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Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Notas de Aula da Disciplina “Métodos e Técnicas na Projetação Arquitetônica” – 2004 Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto – Depto. de Projeto, Exp.& Rep. em Arq. & Urb.

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Excerto de Vitrúvio - Os Dez Livros Sobre Arquitetura

A educação do arquiteto

Apresentamos para os estudantes de Arquitetura e Urbanismo este interessante texto “fundador” da teoria da arquitetura ocidental (isto é, da matriz européia de nossa formação), escrito pelo arquiteto e engenheiro Marcus Vitruvius Pollio, que viveu no século I d.C., e que faz parte do trabalho que intitulou De

architectura (datado aproximadamente do ano 40 d.C.). Este foi o único tratado

europeu da antiguidade grego-romana que sobreviveu até os dias de hoje, e constituiu-se numa fonte de enorme importância para os estudiosos, sobretudo desde o chamado “Renascimento” (desde a herança grego-romana nas artes, ciências, política, etc.). Sua redescoberta pelos arquitetos e teóricos da

arquitetura renascentistas deu vida ao classicismo dos períodos históricos subseqüentes – em toda a Europa, e daí para o mundo, através de suas

colônias. Os mais importantes tratados dos mestres europeus sobre arquitetura, desde o século XV basearam-se nessa fonte, inspiradora e perturbadora.

Perturbadora porque muitos dos principais “nós” conceituais da teoria classicista da arquitetura foram inaugurados justamente por Vitrúvio, desde sua concepção dos padrões canônicos, da sua teoria das proporções, até (em especial) seus princípios arquiteturais de utilitas, venustas e firmitas.

Para nós interessa, aqui, sua primeira visão acerca dos conhecimentos que qualificariam o arquiteto, em seu tempo. É desconcertante a amplidão das áreas das ciências, das humanidades, das atividades administrativas e práticas que Vitrúvio coloca como necessárias à formação do arquiteto – bem como sua atualidade, no que tange ao caráter articulador de conhecimentos que até hoje imprimimos à estrutura de nossos cursos de graduação em Arquitetura e

Urbanismo. Espero que vocês apreciem e reconheçam algo do por quê somos, até hoje, um tanto vitruvianos1.

Livro 1

Capítulo I - A educação do arquiteto

1. O arquiteto deve ser dotado com o conhecimento de muitos ramos do saber e variados tipos de aprendizados, pois é por seu julgamento que todo trabalho feito nas outras artes é colocado a teste. Este conhecimento nasce da

1 Tradução para o inglês de Morris Hicky Morgan – Vitruvius: The Ten Books On Architecture. Nova Iorque:

Dover Publications, Inc., 1960.

(para o português: prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto – Depto. de Projeto, Expressão e

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trabalhos concretos são feitos com quaisquer materiais necessários e de acordo com os projetos devidamente representados. Teoria, por outro lado, é a

habilidade de demonstrar e explicar aquela hábil produção feita segundo os princípios das proporções.

1. Architecti est scientia pluribus disciplinis et variis eruditionibus ornata, cuius iudicio probantur omnia quae ab ceteris artibus perficiuntur opera ea nascitur ex fabrica et ratiocinatione. fabrica est continuata ac trita usus

meditatio, quae manibus perficit[ur] e materia cuiuscumque generis opus [est] ad propositum deformationis. ratiocinatio autem est, quae res fabricatas sollertiae ac rationis pro demonstrare atque explicare potest.

2. Segue-se, portanto, que aqueles arquitetos que se esforçaram em adquirir habilidades práticas ou manuais sem uma adequada preparação teórica nunca tornaram-se capazes de atingir posições de autoridade correspondente a seus esforços, enquanto aqueles que se apoiaram apenas em teorias e na erudição estiveram obviamente caçando sombras sem atinar com a substância de seu ofício. Mas aqueles que conseguiram um completo domínio da teoria e da prática, como homens guarnecidos por todos os lados rapidamente atingiram seus objetivos e detiveram consigo a autoridade de seu ofício.

2. Itaque architecti, qui sine litteris contenderant, ut manibus essent exercitati, non potuerunt efficere, ut haberent pro laboribus auctoritatem; qui autem ratiocinationibus et litteris solis confisi fuerunt, umbram non rem persecuti videntur. at qui utrumque perdidicerunt, uti omnibus armis ornati citius cum auctoritate, quod fuit propositum, sunt adsecuti.

