PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HEBIATRIA
DOUGLAS BATISTA DE OLIVEIRA
REPRESENTAÇÕES DAS IDENTIDADES DE GÊNERO ENTRE ADOLESCENTES PRATICANTES DO CANDOMBLÉ DO MUNICÍPIO DE OLINDA - PE
CAMARAGIBE - PE 2020
REPRESENTAÇÕES DAS IDENTIDADES DE GÊNERO ENTRE ADOLESCENTES PRATICANTES DO CANDOMBLÉ DO MUNICÍPIO DE OLINDA - PE
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Hebiatria da Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco (FOP/UPE) como requisito final para obtenção do título de Mestre em Hebiatria. Linha de pesquisa: Comportamentos relacionados à saúde na adolescência.
Orientadora: Profª. Drª. Kalina Vanderlei Silva
Coorientadora: Profª. Drª. Lygia Maria Pereira da Silva
CAMARAGIBE - PE 2020
A todos que pertencem às minorias e resistem, preservam e defendem suas identidades contra os ataques das sociedades.
A minha mãe (in memoriam) que me deu recursos para que eu também pudesse afirmar minha identidade.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo fomento que me permitiu dedicar o tempo e esforço necessários à realização satisfatória do mestrado;
A todos os envolvidos no Programa de mestrado em Hebiatria, pelo trabalho e dedicação contínuos que tornam este curso possível;
A minha orientadora, Kalina Vanderlei Silva e sua habilidade ímpar em ser, simultaneamente, compreensiva, rigorosa, divertida e séria, por ter compartilhado comigo uma porção de seus conhecimentos sobre os mais diversos temas e ter me acompanhado nesta tortuosa etapa de aprendizado, além de ter despertado um ligeiro apreço por cafés em mim;
A minha coorientadora e coordenadora do curso, Lygia Maria Pereira da Silva, pela prestativa e organizada forma com que lidou com todas as demandas dos discentes do programa, grupo no qual estou incluso;
Aos componentes da banca de defesa deste trabalho, pelas contribuições que enriqueceram a elaboração deste produto;
A todos os colegas da minha turma no mestrado, que tornaram essa difícil trajetória mais leve, em especial a Simonelly Ferreira Vilela, com quem compartilhei alegrias e angústias do curso e da vida pessoal, além de caronas e trabalhos acadêmicos;
Ao Ilê Axé Oxum Karê e ao Ilê Axé Oyá Meguê, que acolheram minha proposta e permitiram minha entrada para o desenvolvimento de minha pesquisa;
A todos os adolescentes que compartilharam comigo suas histórias de vida e visões de mundo e me ensinaram tanto sobre o fascinante universo do candomblé;
A minha mãe (in memoriam), que perdi no transcorrer do curso, mas que sempre esteve e estará presente em minha vida como um estímulo para seguir em frente e conquistar qualquer objetivo;
A meu pai e minha avó materna que, juntos com minha mãe, são meus únicos familiares significativos e que forneceram as condições para que eu me desenvolvesse e transpusesse as baixas expectativas ligadas à nossa origem;
momentos desses dois anos;
E a todos os outros que de uma forma ou de outra contribuíram para que eu pudesse concluir o mestrado;
A busca pela identidade é uma das principais tarefas que mobilizam os adolescentes e a complexidade das sociedades ocidentais contemporâneas os lança em meio a uma luta de representações de identidades elaboradas pelos inúmeros grupos existentes. As representações adotadas pelos adolescentes são orientadas pelos grupos que eles fazem parte, caracterizados pelas intersecções de diferentes marcadores sociais, dentre os quais a religião. No candomblé, circulam percepções específicas sobre os gêneros e as implicações delas nas formas como os adolescentes dessa religião representam as identidades de gênero permitem compreender como eles interagem socialmente e, por isso, são importantes focos de investigação científica. Sendo assim, este trabalho buscou compreender as representações de identidades de gênero construídas por adolescentes praticantes do candomblé do município de Olinda. Realizou-se um estudo de abordagem qualitativa e natureza interdisciplinar através de entrevistas semiestruturadas individuais com dez adolescentes candomblecistas do município de Olinda e observações participantes, registradas em diário de campo, em dois terreiros de candomblé frequentados por eles. As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas, em articulação com os dados oriundos das observações, à luz da Análise do Discurso e da Teoria das Representações Sociais. A partir da pesquisa, foi possível compreender características das relações dos adolescentes estudados com as famílias, os grupos religiosos e as instituições de ensino, bem como mapear suas atividades rotineiras, dentre as quais as práticas artísticas afro-brasileiras oferecidas pela comunidade religiosa ocuparam destaque. As representações dos adolescentes candomblecistas sobre identidades de gênero ora partiam de critérios biológicos, ora eram atribuídas a construções sociais, predominando estas últimas. Eles reconheceram a existência de posições e papeis tradicionalmente impostos a homens e mulheres, problematizaram-nos e apontaram a ocorrência de transformações sociais, inclusive dentro do próprio grupo religioso, onde uma típica divisão sexual de tarefas tem sido, ainda sutilmente, redefinida. As peculiaridades do culto candomblecista, especialmente advindas das relações estabelecidas entre seus praticantes e as divindades, proporcionam representações de gênero particulares nos adolescentes, cuja investigação contribui para uma compreensão da diversidade e dinâmica sociais.
The search for identity is one of the main tasks that mobilize adolescents and the complexity of contemporary western societies throws them into a struggle of identity representations elaborated by the numerous existing groups. The representations adopted by teenagers are guided by the groups they are part of, characterized by the intersections of different social markers, including religion. In candomblé, specific perceptions about genders circulate and their implications in the ways which adolescents of this religion represent gender identities allow us to understand how they interact socially and, therefore, are important focuses of scientific research. Thus, this work sought to understand the gender identities representations constructed by adolescents practicing candomblé in the city of Olinda. A study of qualitative approach and interdisciplinary nature was carried out through individual semi-structured interviews with ten candomblecist adolescents from the city of Olinda and participant observations, recorded in a field diary, in two candomblé houses frequented by them. The interviews were recorded, transcribed and analyzed, along with the data from the observations, based in the Discourse Analysis and Social Representations Theory. From the research, it was possible to understand the characteristics of the relationships of the adolescents studied with their families, religious groups and educational institutions, as well as to map their routine activities, among which the afro-brazilian artistic practices offered by the religious community were highlighted. The representations of candomblecist adolescents about gender identities sometimes started from biological points of view, sometimes they were attributed to social constructions, mostly the last ones. They recognized the existence of positions and roles traditionally imposed on men and women, problematized them and pointed out the occurrence of social changes, even within the religious group itself, where a typical sexual division of tasks has been, still subtly, redefined. The candomblé cult peculiarities, especially arising from the relations established between its practitioners and the deities, provide particular gender representations in adolescents, whose investigation contributes to an understanding of social diversity and dynamics.
