A conexão Bach-Mozart
Nosso colega Amancio se referiu ao compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) no post Então você quer entender o que tem numa fuga… como aprendiz do mestre barroco Johann Sebastian Bach (1685-1750). De fato, assim como aconteceu com Franz Joseph Haydn (1732-1809), tema de post recente, Mozart estudou a música de Bach em várias fases da sua vida.
Bach e Mozart, uma conexão valiosa
A influência de Bach sobre Mozart tem sido estudada há décadas por pesquisadores como o recentemente falecido professor Stanley Sadie, do Trinity College of Music, que publicou o estudo Mozart, Bach and Counterpoint (Musical Times, 1964) e, em especial, Yo Tomita, da Queen’s University, autor de trabalhos mais recentes, como Bach Reception in Pre-Classical Vienna: Baron van Swieten’s Circle Edits the Well-Tempered Clavier II (Music & Letters, 2000). Tenho percebido, por sinal, que a academia vem se interessando cada vez mais pela recepção póstuma dos compositores.
Leopold Mozart
primeiro professor, Leopold Mozart (1719-1787), utilizando peças para teclado do velho mestre. Com ele, aos oito anos de idade, Mozart viajou para Londres. Lá morava há dois anos o filho caçula de Bach: Johann Christian Bach (1735-1782), que foi um professor fundamental na formação musical de Mozart, especialmente quanto ao estilo melodioso e à colorida escrita para os sopros, pela combinação da melodia da ópera italiana com a prática sinfônica alemã (o chamado Allegro cantante).
J. C. Bach
Alguns escritores, como Sadie, observaram que Mozart teve contato com a música do gênio barroco pelas mãos do Bach inglês. No entanto, outros pesquisadores, como Christoph Wolff (Harvard University), afirmam que Johann Christian não parece ter sido uma fonte de transmissão de Bach para Mozart. Wolff informa que Christian Bach se referia ao pai como Peruca Velha, e pouco executava sua música (The New Bach Reader, 1998).
Barão van Swieten
A fase em torno de 1782 na vida de Mozart foi muito especial para o tema deste post. Ele tinha acabado de instalar residência em Viena, onde os novos ares o fizeram resgatar o estilo de Bach. E de onde vinham esses ares? Vinham da residência do barão Gottfried Bernhard van Swieten (1733-1803).
C o m o d i r e t o r d a b i b l i o t e c a d a c o r t e , a t u a l Ö s t e r r e i c h i s c h e Nationalbibliothek, Swieten tinha acesso privilegiado a manuscritos musicais já esquecidos e isso nutria o seu interesse em ressuscitar os mestres do passado. Antes disso, porém, ele era diplomata em Berlim, considerado o centro de divulgação da música de Bach. Lá Swieten iniciou sua aventura na obra bachiana.
Österreichische Nationalbibliothek
Nesse espírito, o barão realizava encontros privados com músicos para execução de música antiga, dos quais Mozart passou a ser presença fiel a partir de 1782, conforme carta sua de 10 de abril desse ano:
“Eu vou todo domingo, ao meio-dia, à casa do Baron van Swieten, onde nada é tocado além de Händel e Bach. No momento, estou interessado nas fugas de Händel e Bach – não apenas do Sebastian, mas também do Emmanuel e do Friedmann.”
Mozart voltava para casa com a cabeça fervendo em idéias barrocas. Daí se dedicava a exercícios como, por exemplo, o Prelúdio e Fuga em Dó maior KV 394 (áudio abaixo). A fuga, anotada como Andante maestoso, remete às do Das wholtemperierte Klavier de Bach. Outro exercício interessante é o KV 401/375e, uma fuga em Sol menor para teclado a quatro mãos (áudio abaixo). Mozart foi rápido na assimilação das regras do contraponto estrito – o que pode ser comprovado a partir de sua primeira grande obra-prima deste estilo: o Molto allegro do Quarteto em Sol maior KV 387 (áudio abaixo).
