5.3 EIXO “VIDA RELIGIOSA”
5.3.2 FUNÇÕES RELIGIOSAS
Nas entrevistas, os adolescentes relataram quais são as principais atividades que executam nas cerimônias religiosas, destacando, dentre elas, a manipulação e preparação de alimentos, os trabalhos domésticos, o toque de instrumentos e a transmissão de conhecimentos religiosos, como exemplificado nos trechos a seguir.
Ajudo a fazer as coisas, ajudo a despenar galinha, que todo mundo aqui, minhas prima, meus primo ajuda, até os pombo a gente despena, [...] o exercício que a gente mais faz é isso (Akin).
[...] Ajudar a dar água, limpar, tudinho, tem vez que eu despelo, carrego os pratos, monto... tem vez que eu varro, tudo, um bocado de coisa (Zuri).
Eu sou ogã9, eu limpo o quarto do santo, toco, ajudo na comida, apesar de isso ser coisa de iabá10, mas não tem nada a ver, todos nós ajudamos. Faço várias coisas também, ajudo a, dentro do quarto de santo, a sacrificar o animal, dependendo, aí eu faço várias coisas aqui (Kanzi). Dentro da ritualística, a gente trabalha muito com a comida, né, a comida, rezas, né, porque a religião candomblé, ela não tem nada escrito, ela é toda oralmente, né, então assim, normalmente, no meu dia a dia de candomblé era passar o que eu sabia, os meus ensinamentos para os mais novos, né, cânticos, rezas e também, comidas, fazer comida de orixá, preparar aquela comida para aquela ritualística e dentro do terreiro também, fora os rituais sacros, tinha também a parte social, né, que era feito sopão pra dar a comunidade, então eu sempre tava envolvido nessas coisas (Talib).
As atividades que eu mais faço atualmente é... é tocar instrumentos, tocar atabaque, que eu aprendi, tocar ilu11, tocar... e passar isso também, porque o pouco que eu aprendi, eu passo, eu gosto disso do candomblé, que a gente sempre passa adiante o que a gente aprende e também eu... eu gosto muito de ajudar em trabalhos caseiros, tipo no barracão12, precisa-se de limpeza, de organização, de decoração, [...] mas uma atividade que me atrai bastante é a instrumentalidade, a música do
9 Cargo religioso desempenhado por homens que não entram em transe. Os ogãs são divididos a partir de tarefas específicas que desenvolvem no terreiro, como tocar instrumentos, sacrificar animais ou cuidar dos altares dos deuses. Denominavam-se ogãs, também, homens socialmente e/ou intelectualmente prestigiados que estabeleciam pontes entre o povo de santo e o resto da sociedade (PRANDI, 1991).
10 Mulheres responsáveis pela cozinha que conhecem as técnicas de preparo dos alimentos que agradam os orixás (GUERRA, 2010).
11 Instrumento musical de percussão afro-brasileiro; atabaque sagrado.
candomblé e cantar também, eu gosto de cantar, [...] eu acho que a cantiga, junto com a música instrumental, com os instrumentos de origem africana, de matriz africana, eu acho que essa junção, ela é das coisas mais belas que tem no candomblé (Zaki).
A passagem de ensinamentos no candomblé, aponta Araujo (2016), é realizada essencialmente através da oralidade, herança cultural africana que se tornou ainda mais necessária para a manutenção da religião diante das condições às quais os povos negros foram submetidos no território brasileiro. A partir das visitas aos terreiros com fins de coleta de dados e algumas falas dos entrevistados, foi possível perceber que, apesar da suposta relação direta existente no candomblé entre tempo na religião e aquisição de conhecimentos sobre os costumes, os adolescentes também participam da transmissão de informações no grupo religioso. O envolvimento nessa atividade é um importante elemento para que os adolescentes se percebam como integrantes ativos da dinâmica grupal, não apenas receptores de conteúdos, estimulando, assim, a construção da pertença ao grupo.
A música no candomblé, como já mencionado em outros itens dessa análise, tem uma importante função na aproximação dos homens com os deuses. Dentre os entrevistados, apenas adolescentes do sexo masculino referiram estar envolvidos no toque de instrumentos durante as cerimônias religiosas. Embora haja percussionistas do sexo feminino entre os participantes da amostra, suas práticas musicais tendem a se limitar às artes, como o coco e o afoxé, enquanto nos rituais religiosos, os instrumentos são tipicamente tocados por homens, muitos deles ogãs, cargo que Kanzi referiu desempenhar. Essa característica é reiterada nas falas de outros adolescentes apresentadas a seguir.