3. Em todos os assuntos, mas especialmente na arquitetura, deve-se considerar dois aspectos: a coisa significada, e aquilo que dá à coisa a sua significância. Aquilo que é significado é o objeto do qual nós falamos no momento; e aquilo que lhe dá significância é uma demonstração baseada em princípios científicos. É aparente que, aquele que se acredita arquiteto, deva ser bem preparado nessas duas direções. Ele deve, portanto, ser tão naturalmente dotado quanto aberto ao aprendizado. Nem a habilidade natural sem adequada instrução, nem a instrução desprovida de habilidade natural conseguem

perfazer o artista perfeito. Que o arquiteto seja educado, que seja habilidoso com o traço, instruído em geometria, que conheça muito bem a história, que haja aprendido com os filósofos de forma atenta, que entenda música, que tenha algum conhecimento de medicina, que conheça as opiniões dos juristas, que seja familiar com a astronomia e com a teoria dos céus.

Cum in omnibus enim rebus, tum maxime etiam in architectura haec duo insunt: quod significatur et quod significat. significatur proposita res, de qua dicitur; hanc autem significat demonstratio rationibus doctrinarum explicata. quare videtur utraque parte exercitatus esse debere, qui se architectum profiteatur. itaque eum etiam ingeniosum oportet esse et ad disciplinam docilem; neque enim ingenium sine disciplina aut disciplina sine ingenio perfectum artificem potest efficere. et ut litteratus sit, peritus graphidos, eruditus geometria, historias complures noverit, philosophos diligenter audierit, musicam scierit, medicinae

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Notas de Aula da Disciplina “Métodos e Técnicas na Projetação Arquitetônica” – 2004 Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto – Depto. de Projeto, Exp.& Rep. em Arq. & Urb.

non sit ignarus, responsa iurisconsultorum noverit, astrologiam caelique rationes cognitas habeat.

4. Saibamos as razões para tudo isso. O arquiteto deve ser um homem educado de modo a deixar a mais duradoura herança em seus tratados. Em segundo lugar, ele deve ter tal conhecimento do desenho de modo a

rapidamente representar as obras que projeta. A geometria, também é de grande auxílio em arquitetura, ensinando em particular o uso da régua e do compasso o que nos faz hábeis no desenvolvimento de projetos para edifícios desde suas fundações, e corretamente aplicar o esquadro, o nível e o prumo. Pelo conhecimento da óptica a luz nos edífícios pode ser representada a partir de quaisquer pontos da cúpula celeste. É verdadeiro que através da aritmética o custo total dos edifícios é calculado e são computadas as suas medidas, mas as difíceis questões envolvendo simetria são solucionadas por meio das teorias e métodos da geometria.

Quae cur ita sint, haec sunt causae. litteras architectum scire oportet, uti commentariis memoriam firmiorem efficere possit. deinde graphidis scientiam habere, quo facilius exemplaribus pictis quam velit operis speciem deformare valeat. geometria autem plura praesidia praestat architecturae; et primum ex euthygrammis circini tradit usum <regulaeque>, e quo maxime facilius

aedificiorum in areis expediuntur descriptiones normarumque et librationum et linearum directiones. item per opticen in aedificiis ab certis regionibus caeli lumina recte ducuntur. per arithmeticen vero sumptus aedificiorum

consummantur, mensurarum rationes explicantur, difficilesque symmetriarum quaestiones geometricis rationibus et methodis inveniuntur.

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elementos ornamentais da obra elaborados pelo arquiteto, muitas são aqueles cujo emprego deva ser justificado frente a questionamentos por sua escolha. Por exemplo, suponha-se que decida substituir as colunas por aquelas estátuas de mulheres em longas túnicas, chamadas cariátides, com suas cestas e coroas colocadas diretamente sobre suas cabeças; nesse caso, ele deve dar a

seguinte explicação aos que questionarem sua decisão: Caryae uma cidade do Peloponeso, aliou-se aos persas contra os gregos. Logo depois, os gregos tendo gloriosamente conquistado sua liberdade pela vitória na guerra, decidiram tomar Caryae. Eles conquistaram a cidade, mataram todos os seus homens, arrasando o seu sítio, e levando as suas mulheres como escravas - sem permitir contudo que elas tirassem as suas longas túnicas e as outras marcas de sua condição de senhoras, casadas. Desse modo, elas foram obrigadas não apenas a marchar no retorno do triunfo grego mas também a figurar como um novo tipo de escravidão, agravado pelo peso de sua vergonha e pela desonra de sua cidade. Desde então, os arquitetos daquele tempo passaram a colocar em edifícios públicos estátuas daquelas mulheres, carregando o peso das

arquitraves em suas cabeças, de modo a que a culpa e a punição do povo de Caryae fosse conhecido e divulgado a toda a posteridade.

