funcionamento do m´etodo POT.

(A) H´a um investimento (como, por exemplo, uma a¸c˜ao de uma empresa) cujos retornos di´arios podem ser vistos como vari´aveis aleat´orias inde- pendentes e identicamente distribuidas. Para facilitar a exposi¸c˜ao, des- ignaremos simbolicamente por F(·) a fun¸c˜ao da distribui¸c˜ao do retorno di´ario com sinal menos em qualquer dia; em outras palavras,F(·) designa a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao da vari´avel aleat´oria

retorno di´ario com sinal menos =

=−log o valor do investimento num dia o valor do investimento no dia anterior, o que significa que

F(x) =IP(retorno di´ario com sinal menos≤x), ∀x∈R. Dois coment´arios s˜ao imediatamente necess´arios para que o presente ´ıtem seja corretamente compreendido.

Coment´ario 1. Em primeiro lugar esclarecemos que o pressuposto de independˆencia dos retornos di´arios n˜ao se verifica na pr´atica, mas ´e comumente admitido em estudos – e, em particular, no nosso, – pois sempre permite facilitar as contas e muito freq¨uentemente fornece resultados pr´oximos aos que seriam derivados caso a verdadeira dependˆencia fosse conhecida e levada em conta.

Coment´ario 2. O segundo esclarecimento ´e sobre a raz˜ao de consid- erarmos retornos com sinal negativo. Acontece que no problema de estima¸c˜ao do risco de um investimento nos interessaremos pela es- tima¸c˜ao de grandes perdas do investimento, isto ´e, pela distribui¸c˜ao dos valores negativos, grandes em m´odulo, do retorno deste inves- timento. Portanto, se F(·) ´e a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao do retorno, ent˜ao estudaremos a forma da sua cauda esquerda. Contudo o m´etodo POT, cuja abordagem para solu¸c˜ao do problema queremos exibir, foi formalizado para estudar caudas direitas de distribui¸c˜oes.

Para conciliar o problema em quest˜ao com o formalismo matem´atico do m´etodo que fornece sua solu¸c˜ao, consideraremos a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao do retorno di´ario com sinal negativo: desta maneira a

(8)

cauda direita deF(·) coresponde aos retornos negativos grandes em m´odulo.

(B) Um investidor conhece os fatos descritos em (A) (isto ´e, conhece que os retornos di´arios s˜ao independentes e identicamente distribu´ıdos) mas desconhece a forma da fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao F(·).

(C) O investidor possui os valores de retornos di´arios observados dias ante- riores. Para facilitar nossa exposi¸c˜ao designaremos simbolicamente por n o n´umero de dias monitorados e por x1, . . . , xn as observa¸c˜oes dos retornos com sinal negativo observados nestes dias.

(D) O investidor deseja estimar os valores deF−1(p) para valores depperten- centes a um intervalo pr´oximo a 1. Digamos, para um exemplo concreto, que este intervalo seja [0,9; 0,995].

A primeira coisa que gostar´ıamos que o leitor fixasse em sua mente sobre a situa¸c˜ao (A)-(D), ´e que o problema formulado nela ´e um caso particular do problema de estima¸c˜ao da cauda. Este fato segue diretamente da observa¸c˜ao de que o ponto (F−1(p), p),p∈[0,9; 0,995], cujas posi¸c˜oes ´e preciso encontrar para responder a pergunta colocada no ´ıtem (D), faz parte da cauda deF(·) `a direita de 0,9 (veja Figura 1). Apesar da situa¸c˜ao (A)-(D) apresentar um caso particular do problema de estima¸c˜ao da cauda, certos argumentos relacionados ao m´etodo POT ser˜ao exibidos como se o m´etodo fosse aplicado para resolver o problema desta situa¸c˜ao. As desvantagens deste desvio de aten¸c˜ao do caso gen´erico – que ´e o problema da estima¸c˜ao da cauda – para caso particular – que

´e o problema formulado na situa¸c˜ao (A)-(D) – s˜ao m´ınimas, e compensadas, de sobra, por vantagens. As trˆes principais vantagens est˜ao descritas abaixo.

A primeira vantagem ´e que na situa¸c˜ao (A)-(D) o problema est´a formulado em termos palp´aveis como “investimento”, “retorno”, etc., o que facilita a compreens˜aop.

A segunda vantagem vem do fato de que a estima¸c˜ao da cauda tˆem ob- jetivo bem especificado no ˆambito da situa¸c˜ao (A)-(D). Recordamos que este objetivo ´e o de encontrar as abcissas x tais que F(x) = p para valores es- pec´ıficos de p.1 Isto permite analisar a eficiˆencia do m´etodo POT e exibir

1O leitor pode perguntar:“ que outro objetivo poderia ser”? Tais existem. Por exemplo, o objetivo poderia ser a estima¸c˜ao da esperan¸ca matem´atica de excessos acima do limiaru.

Esta esperan¸ca ´e conhecida como “conditional value at risk”. Ela ´e usada para estimar riscos, por´em, n˜ao ser´a discutida no nosso trabalho. Se o objetivo fosse este, ent˜ao a importˆancia

(9)

suas vantagens perante outros m´etodos que venham a ser usados para resolver o problema. Esta vantagem foi aproveitada na Sub-se¸c˜ao 2.3, que mostra os aspectos nos quais o m´etodo POT funcionaria melhor que dois outros m´etodos de abordagem do problema de estima¸c˜ao da cauda. Podemos agora mesmo aproveitar esta vantagem para esclarecer o intuito da exigˆencia: “adequa¸c˜ao da escolha do limiaru`a aplica¸c˜ao”, formulado em(P1). No ˆambito da situa¸c˜ao (A)-(D) esta “adequa¸c˜ao” significa que deve ser tomado cuidado para que u seja menor queF−1(0,9), uma vez que a quest˜ao (D) inquire sobre valores de F−1(p) parap maiores que 0,9.

Por ´ultimo, a terceira vantagem est´a no fato de que a situa¸c˜ao (A)-(D) surge freq¨uentemente na pr´atica e possui aplica¸c˜oes importantes. Isto ocorre porque quandoF(·) ´e a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao do retorno com sinal “−” de um investimento, como discutido em (A)-(D), os valores de F−1(p) para p pr´oximos ao 1 servem para medir o risco do investimento. Na verdade estes valores s˜ao perfeitos para comparar dois investmentos do ponto de vista de o quanto um ´e mais arriscado que outro. Ou, em outras palavras, h´a um argumento rigoroso que justifica que F−1(·) ´e uma boa medida relativa do risco. Nos ´ultimos anos, ela est´a sendo usada tamb´em como uma medida absoluta de risco. Por exemplo, os recentes acordos da Basil´eia obrigam os bancos a usar F−1(p), para p entre 0,9 e 0,995, no c´alculo de suas reservas financeiras, o que evitaria a falˆencia no decorrer de eventos de perdas raras mas muito severas. Neste caso ali´as, F(·) corresponderia `a distribui¸c˜ao de perdas, e n˜ao `a de retornos, como no caso da situa¸c˜ao (A)-(D), mas isto n˜ao altera essencialmente a aplica¸c˜ao do m´etodo POT para a situa¸c˜ao do c´alculo de reservas financeiras comparada com a aplica¸c˜ao deste m´etodo para a situa¸c˜ao (A)-(D).

