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Como exposto anteriormente, a seleção dos terreiros de candomblé para a realização da pesquisa teve início a partir de interações do pesquisador com integrantes de seu círculo social que eram adeptos da religião candomblé, objetivando obter uma rede crescente de contatos de membros de terreiros de candomblé de Olinda.

Os primeiros contatos com o referido objetivo foram realizados em junho de 2018, quando o projeto da presente pesquisa ainda estava sendo desenvolvido. Pretendia-se, assim, averiguar com antecedência as possibilidades de realização da pesquisa e entrada no campo. A partir da rede pessoal do pesquisador, foi possível conseguir, em um primeiro momento, os contatos de três babalorixás2 de terreiros localizados no município de Olinda. As primeiras interações, no entanto, não foram exitosas: o primeiro babalorixá contatado não respondeu e o segundo se disponibilizou a saber mais sobre o projeto de pesquisa, mas quando foi informado de que a proposta envolvia entrevistas e visitas, silenciou-se. O terceiro pai de santo, por outro lado, acolheu a proposta e combinou um encontro com o pesquisador para que a pesquisa fosse melhor discutida. Nesse encontro, no entanto, ele expôs que tinha, dentre os membros de seu terreiro, pouquíssimos indivíduos na faixa etária estabelecida para o estudo, mas apontou outros terreiros no município onde a população adolescente era mais presente. Disponibilizou, então, contatos de dois membros de outros terreiros, dando seguimento ao processo de amostragem adotado para a pesquisa.

2 Babalorixá é o cargo sacerdotal mais alto ocupado por um homem dentro do terreiro, popularmente chamado pai de santo. Quando desempenhado por uma mulher, ela é chamada ialorixá ou mãe de santo (PRANDI, 1991).

Após a referida etapa, as tentativas de aproximação com os terreiros foram interrompidas para que o pesquisador pudesse se dedicar à qualificação do projeto, onde obteve elementos importantes para a realização da coleta de dados. No início de 2019, foram retomadas as aproximações, mas os contatos obtidos com o babalorixá não resultaram em sucesso. Um deles pertencia a um terreiro localizado no município do Recife e, pelo fato de a pesquisa se deter sobre Olinda, não seria um local pertinente para o estudo. O outro número passado não existia mais e, na tentativa de contatar a pessoa indicada ou algum outro representante do terreiro, a estratégia adotada foi visitar pessoalmente o local, sem qualquer agendamento. A partir do nome do terreiro que tinha sido fornecido pelo babalorixá, foi possível encontrar o endereço sem dificuldades e, chegando lá, o pesquisador pôde conhecer e dialogar com a ialorixá do Ilê Axé Oxum Karê.

Após explicar do que se tratava a visita, a mãe de santo concordou em cooperar com o estudo, permitindo que o pesquisador pudesse fazer outras visitas posteriormente e convidar indivíduos para a realização das entrevistas. Ela afirmou que seu terreiro era predominantemente frequentado por pessoas jovens e, por isso, propício ao acesso à população desejada. Isso aparentemente se devia ao fato de, além de ser um terreiro, o local também abrigar um centro cultural onde eram oferecidas algumas atividades de interesse dos jovens, como produções musicais e desenvolvimento de jogos eletrônicos. O terreiro já havia sido local de estudo para outros trabalhos acadêmicos, o que pode ter facilitado a aceitação por parte da ialorixá. No entanto, ela, em alguns momentos, criticou as universidades devido à falta de retorno a população oferecida pelos estudos lá feitos, reivindicando uma democratização dos conhecimentos produzidos na academia.

As visitas posteriores aconteceram em eventos organizados pelo terreiro, nos quais a movimentação era intensa, dificultando aproximações com os adolescentes. Ainda assim, a ialorixá apresentou o espaço e alguns membros de seu terreiro, inclusive jovens. Uma dessas integrantes do local se disponibilizou a cooperar com o estudo e, por desenvolver algumas das atividades com os adolescentes, tornou-se o principal elo de comunicação deles com o pesquisador. Informada sobre os objetivos e a metodologia da pesquisa, ela repassou as informações para os adolescentes e articulou um encontro com eles no qual parte das entrevistas deste trabalho ocorreram.

Concomitantemente às visitas ao Ilê Axé Oxum Karê, ocorreram as aproximações com o outro terreiro onde a pesquisa se desenvolveu, o Ilê Axé Oyá Meguê, Os primeiros contatos

com integrantes desse terreiro foram oportunizados por um acadêmico de Ciências Sociais que estava desenvolvendo uma pesquisa no local sob orientação de um dos professores integrantes da banca de qualificação deste trabalho. Foi agendado, então, um encontro com um historiador que fazia parte do terreiro e que era responsável por acompanhar as pesquisas acadêmicas realizadas lá. Nesse encontro, além de uma discussão sobre o caráter do estudo, o historiador discorreu sobre a trajetória dos cultos afro-brasileiros em Pernambuco, citando referências importantes para o embasamento desta pesquisa. Na apresentação desse percurso histórico, o integrante do terreiro relatou que foram produzidos tanto estudos que respeitaram a população candomblecista quanto trabalhos que desqualificaram a religião, lembrança que deve reforçar a vigilância das comunidades em relação aos pesquisadores. Ainda assim, foi possível obter anuência do historiador e combinar algumas datas para que o pesquisador pudesse retornar para realizar as observações.

Os dias de obrigações, nos quais os praticantes cumprem determinados deveres para seus orixás no terreiro, e os toques, festas públicas mensais, foram sugeridos para que o pesquisador pudesse ter acesso a potenciais participantes do estudo porque concentravam maior quantidade de membros do terreiro. Em um dia reservado às obrigações, que antecedeu um dos toques do terreiro, ocorreram as entrevistas com os adolescentes vinculados ao Ilê Axé Oyá Meguê. Para convidar os adolescentes, o pesquisador teve o apoio do historiador do terreiro, que estava presente no local. Sua cooperação foi essencial na busca dos participantes, especialmente para obter o consentimento dos responsáveis, que provavelmente tiveram menor resistência ao constatar que o historiador, figura que eles conheciam, havia aprovado a proposta de pesquisa. Uma após a outra, as entrevistas foram realizadas no próprio terreiro, em um cômodo onde o pesquisador pôde ficar a sós com os adolescentes. Após o dia de realização das entrevistas, o pesquisador ainda compareceu a alguns toques conduzidos no terreiro. Nessas ocasiões, foi possível estabelecer interações pontuais com os adolescentes entrevistados que, embora ocupados com as tarefas das cerimônias, conversavam brevemente com o pesquisador, situação que não ocorria antes da realização das entrevistas. Dessa forma, pode-se inferir que algumas informações foram obtidas por conta da combinação das duas técnicas utilizadas na coleta de dados, produzindo uma mútua interferência.

Após a reunião das entrevistas realizadas com os adolescentes nos dois terreiros com os dados das observações oportunizadas pelas visitas e o diário de campo elaborado, iniciou-se o processo de análise dos dados, que será descrito nos itens adiante.