Historias autem plures novisse oportet, quod multa ornamenta saepe in operibus architecti designant, de quibus argumenti rationem, cur fecerint, quaerentibus reddere debent. quemadmodum si quis statuas marmoreas muliebres stolatas, quae caryatides dicuntur, pro columnis in opere statuerit et insuper mutulos et coronas conlocaverit, percontantibus ita reddet rationem. Carya, civitas

Peloponnensis, cum Persis hostibus contra Graeciam consensit. postea Graeci per victoriam gloriose bello liberati communi consilio Caryatibus bellum

indixerunt. itaque oppido capto, viris interfectis, civitate deflagrata matronas eorum in servitutem abduxerunt, nec sunt passi stolas neque ornatus

matronales deponere, non uti una triumpho ducerentur, sed aeterna, servitutis exemplo gravi contumelia pressae poenas pendere viderentur pro civitate. ideo qui tunc architecti fuerunt aedificiis publicis designaverunt earum imagines oneri ferendo conlocatas, ut etiam posteris [nota] poena peccati Caryatium memoriae traderetur.

6. O mesmo ocorreu com os lacedemonianos sob a liderança de Pausanias de Agesipolis, depois de baterem os exércitos persas, infinitos em número, com um pequeno contingente na batalha de Plataea, celebrando seu glorioso triunfo com o rico espólio do adversário. Com o dinheiro obtido de sua venda, construíram o Pórtico Persa, como o monumento ao renome e valor lacedemoniano e um troféu de vitória para a sua posteridade. Nesse pórtico, representaram em relevo os prisioneiros, vestidos em seus costumes bárbaros, sendo arrastados na direção do teto, mostrando como a sua arrogância fora devidamente punida, e que os inimigos dos lacedemonianos deveriam temer pelos feitos de sua coragem; seu próprio povo, ao contemplar essa

demonstração de seu valor, encorajado por sua glória, deveria estar sempre prestes a defender sua independência. Então, a partir dessa época em muitas obras se colocou estátuas de persas substituindo as colunas, suportando pesadas entabladuras e seus ornamentos - motivo arquitetônico que muito

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enriqueceu a diversidade de seus trabalhos. Há ainda outras histórias do mesmo tipo, que os arquitetos devem conhecer.

Historias autem plures novisse oportet, quod multa ornamenta saepe in operibus architecti designant, de quibus argumenti rationem, cur fecerint, quaerentibus reddere debent. quemadmodum si quis statuas marmoreas muliebres stolatas, quae caryatides dicuntur, pro columnis in opere statuerit et insuper mutulos et coronas conlocaverit, percontantibus ita reddet rationem. Carya, civitas

Peloponnensis, cum Persis hostibus contra Graeciam consensit. postea Graeci per victoriam gloriose bello liberati communi consilio Caryatibus bellum

indixerunt. itaque oppido capto, viris interfectis, civitate deflagrata matronas eorum in servitutem abduxerunt, nec sunt passi stolas neque ornatus

matronales deponere, non uti una triumpho ducerentur, sed aeterna, servitutis exemplo gravi contumelia pressae poenas pendere viderentur pro civitate. ideo qui tunc architecti fuerunt aedificiis publicis designaverunt earum imagines oneri ferendo conlocatas, ut etiam posteris [nota] poena peccati Caryatium memoriae traderetur.