É difícil, mas tem sim. Mulher tocar um ilu, entrar no quarto pra fazer... pra segurar o animal. [...] Eu acho também bonito quando a mulher vai tocar, eu acho extremamente lindo... encantado, eu fico encantado, porque é muito lindo quando a gente vê uma mulher tocando porque não é a mesma energia que o homem tem, é uma energia mais pra frente, porque não é... é difícil mulher tocar, aqui eu acho que tem o quê? Umas três ou quatro mulher que toca... que tem vários homens que toca também, mas quando a gente vê uma mulher tocando é encanto, eu acho encantado (Kanzi).
A gente pode tocar, cantar, eu toco abê, todo mundo toca, porque tem muita religião que diz que menina só canta e menino só toca, [...] mas como aqui é diferente, aqui ele deixa tocar, cantar, [...] os meninos são tratados do mesmo jeito das meninas e as meninas são tratadas do mesmo jeito dos meninos, porque quando, assim, só na hora de tocar
nos toques, os meninos toca, os meninos pode tocar abê13 ou as meninas pode tocar o abê, agora quem toca mesmo é os menino o abê (Akin). A mulher, ela sempre tem uma desvantagem do homem, né, na sociedade da gente, a mulher também tem uma desvantagem do homem até na nossa religião também tem, tem coisa que mulher não faz, né, mulher não sacraliza animal, né, só o homem que pode, da mesma forma que homem também não pode chegar para fazer certas situações que mulheres fazem, mulher não toca atabaque, mulher não leva o candomblé (Talib).
Tanto Akin quanto Kanzi relataram que o toque de instrumentos é predominantemente uma tarefa masculina, embora tenham adicionado a ressalva de que ocasionalmente as mulheres participam. Ainda assim, Akin se esforça para passar a mensagem de que não existem diferenciações de gênero no terreiro. Para Kanzi, o toque de instrumentos apresenta diferenças quando realizados por homens ou mulheres, ainda que ele expresse essa impressão sob a forma de elogio ao gênero feminino. Talib, por outro lado, é mais incisivo, apontando que essa atividade não é permitida às mulheres nos rituais religiosos, referindo essa interdição como desvantajosa para as mulheres. Devido ao fato de participarem de terreiros diferentes, esses adolescentes podem ter tido contato com regras mais ou menos rígidas.
Rocha (2018) expõe que a restrição das mulheres ao toque dos atabaques sagrados está ligada à menstruação, carregada de conotações negativas na religião. Ancorado em uma história mítica, na qual o primeiro tambor ritual foi destruído pelo simples toque de uma mulher menstruada, um tabu foi instaurado. No entanto, para a autora, uma leitura enviesada limitou o ciclo menstrual a representações negativas, evidenciando os mitos que as sustentam e ofuscando outros, nos quais a menstruação tem sentido positivo e é tomada como um símbolo da fertilidade e poder femininos. Esse é um recurso, dentre tantos outros, que promove desigualdade entre os gêneros, atribuindo superioridade aos homens a partir da imposição de valores negativos ao corpo feminino. Os mitos, caracterizados como imutáveis e cujos efeitos não se restringem ao espaço religioso, mas afetam também as relações cotidianas, tornam-se dispositivos de poder que legitimam a proibição da participação da mulher em determinados espaços e atividades. Ainda assim, há exemplos de mulheres que se inserem na percussão ritual candomblecista de forma legítima através de outros dispositivos que direcionam as práticas nos terreiros, possibilitando reinvenções e ressignificações das tradições.
Além do toque dos instrumentos musicais, outras atividades das cerimônias religiosas foram apontadas pelos adolescentes como comumente desenvolvidas por um gênero específico. Nas falas apresentadas anteriormente, Kanzi e Talib apontaram que o sacrifício dos animais é uma tarefa eminentemente masculina. Novamente, Talib foi enfático quanto a existência de uma proibição, enquanto Kanzi relatou uma tipicidade. Há, assim como na interdição do toque dos ilus, um fundamento místico que restringe a realização dos sacrifícios pelas mulheres. Conforme Lima (2016), a mulher é representada no candomblé como responsável por gerar a vida e, por conta disso, impedida de tirá-la. Nos sacrifícios, cabe ao homem matar os animais. Dentre as atividades mencionadas pelos adolescentes que estão ligadas ao gênero, a preparação da comida foi associada ao feminino. Segundo Guerra (2010), as comidas e bebidas têm papel importante na religião, funcionando, assim como a música, como pontes entre homens e deuses, bem como vinculando os membros do grupo religioso aos visitantes durante as festividades públicas. Kanzi relatou participar do preparo de alimentos, mas ressaltou que essa atividade é comumente atribuída às iabás, exclusivamente mulheres. Da mesma forma, Akin mencionou participar dessa atividade, mas pontuou que ela é tipicamente destinada às iabás.