Falta ent˜ao s´o explicarmos como e porquˆe na situa¸c˜ao (A)-(D) o risco do investimento pode ser expresso porF−1(p). Para tal, observe primeiramente que devido ao postulado (A) da situa¸c˜ao (A)-(D),F−1(p) ´e o limiar acima do qual o valor do retorno di´ario com sinal “−” n˜ao ultrapassar´a com confian¸ca p(a palavra “confian¸ca” ´e sinˆonimo de “probabilidade” e ´e muito popular na lingua coloquial, motivo de ser usada aqui). A Figura 1 ilustra esta afirma¸c˜ao com uma clareza que dispensa maiores explica¸c˜oes. Observe tamb´em, que devido a defini¸c˜ao de retorno, temos que um investimento de, digamos R$100,

deveria ser dada `a precis˜ao da estimativa da esperan¸ca como um todo, e n˜ao `a precis˜ao da estimativa de cada ponto espec´ıfico da cauda deF(·).

(10)

ser´a igual a R$100e−x no dia seguinte2 caso o valor do retorno com sinal “−” neste dia seja x. Quando x est´a pr´oximo de 0 – o que occore quase sempre para investimentos financeiros de horizonte de um dia – podemos aproximar e−x por 1−x. Com isto a express˜ao do valor do investimento no dia seguinte torna-se R$100(1−x). Finalmente, observe que no caso deF−1(p) ser positivo, os valores acima deF−1(p) correspondem aos valores negativos do retorno, ou seja, `as perdas. Juntando ent˜ao as trˆes observa¸c˜oes do presente par´agrafo com o pressuposto de que F−1(p) ´e positivo para p ≥ 0.9, chegamos `a seguinte interpreta¸c˜ao para F−1(p) no ˆambito da situa¸c˜ao (A)-(D): “com confian¸ca p o investimento n˜ao perder´a num dia mais que 100·F−1(p)% do seu valor”. ´E

´obvio que a mesma frase pode ser formulada da seguinte forma: “o risco do investimento perder mais que 100·F−1(p)% do seu valordurante um dia ´e de 1−p”. E isto, por fim, revela o significado de F−1(p) em termos de risco de investimento, como descrito em (A)-(D).

Fecharemos esta sub-se¸c˜ao com o lembrete de que a situa¸c˜ao (A)-(D) ser´a oproblema da estima¸c˜ao do riscono decorrer do nosso trabalho.

2.3 Sobre as particularidades do problema que exigem elab- ora¸c˜ao de m´etodos espec´ıficos para sua solu¸c˜ao

Como tinhamos afirmando diversas vezes at´e agora, o m´etodo POT ´e uma abordagem espec´ıfica elaborada para resolver o problema de estima¸c˜ao da cauda. Na presente sub-se¸c˜ao indicaremos ao leitor quais s˜ao as particulari- dades do problema que demandam por uma abordagem abordagem espec´ıfica.

Para isto, faremos o seguinte: tomaremos um caso particular da fun¸c˜ao F(·), geraremos dela uma amostrax1, . . . , xn, e estimaremos a cauda deF(·) a par- tir desta amostra. A estimativa ser´a realizada por dois m´etodos. Estes s˜ao simples e funcionam bem em muitas situa¸c˜oes reais. Provavelmente por isso seriam os primeiros candidados naturais empregados na abordagem do prob- lema de estima¸c˜ao da cauda. Mostraremos as deficiˆencias das solu¸c˜oes obtidas por estes m´etodos e revelaremos as raz˜oes. Isto indicar´a aos leitores as partic- ularidades intr´ınsicas do problema de estima¸c˜ao da cauda que dificultam sua solu¸c˜ao.

Designaremos por K(·) a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao constru´ıda da seguinte maneira:

2Assumimos aqui que taxa de juros livre de risco ´e 0.

(11)

1.28 0.91

(a)

0 1

(b)

0 1

(c)

1.28 0.91

(d)

Figura 2: A fun¸c˜ao de distribui¸c˜aoK(·) e a ilustra¸c˜ao de sua constru¸c˜ao. O proced- imento que gera esta fun¸c˜ao est´a apresentado no come¸co da Sub-se¸c˜ao 2.3.

(1) Tomamos a fun¸c˜ao da distribui¸c˜ao Normal Padr˜ao e descartamos a parte do seu gr´afico que fica `a direita do ponto (1.28,0.9) (veja Figura 2(a)).

(2) Tomamos a fun¸c˜ao da forma (veja Figura 2(b))

G(x) = 1−(1 +x)−1, definida para x≥0, (1) multiplicamos esta por 0.1 (Figura 2(c)), e substitu´ımos a parte descar- tada da distribui¸c˜ao normal (Figura 2(d)).

Tomemos agora esta fun¸c˜ao de distribui¸c˜aoK(·) para a constru¸c˜ao de uma amostra aleat´oria de tamanho n = 200. Denotaremos os valores da amostra

(12)

simbolicamente por x1, . . . , xn; os verdadeiros valores s˜ao apresentados pela fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao amostral, constru´ıda com base neles, que est´a na Figu- ra 3(a).

Vamos agora resolver o problema da estima¸c˜ao do risco (isto ´e, o problema descrito em (A)-(D) da sub-se¸c˜ao anterior) para a amostra gerada. Claro que durante a solu¸c˜ao n˜ao levaremos em conta a verdadeira K(·). Mas depois de ter obtido a solu¸c˜ao voltaremos `a express˜ao deK(·) e analisaremos a precis˜ao da solu¸c˜ao obtida.

Recorde que o problema da estima¸c˜ao do risco ´e o de estimar K−1(p) para valores depno intervalo [0,9; 0,995]. Nossa primeira solu¸c˜ao tenta ent˜ao estimar os valores desconhecidos deK−1(p) por ˆK−1(p), onde ˆK(·) ´e a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao amostral constru´ıda com base na amostrax1, . . . , x200(a fun¸c˜ao K(ˆ ·) est´a nos dois desenhos em cima da Figura 3). Vejamos a qualidade da nossa resposta para, por exemplo, p = 0.95. Para tal, ´e precisa lembrar o fato3 de que, j´a que o tamanho de nossa amostra ´e 200, ent˜ao ˆK(·) faz um salto de altura 2001 em cada ponto da amostra. Portanto, ˆK(·) alcan¸ca a altura 0.95 no 190-´esimo ponto da amostra, contando do menor para o maior.

Tamb´em, ˆK(·) possui “patamar” de altura 0,95 entre este ponto e o pr´oximo.

No caso da nossa amostra, o 190-´esimo valor ´e 3.87 enquanto que o 191-o valor ´e 7.8. Isto significa que ˆK−1(0.95) pode ser entendido como qualquer valor entre 3.87 e 7.8, ou, em outras palavras, se formos nos basear na ˆK−1(·) para estimar K−1(·), ent˜ao s´o poderemos alegar que este valor pertence ao intervalo [3.87,7.8]. Esta precis˜ao ´e ruim para aplica¸c˜oes pr´aticas (sobre as quais n˜ao versaremos aqui). Note tamb´em que o comprimento do intervalo de estima¸c˜ao de ˆK−1(p) cresce com o aumento de p, pois quanto mais pr´oximos os pontos da amostra estiverem do valor m´aximo da amostra, mas afastados entre si estes valores ser˜ao. Em outras palavras, a precis˜ao de estimativa de K−1(p) por ˆK−1(p) piora conformep se aproxima ao 1.

A discuss˜ao apresentada no par´agrafo acima exemplifica as limita¸c˜oes da fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao amostral na estimativa da cauda de uma desconhecida fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao a partir de sua amostra. A inadequa¸c˜ao vem, como mostrado, da perda de precis˜ao. Esta por sua vez, ´e conseq¨uˆencia da seguinte propriedade, t´ıpica para o problema de estima¸c˜ao da cauda:

3Todos os fatos, usados nos argumentos deste par´agrafo, decorrem das propriedades de fun¸c˜oes de distribui¸c˜ao amostral.

(13)

0 0

0 a b 10

0.95

?