7. Também a filosofia deve elevar o espírito do arquiteto, tornando-o menos pretensioso, mas fazendo-o mais cortês, justo e honesto, sem ser avaro. Isto é muito importante, pois nenhum trabalho pode ser corretamente feito sem honestidade e incorruptibilidade. Que o arquiteto não seja ganancioso nem se torne interessado pelas vantagens de receber propinas mas que com dignidade mantenha a sua posição, conquistando uma boa reputação. Estes estão entre os preceitos da filosofia. Além disso, a filosofia trata da física (em grego

), onde um conhecimento mais cuidadoso é necessário dado que os problemas tratados nesse assunto são numerosos e de diversos tipos; como no caso, por exemplo, do abastecimento de água. Pois, nos pontos de tomada de água, nas curvas, e nos lugares onde a água é elevada em nível, correntes de ar formam-se naturalmente em uma ou outra direção; e ninguém que não tenha aprendido os princípios fundamentais de física desde a filosofia será capaz de precaver-se contra os danos que tais correntes podem provocar. Assim, o leitor de Ctesibius ou Arquimedes e os outros autores de tratados do mesmo tipo, não será capaz de apreciá-los a não ser que tenha sido educado nesses assuntos pelos filósofos.

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Figura 2

8. O arquiteto também deve conhecer a música, e compreendê-la de modo a dominar a teoria matemática e canônica e além disso ser capaz de afinar as ballistae, as catapultae e os scorpiones, como se fossem instrumentos musicais, na escala certa. Também à direita e à esquerda de suas vigas estão os furos em suas estruturas através dos quais as cordas entrançadas são esticadas por meio de roldanas e barras, sendo que tais cordas não podem ser fixadas e apertadas até que produzam a correta nota sonora, somente audível aos ouvidos do habilidoso profissional; pois os braços do aparelho acionados por essas entrançadas cordas devem, ao ser liberadas, atingir a peça de

artilharia juntos e ao mesmo tempo. Caso não o façam em simultaneidade, não se conseguirá uma trajetória previsível dos projéteis.

9. Também nos teatros são utilizados vasos de bronze (em grego ), que são colocados em nichos sob as cadeiras, de acordo com a modulação de intervalos musicais, a partir de princípios matemáticos. Esses vasos são arranjados buscando a harmonia musical, e proporcionados com relação ao compasso de uma quarta, uma quinta, uma oitava, e assim por diante, até que se atinja a dupla oitava, de uma tal maneira que, quando a voz de um ator se posta em uníssono com qualquer dessas alturas, seu poder é ampliado, e ela alcançará os ouvidos da audiência com muito maior clareza e doçura. Órgãos hidráulicos e outros instrumentos assemelhados também não podem ser construídos por aqueles que não sejam familiarizados com os princípios da música.

10. O arquiteto também deve ter conhecimento dos estudos da medicina, ao considerar questões relacionadas ao clima (do grego ), ao ar, à salubridade e à insalubridade dos sítios, e ao uso de diferentes águas. Pois,

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sem essas considerações, a higiene de um edifício não pode ser assegurada. O mesmo se dá com relação aos princípios legais que o arquiteto deve conhecer, como os que se aplicam aos edifícios que possuem paredes comuns, com respeito ao derramamento de água desde calhas ou gárgulas, bem como as leis sobre esgotos, drenos, janelas e suprimento de água. E outras coisas desta sorte devem ser conhecidas pelos arquitetos de modo que, antes de

começarem a construir devem ser cuidadosos ao não deixarem pontos omissos ou lapsos a serem resolvidos com os proprietários após a conclusão das obras, e de modo a que, na definição dos contratos de obras, os interesses do

contratante, do contratado e seus empregados sejam sabiamente resguardados. Se um contrato é bem definido todas as partes obterão

benefícios, umas das outras, sem desvantagens. Com a ajuda da astronomia nós achamos as direções leste, oeste, sul e norte, bem como conhecemos a teoria dos céus, os equinócios, os solstícios e as trajetórias das estrelas. Aquele que não detenha conhecimento destas matérias de modo algum compreenderá a teoria dos relógios de sol.

11. Conseqüentemente, dado que estes estudos são tão vastos em sua extensão, tão enriquecidos e tornados atrativos com tantos diferentes tipos de aprendizado, que eu penso que ninguém tem o direito de se dizer, de súbito, arquiteto, sem ter escalado desde sua juventude os degraus destes estudos, e então, nutrido pelo conhecimento das artes e ciências, ter alcançado as

elevações do sagrado solo da arquitetura.