Seleção da Fuga em Dó maior para cravo solo do KV 394:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-394-Fuge-Koopman. mp3|titles=KV 394 – Fuge (Koopman/Philips)]
Seleção da Fuga em Sol menor para cravo a quatro mãos KV 401:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-401-375e-Koopman. mp3|titles=KV 401-375e (Koopman/Philips)]
Seleção do Molto allegro do Quarteto em Sol maior KV 387:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-387-Molto-Allegro -Mosaiques.mp3|titles=KV 387 – Molto allegro (Quatuor Mosaïques/Naïve)]
violoncelo fugas avulsas de Bach integrantes do KV 404a (áudio abaixo) e arranjou algumas do Das wohltemperierte Klavier, encontradas no KV 405 (áudio abaixo) para quarteto de cordas. As cartas de Mozart a partir de 1782 comprovam o seu prazer em descobrir as fugas de Bach. O KV 405 é composto por fugas em Dó menor (BWV 871), Mi bemol maior (BWV 876), Mi maior (BWV 878), Ré menor (BWV 877) e Ré maior (BWV 874).
Seleção da Fuga do KV 404a, Nº 1, para trio de cordas:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-404a-No.-1-Fuga-G rumiaux-Trio.mp3|titles=KV 404a No. 1 – Fuga (Grumiaux Trio, Philips)]
Fuga do BWV 874 transcrita para quarteto de cordas no KV 405:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-405-BWV-874-Fuga-Hagen.mp3|titles=KV 405 – BWV 874 – Fuga (Hagen Quartett, DG)]
Também é da época dos encontros barrocos na casa de Swieten (1783) a Fuga em Dó menor para dois pianos KV 426 (áudio abaixo), que foi transcrita anos depois para cordas e inserida após o Adagio em antigo estilo de abertura francesa do KV 546. O KV 426 tanto chamou a atenção de Beethoven que ele anotou toda a fuga na partitura da sua Sonata em Dó menor (Op. 111) e nela se inspirou, segundo William Kinderman (University of Illinois).
Seleção da Fuga em Dó menor para dois pianos KV 426:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-426-Haebler-Hoffm ann.mp3|titles=KV 426 (Haebler & Hoffmann, Philips)]
Em relação ao Adagio e Fuga KV 546 de Mozart, Peter Branscombe (St Andrews University) considera a obra como orquestral, por haver o termo violoncelli no manuscrito original (dividindo o basso com o contrabasso), embora seja muito difundida a versão para quinteto de cordas (áudio/vídeo abaixo).
Seleção do Adagio e Fuga para quinteto de cordas KV 546:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-546-Fuga.-Allegro -Hagen.mp3|titles=KV 546 – Fuga. Allegro (Hagen Quartett, DG)]
Adagio e Fuga para orquestra de cordas KV 546:
K. Lichnowsky
Lichnowsky (1761-1841), com o qual o compositor viajou para Berlim em 1789 e lá obteve cópias manuscritas de diversas peças do mestre barroco: Invenções e Sinfonias BWV 772-801; Suítes Inglesas e Francesas BWV 806-17; Suíte BWV 819; Fantasia e Fuga BWV 906 e a Fuga BWV 961.
Na mesma viagem, Mozart esteve em Leipzig (Alemanha), onde assistiu a uma apresentação do moteto Singet dem Herrn ein neues Lied (BWV 225) na Thomaskirche – igreja em que Bach está sepultado (vídeo abaixo).
Singet dem Herrn ein neues Lied (BWV 225) de Bach:
Thomas Attwood
Thomas Attwood (1765-1838), compositor inglês e aluno de Mozart, registrou que um volume de fugas do Das wohltemperierte Klavier sempre estava aberto sobre o piano do seu professor durante as aulas.