Quando tem mesmo pra despenar galinha, porque quem deve despenar galinha é as meninas, não, é as mulheres que são as iabás, só que sendo, aí os meninos também ajuda, ninguém fica de fora, [...] como a gente pede a tio Mongo, que é o que fica aqui, aí ele deixa a gente fazer as coisa, aí não tem diferença não, a gente pode (Akin).
Guerra (2010) aponta que a comida no terreiro é preparada para os orixás segundo determinados preceitos transmitidos às iabás, exclusivamente mulheres. Ainda assim, no terreiro em que a autora frequentou para realizar seu estudo, o mesmo em que Akin e Kanzi são vinculados, os homens também podem exercer essa função.
Define-se também, a partir do gênero, as roupas permitidas no templo religioso. Normas e regras particulares para homens e mulheres são de conhecimento dos adolescentes e foram transmitidas ao pesquisador antes que frequentasse as cerimônias religiosas.
Aqui no terreiro, o homem não pode usar saia, essas coisa assim, não pode usar pano de cabeça, só as mulheres que têm que usar, os homens têm que usar barrante, calça, as mulheres não podem entrar nem de short no terreiro, nem de calça (Zuri).
Quando você veste uma roupa, que a gente chama de oxó, mulheres usam, tipo, saia e uma blusa, os homens usam tipo calça e uma blusa,
aí tipo, e mulheres usam saia, uma blusa e um pano aqui, que é pra, tipo, cobrir essa parte aqui, o seio, o útero e tal, quando você é um homem, você não tem útero, então você não, em tese, não precisa (Jamila).
No entanto, assim como em todas as outras restrições ligadas ao gênero citadas pelos entrevistados, alguns deles revelaram que há a possibilidade de flexibilização das regras pelos sacerdotes do terreiro, como na fala seguinte manifestada por Jamila.
[...] Às vezes você é um homem, mas se considera uma mulher, se vê como uma mulher e acaba usando essa roupa, né, aí tipo, tem terreiros que até permitem, tem terreiros que não, que é tipo “você é homem, mesmo você se... tipo... se reconhecendo como o outro gênero, mas você é um homem”, tem terreiro que, tipo, não pode, tem terreiro que é tranquilo, né, até porque você tá, tipo, você se vê como... tipo eu me visse, se eu me visse como homem, eu não ia querer tá de saia e blusa e com um pano aqui, eu ia querer tá de calça, então varia também de terreiro assim. [...] Aqui também nunca teve, nunca chegou um filho de santo, por exemplo, tipo, que se reconhecesse com outro gênero, aí então a gente nunca, tipo, passou por isso aqui, [...] mas se caso aparecer um filho de santo ou uma filha de santo, aí chega, conversa com a mãe de santo, explicando, “ó, mãe, é tal coisa, gostaria de vestir tal roupa”, aí a mãe de santo, que é mãe Mene, né, aí ela vai conversar com a filha de santo, né, tipo, ver o que ela acha, se ela acha, tipo, certo ou não, aí vai do filho com a mãe, se ela acha que pode colocar ou não, se acha certo ou não (Jamila).
Prandi (2004) expõe que não há uma instituição que unifique a religião candomblecista, logo, o funcionamento dos terreiros de candomblé se dá de modo independente, girando principalmente em torno de seus dirigentes. Essa característica pode provocar diferenças significativas na dinâmica de cada centro religioso, a depender da postura das figuras de autoridade do espaço, o que pode ser ilustrado no recorte abaixo.
O meu não, porque o meu é... quem... a mãe de santo é uma mulher, então, no meu terreiro, muitas coisas são mulheres. Na verdade, o meu terreiro quem predomina maior é a mulher, a dona da casa é a mulher, que é Oxum, mas já fui pra outros terreiros e vi sim, [...] meio que excluem as mulheres, tipo... tem função que é pra mulher e homem fazer, mas não, tipo “Não, a mulher não pode fazer, quem tem que fazer é o homem”, candomblé não tem isso... tem algumas coisas que são restritas, mas tem outras que, em si, a mulher pode fazer. Antigamente não podia ser mãe de santo, hoje em dia pode (Latifa).
A partir das falas dos entrevistados, é possível perceber que as tradições nos terreiros podem ser flexibilizadas, mas precisam ser demandadas e permitidas pelos seus superiores, seja os sacerdotes, seja as divindades. Mudanças nas regras que impõem funções distintas a homens
e mulheres na dinâmica dos terreiros foram representadas como propostas válidas pelos adolescentes do grupo estudado. Lima (2009) defende que todas as práticas humanas, conjunto em que as religiões estão incluídas, são resultados de uma construção e, por isso, passíveis de transformações. Os terreiros de candomblé, então, podem alterar seus costumes, porém, encontram-se ainda, assim como toda a sociedade, em diferentes níveis do processo de ressignificação das posições de gênero.