3.3 0.95

Figura 3: Os dois desenhos acima exibem ˆK(·), a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao amostral constru´ıda com base nos 200 pontos retirados da fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao K(·). A fun¸c˜ao ˆK(·) ´e exibida at´e o 192-o ponto da amostra. Os dois desenhos abaixo exp˜oem o 0.95-quantil deK(·) (o desenho `a direita), e a estima¸c˜ao deste quantil com uso de K(ˆ ·). O desenho `a esquerda mostra que o 0.95-quantil pode ser qualquer abcissa do patamar de ˆK(·) na altura 0.95. Este patamar encontra-se entre o 190-´esimo e o 191-o ponto da amostra, cujos valores, no caso amostra gerada, s˜aoa= 3.87 eb= 7.8.

(14)

Propriedade 1: Se F(·) for uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao, cuja cauda direita nunca toca o n´ıvel 1, e se x1, . . . , xn for uma amostra retirada desta fun¸c˜ao onde x(1), . . . , x(n) designa essa mesma amostra ordenada – do menor para maior – , ent˜ao tipicamente a distˆancia entre x(k) e x(k−1) aumenta conforme k aproxima-se an.

A segunda solu¸c˜ao do problema formulado acima (isto ´e, do problema da estima¸c˜ao do risco com a amostra x1, . . . , x200 gerada da fun¸c˜ao K(·)), que pretendemos apresentar e analisar, ´e conseq¨uˆencia da seguinte abordagem:

entre todas as fun¸c˜oes de distribui¸c˜ao normal, encontre aquela que melhor adere `a amostrax1, . . . , x200, e use sua cauda como aproxima¸c˜ao da cauda de K(·). Os crit´erios de aderˆencia s˜ao v´arios. Usaremos um dos mais simples.

Segundo este, entre as fun¸c˜oes de distribui¸c˜ao normal a que melhor se adere a uma dada amostra ´e aquela cuja m´edia e desvio padr˜ao coincidem com a m´edia e o desvio padr˜ao da amostra. Os valores destas para a amostra do problema aboradado s˜aoµ= 0.7 e σ = 5.69. Designaremos por Φ0.7,5.69(·) a correspondente fun¸c˜ao da distribui¸c˜ao normal. Ela est´a desenhada na Figura 4.

Conforme nossa programa¸c˜ao, devemos tomar Φ−10.7,5.69(p) como a estimativa deK−1(p) para os valores depdo problema da estima¸c˜ao do risco. A Figura 4 mostra uma grande discrepˆancia entre os valores verdadeiros e suas estimativas quando p est´a no intervalo [0,9; 0,995]. ´E f´acil entender o quˆe nos enganou.

Acontece que a maioria dos pontos da amostra veio da parte ”normal” de K(·) e nos fez acreditar que toda a fun¸c˜ao K(·) fosse muito parecida com a distribui¸c˜ao normal.4 Por´em, os poucos pontos da amostra que originaram da cauda direita de K(·) s˜ao t´ıpicos para cauda de uma distribui¸c˜ao que ´e diferente da cauda da distribui¸c˜ao normal. Estes pontos contribuiram para a variˆancia amostral ter um valor relativamente grande comparado com a contribui¸c˜ao que haveria caso os pontos viessem da cauda normal. Tudo isso resultou na constru¸c˜ao de uma fun¸c˜ao-aproximador que n˜ao se ajustou bem ao miolo da distribui¸c˜aoK(·) (a parte de K(·) `a esquerda do ponto de solda 0.9), nem a sua cauda (a parte de K(·) `a direita de 0.9). Apresentaremos a raz˜ao deste “fracasso” de forma gen´erica, para que possamos nos referir a esta no futuro:

4O teste estat´ıstico, que poderia ser utilizado aqui para a identifica¸c˜ao da “normalidade”

deK(·) a partir da sua amostra, n˜ao ser´a discutido.

(15)

0 10 1

0 10

1

Figura 4: O desenho `a esquerda apresenta a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao amostral ˆk(·) constru´ıda com base em amsotra de 200 valores retirada da fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao K(·). Recorde que K(·) coincide com uma distribui¸c˜ao normal at´e o ponto 1.28.

Esta fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao normal esta apresentada junto com ˆK(·). No desenho

`

a direita, desenhamos ˆK(·) e a fun¸c˜ao da distribui¸c˜ao normal cuja m´edia e devio padr˜ao coincidem com a m´edia e o desvio padr˜ao de ˆK(·). O desenho mostra que esta distribui¸c˜ao normal e a fun¸c˜ao ˆK(·) s˜ao bastante distintas. Em particular, a discrepˆancia ´e grande tamb´em na cauda direita, o que ilustra o fato que a constru¸c˜ao de aproximador de cauda n˜ao pode contar com todos os pontos de amostra.

(16)

Propriedade 2: A cauda de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao F(·) `a direita de uma absissaupode ser parecida com parte de uma fun¸c˜ao, que nada tem a ver com as outras partes de F(·). Por´em, o valor de u pode ser t˜ao grande que haver´a pouqu´ıssimos pontos da amostra de F(·) que “vieram” de sua cauda `a direita de u. Conclui-se ent˜ao que outros pontos da amostra n˜ao poderiam ter uma forte influˆencia na inferˆencia sobre a forma desta cauda.

(17)

3 O que ´ e m´ etodo POT, o que pretendemos expor sobre ele e porque

Foi ressaltado em outras passagens que o m´etodo chamado POT – recorde:

“POT” ´e a abrevia¸c˜ao de ”Peaks Over Threshold--, o objeto de nossa ex- posi¸c˜ao, ´e uma abordagem espec´ıfica ao problema da estima¸c˜ao de cauda. Este problema foi formulado em(P1)na se¸c˜ao anterior, que tamb´em encarregou-se de explicar as dificudades intr´ınsecas ao problema que exigem a aplica¸c˜ao de m´etodos espec´ıficos para sua solu¸c˜ao. O m´etodo POT ´e um deles.

As pr´oximas se¸c˜oes apresentam e analisam o m´etodo. Infelizmente n˜ao foi poss´ıvel encontrarmos uma maneira sucinta e eficaz de constru¸c˜ao e jus- tifica¸c˜ao do m´etodo POT. (Talvez a inexistˆencia de tal caminho seja a raz˜ao principal da imensidade de equ´ıvocos nas suas aplicaco¸c˜oes). Em particular no nosso trabalho h´a constru¸c˜oes matem´aticas complicadas, que fomos obrigados a apresentar para falarmos do m´etodo em si. Para que o leitor n˜ao se perca nos argumentos descritos nas pr´oximas se¸c˜oes, decidimos antecip´a-los por uma apresenta¸c˜ao sucinta do m´etodo POT e da estrutura dos nossos futuros argu- mentos que justificam-o detalhadamente. Esta apresenta¸c˜ao ´e o conte´udo da presente se¸c˜ao.

Com o termo “m´etodo POT” estaremos nos referindo ao procedimento que executa as duas tarefas descritas abaixo, onde a ´unica informa¸c˜ao dispon´ıvel na execu¸c˜ao das tarefas ´e a amostrax1, . . . , xn, que proveio de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao F(·) desconhecida.

(a) Escolher um valoruopt, denominado limiar ´otimo, `a direita do qual ser´a es- timada a cauda da desconhecida fun¸c˜aoF(·). A escolha deuopt´e guiada por algumas propriedades deF(·) “extra´ıdas” com base em sua amostra, e tamb´em por considera¸c˜oes a respeito da eficiˆencia dos m´etodos es- tat´ısticos empregados no passo (b).

