XII Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação SEPesq – 24 a 28 de outubro de 2016
A Tradução como uma Prática Social1
Valéria Brisolara2 1. Introdução
A tradução tem ganhado visibilidade no cenário mundial nas últimas décadas sendo vista tanto como uma causa quanto como um efeito da globalização. O surgimento de novos tipos de tradução traz questionamentos sobre o papel da tradução e o papel do tradutor na sociedade contemporânea. Nesse contexto, surgem indagações relevantes sobre que textos ou discursos devem ser traduzidos, como devem ser traduzidos e, ainda, para quem devem ser traduzidos.
Após o surgimento do campo intitulado Estudos da Tradução, que proporcionou um novo espaço de estudo para a prática tradutória, muitas teorias emergiram, muitas delas influenciadas pelos Estudos Culturais. Este trabalho se alinha a essas teorias, nas quais a tradução não é mais vista como uma atividade secundária. É tomada como uma prática social situada, de natureza dialógica e autoral. Percebe-se que as escolhas do tradutor produzem um novo texto e um novo autor, mas também podem emudecer vozes ou propagar discursos, pois as escolhas do tradutor são uma intervenção cultural.
Essa maneira diferente de ver a tradução e a tarefa do tradutor fez com que novos questionamentos sobre a prática tradutória emergissem e são o objeto das reflexões apresentadas nesta revisão bibliográfica sobre as teorias da tradução contemporâneas.
2. Metodologia
Na área da tradução, cria-se metodologias a cada novo estudo com base no referencial teórico adotado e nos objetivos da pesquisa. O referencial teórico que embasa as pesquisas que realizamos enfoca a tradução como uma prática social. Um marco nos Estudos da Tradução, a obra
Translation/History/Culture, lançada em 1990, organizada por Susan Bassnett
e Andre Lefevere, tem grande importância nessa mudança na maneria de ver a tradução. Essa obra se insere na chamada “virada cultural” que teria acontecido a partir dos anos 80. A partir desse marco, a tradução é vista como uma prática social e historicamente situada, pertencente a um sistema cultural complexo. Na introdução da obra, os autores trazem questionamentos importantes sobre a tradução enquanto uma prática. Perguntam: “Por que é necessário representar um texto estrangeiro em sua própria cultura?” e, ainda,
1 Revisão bibliográfica sobre as teorias contemporâneas da tradução. 2 Doutora em Letras, UniRitter, [email protected]
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“Quem faz o texto em sua própria cultura “representar” o texto na cultura estrangeira? Em outras palavras: quem traduz, e com qual objetivo em mente?”. (2001, p. 7) Esses questionamentos revelam uma maneira diferente de perceber a prática tradutória, sua inserção na sociedade e relevância cultural e social, apontando para uma mudança de rumos nos estudos da tradução. Os autores perguntam também com relação a quem seleciona os textos como candidatos a “serem representados”. São os tradutores? E, esses tradutores, o fazem sozinhos? Há outros fatores envolvidos? Como os membros da cultura receptora sabem que o texto está bem representado? Eles podem confiar no tradutor? Se não, em quem eles podem confiar?
Apontam que, se uma tradução é, de fato, um texto que representa outro texto, ela funcionará, para todos os efeitos, para aqueles membros da cultura que não dominam a língua na qual ele foi originalmente escrito, como aquele texto na cultura receptora. Ainda na introdução questionam:
Não nos esqueçamos de que as traduções são feitas por pessoas que não precisam delas para pessoas que não têm condições de ler os originais. Em quarto lugar, nem todas as línguas parecem ter sido criadas da mesma forma. Algumas línguas desfrutam de mais prestígio do que outras, assim como alguns textos ocupam uma posição mais central em dada cultura do que outros, como, por exemplo, a Bíblia ou o Alcorão. Em quinto lugar, por que produzir textos que “se referem a” outros textos? Por que não simplesmente produzir originais em primeira instância? (2001, p. 8)
Essas preocupações presentes na obra iniciaram-se com os estudos do filósofo alemão Schleiermacher, que ainda em 1813, publicou seu ensaio
Sobre os diferentes métodos de traduzir. Apesar de inserido no cenário
romântico da época e de apresentar uma defesa da cultura alemã, o ensaio traz relevantes contribuições. Schleiermacher chama atenção para o que chama de métodos de tradução e apresenta uma dicotomia. Para ele, quando um autor senta-se para traduzir uma obra, depara-se com duas possibilidades: “Ou o tradutor deixa o escritor em paz tanto quanto possível e conduz o leitor até ele, ou ele deixa o leitor em paz tanto quanto possível e conduz o autor até ele” (apud LEFEVERE, 2003, p.149) Nessa citação, fica clara a oposição entre a cultura e a língua do autor e a cultura e a língua do leitor. O tradutor seria o elo entre as duas e teria escolhas a fazer. Evidentemente, dentro do cenário romântico em que está inserido, o autor alemão refere-se à tradução de obras literárias, que ele chama de tradução propriamente dita ou genuína, em oposição ao que chama de tradução e interpretação comercial e considera inferior à tradução genuína. Nas palavras de Schleiermacher, “O intérprete efetivamente exerce o seu ofício no domínio da vida comercial, o tradutor genuíno preferencialmente no domínio da ciência e da arte” (2003, p.234). Evidentemente, há uma diferença entre traduzir obras literárias e não literárias, mas ambas têm sua importância no sistema literário e cultural.