AD Análise do Discurso
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
LGBTQ+ Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Queer e outras categorias ProUni Programa Universidade para todos
RMR Região Metropolitana do Recife RS Representações Sociais
TALE Termo de Assentimento Livre e Esclarecido TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TRS Teoria das Representações Sociais
UPE Universidade de Pernambuco WHO World Health Organization
QUADRO 1 – Quantidade de praticantes do candomblé por município da Região Metropolitana
do Recife ... 32
QUADRO 2 – Eixos das entrevistas e tópicos trabalhados na análise ... 46
QUADRO 3 – Caracterização dos adolescentes entrevistados quanto a idade e sexo ... 47
QUADRO 4 – Relação de membros das residências dos adolescentes entrevistados ... 48
1 INTRODUÇÃO ... 13 2 OBJETIVOS ... 16 2.1 OBJETIVO GERAL ... 16 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 16 3 REVISÃO DE LITERATURA ... 17 3.1 ADOLESCÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE ... 17 3.2 IDENTIDADES E ADOLESCÊNCIA ... 20 3.3 GÊNEROS E IDENTIDADES ... 22
3.4 CANDOMBLÉ: ARTICULAÇÕES ENTRE A RELIGIÃO E OS GÊNEROS ... 26
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 30 4.1 DESENHO DO ESTUDO ... 30 4.2 LOCAL DE ESTUDO ... 31 4.3 PARTICIPANTES DO ESTUDO ... 33 4.3.1 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO ... 34 4.3.2 CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO ... 35 4.4 COLETA DE DADOS ... 35
4.4.1 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE E DIÁRIO DE CAMPO ... 35
4.4.2 ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA ... 36
4.5 ENTRADA NO CAMPO ... 38
4.6 ANÁLISE DOS DADOS ... 41
4.6.1 TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ... 41
4.6.2 ANÁLISE DO DISCURSO ... 42
4.7 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS ... 44
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 46
5.1 EIXO “DADOS PESSOAIS E FAMILIARES” ... 46
5.1.1 CONFIGURAÇÕES FAMILIARES ... 47
5.2 EIXO “ATIVIDADES” ... 65
5.2.1 ROTINA ... 65
5.2.2 LAZER ... 69
5.3 EIXO “VIDA RELIGIOSA” ... 73
5.3.1 ENTRADA NA RELIGIÃO ... 73
5.3.2 FUNÇÕES RELIGIOSAS ... 77
5.3.3 FILIAÇÃO DIVINA ... 82
5.4 EIXO “QUESTÕES DE GÊNERO” ... 85
5.4.1 DISCURSOS SOBRE GÊNERO ... 85
5.4.2 GÊNERO NOS CÍRCULOS SOCIAIS DOS ADOLESCENTES ... 99
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 103
REFERÊNCIAS ... 106
APÊNDICES ... 115
APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ... 115
APÊNDICE B – TERMO DE ASSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ... 117
APÊNDICE C – ROTEIRO DE ENTREVISTA ... 119
ANEXOS ... 120
ANEXO A – PARECER CONSUBSTANCIADO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA ... 120
1 INTRODUÇÃO
A pós-modernidade, em comparação a outros tempos históricos, tem permitido maiores possibilidades de circulação dos indivíduos por diferentes grupos. Esse cenário tem provocado alterações nos processos de formação de identidades dos sujeitos, que não apenas transitam entre diferentes identidades, mas mantêm em si múltiplas identidades. Segundo Hall (2006), essa característica define o sujeito pós-moderno, detentor de várias identidades que não formam um núcleo coerente, mas sim um ringue de embate entre forças contraditórias.
A existência de uma ampla diversidade cultural faz parte da realidade do Brasil, onde há muitos espaços que são ocupados por indivíduos de diferentes grupos sociais, cenário que multiplica ainda mais as possibilidades de construção e representação de identidades ao permitir, como aponta Silva (2000), a formação de novas identidades, híbridas e/ou ambíguas. No entanto, tal proximidade e convivência não é harmoniosa, pois os grupos não se encontram em posições de igualdade e disputam constantemente. Por não serem hegemônicos no Brasil, negros, pobres, mulheres, nordestinos, LGBTQ+1 e candomblecistas constituem algumas das
minorias políticas e culturais cujas identidades estão sujeitas a representações depreciativas. No entanto, essa hierarquia de identidades pode parecer menos evidente nesse país devido ao que Chauí (2000) chama de mito fundador do Brasil, que alimenta representações do país como igualitário e que perduram mesmo quando confrontadas com evidências que as contrariam.
Hall (2006) aponta que a complexa estratificação social, que também caracteriza a sociedade brasileira, provoca um descentramento do sujeito cujas consequências mudam a todo tempo. Por essa razão, um contínuo trabalho de investigação é necessário para acompanhar a instabilidade própria das atuais sociedades que atinge os grupos de maneiras particulares. Existem, no entanto, parcelas da população em que as consequências são mais intensas e, por tal motivo, demandam atenção especial, como o público adolescente, muitas vezes negligenciado.
As construções e as representações de identidades ocupam acentuado destaque durante a adolescência. Sendo assim, torna-se importante compreender como esses processos, que
1 A sigla LGBTQ+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Queer e outras categorias) utilizada neste trabalho se refere à diversidade de identidades sexuais e de gênero distintas do modelo social hegemônico. No entanto, a forma de representação gráfica dessa diversidade se encontra em permanente discussão e redefinição, de modo que ainda não há consenso sobre qual sigla seja a mais adequada. Diante da necessidade de escolha, optou-se pelo uso da versão LGBTQ+ neste trabalho devido ao seu aparecimento recorrente em trabalhos científicos.
desempenham papel significativo nesta etapa do ciclo da vida, têm sido desenvolvidos, principalmente para os adolescentes que se encontram em meio a grupos notadamente distintos e, por isso, convivem com o choque de representações opostas.
Essas questões suscitaram o desenvolvimento de um projeto de pesquisa interdisciplinar que articula Ciências Humanas, Sociais e da Saúde, intitulado: “As representações sobre identidade e gênero construídas por adolescentes da Região Metropolitana do Recife”, de autoria da Profª. Drª. Kalina Vanderlei Silva, objetivando estudar as formas como os adolescentes representam as diversas identidades e posições de gênero na Região Metropolitana do Recife (RMR). A partir desta proposta, algumas pesquisas, ligeiramente independentes entre si, foram criadas, como o estudo que resultou neste trabalho.
A complexidade dos temas e do local de estudo, a RMR, onde a população adolescente é composta por indivíduos de gêneros, cores, classes sociais, sexualidades e religiões diferentes, demandou o esquadrinhamento do referido projeto em eixos específicos a fim de viabilizá-lo, pois vários resultados poderiam ser encontrados, visto que as diversas intersecções entre os marcadores sociais da diferença provocam múltiplos efeitos na população adolescente. Na elaboração do presente trabalho, fez-se um recorte geográfico, temático e populacional da mencionada proposta, detendo-se à investigação de um determinado aspecto de um grupo específico: as representações de identidades de gênero de adolescentes praticantes do candomblé do município de Olinda.
O candomblé é comumente reconhecido como uma prática religiosa que, diferentemente de outros sistemas de crenças, oferece abertura às diversas identidades de gênero, inclusive aquelas que rompem com o binarismo sexo/gênero, tido como norma (RIOS, 2011). No entanto, ainda que inseridos nos dogmas e princípios religiosos, diversas representações, ainda que conflitantes, podem ser compartilhadas por seus adeptos, resultantes das interações com outros grupos. No caso dos adolescentes, o convívio com indivíduos com valores bastante diferentes daqueles que perpassam seu grupo religioso é praticamente inevitável, especialmente nas escolas. É esse terreno dinâmico que serviu de palco para o presente estudo, norteado pela seguinte questão: “Como os adolescentes praticantes do candomblé em Olinda representam as identidades de gênero?”
Compreender como esse grupo constrói, negocia e representa as identidades é uma forma de reconhecer suas características singulares e oferecer oportunidades de expressão aos seus membros que, por pertencerem às minorias, são sucessivamente silenciados. Espera-se que
este trabalho possa contribuir com a redução de práticas discriminatórias que segregam grupos em diversos espaços, algumas vezes produzidas pela falta de conhecimento acerca da multiplicidade identitária. Na literatura científica, é possível encontrar, sem muitas dificuldades, trabalhos que tratam de questões sobre as identidades de gênero em adolescentes ou estudos sobre as relações de gênero existentes no candomblé, mas estudos que convergem essas temáticas, como este, ainda são escassos e devem ser reforçados, especialmente pela multiplicidade de expressões do candomblé no país.