12. Talvez, para as pessoas inexperientes, pareça fabuloso que a

natureza humana possa compreender um tal extraordinário número de estudos, e ainda mantê-los na memória. Ainda assim, a observação de que todos os estudos possuem vínculos comuns de união e associação uns com os outros, levará à compreensão de que possam ser facilmente dominados. Pois uma educação liberal forma um corpo comum, feito desses membros. Aqueles, portanto, que desde a juventude recebem sua instrução nas várias formas de conhecimento, reconhecem o mesmo caráter em todas as artes, e uma associação entre todos os estudos, podendo ainda mais prontamente

compreendê-los todos. Isso é o que levou um dos antigos arquitetos, Pytheos, o celebrado construtor do templo de Minerva em Priene, a dizer em seus

Comentários que um arquiteto deveria ser capaz de compreender muito mais em todas as artes e ciências que os homens que, por seus tipos particulares de trabalho, por sua prática, levaram suas delimitadas obras à mais elevada

perfeição. Contudo, na realidade, isso não acontece.

13. Pois um arquiteto não pode pretender ser, nem pode realmente ser, um filólogo como o foi Aristarchus, embora não possa ser iletrado; nem um músico como Aristoxenus, embora não possa ser completamente ignorante da música; nem um pintor como Apelles, embora não possa ser inábil no desenho; nem um escultor como o foi Myron ou Polyclitus, embora não possa ser pouco familiarizado com as artes plásticas; nem tampouco um médico como

Hippocrates, embora não possa ser ignorante da medicina; nem em cada uma das outras ciências deva ser proficiente, embora ele não possa ser ignorante delas. Pois, em meio a toda essa grande variedade de assuntos, um indivíduo

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seu poder compreender e dominar suas teorias gerais.

14. Da mesma forma não apenas os arquitetos são impedidos de alcançar a perfeição em todos os assuntos, mas mesmo os homens que

individualmente praticam especialidades nas artes não atingem o mais elevado ponto de mérito. Se, dentre os artistas que trabalham em um singelo campo das artes, muito poucos em toda uma geração adquirem fama - e ainda assim com grande dificuldade - , como pode um arquiteto, que deve ser competente em muitas artes, atingir não apenas o feito (que, em si, é uma grande maravilha) de não ser deficiente em nenhuma delas, mas ainda ultrapassar todos aqueles artistas que se devotaram com enorme esforço a determinadas artes?

15. Fica a parecer, então, que Pytheos cometeu um erro ao não observar que as artes são compostas de duas partes: o trabalho realizado e a sua teoria. Uma dessas partes, o fazer do trabalho, é própria dos homens treinados em assunto específico, enquanto a outra, a teoria, é comum a todos os estudiosos. Por exemplo, para os médicos e para os músicos é comum o rítmico batimento do pulso e a métrica de seu movimento. Mas, havendo uma ferida a ser tratada ou um homem doente a ser salvo do perigo, ninguém chamará um músico, pois o trabalho será apropriado ao médico. Assim também no caso de um

instrumento musical, não será o médico mas o músico, o homem a ser chamado a afiná-lo de modo a que os ouvidos encontrem o devido prazer em seus sons.

16. Também os astrônomos possuem um campo comum de discussão com os músicos, na harmonia das estrelas e nas concórdias musicais nas tétrades e tríades das quartas e das quintas, e com os geômetras nos assuntos da visão (em grego ζ ζ); e em todas as outras ciências muitos pontos, talvez todos, são comuns, até onde sua discussão seja cabível. Mas a efetiva realização de trabalhos que são levados à perfeição pelas mãos é função daqueles que foram especialmente treinados para lidar com uma das artes. Parece-me que esse artista faz o que é suficiente com sua arte,

poupando aquele que em cada assunto possui um amplo conhecimento de suas partes, de seus princípios, sobretudo aqueles que são indispensáveis para a arquitetura; se este último for requerido para julgar e para expressar sua aprovação no caso desses assuntos ou artes, não será encontrado à nossa disposição. Assim é para os homens sobre os quais a natureza depositou tanta inteligência, agudeza e memória, que eles são capazes de portar um completo conhecimento da geometria, da astronomia, da música, e das outras artes, indo além da função de arquitetos, e tornando-se puros matemáticos. Eles podem até mesmo tomar posições críticas às artes pois muitas são as armas artísticas de que estão guarnecidos. Tais homens, no entanto, são raramente

encontrados, ainda que existam de tempos em tempos; por exemplo,

Aristarchus de Samos, Philolaus e Archytas de Tarentum, Apollonius de Perga, Eratosthenes de Cyrene, e entre os sábios de Siracusa, Archimedes e

Scopinas, que através da matemática e da filosofia natural, descobriram,

expuseram e legaram muitos conhecimentos sobre a mecânica e sobre relógios de sol.