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Schleiermacher julgava que a cultura e a língua alemãs tinham muito a aprender com outros idiomas, e com suas respectivas literaturas e culturas; por isso, clamava por traduções que trouxessem para o alemão uma parte dessa riqueza. Assim, defendia uma estratégia que Venuti (1995) mais tarde chamou de estrangeirizadora. No entanto, a argumentação de Schleiermacher é convincente, mas há um ponto em que se torna difícil aceitá-la, pois parece um tanto radical. O autor dá a entender que a distinção entre as duas estratégias é absoluta, ou seja, que o tradutor ou opta pela solução domesticadora ou adota a estrangeirizadora. Além disso, uma tradução absolutamente estrangeirizadora seria a que mantivesse o texto tal como ele se encontra, no idioma original; a partir do momento em que substituímos as palavras do original por itens lexicais de uma língua estrangeira, já estamos incorrendo num certo grau de domesticação, ou seja, sempre há um certo grau de domesticação. Do mesmo modo, uma tradução radicalmente domesticadora resultaria em algo que não se poderia considerar mais uma tradução, e sim uma adaptação.
Essa publicação de Schleiermacher estava um pouco esquecida, mas foi retomada por Venuti ao propor um retorno da dicotomia proposta pelo autor. No entanto, essa retomada serve ao autor para abordar o que chama de “a invisibilidade do tradutor”. Para Venuti (1995), a divisão da tradução em tradução domesticadora e tradução estrangeirizadora chama atenção para o grau de interferência do tradutor nos textos que traduz, chamando atenção para a impossibilidade de sua invisibilidade. Para Venuti, essa ilusão de que o tradutor é invisível, ou seja, de que não deixa marcas no texto que traduz, serve para encobrir o trabalho do tradutor e as condições de construção e de consumo da tradução. A esse respeito, Venuti afirma: “uma tradução fluente é imediatamente reconhecível e inteligível, ‘familiarizada’, domesticada, não ‘desconfortavelmente’ estrangeira, capaz de dar ao leitor ‘acesso desobstruído a grandes pensamentos’, àquilo que está ‘presente no original’” (VENUTI, 1995, p.5). Assim, uma tradução domesticadora visa “facilitar” o trabalho do leitor, modificando tudo aquilo que lhe poderia causar estranheza, aproximando o texto do universo linguístico e cultural que já lhe é familiar. Como consequência desse fato, após a domesticação, o texto traduzido parece ter sido escrito na língua da tradução, ou seja, o texto é levado até o leitor, oferecendo menos desafios a ele. Para Venuti (1995), isso causa a ilusão de um “discurso transparente” e a ilusão de que não se está lendo uma tradução e não há tradutor. Ainda, para ele uma tradução domesticadora reforçaria a identidade cultural da língua de chegada, ao mesmo tempo que provocaria “uma redução etnocêntrica do texto estrangeiro aos valores culturais da língua de chegada” (VENUTI, 1995, p.20). Venuti (1995) ainda associa os ideais canônicos de transparência e fluidez, que são sempre valorizados em uma tradução, ao narcisismo cultural, pois o leitor “procura uma identidade, um
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autorreconhecimento, e encontra somente a mesma cultura na escrita estrangeira, somente o mesmo eu no outro cultural” (VENUTI, 1995, p.306).