2 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
• Compreender as representações das identidades de gênero elaboradas pelos adolescentes praticantes do candomblé de Olinda.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
• Analisar a participação da religião na elaboração das representações dos adolescentes praticantes do candomblé de Olinda sobre suas identidades;
• Analisar as representações de gênero de adolescentes praticantes do candomblé de Olinda.
3 REVISÃO DE LITERATURA
Estão apresentadas, nesta seção do estudo, contribuições teóricas sobre temas indispensáveis para a compreensão deste trabalho a partir de discussões sobre a adolescência na atualidade, as inter-relações dos conceitos de identidade e gênero na população adolescente e uma breve contextualização do candomblé no Brasil.
3.1 ADOLESCÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE
Discutir sobre a adolescência na contemporaneidade demanda discutir, antes de qualquer coisa, sobre a própria contemporaneidade. Esta não é uma tarefa fácil, pois, há não muito tempo, um processo de profundas transformações vem ocorrendo no mundo, a pós-modernidade, atingindo-o de diversas formas. No entanto, neste trabalho, foi abordado exclusivamente o segmento dito ocidental do planeta, partindo de uma perspectiva de Ocidente abordada por Hall (2016), que atribui ao termo um sentido que não designa uma localização geográfica, mas representa um determinado tipo de sociedade: capitalista, urbanizada e desenvolvida segundo os moldes europeus.
É sobre os efeitos da pós-modernidade nesse Ocidente, onde o Brasil, embora com muitas ressalvas, pode ser inserido, que a discussão presente aqui se refere. Outeiral (2005) questiona se o Brasil sequer atravessou a modernidade para dar passagem à pós-modernidade, mas pondera que a globalização pode tê-la trazido a esse país. De qualquer forma, características e consequências da dita pós-modernidade chegaram aqui e têm alterado a realidade da população brasileira.
A pós-modernidade pode ser definida, em linhas gerais, como um conjunto de mudanças de determinadas culturas e sociedades decorrentes da revolução tecnológica, política e social que se instalou no fim do século XX. Em um curto período de tempo, o padrão vigente de ordenamento social foi alterado por uma cadeia de eventos, dentre os quais o colapso da União Soviética, a consolidação do capitalismo como modelo econômico hegemônico, o fenômeno da globalização e os avanços científicos, especialmente no campo da cibernética. As transformações experimentadas pelas sociedades adquiriram magnitudes que justificaram a separação desse período do anterior, a modernidade, e afetaram os mais diversos âmbitos da vida humana, como a família, o tempo, o espaço, o pensamento, os conhecimentos, a estética,
as artes, os relacionamentos, a ética, as identidades, dentre outros (OUTEIRAL, 2005; VIEIRA; VIEIRA, 2004).
Embora os efeitos da pós-modernidade recaiam sobre toda a população, eles incidem sobre a adolescência de maneira particular, pois a delimitação dessa etapa do desenvolvimento humano ocorreu temporalmente próxima à pós-modernidade. Como aponta Ariès (1986), os indivíduos atualmente chamados de adolescentes não diferiam dos adultos até o século XX, quando a adolescência foi criada pela sociedade e passou a ser representada como um período dotado de características específicas, tornando-se foco de atenção e objeto de desejo da população. Enquanto ainda era definido o que caracterizava a adolescência, uma nova onda de mudanças trazida pela pós-modernidade atingiu os indivíduos dessa faixa etária.
Papalia e Feldman (2013) expõem que, como período de desenvolvimento, a adolescência é comumente definida como um conjunto de alterações que marcam a transição da infância para a vida adulta. No entanto, os marcos que definem o início e final da adolescência são imprecisos. A puberdade, processo biológico de maturação sexual, tradicionalmente ocupava o papel de demarcação do início da adolescência, mas mesmo ela vem sendo reelaborada e entendida como um processo particular que tem ocorrido cada vez mais cedo e que, por si, não é suficiente para justificar as mudanças comportamentais típicas da adolescência. Outeiral (2005) comenta que, se as alterações psicossociais da adolescência eram desenvolvidas concomitantemente à puberdade outrora, o quadro mudou. Condutas adolescentes já podem ser observadas precocemente em indivíduos em que a puberdade sequer teve início, aos 7 ou 8 anos de idade. A adolescência está sendo esticada e as fases que a precedem e sucedem também sofrem os efeitos da pós-modernidade: a infância é diminuída e a adultez adiada.
Quando se trata de demarcar o final da adolescência, as incertezas são ainda maiores. Desprovidas de um ritual que marque a passagem de uma fase a outra, as sociedades ocidentais impõem aos adolescentes o questionamento sobre que competências são necessárias para que se obtenha o reconhecimento de que a vida adulta pode ser desfrutada. Sentindo-se prontos para alcançar os ideais sociais, como o trabalho, o sexo e o amor, porém desautorizados a exercê-los livremente, os adolescentes não sabem o que precisam fazer e ninguém parece ter a resposta. É exatamente essa busca às cegas que gera muitas das contestações e transgressões comumente atribuídas à adolescência (CALLIGARIS, 2000).
Na tentativa de superar essa dificuldade de delimitação da adolescência, algumas instituições estabeleceram critérios mais objetivos. Um dos parâmetros mais utilizados é o da Organização Mundial de Saúde (WHO, 1986), que define a adolescência como a faixa etária dos 10 aos 19 anos de idade. Embora úteis para determinadas situações, esses limites cronológicos são insuficientes para contemplar as múltiplas possibilidades de passagem pela adolescência. Bock, Furtado e Teixeira (1999) defendem que, nas sociedades industrializadas, a adolescência foi criada por conta do tempo necessário para que o indivíduo fosse capacitado para o ingresso no trabalho e pudesse constituir sua própria família. No entanto, a depender das trajetórias singulares, esses objetivos podem ser alcançados em diferentes idades, o que permite que pessoas com menos de 20 anos sejam classificadas como adultas, enquanto outras com mais de 20 anos ainda sejam adolescentes.
Presentemente, descobrir como conquistar o reconhecimento da aptidão para a vida adulta é ainda mais complexo devido ao abismo existente entre as experiências do adolescente atual e a adolescência do adulto de hoje. Outeiral (2005) afirma que, com a cibernética pós-moderna, o tempo vivido por essas duas gerações tornou-se drasticamente diferente. Atualmente, as informações circulam, reelaboram-se e podem ser acessadas, provisoriamente prontas, de forma instantânea, suprimindo o tempo demandado para a elaboração do pensamento e provocando a formação de sujeitos imediatistas que têm dificuldades para lidar com frustrações e atrasos na realização dos desejos. Comprime-se o tempo dos objetos, cada vez mais descartáveis, situação que se estende aos relacionamentos entre as pessoas, muitas vezes trocadas antes que lhes sejam atribuídas historicidade e subjetividade, pontos necessários à condição de sujeito: é o que ocorre, por exemplo, na prática do “ficar”, comum entre os adolescentes.
O espaço também se encontra alterado e, na pós-modernidade, ganhou uma nova dimensão: o espaço virtual. Neste espaço, as interações se dão de formas diferentes daquelas existentes no espaço interno, subjetivo, e no espaço externo, referente à realidade objetiva. O espaço virtual torna o indivíduo presente onde não está e interfere em sua identidade, que ganha bases em um corpo virtual, um hipercorpo, desprovido das limitações físicas e geográficas e capaz de explorar o mundo inteiro através dos recursos tecnológicos. A ocupação dos espaços, enquanto ferramenta dos adolescentes para lidar com as transformações que vivem nessa faixa etária, dá-se agora nesse ciberespaço que escapa ao controle dos adultos (LÍRIO; 2012, OUTEIRAL; 2005).