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17. Dado que, a posse de tais talentos devidos à capacidade natural não é distribuída aleatoriamente às populações de quaisquer nações, mas somente a poucos grandes homens; dado que, acima de tudo, a função do arquiteto requer treinamento em todos os aspectos do conhecimento; e dado que a

razão, considerando-se a ampla extensão desses assuntos, impõe que ele deva possuir nem o mais elevado, nem mesmo um moderado conhecimento das artes e ciências, eu requeiro, Caesar, tanto de vós quanto daqueles que venham a ler esses livros que se algo for aqui escrito com pouca atenção às normas gramaticais, que me seja perdoado. Pois não foi como um grande filósofo, nem como eloqüente retórico, nem como um gramático treinado nos mais elevados princípios de sua arte, que me lancei a escrever esta obra, mas como um arquiteto que apenas mergulhou nesses assuntos. Em respeito à eficácia da arte e de suas teorias, eu prometo e espero que nestes volumes, possa indubitavelmente mostrar-me importante não apenas para aqueles que constróem mas também a todos os estudiosos.

Nota: as figuras das “Cariátides” e dos “Persas” foram retirados da edição

de Vitrúvio por Fra Giocondo, Veneza, 1511 – e inclusos na edição de Hicky Morgan, 1960).

Livro 1

Capítulo 2 – Os Princípios Fundamentais da Arquitetura 1. A Arquitetura depende da Ordem (em Grego ς), Disposição (

ς ), Euritmia, Simetria, Propriedade e Economia ( ). 2. A Ordem impõe a devida medida às partes de um trabalho consideradas separadamente, e uma simétrica concordância com as proporções do todo. Trata-se de um ajuste que observa a quantidade ( ης). Por isso eu

significo a seleção dos módulos desde as partes do próprio trabalho e, iniciando desde estas partes ou membros, vai-se construir correspondentemente o todo. A Disposição inclui a colocação das coisas em seus lugares apropriados e a elegância do efeito devido aos arranjos próprios ao caráter do trabalho. As formas de sua representação ( ) são as seguintes: planta, elevação e perspectiva. A planta é feita com o uso de régua e compasso, com o que fazemos os delineamentos das superfícies dos edifícios. Uma elevação é a imagem do edifício visto de frente, propriamente desenhado com as suas proporções. A perspectiva é o método de representar essa imagem com seus lados recuando para um plano de fundo, com suas linhas convergindo para o centro de um círculo. Todas essas representações são produto de reflexão e invenção. A reflexão é o pensamento cuidadoso e diligente, que dirige sua ponderada atenção ao efeito agradável que se possa ter do projeto. Invenção, por outro lado, é a solução de problemas intrincados com a descoberta de novos princípios por meios da inteligência e da versatilidade. Essas são habilidades que bem se situam sob a Disposição.

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3. A Euritmia é a beleza e o ajuste no arranjo das partes. Ela é encontrada quando as partes de um trabalho apresentam uma altura apropriada à sua largura, e uma largura apropriada à sua profundidade, e, em uma palavra, quando todas essas medidas e partes correspondem-se simetricamente.

4. A Simetria é uma concordância toda própria entre as partes do trabalho, e um relação entre essas diferentes partes e o todo do plano, em conformidade com uma certa medida escolhida como padrão. Assim, no corpo humano há uma harmonia simétrica entre o antebraço, o pé, os dedos, e outras dessas partes menores; isso também ocorre com edifícios perficientes. No caso dos templos, a simetria pode ser calculada desde a espessura de um coluna, desde um tríglifo, ou desde as dimensões de outro elemento estrutural; na balestra [arma

lançadora de flechas e projéteis, besta], desde o seu furo ou desde o que os gregos chamavam ς ; em um navio, desde os espaços entre os pegadores de remos ( ); e nas demais coisas, entre suas várias partes.