Venuti defende uma estratégia mais estrangeirizadora, pois, no seu entendimento, ao visar manter as características originais do texto, sejam elas referências culturais ou recursos estilísticos desconhecidos, ou até elementos do idioma-fonte, ela aproximaria o leitor do universo linguístico e cultural da obra original. Em outras palavras, o leitor é conduzido até a língua e a cultura do discurso do autor. Ao mesmo tempo, com o uso da estrangeirização, o texto traduzido manteria marcas o tempo todo que lembrariam o leitor de que o que ele está lendo é uma versão de uma obra estrangeira, pois ela apresentaria as naturais dificuldades de tudo que é estranho e alheio. Além disso, o tradutor e sua prática ficam evidentes com o uso de uma estratégia de tradução mais estrangeirizadora, pois o texto pode necessitar de notas do tradutor, que chamam a atenção do leitor. A tradução estrangeirizadora por servir para tornar o tradutor mais visível no texto e na sociedade e, assim, aumentar o seu reconhecimento. Também pode servir de instrumento para combater a hegemonia cultural e política dos países anglo-americanos ao incentivar o leitor a trespassar fronteiras. O fato é que uma tradução estrangeirizadora é um tipo de homenagem, mas também de resistência e revela as tensões em jogo no texto traduzido, o que é frequentemente ignorado.
3. Resultados
Após análise do referencial teórico utilizado, cabem perguntas a respeito dos riscos da tradução estrangeirizadora e da tradução domesticadora que buscamos demonstrar. Devemos ressaltar que tanto autor quanto tradutor executam suas atividades de forma circunscrita pelas práticas sociais. Assim, a ação do tradutor, ao pensar a respeito de uma estratégia a ser utilizada também carrega significado. Pode optar por resistir ou não ao estrangeiro, por acolher ou não o outro, pois tem um compromisso para com a sociedade que o nomeia autor. Como lembra-nos Even-Zohar (2012), a literatura é parte de um sistema cultural mais amplo, que ele chama de polissistema, e a literatura traduzida é parte desse sistema e tem um papel importante. A esse respeito, Hall afirma: “a cultura global necessita da ‘diferença’ para prosperar” (HALL, 1997, p.4), o que aponta para a importância da tradução, e, em especial, da tradução estrangeirizadora.
4. Conclusões
A análise do referencial teórico estudado aponta para a importância das escolhas do tradutor na medida em que definem as experiências culturais e identitárias a serem vivenciadas pelo leitor. O tradutor tem responsabilidades, como todo autor. No caso do tradutor, a situação é um pouco diferente, pois
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além da responsabilidade para com o leitor e a sociedade na qual ambos – o tradutor e o leitor – estão inscritos, há também a responsabilidade para com o autor.
Esse ponto chama atenção para a responsabilidade ética do tradutor no sistema em que está inserido. Burke afirma que “escrever é arriscar — exponencialmente — o risco da razão” (2011, p. 21). Se escrever é arriscar porque as intenções do autor podem entrar em conflito com a sociedade e as leituras da obra feitas, como fica a escrita do tradutor? Se a escrita possui riscos, a tradução também. Se a escrita tem poder, ao provocar novas interações levando a leitura, a tradução também, pois pode levar a novas leituras e escritas. Tem o poder de auxiliar no desenvolvimento de literaturas, espalhar e estabelecer novas e velhas ideias, novos e velhos gêneros, novos e velhos padrões, edificar o poder de uma cultura sobre outra ou fazer com que rache e desmorone, mas isso só é possível se a tradução for encarada e feita como uma prática social dialógica, na qual o tradutor orquestra múltiplas tensões e vozes e tem uma presença discursiva marcante.
4. Palavras-chave:
Tradução; Prática social; Autoria.
Referências Bibliográficas
BURKE, Seán. The Ethics of writing: Authorship and Responsibility in Plato, Nietzsche, Levinas (and Derrida). Edinburgh: Edinburgh University Press, 2011. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1997.
LEFEVERE, André; BASSNETT, Susan. Constructing Cultures: essays on literary translation. Shangai: Shangai Foreign Language Education Press, 2001. SCHLEIERMACHER, Friedrich E. D. Sobre os diferentes métodos de traduzir. Tradução de Celso Braida. Princípios. Natal, v. 14, n. 21, jan/jun, 2007; p. 233-265.
VENUTI, Lawrence. The translator’s invisibility: a history of translation. London and New York: Routledge, 1995.