Apesar de todas as complicações, a adolescência é representada em nossa cultura como um período de felicidade. Calligaris (2000) reflete sobre a contradição imposta pela sociedade aos adolescentes, que precisam lidar com a privação da estimada autonomia e a obrigação de serem felizes, pelo menos aparentemente. A adolescência é, para os adultos, o sonho de liberdade que não é mais tangível para eles. Por isso, adia-se a saída da adolescência. Há também aí, como provoca Lírio (2012), um interesse mercadológico: os adolescentes são alvos do consumismo, que empreende esforços para manter a idealização dessa faixa etária tão rentável, a qual são direcionados inúmeros produtos, serviços e propagandas midiáticas. Esse consumo se estende aos adultos, que cada vez mais se recusam a se desligar da juventude. São os adultescentes, diz Outeiral (2005), que servindo como modelos inadequados de identificação para crianças e adolescentes, podem dificultar seus processos de internalização de regras, simbolização e reconhecimento da alteridade.
Em meio aos referidos dilemas da contemporaneidade, os adolescentes ainda precisam cumprir tarefas que lhes são exigidas para que atravessem essa etapa, mesmo que nem sempre saibam quais são. Os conhecimentos científicos também não lhes oferecem uma solução, ou oferecem várias soluções que não se convergem, mas muitos pesquisadores apontam que alguns dos processos decisivos da adolescência são as formações e representações das identidades. É sobre esses processos que os próximos itens deste trabalho estão debruçados.
3.2 IDENTIDADES E ADOLESCÊNCIA
Tão logo a adolescência foi inventada nas sociedades ocidentais, tornou-se objeto de investigações científicas que pretendiam descrever detalhadamente o que se passava com os indivíduos nesta etapa da vida. Desde então, e até hoje, várias associações da adolescência com processos de construção de identidades foram formuladas, especialmente pelos pesquisadores da área de desenvolvimento humano.
Erikson (1972), em sua teoria do desenvolvimento, propõe que existem pontos cruciais da vida humana, os quais denominou crises, em que importantes habilidades e conhecimentos sobre si mesmo podem ser conquistados. As crises, enquanto mobilizadoras do desenvolvimento, aconteceriam em etapas e momentos específicos. Durante a adolescência, uma crise que gira em torno da construção da identidade é disparada, podendo resultar na formação de uma identidade estável ou confusa.
Aberastury e Knobel (1981) argumentam que a adolescência é caracterizada por um conjunto de sintomas que beiram o patológico, mas que fazem parte do desenvolvimento normal do sujeito. A essa sintomatologia, denominaram síndrome normal da adolescência. Para esses autores, a busca pela identidade é um dos sintomas próprios da adolescência e, nessa fase, torna-se particularmente perturbadora porque acompanha, bem como exige, uma torna-separação do sujeito em relação aos pais da infância e ao corpo e identidade infantis, processo que envolve a elaboração de um luto.
Para os autores citados, a resolução da adolescência e entrada no mundo adulto demandam uma cristalização da identidade. Embora ponderem que a identidade não seja imutável, defendem que ela deva preservar características essenciais do indivíduo, garantindo-lhe o sentimento de continuidade e semelhança a si próprio. Identidades temporárias e circunstanciais podem ser observadas no processo de busca realizado na adolescência, mas elas afetam o equilíbrio interno e devem ser abandonadas em prol de um desenvolvimento saudável. Hall (2006), por outro lado, aponta que a estabilidade das identidades tem sido abalada pelas rupturas proporcionadas pela pós-modernidade e sua fragmentação é a principal característica do sujeito pós-moderno, não apenas do adolescente. Concepções como essa passaram a questionar o pressuposto caráter de fixidez das identidades, tornando-se um dilema que permeia as teorias formuladas sobre esse conceito.
Bock, Furtado e Teixeira (1999) apontam que algumas vertentes teóricas defendem que a identidade é a consciência de individualização e diferenciação do outro, tendo unidade e permanência como propriedades. Para esses autores, no entanto, as referidas características da identidade ocorrem apenas em determinados momentos, pois a identidade é, na verdade, fruto de um processo capaz de se transformar. No processo de identificação, os sujeitos escolhem pessoas e grupos significativos como modelos para si e apropriam-se de algumas de suas características, formando o que são, o que querem ser e como são reconhecidos. As novas experiências dos sujeitos levam-nos a adotar novos modelos e, por extensão, alterar suas identidades. Os novos “eus”, unidos aos antigos, montam a trajetória de cada indivíduo, que é capaz de, ao retomar o passado, reconhecê-lo como diferente e, ainda assim, seu.
Essa é a perspectiva de identidade adotada neste trabalho. Diante da instabilidade que atualmente marca o Ocidente e que foi discutida anteriormente, é inapropriado conceber as identidades aqui como fixas e únicas. Quem pretende que a identidade permaneça inalterada ou não perceba sua multiplicidade, diz Hall (2006), construiu uma narrativa de si mesmo com
coerência ilusória. Na atualidade, os sujeitos carregam consigo diversas identidades simultaneamente, inclusive contraditórias entre si, e as utilizam em diferentes momentos.
O processo de diferenciação que permite a formação das identidades ocorre em níveis individual e social. Algumas características são socialmente eleitas como critérios de classificação dos sujeitos e orientadoras das identidades, como a nacionalidade, classe social, idade, gênero, cor, religião, local de residência, dentre outras. Essas divisões do mundo social, afirma Silva (2000), estão submetidas a relações de poder. Ao afirmar uma identidade e o pertencimento a uma dessas categorias, ocorre simultaneamente a filiação do sujeito a um grupo e a exclusão de outros. Reconhecer-se e/ou ser reconhecido com essas identidades serve de base para a realização de outras classificações: bom ou mau, normal ou anormal, aliado ou inimigo, etc. Esses são efeitos das representações as quais as identidades são investidas e os grupos que detêm maior poder elegem suas identidades como normas e as formas como representam as demais tornam-se vigentes.
Ao fazer parte de um grupo, os indivíduos têm acesso a determinados conjuntos de representações sobre os mais diversos objetos, incluindo as identidades, suas e dos outros. Com frequência, algumas dessas representações têm valor negativo e marcam determinadas populações, formando estigmas. Embora as diferenças sejam as bases pelas quais as identidades se constituam, Bock, Furtado e Teixeira (1999) retratam que as sociedades têm dificuldades para lidar com o diferente, o que resulta na criação dos estigmas. Indivíduos estigmatizados são, portanto, sujeitos a exclusões e podem internalizar os atributos socialmente negativos que lhes são investidos ou mesmo lutar para romper com essas representações.
As representações das identidades afetam intensamente e de diversas formas as interações dos indivíduos e, nesta era de rápida troca de informações, são amplamente disseminadas e desembocam no público adolescente. Dentre elas, um determinado conjunto é balizado pelo marcador social de diferença gênero, abordado no próximo item.
3.3 GÊNEROS E IDENTIDADES
Embora as análises sobre as mudanças operadas pela pós-modernidade pareçam saudosistas, existem importantes questionamentos que esse período sociocultural tem deflagrado. É essencial não apenas apontar como o período anterior era capaz de oferecer bases
seguras para o desenvolvimento dos sujeitos, mas identificar também como a própria pós-modernidade, com suas características, pode proporcionar, ainda que diferentes, valores construtivos.
Outeiral (2005) afirma que o aparecimento de diversos movimentos sociais que questionam as estruturas existentes é uma característica da pós-modernidade. São essas alterações das estruturas sociais que fazem desse período tão turbulento, situação que também ocorreu na passagem da Idade média para a Idade moderna, por exemplo. Alguns desses movimentos têm contestado as desigualdades que existem entre homens e mulheres e que têm se mantido relativamente estáveis por gerações, fortalecendo as discussões sobre gênero.