(b) Construir uma aproxima¸c˜ao para a cauda deF(·) `a direita deuopt, usando uma das seguintes fun¸c˜oes:

para todos α >0, 1− 1

(1 +x)α, definida no semi-eixo x≥0, (2) 1−e−x, definida no semi-eixo x≥0, (3) para todos γ >0, 1−(1−x)γ, definida no intervalo x∈[0,1].(4) Na constru¸c˜ao do aproximador ´e permitido esticar/esprimir a fun¸c˜ao

(18)

escolhida nas dire¸c˜oes vertical e horizontal, e desloc´a-la por qualquer vetor no plano euclidiano R2.

Note que o procedimento (a)-(b) foi modelado para lidar com as dificul- dades intr´ınsicas ao problema da estima¸c˜ao de cauda. De fato, no passo (a), o m´etodo preocupa-se com a identifica¸c˜ao do come¸co da cauda, e no passo (b), ele leva o problema de estima¸c˜ao ao campo de estat´ıstica param´etrica, uma vez que para execut´a-lo ´e preciso estimar os valores num´ericos dos parˆametros:

α ou γ, que indica qual das fun¸c˜oes da fam´ılia (2-3-4) ser´a usada (concor- damos que α= 0 ou γ= 0 aponta para a fun¸c˜ao (3));

as constantes de reescala ao longo dos eixos vertical e horizontal;

as coordenadas do vetor de deslocamento.

Aquele leitor que n˜ao se preocupar com a justificativa do porquˆe o pro- cedimento resulta em uma fun¸c˜ao-estimador de cauda, pode acompanhar a Se¸c˜ao 7, que apresenta uma das poss´ıveis estrat´egias de execu¸c˜ao de (a)-(b), e a Se¸c˜ao 8, que apresenta exemplos da aplica¸c˜ao desta estrat´egia.

Por´em, nosso texto se preocupa tamb´em com aqueles leitores que gostariam de entender

(i) porque o procedimento (a)-(b) ´e capaz de construir bom aproximador para cauda de uma fun¸c˜ao F(·) a partir de sua amostra;

(ii) se o procedimento pode ser aplicado a qualquerF(·).

Estas quest˜oes tˆem sua raz˜ao de existir – da´ı nossa preocupa¸c˜ao –, pois os aproximadores tˆem como base um conjunto de fun¸c˜oes muito simples: s˜ao ramos horizontais de hip´erboles (as fun¸c˜oes (2)), a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao ex- ponencial (a fun¸c˜ao (3)), e os ramos de par´abolas (as fun¸c˜oes (4)).

A justificativa do porquˆe as fun¸c˜oes (2-3-4) s˜ao capazes de gerar aproxi- madores de caudas ´e o que denominaremos por id´eia do m´etodo POT, e que ser´a apresentada na Se¸c˜ao 6. A id´eia decorre de um resultado provado por Pickands ([6]), que revela a rela¸c˜ao entre duas fam´ılias de fun¸c˜oes de dis- tribui¸c˜ao: a chamadaDistribui¸c˜oes de Valores Extremos e a chamada deDis- tribui¸c˜oes de Pareto generalizadas. O Teorema de Pickands esclarece que aque- las fun¸c˜oes de distribui¸c˜ao, cujas caudas podem ser satisfatoriamente aproxi- madas pelas distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas, s˜ao precisamente as fun¸c˜oes

(19)

que se encontram nos dom´ınios de atra¸c˜ao das Distribui¸c˜oes de Valores Ex- tremos. Este teorema soluciona ent˜ao as duas d´uvidas principais que surgiram acima:

(i) o teorema justifica o procedimento (a)-(b), pois as fun¸c˜oes (2-3-4), que figuram nele, s˜ao as fun¸c˜oes-geradoras das distribui¸c˜oes de Pareto gen- eralizadas;5

(2) o teorema carateriza as fun¸c˜oes cujas caudas podem ser aproximadas pelo m´etodo POT.

Dada a importˆancia do Teorems de Pickands, optamos por apresent´a-lo, por´em, sem a demostra¸c˜ao. Para tal, precis´avamos introduzir as distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas a apresentar o conceito de dom´ınio de atra¸c˜ao de uma distribui¸c˜ao de valores extremos. A primeira destas tarefas ser´a realizada na Se¸c˜ao 4, e a segunda na Se¸c˜ao 5. Notamos que a Se¸c˜ao 5 ´e uma sus- cinta exposi¸c˜ao da Teoria de Valores extremos, pois a explica¸c˜ao do conceito de dom´ınio de atra¸c˜ao de uma distribui¸c˜ao de valores extremos requer a in- trodu¸c˜ao de muitos outros conceitos e resultados b´asicos desta teoria. Depois das Se¸c˜oes “introdut´orias” 4 e 5 vir´a a Se¸c˜ao 6 que explicar´a a id´eia do m´etodo POT. Depois desta, voltaremos a nossa aten¸c˜ao para a execu¸c˜ao da id´eia do m´etodo, isto ´e, do procedimento (a)-(b). Esta id´eia pode ser feita de diver- sas maneiras. Uma delas, e a mais usada na atualidade, ser´a detalhadamente apresentada e discutida na Se¸c˜ao 7. O funcionamento desta abordagem em casos reais est´a exibida na Se¸c˜ao 8. A discuss˜ao sobre o m´etodo POT ser´a conclu´ıda na Se¸c˜ao 9, que ´e formada de avisos sobre “os equ´ıvocos que vocˆe poderia cometer ao explicar e/ou usar o m´etodo POT”, que n˜ao foram men- cionados e desvendados nas se¸c˜oes ateriores a esta. Depois desta se¸c˜ao, h´a se¸c˜ao de exerc´ıcios – ´util no caso em que o texto for usado como material did´atico –, depois temos ent˜ao o Apˆendice, que cont´em os programas de com- putacionais usados no tratamento de dados reais (apresentados na Se¸c˜ao 8).

Finalmente apresenta-se a se¸c˜ao com as referˆencias – onde s´o nos preocupamos com as principais, uma vez que as demais podem ser encontradas nas se¸c˜oes bibliogr´aficas das referˆencias mencionadas.

5Isso significa que cada distribui¸c˜ao de Pareto generalizada ´e igual af(x−ba ) para algum a >0,bRef do conjunto (2-3-4); esta igualdade vale somente naqueles pontos onde os valores da distribui¸c˜ao s˜ao diferentes de 0 e 1.

(20)

4 O primeiro pilar do embasamento te´ orico do m´ etodo POT: a fam´ılia de distribui¸ c˜ oes de Pareto gener- alizadas

Conforme afirmamos acima, a id´eia do m´etodo POT surge da rela¸c˜ao entre a fam´ılia de fun¸c˜oes, chamadas distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas, e as fun¸c˜oes que se encontram no dom´ınio de atra¸c˜ao das distribui¸c˜oes de valores extremos. A presente se¸c˜ao destina-se `a defini¸c˜ao das distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas.

Chama-sedistribui¸c˜ao de Pareto generalizada(GPD6 devido a seu equiva- lente em Inglˆes “Generalized Pareto Distribution”) a fun¸c˜ao que tem uma das formas (10), (11), (12) apresentadas em seguida. As fun¸c˜oes das formas (10) e (11) foram estudadas por Pareto – da´ı o termo “distribui¸c˜oes de Pareto” no nome dado a elas. J´a a forma (12) pode ser vista como uma generaliza¸c˜ao das formas (10) e (11) – da´ı o acr´escimo do termo “generalizadas”.

Antecipando a defini¸c˜ao de uma GPD, notamos que a express˜ao desta fun¸c˜ao possui trˆes parˆametros, que ser˜ao denotados por ξ, β e s. No nosso ponto de vista a influˆencia desses parˆametros no formato da GPD ´e mais simples de ser entendida quando a constru¸c˜ao das GPDs ´e realizada em duas etapas: uma na qual contr´oi-se GPDs com β = 1 e s = 0 – tais GPDs s˜ao chamadasGPDs padr˜ao; outra onde mostra-se como as GPDs padr˜ao podem ser transformadas para se obter todas as outras poss´ıveis GPDs. Este caminho foi adotado na nossa apresenta¸c˜ao. A primeira etapa ser´a realizada na Sub- se¸c˜ao 4.1 e a segunda etapa na Sub-se¸c˜ao 4.2.