5. A Propriedade é aquela perfeição do estilo que é atingida quando a obra é autoritativamente concebida a partir de princípios consagrados. A Propriedade surge de normas prescritas ( θ ω), do uso, ou da natureza. Das normas, como no caso de edifícios total ou parcialmente abertos para o céu (ou

hypaethrus), nos templos de Júpiter Relampejador, dos Céus, do Sol, ou da

Lua: esses são deuses cujas aparências e manifestações nós testemunhamos bem diante de nossos olhos, no céu claro e sem nuvens. Os templos de

Minerva, Marte e Hércules, por outras normas, devem ser dóricos, dado à força viril desses deuses, que torna a delicadeza do estilo totalmente imprópria às suas casas. Em templos como os de Venus, Flora, Perséfone, as Fontes e as Ninfas, a ordem coríntia foi conceituada como de peculiar adequação, dado que são essas entidades delicadas, de elegantes silhuetas, suas flores, folhas e volutas ornamentais, que materializarão a devida propriedade. A construção de templos na ordem jônica para Juno, Diana, Baco e deuses dessa classe vão ao encontro da posição intermediária em que se encontram; seus edifícios devem encontrar uma combinação apropriada da severidade do dórico e da delicadeza do coríntio.

6. A Propriedade vem à luz pelo uso quando, por exemplo, edifícios que

apresentam belos interiores também são dotados de de elegantes vestíbulos, a lhes corresponderem; pois, de outro modo, não há Propriedade no espetáculo dado por um gracioso interior acessado através de uma entrada insignificante, trivial. Ou, se dentelos forem esculpidos na cornija de um entablamento Dórico, ou se tríglifos o forem na entablatura Jônica, sobre o capitel em forma de consolo de suas colunas, temos que o efeito ficará prejudicado por essa

transferência das peculiaridades de uma dada ordem de edificações para outra ordem, dado que a Propriedade de seu uso foi estabelecida no passado.

7. Finalmente, a Propriedade pode ocorrer por causas naturais se, por exemplo, no caso de todos os locais destinados a templos nós selecionarmos aqueles mais salubres, providos de fontes naturais nos lugares em que os templos serão

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construídos, particulamente nos casos dos templos de Esculápio e de Hygiene, deuses com poderes de cura que aparentemente restabeleceram a saúde de muitos doentes. Quando esses corpos doentes são trazidos desde locais insalubres para esses lugares saudáveis, tratando-se-os nessas fontes

geradoras de saúde, eles se tornam saudáveis com rapidez. Resulta disso que a divindade cresce em estima, se torna mais digna aos olhos de todos, tudo isso graças à natureza do sítio escolhido para o templo. Há também naturalmente Propriedade em usar-se a luz do Sol nascente nos dormitórios e nas bibliotecas, em usar-se a luz do Sol poente no inverno nos quartos de banho e abrigos de inverno, e a luz do Norte para as galerias com pinturas e em outros lugares em uma luz pouco variável é necessária; isso por que esse quadrante setentrional do céu não se torna nem muito claro nem muito escuro ao longo do curso do Sol, mas permanece constante e firme por todo o dia.

8. A Economia denota o gerenciamento apropriado dos materiais e do sítio físico, bem como a sábia administração dos custos e o uso do bom senso na construção das obras. Isso será observado se, em primeiro lugar, o arquiteto não especificar coisas que não possam ser facilmente encontradas ou ser providenciadas sem grandes despesas. Por exemplo: não é em todo lugar que se tem com facilidade as areias de minérios, calhaus e pedriscos de aluviões, seixos e burgalhaus, ou pinhos de veios ou pinhos claros, ou mármores, dado que são produzidos em locais diferentes, e reuní-los pode ser difícil e custoso. Onde não houver areias de minas, podemos usar as areias lavadas pelos rios e pelo mar; a ausência de pinho comum e de pinho claro pode ser suprida pelo uso do cipreste, álamo, olmo ou do abeto; e outros problemas são resolvidos de modos similares.

9. Um segundo estágio na Economia é alcançado quando nós temos que planejar as habitações de diferentes tipos, para o uso por moradores e locatários comuns, ou para famílias e pessoas de grande riqueza, ou para os homens com elevadas posições no Estado. Uma casa na cidade obviamente demanda um certo tipo de construção; aquelas casas que estão associadas à produção no campo, recebem e estocam os produtos da agricultura, requerem outro tipo de construção; e esse tipo é diferente para os agiotas e pessoas que lidam com dinheiro, e ainda é diferente para os que são opulentos e

exuberantes; tais deliberações são tomadas de acordo com cada especial necessidade: em uma palavra, a forma apropriada de Economia deve ser observada na construção das casas para cada indivíduo e para cada classe de pessoas.

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