Silva e Silva (2009) afirmam que o gênero se refere às formas com que as diversas culturas e sociedades diferenciam homens e mulheres, alocando-os em distintas posições políticas e sociais. O conceito de gênero seria, então, diferente do sexo, que está ligado estritamente às características biológicas que distinguem corpos femininos e masculinos. Embora distintos, o gênero é comumente atribuído a partir do sexo, sendo este último frequentemente utilizado para justificar as desigualdades de gênero. A separação desses conceitos, afirma Moore (1997), foi elaborada a partir de problematizações que impulsionaram a construção de teorias feministas que defendem que as assimetrias atribuídas aos sexos são produções sociais e não dados naturais. Pretendia-se, assim, romper a visão polarizada de masculino e feminino que impunha modos de vida aos sujeitos.
Segundo Silva (2000), as diferenças e as identidades são criações da linguagem e só adquirem sentido quando investidas de significados através de processos sociais e culturais, mesmo quando aparentemente ancoradas em aspectos naturais. O sexo foi socialmente eleito como referencial de diferenciação a partir do qual foram delineadas as primeiras identidades de gênero, em que os sujeitos se enquadravam subjetivamente nas categorias “homem” ou “mulher”. Criaram-se, então, discursos que sustentam relações de poder existentes entre homens e mulheres ao propagar a ideia de que masculino e feminino são opostos. Uma das manifestações desses discursos foi discutida por Moore (2000) ao constatar a existência, em muitas culturas ocidentais, de um padrão de atribuição de características agressivas e dominadoras às pessoas de sexo masculino, enquanto a fraqueza e a submissão são representadas como essencialmente femininas. Dessa forma, os sujeitos se tornam marcados por gênero, cujas práticas e representações sobre si e os outros são orientadas a reproduzir esses discursos.
São esses discursos que mantêm o gênero que, para Butler (2003), é constituído mediante atos performativos que se repetem, tornando-se aparentemente naturais, embora não os sejam. Para esta autora, as expressões de gênero, comumente entendidas como manifestações externas que revelam as identidades de gênero, não seriam resultados do processo de identificação, mas seriam, antes disso, as constituintes das identidades de gênero. Sendo assim, haveria também a possibilidade de alteração da cadeia de repetição dos atos para que o gênero fosse ressignificado, o que permitiu que novas categorias de gênero pudessem ser elaboradas para descrever modos de subjetivação que escapavam da oposição feminino-masculino.
Ainda assim, desnaturalizar as identidades de gênero não é um processo fácil e, por isso, os estudos sobre gênero ainda enfrentam resistências. Além disso, a noção de gênero questiona o status social superior desfrutado pelos homens e as exclusões às quais as mulheres são submetidas, geralmente defendidos com base na natureza. Como afirma Scott (2005), características inerentes às minorias são utilizadas para justificar sua exclusão, porém, as exclusões são produtos do processo de diferenciação social.
As identidades de gênero, como qualquer outro desdobramento do conceito de identidade, estão submetidas às classificações sociais, especialmente as que definem o que é representado como normal ou anormal. A normalização das identidades de gênero é facilmente perceptível no estranhamento comumente causado diante de qualquer desacordo existente entre os indivíduos e as expectativas sociais baseadas no seu sexo. Apesar disso, é possível perceber, como atesta Pombo (2017), um crescente movimento de resistência e afirmação das novas identidades que rompem com o binarismo sexual e de gênero, que tem sido incapaz de dar conta das novas formas de subjetividade que despontam na contemporaneidade. Ainda que os indivíduos que subvertem os modelos de sexo e gênero sejam vistos como “desviantes”, eles problematizam e possibilitam a desconstrução de tais paradigmas.
No entanto, não são apenas os “desviantes” que revelam as fragilidades do binarismo sexual e de gênero. Moore (2000) salienta que os diversos marcadores da diferença, como classe social, etnia ou religião, interseccionam-se com o gênero, produzindo múltiplas feminilidades e masculinidades. Essa multiplicidade é um sinal de que, ao contrário do que se defende, não há apenas uma forma de ser homem ou ser mulher. Reis e Pinho (2016) sugerem que o gênero não seja mais representado como dois polos, mas sim um espectro, no qual seria possível fluir em uma linha de inúmeros pontos intermediários ou até se distanciar dela, como ocorrem nos gêneros não-binários.
As discussões sobre gênero afetam também as discussões sobre sexualidade, ainda que as identidades de gênero não sejam necessariamente atreladas aos desejos sexuais. Como afirma Butler (2003), assim como o gênero é apresentado como natural, a sexualidade também o é. Neste caso, a heterossexualidade é imposta como única manifestação legítima, fruto de um discurso que exige uma continuidade entre sexo, gênero e desejo sexual: o sexo seria a base de um gênero coerente com ele e de um desejo heterossexual. As identidades que seguem essa premissa são aceitas, enquanto as demais devem ser anuladas. No entanto, essa relação socialmente construída não corresponde à realidade e gênero e sexualidade podem se expressar independentemente entre si. Rubin (2003) aborda como a relação entre feminismo, enquanto teoria da opressão de gênero, e sexualidade é complexa. Concepções bastante divergentes sobre o tema, tanto liberais quanto conservadoras, circulam no feminismo, gerando ricas discussões sobre a sexualidade, porém insuficientes para compreender todos seus aspectos. O discurso que funde gênero e sexualidade criou a expectativa errônea de que a sexualidade pudesse ser explicada através da teoria de gênero.
É a partir da concepção de que sexo, gênero e sexualidade são dimensões conectadas apenas pelo discurso que este trabalho investiga as representações de identidades de gênero dos adolescentes, orientadas pelos comportamentos e papeis socialmente estabelecidos para homens e mulheres. Albano e Carvalho (2010) defendem que as identidades de gênero são representadas pelos adolescentes com base tanto na consciência que eles têm dos referenciais sociais quanto nas influências de seus familiares. Além disso, os autores reiteram que o caráter dinâmico da própria sociedade possibilita aos adolescentes ressignificar os referenciais de gênero, permitindo que representações de identidades arraigadas possam ser rompidas. Ao realizarem entrevistas com adolescentes, encontraram, nos discursos, representações positivas desses sujeitos em relação à presença de mulheres ocupando lugares anteriormente restritos aos homens, indicando uma reelaboração dos valores nas novas gerações.
Quando se trabalha com representações de identidades de gênero em adolescentes, nenhum resultado pode ser invariavelmente estendido a todos os indivíduos dessa etapa do ciclo da vida, pois os inúmeros cruzamentos possíveis entre os eixos da diferença determinam um caráter plural ao ser adolescente que, por sua vez, suscita múltiplas possibilidades de representações de identidades de gênero. Por conseguinte, há ainda um último ponto que demanda discussão nesta seção do trabalho, pois une a população adolescente investigada nesta pesquisa e afunila o multifacetado objeto do estudo: o candomblé.
3.4 CANDOMBLÉ: ARTICULAÇÕES ENTRE A RELIGIÃO E OS GÊNEROS
O candomblé é uma religião e, como tal, possui um conjunto de valores e crenças que orientam coletivamente a fé do grupo de seus adeptos. Originado no estado da Bahia, no século XIX, o candomblé passou a estabelecer-se em outros pontos do Brasil, adquirindo nomenclaturas e especificidades regionais. A religião incorporou aspectos culturais de diversos povos de origem africana trazidos como escravos para o Brasil, como os iorubás, os fons e os bantos (PRANDI, 2004; SILVA; SILVA, 2009).