4.1 Distribui¸c˜oes Padr˜ao de Pareto generalizadas

As fun¸c˜oes chamadas distribui¸c˜oes padr˜ao de Pareto generalizadas7 (abrevi- adas porGPDs padr˜aono texto) distinguem-se uma da outra pelos diferentes valores de um ´unico parˆametro, que ser´a designado porξ, e que pode assumir qualquer valor real. A GPD padr˜ao com valor ξ > 0 tem a seguinte forma (veja Figura 5):

Gξ(x) =

0, parax <0,

1−(1 +ξx)−1/ξ, parax≥0.

esta f´ormula vale quandoξ >0

(5)

6Observe que abreviaremos “distribui¸c˜ao de Pareto generalizada” por GPD, enquanto que “distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas” ser˜ao abreviadas por GPD’s.

7Standard generalized Pareto distributionsem Inglˆes.

(21)

A GPD padr˜ao com valor ξ= 0 tem a seguinte forma8 (veja Figura 5):

G0(x) =

0, parax <0, 1−e−x, parax≥0.

esta fun¸c˜ao

corresponde a ξ = 0

(6) A GPD padr˜ao com valor ξ <0 tem a seguinte forma (veja Figura 5):

Gξ(x) =



0, parax <0,

1−(1 +ξx)−1/ξ, parax∈[0,−1ξ], 1, parax >−1ξ.

 esta f´ormula vale quando ξ <0

 (7)

Quanto `as fun¸c˜oes de densidade das GPD’s padr˜ao, destacamos que elas ocupar˜ao papel secund´ario em nossas futuras exposi¸c˜oes. Apesar disso, de- cidimos destinar uma pequena parte do trabalho `as fun¸c˜oes de densidade. Na f´ormula (8) temos suas express˜oes anal´ıticas e nas Figuras 6 e 7 suas formas geom´etricas:

fξ(x) = (a fun¸c˜ao de densidade de Gξ(·)) = dGξ(x)

dx =

=



(1 +ξx)−1−1/ξ parax≥0, e 0 para outros x, quando ξ >0 e−x parax≥0, e 0 para outros x, quando ξ= 0

(1 +ξx)−1−1/ξ parax∈[0,−1/ξ], e 0 para outrosx, quando ξ <0 (8)

Coment´ario 3. Cada GPD padr˜ao ´e “parente” de uma hip´erbole, uma par´abola, ou uma fun¸c˜ao exponencial.

Casoξ >0, o gr´afico da GPD padr˜aoGξ(·) no semi-eixo [0; +∞) ´e apenas o ramo direito da hip´erbole 1/(x1/ξ) que foi refletido, deslocado e re-escalado para que a hip´erbole passasse pelo ponto (0,0) e se aproximasse do n´ıvel 1 quando x → ∞. Para aqueles interessados em entender como a reflex˜ao, o deslocamento e a re-escala s˜ao “codificados” na express˜ao deGξ(·), recomen- damos a leitura do Fato 1 da pr´oxima sub-se¸c˜ao (notamos que Exerc´ıcio 2 aborda este assunto).

8Nos coment´arios 3 e 4 h´a uma discuss˜ao detalhada a respeito desse caso especial, uma vez que aqui a express˜ao da distribui¸c˜ao,G0, n˜ao cont´em explicitamente o parˆametroξ.

(22)

0 0.5 1 2 4 1

xi=−4 xi=−2

xi=−1 xi=−1/2 xi=−1/4

xi=0 xi=1 xi=2 xi=3

Figura 5: O formato da GPD padr˜ao com diversos valores do parˆametro ξ (veja o Coment´ario 3).

(23)

0 1 2 3 4 5 0

1

xi=0

xi=1

xi=3

Figura 6: Fun¸c˜oes de densidade de GPD’s padr˜ao comξ0.

(24)

0 0.5 1 1.5 2 4 5 0

xi=−4 xi=−2

xi=−1

xi=−2/3 xi=−1/2 xi=−1/4

Figura 7: Fun¸c˜oes de densidade de GPDs padr˜ao comξ <0.

(25)

No caso ξ = 0, a correspondente GPD padr˜ao ´e exatamente a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao exponencial de parˆametro 1. Lembramos ao leitor a nomenclatura comumente usada para distribui¸c˜oes exponenciais: A fun¸c˜ao que vale 0 para x < 0, e vale 1−e−λx para x ≥ 0, denomina-se “distribui¸c˜ao exponencial de parˆametro λ”. Quando λ = 1, esta fun¸c˜ao chama-se simplesmente “dis- tribui¸c˜ao exponencial” – termo que usaremos. Apesar disso alguns autores preferem usar o nome “distribui¸c˜ao exponencial padr˜ao” quandoλ= 1.

O caso ξ <0 ´e mais “complexo” que os casos ξ >0 e ξ = 0, uma vez que a forma de Gξ(·) ´e radicalmente transformada em conseq¨uˆencia da passagem do valor deξde 0 a−∞. A Figura 5 ilustra o caso−1< ξ <0, onde a fun¸c˜ao Gξ(·) comporta-se no intervalo [0,−1/ξ] como fun¸c˜ao-potˆencia de x, isto ´e, comoxaparaa >0. Ainda neste caso,Gξ(·) aproxima-se suavemente do n´ıvel 1, o que significa que sua derivada vale 0 no ponto onde ela toca o n´ıvel 1.

Esta propriedade da derivada est´a ilustrada na Figura 7. No casoξ =−1, a correspondente GPD padr˜ao cresce linearmente entre as abcissas 0 e 1, ali a GPD padr˜ao apresenta “quebra” no ponto onde toca o n´ıvel 1 (veja Figura 5).

Finalmente, no casoξ <−1, a GPD padr˜ao se comporta como uma hip´erbole no intervalo [0;−1/ξ] (ou seja, como xa paraa < 0). Neste caso tamb´em h´a

“quebra” do gr´afico da fun¸c˜ao no ponto em que o gr´afico toca o n´ıvel 1 (veja Figura 5).

Observemos ainda que no casoξ <0 a fun¸c˜ao de densidade pode apresentar cinco padr˜oes diferentes, apresentados na Figura 7.

Coment´ario 4. Depois do Coment´ario 3 esclarecer que a GPD padr˜ao correpon- dente ao valor 0 para o parˆametroξ´e simplesmente a distribui¸c˜ao exponencial, qualquer leitor faria a seguinte pergunta: “Por que `a distribui¸c˜ao exponencial foi atribuido valor 0 para o parˆametroξ? Ora, n˜ao h´a “0” ou “ξ” na f´ormula desta fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao!” O presente coment´ario responde esta pergunta.

Acontece que foi necess´ario colocar a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao exponencial no mesmo “saco” onde ficam as fun¸c˜oes do tipo (5) e (7). A raz˜ao desta necessidade ´e o fato de tanto estas fun¸c˜oes quando a da distribui¸c˜ao expo- nencial servirem – do ponto de vista do m´etodo POT – para a aproxima¸c˜ao de caudas (este fato ser´a formalizado e discutido em detalhes na Se¸c˜ao 6).