A influência de Bach, sem dúvida, foi importante no desenvolvimento artístico de Mozart. O professor Tomita, no entanto, considera que essa importância tem sido supervalorizada, em detrimento de forças maiores. Ele aponta que houve, no final do século XVIII, um crescente resgate do uso de fugas pelos compositores vienenses, relacionado aos movimentos artísticos conhecidos como Renascimento Gótico e Sturm und Drang (vídeo abaixo).
Fuga a due soggetti do Quarteto Op. 20 nº 5 de Haydn:
Robert Marshall, da Brandeis University, sugeriu quatro estágios da recepção da música de Bach por Mozart: 1º) Transcrição; 2º) Imitação; 3º) Assimilação/Síntese e 4º) Transcendência (Bach and Mozart’s Artistic Maturity, 1998). Foi um processo gradual de absorção da essência do contraponto bachiano. De forma geral, um contraponto mais elaborado, segundo Marshall, é crescentemente notado nas obras pós-1786 – mais claramente, como exemplificou o colega Amancio no seu post, o final da Sinfonia Júpiter (KV 551) – vídeo abaixo.
J. J. Fux
Marshall indica ainda algumas distinções entre a polifonia de Bach e a antiga música austríaca, representada por Johann Joseph Fux (1660-1741), colocando Mozart em contato com diferentes estilos e compositores barrocos (estando Bach em destaque).
Estudos afirmam que a visita de Mozart a Leipzig acima mencionada, em 1789, trouxe um diferente tipo de influência bachiana, além da imitação estilística: a considerada arcaica linguagem do Barroco passou a ser claramente identificável em certas obras tardias, como o Requiem, KV 626 (vídeo abaixo) – não apenas em passagens com fugas, mas também nas muitas seções elaboradas com contraponto estrito. Em relação ao rascunho de um Amen de Mozart descoberto em 1963, supostamente destinado ao final do Lacrimosa do Requiem, alguns escritores defendem que se trata de uma obra mais antiga, sem esse objetivo.
Kyrie do Requiem de Mozart (KV 626), com dupla fuga: https://www.youtube.com/watch?v=TNEUM4F80WE
Amen com fuga de Mozart descoberto em 1963:
Nesse contexto estimulado pelos ares de Leipizig, considero oportuno também mencionar a Fantasia em Fá menor para órgão KV 608 (vídeo abaixo), finalizada em março de 1791. Essa obra representa uma das mais refinadas e expressivas manifestações do esforço criativo do Mozart maduro sob a influência de Bach. Beethoven considerou a obra tão valiosa que fez uma cópia para estudo.
Seleção da Fantasia em Fá menor para órgão KV 608:
Finalmente, convém esclarecer que, diferentemente do que muitos pensam, o Adagio e Allegro em Fá menor para órgão KV 594 (áudio abaixo), é inspirado essencialmente nos concertos para órgão de Georg Friedrich Händel (1685-1759), outro mestre venerado pelo Barão van Swieten que influenciou profundamente a música de Mozart.
Seleção do Adagio e Allegro em Fá menor para órgão KV 594:
[audio:http://euterpe.blog.br/wp-content/uploads/2011/02/KV-594-Allegro-Chorz empa.mp3|titles=KV 594 – Allegro (Chorzempa/Philips)]
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Filhos de Mozart
Encerro este post com uma homenagem, registrando aqui a eterna gratidão dos mozartianos ao generoso Barão van Swieten. Além de ter estimulado Mozart a se inspirar nos mestres antigos, esse grande homem ofereceu apoio e incentivo especial ao compositor e à sua música, financiando vários dos seus concertos por assinatura na época da séria crise que abateu Viena em torno de 1789-1790, nada exigindo por isso. Após a morte de Mozart, Swieten organizou ainda um evento beneficente em prol da viúva Constanze (1762-1842), no qual o Requiem foi executado, e ajudou na educação de Karl Thomas (1784-1858), filho do compositor, em Praga – além de colaborar na assistência ao outro filho, nascido no mesmo ano da morte de Mozart: Franz Xaver Wolfgang (1791-1844).