Por conta da diversidade de influências e modalidades da religião, Silva e Silva (2009) relatam que há divergências entre os autores que trabalham com essa temática quanto às manifestações que podem ser legitimamente reconhecidas sob o termo “candomblé”, que popularmente é utilizado para se referir a todas as religiões afro-brasileiras. No estudo realizado por Melo (2016), que tinha como objetivo analisar as representações sociais de estudantes do Recife sobre as religiões afro-brasileiras, a palavra “candomblé” foi comumente evocada para representar todas as religiões brasileiras de matrizes africanas, ainda que haja outros cultos que pertencem a esse conjunto. Esse resultado pode ter sido impulsionado por uma deficiência da educação formal, que dificilmente aborda essa temática.
O processo de origem do candomblé ocorreu em um período da história do Brasil em que a única religião permitida era o catolicismo, que promoveu um movimento de perseguição contra os cultos afro-brasileiros. Por conta desse contexto, desde o princípio, os candomblecistas precisaram adotar estratégias para realizar seus ritos sem sofrer represália, comumente declarando-se católicos e realizando suas práticas religiosas de forma sincrética. Ainda que o Brasil já garanta legalmente a liberdade de culto há décadas, os praticantes do candomblé ainda são frequentemente discriminados e muitos dificilmente revelam seu credo (PRANDI, 2004).
Esse resgate a história do grupo candomblecista permite compreender sua singularidade e as representações sociais sobre ele investidas. Melo (2016) constatou a predominância de associações das religiões afro-brasileiras, principalmente o candomblé, com práticas malignas e demoníacas por parte dos estudantes recifenses com os quais realizou seu estudo. Na ausência de intervenção das escolas, as representações dos alunos ancoravam-se principalmente nas concepções cristãs dos grupos aos quais pertenciam.
Além de estar inserido em uma sociedade hegemonicamente cristã, que demarca uma posição de inferioridade aos cultos afro-brasileiros, o candomblé está comumente associado a integrantes de outros tipos de minorias sociais que, nesse grupo religioso, encontram maiores chances de ocupar posições prestigiadas, como negros, mulheres e LGBTQ+.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), há, no agrupamento de candomblecistas e umbandistas, uma porcentagem significativamente maior de adeptos que se identificam como pretos em comparação a outras formas religiosas no Brasil, provavelmente por conta de suas origens relacionadas aos povos africanos.
Landes (1967), por sua vez, identificou no candomblé baiano uma lógica matriarcal de funcionamento no qual as mulheres ocupavam papel de destaque, transgredindo a norma social que garantia, em todos os âmbitos, maiores poderes aos homens. Além disso, o estudo evidenciou também a inserção de homossexuais masculinos que assumiam no grupo características tipicamente femininas e conquistavam os lugares de liderança que lá eram tradicionalmente desempenhados por mulheres. Essa é uma das razões pelas quais, segundo Rios (2011), o candomblé se tornou comumente reconhecido como uma prática religiosa que, diferentemente de outros sistemas de crenças, oferece abertura às diversas identidades de gênero, inclusive aquelas que furam o binarismo sexual e de gênero, tido como norma.
Há um aspecto importante no culto candomblecista que pode explicar a abertura a diversidade de identidades de gênero atribuída a essa prática religiosa: a relação que os praticantes desenvolvem com as entidades que compõem seu panteão, os orixás. As forças da natureza, representadas pelos orixás, possuem características semelhantes aos humanos, como gênero, sexualidade, afetividade e emoções. Cada membro do grupo religioso possui ligações com orixás particulares que podem, inclusive, fazer-se presentes nos cultos através de possessões. Os orixás transmitem aspectos de suas personalidades a seus descendentes, que são considerados partes deles, e essa relação não precisa ser estabelecida por elementos pertencentes ao mesmo gênero e, com frequência, não são (PRANDI, 1991; BOTELHO; STADTLER, 2012).
Através da relação do humano com seu orixá, o candomblé confere significados às identidades de gênero que não correspondem às expectativas sociais, pois elas podem estar ligadas aos orixás com os quais as pessoas estão vinculadas. Essa relação, no entanto, não é determinista. Botelho e Stadtler (2012) refletem que, se durante o transe, o gênero do médium é ignorado para dar espaço ao orixá incorporado, na vida diária a influência do gênero do orixá
é flexibilizada. Nem todo homem que tem orixás femininos no domínio de sua religiosidade vai identificar-se com o gênero feminino e o mesmo é válido para as mulheres com orixás masculinos. Para essas dissonâncias, o transe é uma das formas de enlaçar o gênero cotidiano com o ritual, ainda que a possessão não seja uma prática de todos os integrantes da religião.
Há ainda em algumas modalidades do candomblé, como destaca Rios (2011), uma categoria híbrida de orixás, os metá, que reúnem características de diferentes grupos, inclusive aquelas relativas às posições de gênero, podendo fluir entre o masculino e o feminino. Para Botelho e Stadtler (2012), representações como essa sugerem que o candomblé não estabelece que a feminilidade e a masculinidade são mutuamente excludentes, mas podem ser complementares na vida de qualquer indivíduo, independente do seu sexo.
No entanto, as relações de poder entre os sexos e gêneros também se fazem presentes nos terreiros de candomblé. Há, por exemplo, uma típica divisão sexual de tarefas nos terreiros candomblecistas, onde determinadas funções são tradicionalmente realizadas por mulheres, com destaque para as tarefas domésticas, e outras são comumente reservadas aos homens, como o sacrifício dos animais e o toque dos instrumentos. Embora haja explicações da ordem do sagrado e do místico para esses costumes, no estudo realizado por Menezes (2011) essa separação foi comumente justificada pelos participantes dos grupos estudados devido a maior força física dos homens e a acentuada capacidade de organização das mulheres, qualificando-os para determinadqualificando-os trabalhqualificando-os. Essas respqualificando-ostas da população investigada indicam a existência de determinadas representações sociais que, embora possivelmente conflitantes com outras representações pertencentes ao grupo, justificavam e mantinham diferentes papeis para mulheres e homens.
O lugar do adolescente no candomblé, especificamente, ainda é pouco abordado nas pesquisas científicas. Essa lacuna pode ser um reflexo das representações existentes sobre as religiões afro-brasileiras, que, como aponta Freitas (2016), comumente transmitem a ideia de que esses cultos são ocupados exclusivamente por adultos e idosos. Os jovens, no entanto, são parcelas importantes desses grupos e têm desconstruído gradativamente essa imagem através da participação em meios de comunicação, especialmente as redes sociais virtuais, em que afirmam suas identidades religiosas.
Caputo (2012) relata que é comum haver crianças e adolescentes nos terreiros e que eles participam ativamente das atividades religiosas, estando sujeitos às mesmas normas e responsabilidades dos adultos. Os adolescentes podem, inclusive, ocupar importantes cargos
hierárquicos a depender do tempo em que foram iniciados na religião, pois esse é um critério significativo para o grupo. Sendo assim, enquanto elaboram suas representações e identidades, esses adolescentes podem atuar como importantes modelos para outros participantes. Nas escolas, no entanto, esses praticantes ainda sofrem com a discriminação e, por vezes, omitem esse aspecto constitutivo de suas identidades como estratégia de convívio social.
Ainda assim, muitos adolescentes candomblecistas defendem sua identidade e têm desenvolvido redes de solidariedade como estratégia de resistência. Freitas (2015) afirma que através do uso de recursos midiáticos, os jovens têm disseminado informações sobre sua religião que vão de encontro às produções da mídia hegemônica que os desprestigia. A partir de referências do próprio grupo, os jovens têm garantido visibilidade ao candomblé, expandindo para o hipertexto a transmissão de conhecimentos tradicionalmente feitas exclusivamente pela oralidade. Dessa forma, provocam mudanças políticas que não se restringem ao seu grupo religioso, mas também aos demais referenciais de suas identidades, como cor, classe social e sexualidade.