Pela mesma raz˜ao, era desej´avel indexar todas as fun¸c˜oes deste “saco”. A indexa¸c˜ao das fun¸c˜oes do tipo (5) e (7) ´e natural: o ´ındice de qualquer uma destas fun¸c˜oes ´e seu pr´oprio valor do parˆametro ξ. Com isto o valor 0 para o parˆametroξ torna-se livre (simplesmente porque n˜ao podemos terξ= 0 na express˜ao 1−(1 +ξx)−1/ξ das f´ormulas (5) e (7)). Este valor livre foi ent˜ao

(26)

atribu´ıdo ao novo membro do “saco”, isto ´e, `a distribui¸c˜ao exponencial. Note que esta atribui¸c˜ao ´e puramente semˆantica, pois, de fato, n˜ao h´aξna f´ormula da distribui¸c˜ao exponencial. Em palavras simples, a “atribui¸c˜ao semˆantica”

se traduz no seguinte acordo: se eu lhe pedir a GPD padr˜ao correspondente, por exemplo, a ξ= 2, sua resposta ser´a: “1−(1 + 2x)−1/2”, enquanto que se eu lhe pedir a GPD padr˜ao correspondente a ξ = 0, sua resposta ser´a: “´e a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao exponencial, ou seja, 1−e−x”.

O leitor, que concordou com a l´ogica dos argumentos do par´agrafo ante- rior, pode agora argumentar: “S˜ao, na verdade, trˆes valores deξ que n˜ao s˜ao

“aproveitados” para a indexa¸c˜ao das fun¸c˜oes do tipo (5) e (7); estes s˜ao 0,∞e

−∞. Ent˜ao h´a raz˜ao para que seja 0 e n˜ao∞ou−∞o ´ındice atribu´ıdo `a dis- tribui¸c˜ao exponencial?”Sim, existe. Esta raz˜ao ´e o fato da fun¸c˜ao exponencial ser o limite das fun¸c˜oes 1−(1 +ξx)−1/ξ conforme ξ→0 (veja Exerc´ıcio 6).

4.2 Distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas

Como foi dito, o m´etodo POT constr´oi aproxima¸c˜oes para a cauda de certas distribui¸c˜oes. At´e aqui a impress˜ao ´e de que essas aproxima¸c˜oes s˜ao realizadas pelas GPDs padr˜ao, mas isso ´e incorreto. ´E da fam´ılia das distribui¸c˜oes de Pareto generalizadas (GPDs), e n˜ao da fam´ılia de GPDs padr˜ao, que o m´etodo POT realmente precisa. As GPDs ser˜ao constru´ıdas nesta sub-se¸c˜ao a partir das GPDs padr˜ao e, para que a essˆencia desta constru¸c˜ao fique bem clara, come¸caremos com dois fatos bem conhecidos.

Fato 1. Sejaf(x), x∈R, uma fun¸c˜ao arbitr´aria qualquer,decduas constantes quaisquer, sendo quec >0. Construiremos uma nova fun¸c˜ao g(·) via g(x) = f x−dc

, x∈R.

O objetivo do presente coment´ario ´e apresentar o seguinte fato: o gr´afico da fun¸c˜aog(·) pode ser obtido do gr´afico da fun¸c˜aof(·) via as duas transforma¸c˜oes (veja na Figura 8 estas transforma¸c˜oes para o caso particular quandof(x) = ex):

(1) esticarcvezes o gr´afico de f(·) ao longo do eixo x;

(2) deslocar pord unidades `a direita o gr´afico obtido no ´ıtem anterior.

Que (1)-(2) de fato transformamf(·) emg(·) pode ser justificado da seguinte maneira: Escolha um ponto (x, y) no gr´afico de f(·) e pergunte: qual deve ser xnovo para que g(xnovo) =y? Suponha, para facilitar a conta, que f(·) ´e uma fun¸c˜ao um-a-um. Ent˜ao vale que: g(xnovo) =y ⇔ f xnovoc−d

= y ⇔

(27)

x xnovo 3

3

~ ~

3

f(x)

f(x/2)

f((x−3)/2)

Figura 8: Esta figura ilustra o conte´udo do Fato 1 para o caso particular em que f(x) =exe as constantesc edvalem 2 e 3, respectivamente. O gr´afico def(x/2) ´e obtido do gr´afico def(x) esticando este 2 (duas) vezes na dire¸c˜ao horizontal. Por sua vez o gr´afico def x−23

´e obtido do gr´afico de f(x/2) pelo deslocamento horizontal de 3 (trˆes) unidades.

f xnovoc−d

= f(x) ⇔ xnovo = c·x+d. A ´ultima igualdade diz ent˜ao que xnovo ´e obtido quando x ´e multiplicado por c e acrescenta-se d ao resultado da multiplica¸c˜ao. Isto justifica que (1)-(2) transformam f(·) em g(·) (veja Figura 8).

Fato 2. Seja X uma vari´avel aleat´oria arbitr´aria. Para duas constantes ar- bitr´ariosd e c > 0, defina uma nova vari´avel aleat´oria Y =cX +d. Designe porFX(·) eFY(·) as fun¸c˜oes de distribui¸c˜ao de X e deY, respectivamente.

(28)

Segue das constru¸c˜oes e defini¸c˜oes do par´agrafo acima que FY(x) =IP[Y ≤x] =IP[cX +d≤x] =IP

X ≤ x−dc

=

=FX x−dc

, ∀x∈R. (9)

A rela¸c˜ao (9) juntamente com o Fato 1 sustenta que se a fun¸c˜ao de dis- tribui¸c˜ao de uma vari´avel aleat´oria X for transformada via os passos (1)-(2) do Fato 1, o resultado ser´a uma nova fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao. Ainda mais, se designarmos porY a vari´avel aleat´oria distribuida conforme esta nova fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao,Y e X se relacionam via Y =cX +d. Fim do Fato 2 Agora passaremos a decrever a fam´ılia dedistribui¸c˜oes de Pareto general- izadas, (abreviadas porGPD’s). Neste caso a distin¸c˜ao entre as GPD’s ´e feita por trˆes parˆametros, ξ, β e s, sendo que ξ e s podem assumir qualquer valor real eβ apenas valores reais positivos. A GPD comξ >0 tem a forma:

Gξ,β,s(x) = (

1−

1 +ξx−sβ −1/ξ

, parax≥s,

0, parax < s,

esta vale quando ξ >0

(10) enquanto que a GPD comξ= 0 ´e dada por:

G0,β,s(x) = (

1−ex−sβ , parax≥s, 0, parax < s,

esta

corresponde a ξ= 0

(11) finalmente a GPD que corresponde aξ <0:

Gξ,β,s(x) =





0, parax < s,

1−(1 +ξx−sβ )−1/ξ, parax∈[s, s−βξ],

1, parax > s−βξ,

 esta f´ormula vale quando ξ <0

 (12) A transforma¸c˜ao descrita nos passos (1)-(2) do Fato 1 deixa claro que qualquer GPD com parˆametros ξ, β e s ´e obtida da GPD padr˜ao de mesmo valor ξ, com c = β e d = s, ou, especificamente falando, o gr´afico da GPD com parˆametros ξ, β e s ´e o gr´afico da GPD padr˜ao com parˆametro ξ ap´os este ser esticadoβ vezes ao longo do eixo xe deslocado na dire¸c˜ao horizontal por s unidades. Este fato justifica os nomes atribu´ıdos aos parˆametros β e s: o parˆametro β chama-se parˆametro de escala, enquanto o parˆametro s

´e o parˆametro de deslocamento ou de loca¸c˜ao. O parˆametro ξ leva o nome

(29)

´ındice de caudaou parˆametro de forma.9 Este ´ultimo talvez n˜ao seja o nome mais adequado, pois pode insinuar que a forma da distribui¸c˜aoGξ,β,s depende somente deξ. De fato este nome tem origem na rela¸c˜ao entre as GPD’s e as distribui¸c˜oes de valores extremos, rela¸c˜ao que ser´a discutida na Sub-se¸c˜ao 6.5, onde o nomeparˆametro de formaser´a justificado.