A visibilidade pública desempenha grande importância na atualidade. Freitas (2016), ao refletir sobre o modo de consumo contemporâneo, conclui que o consumo de imagens tem se destacado em relação aos bens materiais. Agora, fazer parte do mundo demanda consumir e ser visto, o que fomenta a busca pela visibilidade dos adolescentes candomblecistas. Para definir uma imagem que os caracterize, esses adolescentes têm fortalecido uma estética afro-brasileira, especialmente através do corpo. Determinados penteados, joias, adereços, roupas e expressões artísticas, como danças e cantos, tornaram-se marcas que representam os jovens de terreiro e precisam ser obtidas e mostradas para demarcar seu espaço na sociedade.
A vinculação ao candomblé oferece aos adolescentes do grupo, além do exercício da religiosidade, diversos elementos significativos em suas vidas, como o sentimento de pertença familiar e ancestral, redes de sociabilidade, acesso a elementos culturais e artísticos e um conjunto de representações sobre o mundo, o que a torna inegavelmente merecedora de atenção da produção de conhecimentos científicos.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Nesta seção do trabalho, estão descritos todos os passos metodológicos adotados para a realização desta pesquisa e os referenciais teóricos nos quais se apoiam.
4.1 DESENHO DO ESTUDO
Classifica-se o estudo desenvolvido como uma pesquisa de campo de abordagem qualitativa e natureza interdisciplinar. Cada uma dessas propriedades do trabalho será discutida em seguida.
A abordagem qualitativa orientou o presente estudo porque, segundo Deslandes, Gomes e Minayo (2009), as pesquisas dessa abordagem se ocupam de fenômenos que dificilmente poderiam ser traduzidos em termos numéricos, especialmente aqueles relativos a questões subjetivas dos seres humanos, como motivações, crenças, representações e/ou construções de significados, dentre as quais este trabalho se insere. Dessa forma, os métodos qualitativos de pesquisa são citados como mais compatíveis para estudos com objetivos semelhantes aos propostos para este trabalho.
Selecionada a abordagem, o passo seguinte foi definir quais técnicas seriam adequadas para a realização do estudo. Prodanov e Freitas (2013) apresentam uma classificação das pesquisas científicas a partir dos procedimentos técnicos adotados, na qual uma das categorias é denominada pesquisa de campo. Esse formato de pesquisa tem como objetivo apreender fatos e/ou fenômenos tais como ocorrem, buscando dados nos contextos em que são produzidos para efetuação da análise. Para acessar o objeto de estudo, havia a necessidade de aproximação do pesquisador com a realidade a ser investigada, tornando a pesquisa de campo a opção mais adequada. Segundo os referidos autores, as características do campo de estudo direcionam a seleção das técnicas de coleta, registro e tratamento dos dados nas pesquisas de campo, o que permite maior flexibilidade em seu desenvolvimento. Neste trabalho, um projeto contendo uma estrutura norteadora da execução da pesquisa foi elaborado de acordo com os objetivos pretendidos e as fontes reunidas, porém, os contatos reais com o campo exigiram a realização de ajustes e adaptações, medidas possíveis nesta modalidade de pesquisa.
Em todo o processo de desenvolvimento da pesquisa, fez-se uso de ferramentas, tanto teóricas quanto metodológicas, oriundas de diversas disciplinas. A complexidade do objeto de estudo exigiu que as fontes bibliográficas, os procedimentos de coleta de dados e os recursos de análise integrassem contribuições dos campos das ciências humanas, sociais e da saúde, caracterizando a condição interdisciplinar deste trabalho. Para Frigotto (2008), a interdisciplinaridade não é apenas uma opção metodológica, mas uma necessidade das pesquisas que investigam as produções sociais humanas. Ainda que haja a delimitação de um objeto, a multiplicidade de determinações que caracteriza o meio social impossibilita que uma única disciplina possa compreendê-lo totalmente. Baseando-se no referido autor, o conjunto de representações de identidades de gênero, objeto de estudo deste trabalho, enquanto produção da humanidade, pode resultar de contribuições culturais, biológicas, psíquicas, históricas, dentre outras. Faz-se necessário, então, analisar as diversas dimensões que compõem esse fenômeno para compreendê-lo adequadamente.
Logo, a revisão de literatura foi constituída a partir de aportes da Psicologia, Psicanálise, História, Antropologia, Sociologia e algumas áreas interdisciplinares, como os Estudos culturais e a Saúde coletiva. As bases teóricas das técnicas de coleta de dados, por sua vez, foram acessadas a partir de produções da História oral, no que se refere às entrevistas, e da Antropologia, pela qual a observação pôde ser apreendida. A interdisciplinaridade manteve-se presente nos recursos analíticos utilizados, a Teoria das Representações Sociais (TRS), originalmente situada no âmbito da Psicologia social, e a Análise do Discurso (AD), que traz consigo, além de algumas disciplinas já citadas, a Linguística. Os referidos procedimentos de coleta e análise dos dados estão apresentados em itens posteriores deste capítulo.
4.2 LOCAL DE ESTUDO
O projeto guarda-chuva no qual este estudo está inserido abrange todo o território da RMR, que compreende 15 municípios do estado de Pernambuco: Abreu e Lima, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Goiana, Igarassu, Ilha de Itamaracá, Ipojuca, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Olinda, Paulista, Recife e São Lourenço da Mata (PERNAMBUCO, 2018).
No entanto, especificamente para a realização desta pesquisa, foi necessário delimitar um território mais restrito para viabilizar o desenvolvimento do estudo e, para isso, foi
selecionado o município, dentre os anteriormente citados, em que houvesse maior concentração de praticantes do candomblé. Para isso, recorreu-se aos dados disponibilizados pelo IBGE, embora se reconheça as limitações desses materiais. Como problematizado por Prandi (2004), as estatísticas comumente oferecem quantitativos subestimados de praticantes de cultos afro-brasileiros porque muitos deles ainda não admitem suas práticas religiosas aos pesquisadores. Ainda assim, as pesquisas do IBGE ofereceram, dentre os materiais acessíveis, um panorama mais completo sobre a diversidade religiosa local e, com base nos dados do último censo, foi possível identificar que Olinda apresentava a maior proporção de habitantes que se declararam pertencentes a essa religião dentre todos os municípios da RMR, como exposto no quadro a seguir. Dessa forma, Olinda foi o município escolhido para o desenvolvimento desta pesquisa. Quadro 1 – Quantidade de praticantes do candomblé por município da Região Metropolitana do Recife.
Município População candomblecista População total do município
Abreu e Lima 80 94.429
Araçoiaba 7 18.156
Cabo de Santo Agostinho 93 185.025
Camaragibe 111 144.466
Goiana 55 75.644
Igarassu 116 102.021
Ilha de Itamaracá 45 21.884
Ipojuca Não informado 80.637
Itapissuma 33 23.769
Jaboatão dos Guararapes 665 644.620
Moreno 24 56.696
Olinda 1.239 377.779
Paulista 715 300.466
Recife 2.182 1.537.704
São Lourenço da Mata 314 102.895
Fonte: Censo demográfico 2010 (IBGE, 2018).
Embora esses dados apontem que Recife, dentre os municípios dispostos no quadro, possuía o maior número de habitantes adeptos do candomblé, sua população total era cerca de
quatro vezes maior que a população de Olinda, que apresentava um número de candomblecistas maior que a metade do número de praticantes recifenses. A concentração geográfica de praticantes de candomblé em Recife e Olinda é explicada a partir de razões históricas. Segundo Guerra (2010), uma violenta perseguição aos centros de religiões de matriz africana de Alagoas teve início em 1912, forçando a mudança de muitos adeptos para os estados vizinhos, principalmente Pernambuco, causando um aumento da população candomblecista no estado, especialmente em Recife. No entanto, as relações entre o estado pernambucano e o povo de terreiro também eram conturbadas e pioraram significativamente quando Agamenon Magalhães assumiu o governo do estado, em 1937. A ameaça e destruição de muitos terreiros, que até então estavam agrupados no centro do Recife, levou ao deslocamento da maioria deles para áreas mais isoladas da cidade. Essa migração levou à ocupação, principalmente, dos bairros que se encontravam na divisa de Recife com Olinda e se estendeu para esse município.