A rela¸c˜ao entre a GPD com parˆametrosξ, β ese a GPD padr˜ao de mesmo parˆametro ξ pode ser vista, com a ajuda do conte´udo do Fato 2, em termos da rela¸c˜ao entre as vari´aveis aleat´orias correspondentes a estas distribui¸c˜oes:

considerando Y uma vari´avel aleat´oria com distribui¸c˜ao Gξ,β,s(·) e X uma vari´avel aleat´oria com distribui¸c˜aoGξ(·), ent˜aoX eY s˜ao tais queY =βX+s.

Esta rela¸c˜ao pode ser ´util a quem costuma pensar na fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao em termos da vari´avel aleat´oria que possui tal distribui¸c˜ao. A rela¸c˜ao obtida diz que se tomarmos X distribu´ıda conforme uma GPD padr˜ao com parˆametro ξ, multiplicarmos esta por β e acrescentarmos s, ent˜ao a vari´avel aleat´oria resultante ter´a distribui¸c˜ao GPD com parˆametrosξ, β es.

4.3 Caudas finitas e infinitas e sua rela¸c˜ao com a exposi¸c˜ao Na maior parte da exposi¸c˜ao a seguir, sobre o funcionamento do m´etodo POT para solu¸c˜ao do problema de estima¸c˜ao de cauda de uma distribui¸c˜ao F(·), assumiremos que a cauda da distribui¸c˜ao desconhecida, F(·), seja infinita.

Este pressuposto e suas conseq¨uˆencias ser˜ao cuidadosamente analisados na presente sub-se¸c˜ao.

O supreendente surgimento da discuss˜ao de finitude/infinitude de caudas se¸c˜ao destinada `a constru¸c˜ao de GPD’s tem duas justificativas: em primeiro lugar as GPD’s servir˜ao como exemplos ilustrativos para a explica¸c˜ao dos conceitos “cauda finita” e “cauda infinita”; em segundo lugar, esta discuss˜ao justificar´a porque as GPD’s com cauda infinita ter˜ao maior aten¸c˜ao que as de cauda finita em nossa apresenta¸c˜ao.

Come¸caremos nossos exposi¸c˜ao com o esclarecimento dos conceitos “cauda finita” e “cauda infinita” de uma distribui¸c˜ao.

A palavra “cauda” possui duas interpreta¸c˜oes. A primeira ´e aquela expli- cada na Se¸c˜ao 2: a cauda de F(·) `a direita de u ´e a parte do seu gr´afico ´a direita da abcissau. Se aceitarmos esta interpreta¸c˜ao, ent˜ao a cauda de qual- quer fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao s´o pode ser infinita, visto que o gr´afico de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao nunca “termina”. A outra interpreta¸c˜ao considera que

9Shape parameter em Inglˆes.

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a cauda deF(·) `a direita de u´e formada pelos pontos do seu gr´afico ´a direita da abcissau que n˜ao pertencem `a reta horizontal y= 1. ´E esta interpreta¸c˜ao que deve ter-se em mente quando dissermos “cauda finita” ou “cauda infinita”.

Vejamos dois exemplos.

Observe a fun¸c˜aoGξ(·) comξ =−1/4 apresentada na Figura 5. Ela “toca”

o n´ıvel 1 no ponto x = 4 e, ap´os isso, ´e sempre igual a 1. Neste caso diz-se que a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao tem cauda direita finita. Usaremos o termo mais curto cauda finita, pois em todo o trabalho analisaremos somente caudas `a direita. Para facilitar express˜oes formais, introduziremos o s´ımbolo xF, que designa ofim da cauda da distribui¸c˜ao F(·), ou seja, a abscissa do ponto em que F(·) toca o n´ıvel 1. Por exemplo, na Figura 5, temos que xGξ = −1/ξ paraξ <0.

Considere agora a fun¸c˜ao da distribui¸c˜ao exponencial apresentada na Figura 5.

Ela nunca toca o n´ıvel 1 (simplesmente porque n˜ao existe x ≥ 0 tal que 1−e−x= 1). Neste caso a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao possui cauda direita infinita.

Usaremos o termo simplificado cauda infinita devido as raz˜oes j´a explicadas acima. A fim de aproveitar as mesmas f´ormulas tanto para fun¸c˜oes de cauda finita quanto para as de cauda infinita, assumiremos quexF ´e igual∞quando

F(·) possui cauda infinita. Fim do coment´ario.

Coment´ario 5. A cauda direita de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao tem rela¸c˜ao com o fato dos valores da vari´avel aleat´oria, que possui esta distribui¸c˜ao, serem limitados ou n˜ao: seF(·) possuir cauda direita finita, ent˜ao a vari´avel aleat´oria X, distribu´ıda conforme F(·), ser´a limitada por cima e o limite superior ser´a igual axF, ou seja, IP [X ≤xF] = 1; j´a se F(·) possuir cauda direita infinita, ent˜ao a vari´avel aleat´oriaX, distribu´ıda conformeF(·), n˜ao ser´a limitada por cima, o que significa que n˜ao existe um n´umero finitoM tal queIP [X ≤M] = 1.

Como dissemos no come¸co desta subse¸c˜ao, assumiremos o seguinte pressu- posto

Pressuposto 1: A cauda de F(·) ´e infinita.

Na presente sub-se¸c˜ao explicaremos as raz˜oes da aceita¸c˜ao deste pressuposto, al´em de revelaremos e discutirmos os aspectos relacionadas a esta aceita¸c˜ao, importantes para quem deseja usar o m´etodo POT na pr´atica.

Da aceita¸c˜ao do Pressuposto 1surgem diversas d´uvidas, das quais as trˆes seguintes s˜ao, ao nosso ver, as principais – elas ser˜ao cuidadosamente respon- didas no restante da presente sub-se¸c˜ao. As trˆes d´uvidas s˜ao:

(31)

(a) Na pr´atica ´e preciso aceitar cegamente o tipo de cauda de F(·) antes de aproximar esta cauda pelo POT, ou existem procedimentos que indicam se a cauda ´e finita ou infinita?

(b) Quais s˜ao as vantagens obtidas quando se assume o Pressuposto 1? H´a tamb´em desvantagens? Se sim, no que isto prejudica o leitor?

(c) Porque escolhemos trabalhar com a caso de cauda infinita e n˜ao com o caso cauda finita?

A resposta `a pergunta (a) ´e a mais f´acil. Se temos uma amostra de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao F(·) desconhecida, ent˜ao podemos inferir, a partir de uma amostra sua, se a cauda de F(·) ´e finita ou infinita. Esta tarefa ´e dele- gada `a atual Teoria de Valores Extremos, que fornece diversos procedimentos estat´ısticos que fazem esta inferˆencia. Observamos que alguns destes procedi- mentos fazem parte do pr´oprio m´etodo POT, isto ´e, h´a execu¸c˜oes do m´etodo que fornecem a aproxima¸c˜ao da cauda deF(·) juntamente com “sua” opini˜ao sobre finitude/infinitude; h´a tamb´em outros procedimentos n˜ao relacionados ao POT. Esta observa¸c˜ao pode ser ´util para quem for buscar na literatura pro- cedimentos de inferˆencia para o tipo de cauda. Os livros [3], [7] e [1] s˜ao fontes ricas para quem deseja conhecer e aplicar estes procedimentos. O Exerc´ıcio 5 fornece algumas id´eias que servem de base para a constru¸c˜ao de procedimentos que inferem sobre o tipo de cauda de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao desconhecida, a partir de sua amostra.