Selecionado o município de Olinda, o passo seguinte foi entrar em contato com instituições da religião candomblé de lá para que fosse explicada a pesquisa na tentativa de encontrar colaboradores para o estudo. Dadas as dificuldades para se obter com precisão a quantidade e endereço de todas as instituições desta natureza no município, as aproximações com esses locais iniciaram-se a partir de contatos pessoais do pesquisador e foram se estendendo segundo a lógica da amostragem em bola de neve, caracterizada, segundo Vinuto (2014), pela busca de informantes-chaves que podem indicar novos contatos com o perfil desejado e assim sucessivamente até que se obtenha uma rede que viabilize a realização da pesquisa. A partir desse processo, foi possível encontrar dois terreiros no município em que a presença do pesquisador foi permitida e que tinham, dentre seus frequentadores, indivíduos da população investigada: o Ilê Axé Oxum Karê e o Ilê Axé Oyá Meguê, localizados nos bairros olindenses do Guadalupe e São Benedito, respectivamente.
4.3 PARTICIPANTES DO ESTUDO
O foco desta pesquisa recai sobre o público adolescente candomblecista. Como abordado na revisão de literatura deste estudo, as tentativas de delimitação cronológica da adolescência carregam fragilidades consigo, mas, diante da necessidade do uso de critérios palpáveis para fins de padronização da amostra, adotou-se a faixa etária dos 10 aos 19 anos de
idade para demarcar a adolescência, conforme estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (WHO, 1986).
A definição da amostra de adolescentes participantes do estudo seguiu o mesmo método citado para a seleção dos terreiros de candomblé: a amostragem em bola de neve de acordo com Vinuto (2014). Após a autorização para desenvolvimento da pesquisa nos terreiros selecionados, foi solicitado a informantes-chave desses terreiros que indicassem indivíduos que possivelmente satisfariam os critérios de inclusão da pesquisa, discriminados no próximo subitem, e, ao longo da etapa de coleta de dados, os adolescentes também puderam indicar potenciais novos participantes até que a amostra pudesse ser encerrada.
O fechamento da amostra foi estabelecido mediante o alcance da saturação teórica, que, segundo Fontanella, Ricas e Turato (2008), é obtida a partir da constatação, por parte do pesquisador, de padrões e repetições nas informações coletadas que justificam a interrupção da inclusão de novos participantes. À medida que os dados eram coletados com os participantes, revisavam-se as informações a fim de avaliar a necessidade de busca de novos potenciais componentes para a amostra. Ao final desse processo, a amostra resultante foi composta por 10 adolescentes que preenchiam os critérios elencados na próxima subdivisão desta seção.
4.3.1 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Para que fossem selecionados para participar deste estudo, os indivíduos contatados deveriam ser:
• Adolescentes, dos 10 aos 19 anos de idade; • Candomblecistas;
• Residentes do município de Olinda.
No projeto desta pesquisa, estabelecia-se também, como critério de inclusão, a presença dos participantes na rede pública de ensino regular. No entanto, o contato com o campo revelou que, ao contrário das expectativas iniciais, uma relevante parcela dos adolescentes encontrados pertencentes à população estudada estava inserida em instituições privadas de ensino ou já havia concluído o ensino médio, ponto que não pôde ser negligenciado e que demandou uma ligeira reformulação dos critérios de inclusão do estudo.
4.3.2 CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
• Condições de saúde que comprometessem o desenvolvimento da comunicação falada (Transtornos da comunicação, por exemplo);
• Condições de saúde que comprometessem moderada ou gravemente funções intelectuais (Deficiências intelectuais, por exemplo).
4.4 COLETA DE DADOS
Os dados foram coletados através de observações em terreiros de candomblé e entrevistas com os componentes da amostra selecionada. Ambas as técnicas, como afirmam Marconi e Lakatos (2002), são bastante utilizadas nas pesquisas das ciências sociais e humanas e permitem compreender opiniões, motivações, condutas e aspectos da realidade dos sujeitos, o que justifica sua utilização. Definições mais detalhadas das modalidades dessas técnicas utilizadas durante a coleta de dados estão apresentadas nos itens adiante.
4.4.1 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE E DIÁRIO DE CAMPO
As dinâmicas específicas existentes nos grupos pesquisados, distintas dos referenciais do pesquisador, dificilmente seriam captadas exclusivamente pela literatura e pelos relatos dos participantes. Para contornar essa dificuldade, recorreu-se a antropologia para buscar ferramentas que permitissem ao pesquisador compreender melhor a realidade dos grupos que os adolescentes estudados participavam. Adotou-se, então, a observação participante, um dos recursos tipicamente utilizados no método etnográfico, produto da disciplina antropológica. As observações foram realizadas nos dois terreiros de candomblé que aceitaram colaborar com o estudo devido a sua influência direta com a população estudada e objetivaram, como afirmam Mónico et al. (2017), garantir ao pesquisador uma posição favorável para a obtenção de informações com maior profundidade, algumas das quais não poderiam ser acessadas a partir de uma investigação exterior.
Segundo Mónico et al. (2017), a observação participante foi originada na antropologia, mas atualmente faz parte do arsenal de recursos de pesquisadores de diferentes formações e
constitui uma metodologia de investigações qualitativas de pesquisa. A observação participante é uma das modalidades da técnica da observação científica e é caracterizada pela imersão na realidade de um grupo que, como assinala Angrosino (2009), pode ser realizada a partir de diferentes níveis de associação do pesquisador com o grupo, podendo atuar de observador invisível a participante totalmente envolvido. Neste estudo, a participação consistiu em envolvimentos com os grupos em determinados momentos, da maneira mais integrada possível. O pesquisador não se tornou efetivamente um membro do grupo e adepto da religião, mas obteve permissão para participar de algumas cerimônias e, nessas ocasiões, pôde se aproximar do grupo e compartilhar alguns de seus costumes.
Para registrar as experiências proporcionadas pela utilização da observação participante, elaborou-se um diário de campo, ferramenta comumente associada à técnica mencionada. O diário de campo resultante desta pesquisa retratou todas as visitas realizadas e conteve tanto descrições objetivas de cenários, pessoas e situações ocorridas durante as observações quanto impressões e interpretações do observador sobre o campo, conforme orientações de Oliveira (2014). Ao inserir o próprio pesquisador como elemento de estudo, a observação participante garante às experiências vivenciadas pelo cientista no campo o status de dados constituintes da pesquisa.
As observações ocorreram entre os meses de março a julho de 2019, precederam a realização das entrevistas e se estenderam por um período após a realização delas. A partir das observações, foram levantados elementos que contribuíram para o planejamento das entrevistas e a aproximação com a população estudada facilitou os contatos com os adolescentes para que fossem convidados para as entrevistas. Os dados obtidos através das observações foram articulados às entrevistas, discutidas em seguida, para a efetuação da análise.
4.4.2 ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA
As entrevistas desempenharam papel de destaque nesta pesquisa e, dentre as diversas referências em que podem ser baseadas, optou-se pelo uso da metodologia da história oral, caracterizada, segundo Meihy (2002), pela captação de narrativas das experiências de vida das pessoas como fontes de dados científicos. Buscou-se, a partir desse tipo de entrevista, compreender como o objeto de estudo havia interferido na trajetória pessoal dos entrevistados.