Quanto `a quest˜ao levantada em (b), uma de suas respostas diz respeito ao par´agrafo acima. Quando o Pressuposto 1 ´e assumido, v´arias p´aginas relativas aos procedimentos estat´ısticos mencionados naquele par´agrafo s˜ao evitadas. Um outro motivo para nossa aceita¸c˜ao vˆem da existˆencia de pe- quenas diferen¸cas na execu¸c˜ao do m´etodo POT dependendo de F(·) possuir cauda finita ou infinita. As diferen¸cas s˜ao pequenas, mas a inclus˜ao de am- bos os casos seria desgastante e repetitiva. Por isto optamos por um s´o caso, preferindo nos concentrar naquele ondeF(·) possui cauda infinita, o que n˜ao traz grandes preju´ızos aos que precisarem do m´etodo POT para aproximar cauda de distribui¸c˜oes com caudas finitas. As principais id´eias do m´etodo POT s˜ao as mesmas tanto no caso deF(·) possuir cauda finita quanto no caso deF(·) possuir cauda infinita. As diferen¸cas, como j´a hav´ıamos avisado, est˜ao somente nos procedimentos estat´ısticos empregados na execu¸c˜ao do m´etodo.

A ´ultima raz˜ao a ser considerada em (b), decorre do fato do m´etodo POT n˜ao usar GPD’s com o parˆametroξ negativo para aproximar a cauda deF(·) quando esta possui cauda infinita. Isto ficar´a claro na formula¸c˜ao do Resul-

(32)

tado de Pickands e na dedu¸c˜ao da id´eia do m´etodo a partir deste resultado (veja o Coment´ario 19 da Sub-se¸c˜ao 6.5). Este fato nos permite concentrar a aten¸c˜ao da futura exposi¸c˜ao nas GPDs de parˆametroξ n˜ao-negativo, ou, em outras palavras, nas GPD’s definidas por (5) e (6), ou, ainda, nas GPD’s com caudas infinitas. Dessa forma, o volume da nossa apresenta¸c˜ao ´e reduzido. As trˆes raz˜oes apresentadas acima respondem a quest˜ao (b), mas n˜ao podemos encerrar tranq¨uilamente a discuss˜ao, pois a ´ultima das raz˜oes leva geralmente

`a seguinte

falsa impress˜ao: a cauda da fun¸c˜ao-aproximadora ´e sempre infinita quando a cauda de fun¸c˜ao F(·), a ser aproximada, ´e infinita, e ´e sempre finita quando a cauda de F(·) ´e finita.

Vejamos o porquˆe dessa falsa impress˜ao.

A primeira fal´acia est´a na palavra “sempre”, que insinua que a afirma¸c˜ao vale para qualquer m´etodo de solu¸c˜ao do problema de aproxima¸c˜ao de cauda.

Gostar´ıamos de advertir que n˜ao pode-se fazer esta generaliza¸c˜ao. Estamos discutindo um m´etodo espec´ıfico, o m´etodo POT. Este tem suas particulari- dades. Outros m´etodos tˆem as suas.

Contudo o erro mais grave est´a na afirma¸c˜ao que relaciona o tipo da cauda da GPD usada para estimar a cauda de uma F(·) desconhecida e o tipo da cauda da pr´opria F(·). Ao falar desta rela¸c˜ao ´e necess´ario distinguir duas situa¸c˜oes. A primeira ´e aquela onde n˜ao se sabe nadaa priorisobre a cauda de F(·) e n˜ao se faz nenhum pressuposto a seu respeito. Neste caso ´e a amostra de F(·) que vai indicar – via algum procedimento estat´ıstico – que tipo de cauda F(·) possui. ´E claro que a amostra pode ser “at´ıpica” e/ou o procedimento pode falhar. Caso em que podem ocorrer inconsistˆencias: a cauda infinita de F(·) pode ser aproximada por uma fun¸c˜ao de cauda finita e vice-versa.

Entretanto, a “falsa impress˜ao” agora discutida refere-se n˜ao a esta situa¸c˜ao;

mas sim `aquela onde sabemos o tipo de cauda deF(·) e“informamos” esta ao m´etodo POT10. Qual seria ent˜ao o tipo da cauda da fun¸c˜ao-aproximadora da cauda deF(·) escolhida pelo m´etodo, dado que ele possui a informa¸c˜ao sobre o tipo da cauda deF(·)? A “falsa impress˜ao” responde equivocadamente esta pergunta. A resposta correta seria:11

Quem determina o tipo da cauda da fun¸c˜ao-aproximadora fornecida pelo m´etodo POT ´e a teoria que justifica o m´etodo. De acordo com

10Insistiremos neste caso motivados pela aceitac˜ao doPressuposto 1

11O Coment´ario 19 dar´a o embasamento te´orico a esta resposta.

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esta teoria, se a cauda de F(·) for infinita ent˜ao a cauda da fun¸c˜ao- aproximador ser´a sempre infinita. J´a se a cauda de F(·) for finita, ent˜ao a fun¸c˜ao-aproximador ser´a uma GPD com cauda finita, ou a fun¸c˜ao exponencial, isto ´e , a GPD do formato (11); no segundo caso, a cauda da fun¸c˜ao-aproximador ´e infinita (pois a cauda da fun¸c˜ao de distribu¸c˜ao exponencial ´e infinita).

Coment´ario 6. Nosso leitor pode estranhar o fato de uma fun¸c˜ao de cauda in- finita ser uma boa aproxima¸c˜ao para a cauda finita de uma outra fun¸c˜ao. Aqui temos ent˜ao um exemplo que mostra esta possibilidade. Volte sua aten¸c˜ao `a Figura 5. Observe como s˜ao pr´oximas as GPDsG−1/4(·) e G0(·) no intervalo [0,4]. Isto deve convencer-lhe de que as GPDs G−1/100(·) e G0(·) ser˜ao ainda mais pr´oximas no intervalo [0,100]. No ponto x = 100 a fun¸c˜ao G−1/100(·) toca o n´ıvel 1, enquanto que o valor de G0(·) neste ponto ´e e−100. Isto sig- nifica que em qualquer ponto `a direita de x = 100 as duas fun¸c˜oes n˜ao se distanciam por mais dee−100. Portanto,G0(·) pode ser um bom aproximador paraG−1/100(·), apesar da cauda da fun¸c˜ao-aproximador ser infinita enquanto que a da fun¸c˜ao aproximada ´e finita. Fim do coment´ario.

Finalmente responderemos a pergunta (c). Observe a importˆancia desta pergunta: os argumentos acima indicam que para tornar a exposi¸c˜ao mais con- cisa poder´ıamos concentrar nossa aten¸c˜ao nas fun¸c˜oes de cauda finita ou nas fun¸c˜oes de cauda infinita. Por que optamos pelas segundas? A “preferˆencia”

pelas caudas infinitas deve-se `a combina¸c˜ao de dois fatores: o primeiro ´e que a maioria dos nossos leitores potenciais usar˜ao o m´etodo POT na estima¸c˜ao de caudas de distribui¸c˜oes de perdas de retornos de investimentos financeiros, ou de perdas decorrentes de sinistros de seguradora, ou de perdas causadas por falhas operacionais de um banco ou uma ind´ustria; o segundo fato reside na cren¸ca comum de que tais distribui¸c˜oes possuem cauda infinita. Isto ent˜ao responde `a pergunta (c), mas com um teor de insatisfa¸c˜ao: porque o segundo fato foi colocado como “cren¸ca”? Discutiremos agora.

Considere a vari´avel aleat´oria “retorno (digamos, di´ario, para t´ıtulo de exposi¸c˜ao) com sinal negativo de um investimento”. Observe que para que

retorno di´ario com sinal negativo = −log pre¸co de hoje

pre¸co de ontem (13) seja ilimitado por cima, o “ pre¸co de hoje”deve assumir um valor arbitrari- amente pequeno em rela¸c˜ao ao “pre¸co de ontem”. Se isto ocorre, de acordo

Referências

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